A gravidade da lesão desportiva advém da junção de diferentes condições, respetivamente da essência específica do processo traumático, da duração e do tipo de intervenção terapêutica, do tempo de afastamento da prática desportiva, da incapacidade verificada no desempenho profissional, dos custos económicos que a lesão acarreta e do dano ou incapacidade resultante (Pinheiro, 2006).
Ao se delinear as principais causas da lesão, estas conseguem ser mais importantes e fáceis de apropriar na prevenção da lesão do que a exata descrição do evento (movimento) em que esta ocorre (Bahr & Holme, 2003). Segundo Bahr & Holme (2003), os eventos que desencadeiam a lesão podem estar afastados do momento em que a lesão acontece. As lesões por sobrecarga retratam bem esta situação, dado que a causa da lesão pode não estar relacionada unicamente com a sessão de treino ou competição onde a sintomatologia surgiu, mas estar associada às metodologias de treino e competição desenvolvidas e realizadas nas semanas ou meses que antecedem a lesão.
Em sucessivas ocasiões, a consideração dos fatores de risco para evitar a lesão desportiva, parece ser negligenciada por grande parte dos atletas e técnicos desportivos, aumentando a vulnerabilidade dos atletas em contrair uma lesão (Abernethy & MacAuley, 2003; Massada, 2003). A maior parte das vezes, este descuido inicia-se nas camadas de formação, tendo grande impacto no desenvolvimento desportivo e ES dos atletas mais jovens (Emery, 2003). Deste modo, o desporto passa a ser orientado num sentido oposto àquele a que é inerente a sua prática, e em vez de constituir uma forma de melhorar a saúde transforma-se num fator de risco para a ocorrência de lesão.
A natureza específica do traumatismo compreende diferentes fatores de risco (Pinheiro, 2006). No desporto, os fatores de risco são todos aqueles que podem aumentar a potencial ocorrência de lesão (Emery, 2003). O seu conhecimento adquire especial relevo, tanto na definição da prevenção lesional como na interação reeducadora (Pinheiro, 2006). São muitos os autores que partilham da opinião de que o conhecimento, valorização e manipulação dos fatores de risco para as lesões
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desportivas, são cruciais para o desenvolvimento de uma apropriada prática desportiva, para caraterização da etiologia das lesões desportivas e, especificamente, para a implementação de medidas preventivas (Emery, 2003; Ekstrand & Gillquist, 1983; Massada, 2003).
A classificação dos fatores de risco relativamente às lesões desportivas, assume consenso para a grande maioria dos autores. Desta forma, classificam-se os fatores de risco em: intrínsecos (associados ao atleta e que atuam no sentido de facilitar a manifestação de lesão) e extrínsecos (aqueles que interferem externamente com o gesto desportivo mas que podem ser cruciais na ocorrência da lesão) (Bahr & Krosshaug, 2005; Meeuwisse, 1994; Bahr & Holme, 2003; Emery, 2003). Estes podem ainda ser classificados como modificáveis (podem ser alterados por meio de estratégias de prevenção) e não modificáveis (não podem ser alterados mas podem afetar a relação entre os fatores modificáveis e as lesões) (Bahr & Holme, 2003; Meeuwisse, 1994; Emery, 2003). Na etiologia da lesão desportiva coexistem normalmente fatores intrínsecos e extrínsecos, sendo por vezes complicado diferenciar qual o elemento responsável pela perda de homeostasia (Bahr & Holme, 2003; Pinheiro, 2006).
Os fatores intrínsecos representam condições subjacentes ao indivíduo, nomeadamente, da estrutura, da biologia, da biomecânica, da função e das aquisições psicossociais. Os fatores extrínsecos dependem de diferentes condicionalismos relativos ao meio e à especificidade de uma modalidade ou de um gesto técnico. A intervenção preventiva rapidamente manifesta resultados objetivos quando aplicada ao controlo de fatores externos ao indivíduo (Abernethy & MacAuley, 2003; Pinheiro, 2006).
Massada (2003), refere que alguns fatores, mesmo que apresentem menor importância, quando corretamente manipulados, minimizam ou evitam a ocorrência de lesão. Por conseguinte, a lesão não surge nem depende exclusivamente de um único fator de risco, mas sim da interação de inúmeros fatores e de uma série de eventos resultantes de uma ação. Seguindo esta linha de orientação, Massada (2003) expõe, que a ação repetitiva de forças microtraumáticas não terá consequências de
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maior sempre que a adição dos seus efeitos não se torne um fator patogénico nem ultrapasse o limiar de adaptação/reparação das estruturas tecidulares.
É importante conhecer quais os limites físicos dos tecidos biológicos e quais as medidas a implementar para eficazmente se reduzir a carga propricia à ocorrência de lesão (Bahr & Krosshaug, 2005). Na figura 2, apresenta-se de forma esquemática a interação entre fatores de risco intrínsecos e extrínsecos, desde a presença de um evento específico até à lesão resultante deste.
Figura 2-2 - Interação entre fatores de risco intrínsecos e extrínsecos conduzindo a um evento específico e resultando em lesão. Adaptado de Meeuwisse, Tyreman, & Hagel (2007).
Um passo crucial na prevenção da lesão é perceber o porquê desta ter ocorrido. É importante obter informação acerca do atleta percebendo porque é que este pode estar em risco perante determinada situação, e compreender como a lesão acontece, nomeadamente o mecanismo de lesão. É necessária uma abordagem multifatorial percecionando a interação dos diferentes mecanismos como forma de esclarecer a natureza da lesão. Como se pode verificar pela figura 2, embora a lesão possa parecer ter sido provocada por um evento específico, esta pode resultar de uma interação complexa entre fatores de risco intrínsecos e extrínsecos (Bahr & Krosshaug, 2005; Meeuwisse, Tyreman, & Hagel, 2007).
Fatores de risco intrínsecos tais como, idade, género e composição corporal, podem influenciar o risco de ocorrência de lesão, predispondo o atleta à lesão, e são portanto
Lesão Flexibilidad Evento específico Fatores de risco intrínsecos Idade Morfotipo Exposição a fatores de risco extrínsecos Mecanismo de lesão (próximo do resultado)
Fatores de risco para ocorrência de lesão
(distante do resultado)
Atleta predispost
Atleta
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por definição fatores de risco. Fatores de risco extrínsecos, tais como, aderência do calçado e fricção do solo podem modificar o risco de lesão, tornando o atleta ainda mais suscetível à lesão (Bahr & Krosshaug, 2005; Abernethy & MacAuley, 2003). É a presença de ambos os fatores de risco, que torna o atleta predisposto ao aparecimento de lesão, contudo a mera presença destes fatores não é suficiente para produzir a lesão. A soma destes fatores e a interação entre eles predispõe o atleta para a ocorrência de lesão perante uma situação específica (Bahr & Krosshaug, 2005; Meeuwisse, Tyreman, & Hagel, 2007). Meeuwisse (1994), descreve o evento específico como o último elo da cadeia que causa a lesão, sendo esses eventos considerados como causas necessárias, estando diretamente associados com o seu aparecimento.
Figura 2-3 - Principais fatores de risco intrínsecos e extrínsecos e sua interação. Adaptado de Meeuwisse, Tyreman, & Hagel (2007).
Emery (2003), classifica os diferentes fatores de risco, intrínsecos e extrínsecos, e tenta agrupá-los de acordo com a capacidade de serem ou não modificáveis. Este considera como potenciais fatores de risco extrínsecos não-modificáveis, a modalidade praticada (contato/individual), o nível de prática (recreacional/competitiva), a posição ocupada em campo, o clima e a duração de uma época. Os potenciais fatores de risco extrínsecos capazes de serem modificados são: as regras da modalidade, o tempo de
Fatores de risco intrínsecos:
. Idade (maturação, envelhecimento); . Género;
. Composição corporal (por exemplo: peso corporal, massa gorda, IMC,
antropometria);
. Saúde (por exemplo: história de lesão anterior, instabilidade articular); . Aptidão física (por exemplo:
força/potência muscular, captação máxima de O2, amplitude de movimento articular); . Anatomia (por exemplo: alinhamento segmentar, proporções anatómicas); . Gesto técnico (por exemplo: qualidade do gesto técnico, estabilidade postural); . Fatores psicológicos (por exemplo: competitividade, motivação, perceção do risco).
Exposição a fatores de risco extrínsecos:
. Fatores desportivos (por exemplo: metodologias de treino, regras, arbitragem); . Equipamento de proteção (por exemplo: capacete, caneleiras);
. Equipamento desportivo (por exemplo: calçado desportivo);
. Alterações climatéricas (por exemplo: tempo, condições de neve e gelo, tipo de piso ou relva, manutenção de espaços).
Evento específico Atleta predisposto Atleta suscetível LESÃO Mecanismo de lesão (próximo do resultado)
Fatores de risco para ocorrência de lesão
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jogo, a superfície de jogo (manutenção/tipo de superfície) e o equipamento (proteção/calçado desportivo). Como potenciais fatores de risco intrínsecos não- modificáveis são descritos: a idade, o género e uma lesão anterior. Os potenciais fatores de risco intrínsecos capazes de serem modificados são: o nível de aptidão física, pré-participação num programa de treino desportivo específico, a flexibilidade, a força, a estabilidade articular, a biomecânica do atleta, o equilibrio/proprioceção do atleta, e por fim os fatores psicológicos/sociais (Emery, 2003).