A classificação das lesões varia de acordo com diferentes critérios que os autores propõem, existindo diferentes nomenclaturas.
Segundo Fuller, et al., (2006), as lesões devem ser classificadas de acordo com a localização, tipo, estrutura do corpo afetada, mecanismo de lesão (traumática ou sobrecarga) e se a lesão é recorrente. Uma lesão só será considerada como reincidente se voltar a acontecer num período máximo de 2 meses (Hagglund, Waldén, & Ekstrand, 2005).
Massada (2003), refere que as lesões traumáticas são classificadas tendo em conta a natureza, localização anatómica, a relação com fatores macro ou microtraumáticos e o grau de incapacidade funcional que destas advém.
Para Petersen & Holmich (2005), as lesões são classificadas de acordo com o mecanismo traumático, podendo ser divididas em diretas ou indiretas, sendo que as diretas estão relacionadas com laceração e contusão, e as indiretas apresentam-se relacionadas com a rotura, a distensão, o esforço e a tensão exercida sobre o músculo, podendo ainda dividir-se em completas e incompletas.
Tendo em consideração este aspeto, no desporto é comummente aceite a existência de dois tipos de lesão, diferenciadas e definidas pela sua origem, particularmente referida no contexto temporal: macrotraumáticas ou microtraumáticas (figura 1) (Pinheiro, 2006; Flint, 1998; Armsey & Hosey, 2004; Fuller, et al., 2006; Meeuwisse, 1994; Petersen & Holmich, 2005). Estas diferem tanto pela sua forma como também pela sua evolução clínica (Pinheiro, 2006).
38
Figura 2-1 Processo de resposta da lesão desportiva. Adaptado de Flint, (1998).
A lesão aguda traumática decorre de um incidente macrotraumático, de origem identificada, onde um simples e repentino impacto ou força provoca danos na estrutura tecidular, precipitando a paragem imediata da atividade. Manifesta sinais e sintomas de fase aguda, com dor e exsudação tecidular (Armsey & Hosey, 2004; Pinheiro, 2006; Kjaer, et al., 2003; Fuller, et al., 2006; Soprano, 2005; Bahr, 2009). A patologia macrotraumática apresenta sintomatologia de fase aguda, decorrente de um acontecimento bem identificado, essencialmente acidental. Antes desta agressão os tecidos biológicos apresentavam integridade estrutural (Pinheiro, 2006; Kjaer, et al., 2003; Soprano, 2005). Esta lesão necessita de cuidados médicos imediatos e leva a uma cessação de atividade desportiva. A terapêutica pretende numa primeira abordagem, limitar o processo e controlar os sintomas para de imediato promover a correção do dano tecidular/estrutural (Pinheiro, 2006; Beers & Berkow, 2004; Kjaer, et al., 2003).
A lesão crónica afigura-se como microtraumática, de origem não identificada ou ignorada, permitindo quase sempre a manutenção da atividade, embora com algumas limitações sintomáticas o atleta tende, vulgarmente, a negligenciá-las (Flint, 1998; Kjaer, et al., 2003; Bahr, 2009; Fuller, et al., 2006). Estas também podem ser
Lesão por Macrotrauma (impacto) Dano Tecidular Estrutural Resposta Fisica/ Fisiológica Fase de Reacção Inflamatória Fase de Regeneração e Reparação Fase de Maturação Tecidular Resposta Psicológica (emocional) DOR Lesão por Microtrauma (prática excessiva)
39
apelidadas de lesões por sobrecarga e resultam de microtraumas repetidos que conduzem a danos tecidulares locais sob a forma de degeneração celular e extracelular, e são mais prováveis de ocorrer quando o atleta altera o modo, a intensidade, ou a duração do treino. Recentemente também se tem utilizado o termo aparecimento gradual na definição desta lesão (Bahr, 2009; Fuller, et al., 2006). O caráter progressivo da patologia, por vezes difícil de identificar o seu início, permite a manutenção da atividade física, com limitação do mecanismo lesional, mas torna-se progressivamente incapacitante e restritiva da atividade/participação desportiva (Pinheiro, 2006).
Num contexto normal, a lesão microtraumática decorre em função de uma exigência técnica dominante, um processo repetitivo que decorre numa dada cadeia cinética, quase sempre especifica da modalidade praticada (Massada, 2003; Pinheiro, 2006). Exemplos esclarecedores deste tipo de lesão são as fraturas de stress, o síndrome compartimental crónico de esforço e as tendinopatias, resultantes de uma repetida sobrecarga biomecânica (Kjaer, et al., 2003; Pinheiro, 2006; Flint, 1998; Wilder & Sethi, 2004).
Nas lesões por sobrecarga, a incompatibilidade existente entre o microtrauma e a recuperação pode levar ao colapso, quer a um nível celular, extracelular ou sistémico. Quando acontece sobrecarga repetitiva sobre os tecidos, estes não conseguem adaptar-se às novas exigências, manifestando uma crescente dificuldade em manter o equilíbrio biológico, facilitando assim a progressão lesional (Armsey & Hosey, 2004; Flint, 1998; Kjaer, et al., 2003; Wilder & Sethi, 2004; Soprano, 2005).
Aproximadamente 50% de todas as lesões desportivas são secundárias a processos microtraumáticos, ou seja, decorrentes de lesões por sobrecarga e podem acumular-se durante algum tempo antes que o atleta reporte dor e a lesão se torne sintomática (Wilder & Sethi, 2004).
A agudização de uma lesão crónica reveste-se de diversas dificuldades, tanto na caraterização do processo fisiopatológico como na decisão terapêutica, por vezes,
40
torna-se dificil diferenciar uma agudização de uma nova lesão, coexistindo manifestações de fase aguda e crónica (Pinheiro, 2006).
Como sintoma, a dor é decisiva na exteriorização de alarme, ainda que nem sempre exista uma interdependência direta entre a manifestação de dor e a gravidade da lesão, podendo, no entanto, este parâmetro, ser quase sempre referência como critério de evolução, tornando-se decisivo na retoma desportiva (Pinheiro, 2006). O contexto nocicetivo limita o desempenho físico, potenciando a ineficiência e perda de eficácia do gesto técnico, acarretando alterações intrínsecas que proporcionam a ocorrência de lesão (Pinheiro, 2006).
Na década de noventa, foi realizado um estudo com o objetivo de documentar as lesões manifestadas pelos atletas que recorriam a um centro de recuperação durante um período de doze meses, tendo por base o local da lesão, patologia e modalidade praticada. No total foram avaliados mais de 2000 atletas, tendo-se concluído que a maior parte das lesões desportivas avaliadas nos cuidados primários por especialistas da área, referem-se a lesões por sobrecarga, reportando quase o dobro dos valores de frequência registados nas lesões agudas (Baquie & Brukner, 1997).
Em alguns estudos, o diagnóstico da lesão pode ser necessário. Nestes casos o diagnóstico deve ser específico e feito por um clinico qualificado, de forma a uniformizar conceitos evitando discrepâncias nos processos metodológicos. Tem sido emergente a necessidade em criar sistemas que permitam classificar lesão uniformemente. A comunidade científica internacional destaca, quase de forma unânime, o Orchard Sports Injury Classification System (OSICS). Este sistema tem sido desenvolvido para o registo de lesões no futebol e classifica o tipo de lesão consoante a estrutura do corpo afetada. A gama de diagnósticos é suficientemente ampla para ser utilizado na maioria dos outros desportos, desde que o registo seja feito por praticantes que estejam familiarizados com as lesões desportivas. É importante referir que o OSICS é apenas uma listagem de diagnósticos comuns, devendo ser utilizado em conjunto com uma estrutura de dados maior para um levantamento completo da lesão (Orchard, 1993; Rae & Orchard, 2007).
41
Assim, a seguinte tabela mostra uma classificação adaptada do OSICS (Orchard, 1993; Rae & Orchard, 2007), tentando identificar de uma forma abrangente e generalista o tipo de lesão que pode ocorrer durante a prática desportiva.
Tabela 2-3 - Principais grupos e categorias para classificar o tipo de lesão nos diferentes tecidos do aparelho locomotor.
Grupos principais Categoria
Fraturas e fraturas ósseas de stress Fratura (perda de integridade) / fratura de fadiga/stress isquémico
Outras lesões ósseas (apofisites e epifisites/ assimetrias do crescimento)
Articulação e ligamento
Luxação/ Sub-luxação (além dos limites anatómicos) Entorse (agressão capsular e ligamentar)
Lesão da fibrocartilagem (menisco ou cartilagem)
Músculo e tendão Lesão muscular/ rotura/ estiramento/ contratura/ cãibra muscular
Lesão tendão (perda de integridade)/ rotura/ tendinose/ bursite/ fasceíte
Contusão Hematoma/ contusão
Laceração e lesão de pele Escoriação
Abrasão/ laceração (corte)
Sistema nervoso central/ periférico Traumatismo (com ou sem perda de consciência)
Lesão nervosa (neuropraxia, axonotmese, neurotmese/ gravidade crescente)
Outras Lesões dentárias
Outras lesões
OSICS, Orchard Sports Injury Classification System, adaptado de Orchard (1993).
Segundo Pinheiro (2006), as lesões macrotraumáticas mais incidentes, em todos os grupos etários e em ambos os sexos são: a contusão (37,1%), o entorse (24,8%), a fratura (22%), as feridas e escoriações (9,5%), a rotura muscular e tendinosa (5%) e as luxações (1,4%). Estes valores deverão ser interpretados de acordo com a especificidade da modalidade desportiva e com a condição física e biológica do atleta. No entanto, nas duas ultimas décadas tem-se verificado um aumento significativo da patologia microtraumática, expressão das imposições funcionais e do rigor exagerado de algumas metodologias de treino.
42