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2.2. ÇOCUK RESĠMLERĠYLE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR

2.2.3. Çocuk Resmine ĠliĢkin GörüĢler

2.2.3.4. Sembolik YaklaĢımlar

A partir daqui, a abordagem será diferente, pois se adentrará a obra de Paula Ribeiro. Entende-se que, de agora em diante, é mais fácil compreender suas perspectivas, uma vez que seu contexto social, econômico, político e cultural está devidamente posto. Seu olhar para o sertão maranhense, apesar de múltiplo, começa por uma perspectiva pragmática, que atende seu propósito maior na condição de funcionário da Coroa portuguesa. Desgastado por dificuldades de ordem financeira, que ganhou corpo ao longo do tempo, para ter melhores dias, do ponto de vista econômico, o governo português necessitava aproveitar ao máximo as riquezas de sua principal colônia.

Não se tratava de um fenômeno novo, nem mesmo incomum, pois praticamente desde a chegada dos europeus ao território brasileiro, as novas terras desempenharam um essencial propósito, o de oferecer vantagens econômicas. Durante todo o percurso histórico da relação entre metrópole e colônia naquele início de século XIX, tal objetivo só ganhava consistência num aperfeiçoamento que culminou com o surgimento de verdadeiros peritos em identificar riquezas coloniais e indicar as melhores maneiras para seu aproveitamento. As “memórias” e os “roteiros” produzidos em diferentes regiões do Brasil, mais ou menos na mesma época de Paula Ribeiro, são a máxima expressão de uma necessidade histórica. De singular, naquele momento, eram apenas as circunstâncias políticas que envolviam a metrópole e sua colônia, bem como as relações no interior de cada território. Com essa variável, as relações ganharam novos significados, tanto para Portugal, quanto para o Brasil. A metrópole tinha pressa em sanar lacunas financeiras, como também em efetivar seu domínio sobre uma terra que lhe fugia, de forma gradativa, ao controle.

A contribuição de Paula Ribeiro, nas terras maranhenses, caminhava nessa direção. Seu empenho se direcionava, majoritariamente, a revelar as riquezas daqueles sertões, por isso deveria mostrar como transformá-las em benefícios à sua metrópole. Desta maneira, a região foi redescoberta sob a perspectiva da racionalidade ilustrada, própria de sua época. Também se pode afirmar que o conhecimento da fisiocracia foi importante. Para o professor José Newton Coelho Meneses, embora a fisiocracia se apresentasse em oposição ao mercantilismo, alguns ilustrados luso-brasileiros, a exemplo de José Vieira Couto, objeto de seu estudo, tentavam conciliar diferentes ideias em nome de um bem maior à Metrópole.253 Ao analisar o contexto mineiro, o professor José Newton destacou a visão de José Vieira Couto “como

253

MENESES, José Newton Coelho. O Continente Rústico: Abastecimento alimentar nas Minas Gerais setecentistas. Diamantina - MG: Maria Fumaça Editora, 2000, p. 46.

parte de seu ideal fisiocrático fazia a defesa da ‘animação’ da atividade agrícola e da diversificação de sua produção [...] o desenvolvimento agropecuário fixaria o homem a terra. Preconizava ainda a melhoria das vias de transporte e a criação de animais”.254 Como base nessas características, é possível associar Paula Ribeiro, ao menos em parte, aos valores fisiocráticos.

Contudo, pelas dificuldades estruturais que limitava as ações da Coroa, o militar centrou seus esforços em elementos que considerou fundamentais para a reconstrução daquelas terras, pelo emprego mínimos de recursos financeiros. Nessa empreitada, era preciso resolver uma equação que envolvia importantes elementos, a exemplo de recursos naturais, rebanhos bovinos, moradores colonos e os chamados de gentios.

O funcionário do rei sempre achou que deveria ter mais tempo para explorar, com mais afinco, as riquezas dos sertões maranhenses. Mesmo após vários anos de trabalho na região, afirmou que seu ofício não lhe permitia tempo suficiente para descobrir o “verdadeiro potencial de suas riquezas naturais”.255 Ele estava convencido de que aquele lugar poderia ser mais próspero do que era naquele momento. Por isso, era preciso explorar seus segredos para fazer revelar o que havia de melhor, dessa maneira, a metrópole alcançaria amplos benefícios. Tal impressão da região não se dissipou ao longo dos anos, pois já nas proximidades dos anos 1820, portanto, quase duas décadas de atuação naquela região, o mesmo discurso ainda vigorava: era preciso conhecer aquelas terras e delas fazer riqueza. Com base nessa ideia, afirmou que “por isso quando para o futuro se desenvolver esta verdadeira mina encoberta, o seu ouro mostrará que a presente opulência do Maranhão não é ainda devida aos maiores tesouros”.256

João Pereira Caldas, comumente tido por anônimo, no seu Roteiro do Maranhão a Goiás pela capitania do Piauí, antes de Paula Ribeiro, já enfatizava a necessidade de potencializar a colônia em benefício da metrópole. Sua máxima consistira em afirmar que “o primeiro interesse da metrópole, há de forçosamente ser conservá-las na sua dominação; o segundo tirar delas as possíveis utilidades”.257 Pode-se afirmar que, naquele momento, esse pensamento era lugar comum entre muitos pensadores ilustrados portugueses.

254

MENESES, José Newton Coelho. O Continente Rústico... 2000, p. 49.

255

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1848. Roteiro da viagem... p. 71.

256

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1849. Descrição do território dos Pastos Bons... p. 73.

257

CALDAS, João Pereira. Roteiro do Maranhão a Goiás pela capitania do Piauí. Rio de Janeiro: Revista do IHGB, Tomo LXII, Parte I, 1900, p. 119-0.

Para o autor do Roteiro, um dos pontos fortes dos sertões maranhenses estava, apesar de suas dificuldades estruturais, em especial com a falta de habitantes, na sua integração com outras capitanias. Era necessário começar com as vizinhas Piauí e Goiás, mas, também, com outras mais distantes, a exemplo de Bahia e Rio de Janeiro.258 Uma relação de comércio entre essas regiões, em que os produtos locais, provindos da agricultura e pecuária, pudessem ser economicamente aproveitados, poderia contribuir de forma significativa para o lugar. Ele era considerado rico por sua própria natureza, mas ainda pobre pelas dificuldades de natureza diversa. Diante disso, os próprios recursos naturais do sertão poderiam servir como mola propulsora de um crescimento econômico, sustentados pelas diretrizes delineadas pelo governo metropolitano. Numa época em que construir estradas era tarefa árdua e dispendiosa ao erário, os rios tornavam-se mais que uma alternativa viável, pois era a forma mais eficiente de locomoção naquelas desconhecidas terras. Sem os cursos d’água, tão característicos, não haveria um sertão tal qual se conhece nos dias de hoje.

Com base em tal importância, Paula Ribeiro inventariou praticamente todos os rios e riachos da região, e com isso, deixou claro que seu isolamento poderia ser amenizado. Ele citou vários desses cursos d’água que cortam os sertões, a exemplo do Itapecuru, Mearim, Pindaré, Balsas, Grajaú, Tocantins, rios que cruzam a capitania em diferentes sentidos. Da mesma maneira, João Pereira Caldas percebeu esse potencial fluvial e sua viabilidade para o desenvolvimento de atividades econômicas.259 Ele também conhecia os principais rios da capitania e não os enxergava de outra maneira que não pela ótica do máximo aproveitamento metropolitano, pois se tratava da lógica ilustrada daquele tempo. Uma das primeiras consequências dessa riqueza fluvial da região era a quantidade de terras férteis para a agricultura. Paula Ribeiro assegurou isso com a afirmação de que a região, influenciada pelo Rio Itapecuru, era uma das mais convenientes porções de terra da capitania, tanto para o gado, quanto para a agricultura.260 De fato, essas duas atividades, especialmente a segunda, lá se desenvolveram com destaque.

Focado especialmente na atividade de criação, Ribeiro estava sempre à procura de benefícios à sua pátria. Nessa procura, encontrou, nas proximidades de um daqueles rios, uma área rica em salitre, próprio ao consumo bovino. Isso poderia melhorar a qualidade do rebanho, na medida em que poderia alternar o consumo desse mineral com o pasto. Desta maneira, das pequenas às grandes vantagens, os rios ofereciam muitas possibilidades, sem

258

CALDAS, João Pereira. Roteiro do Maranhão a Goiás pela capitania do Piauí... 1900, p. 138.

259

CALDAS, João Pereira. Roteiro do Maranhão a Goiás pela capitania do Piauí... 1900, p. 136.

260

contar o fato de serem vitais à própria sobrevivência dos moradores, que tinham poucos recursos para sobrevier naquelas distantes terras, praticamente ausentes de uma atuação governamental direta, capaz de dar suporte para uma vida menos árdua.

Paula Ribeiro chegou a cogitar a existência de metais preciosos nas proximidades de alguns daqueles rios. Não se sabe ao certo se era realmente uma crença ou se uma forma de tentar motivar a Coroa a explorar as terras sertanejas e, nesse processo, acelerar a colonização. Raimundo José de Sousa Gaioso, habitante do Maranhão até sua morte, no início do século XIX, também afirmou haver ouro na região do Rio Pindaré.261 De qualquer maneira, parece que foi indicado como uma real possibilidade de benefícios econômicos. Em seus escritos referentes ao trabalho de demarcação da fronteira entre Maranhão e Goiás, Paula Ribeiro se referiu a uma possível descoberta de topázio por um agente do governo.262 Alguns anos mais tarde, já nos seus últimos escritos, apesar de nada ter sido encontrado, nem mesmo uma notícia confirmada de que alguém o fizera, assim se referiu ao assunto: “Não foram contudo feitos ainda semelhantes exames nos baixos terrenos de Pastos Bons quanto escrupulosamente é preciso para nos desenganar dessas vantagens”.263 Ele estava convencido de que, além das matas e rios conhecidos pelo Estado português, estavam ocultas as maiores riquezas daquelas terras. Suas impressões, nesse sentido, são marcadas por uma indelével sensação de que havia muito mais a ser descoberto do que o já realizado.

Outro viajante que destaca a importância dos rios maranhenses para seu desenvolvimento econômico foi Sebastião Gomes da Silva Belfort. Ele enfatiza o potencial de navegação do Rio Itapecuru,264 que poderia ser útil para o funcionamento de um comércio regional. Havia um ensaio, nesse sentido, no “recém-descoberto” rio Tocantins, elo entre as capitanias maranhense e goiana, na parte que hoje pertence ao estado do Tocantins. De acordo com seu entendimento, o incentivo à navegação por este rio seria primordial para o crescimento econômico da região.265 Na ocasião, o autor indica que o comércio estaria aquém de seu verdadeiro potencial, por isso o sertão padecia: “pela falta dele ainda hoje vemos muitas cidades, vilas e lugares, cuja fundação, sendo antiquíssima, contudo, quase nada avançaram do pouco que eram em seus princípios; o que se prova evidentemente do mesmo

261

GAIOSO, Raimundo José de Sousa. Compêndio histórico... 1970, p. 108.

262

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1848. Roteiro da viagem... p. 22.

263

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1849. Descrição do território dos Pastos Bons... p. 50.

264

BELFORT, Sebastião Gomes da Silva. Roteiro e mapa da viagem da cidade de São Luís do Maranhão até a

corte do Rio de Janeiro: feita por ordem do governador, e capitão general daquela capitania. Rio de Janeiro,

Impressa Regia, 1810, p. 19.

265

Julgado de Pastos Bons”.266 Gaioso também reconheceu a importância do Rio Itapecuru nesse processo de interligação interna no sertão, apesar de chamar a atenção para alguns lugares de cachoeira e, principalmente, para o perigo dos nativos que habitavam nas proximidades de suas margens em Pastos Bons.

Semelhante situação se passava na região de Caxias, que era responsável por um comércio com outras localidades, não apenas no interior da própria capitania, mas também com outras regiões da colônia e até fora dela, na América espanhola. Nesse contexto, uma gama de produtos regionais e europeus circulava com relativa intensidade. Mesmo assim não havia um reconhecimento da região por parte da Coroa como um ponto estratégico. 267 Como resultado da falta de investimento, ainda que fosse uma das mais importantes povoações dos sertões maranhenses, seu protagonismo fora dele era praticamente inexistente. Com isso, Paula Ribeiro queria dizer que o lugar não se desenvolvia por fatores externos, ações políticas, apesar de seu potencial.

Para João Pereira Caldas, o papel das colônias era serem meras fornecedoras de matérias-primas,268 portanto, eram desnecessários investimentos que pudessem transcender essa relação. A visão ribeiriana era diferente, pois na sua compreensão, era indispensável melhorar o comércio regional pelos rios. Dessa maneira, a economia poderia apresentar resultados positivos tanto em favor de Portugal quanto da colônia. Com base nisso, Paula Ribeiro falou com certo pesar de um incipiente e arriscado comércio pelos Rios Araguaia e Tocantins. Ele afirmou que, apesar do trânsito de mercadorias com outras regiões, esses comerciantes “nunca passam de gente pobre”.269

Nesse contexto, tal fluxo se resumia a algumas embarcações por ano, quando deveria ser de outra maneira. Por isso, mais uma vez afirmou que nesses rios há ainda por se descobrir “riquezas e preciosidades grandes”.270 De maneira geral, seu olhar assinalava para um mundo de possibilidades, mas que talvez não tivesse chegado o tempo de seu verdadeiro aproveitamento. Portanto, assim resumiu essa falta de conexão entre o necessário e o vigente: “fica provado por isso, e pelo que temos a dizer de suas vantagens, ser este dito território a mais importante porção da capitania do Maranhão, e o quanto é para lastimar o retardamento havido no seu desenvolvimento”.271 Está expresso aqui que os problemas estruturais do sul da

266

BELFORT, Sebastião Gomes da Silva. Roteiro e mapa da viagem... 1810, p. 13.

267

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1848. Roteiro da viagem... p. 52.

268

CALDAS, João Pereira. Roteiro do Maranhão a Goiás pela capitania... 1900, p. 119-0.

269

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1848. Roteiro da viagem... p. 38.

270

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1848. Roteiro da viagem... p. 38.

271

capitania poderiam ser resolvidos ou amenizados com seus próprios “instrumentos”. Para ele, não eram necessários investimentos fora de uma órbita possível para o governo, mas naquele momento, apesar de as contas metropolitanas não irem bem, era preciso uma visão “empreendedora” para transformar aquela natureza em riqueza econômica, em benefício de todos os envolvidos no sistema, especialmente para a metrópole.

Ainda sob ponto de vista econômico, outro problema a ser equacionado pelo governo seria a ameaça indígena, tema que será abordado em vários momentos no percurso deste capítulo, pois sempre foi um desafio manter os empreendimentos agrícolas ou pecuários na região sem ter que fazer guerra contra os nativos. Belfort foi um dos defensores da guerra de extermínio contra os gentios, aqueles a que ele se referia como “ímpios e cruéis”, pois para ele era a única maneira de assegurar a tranquilidade nos sertões. Dessa maneira, assim ele justificava a guerra:

Finalmente que se aumente por alguns anos o destacamento a fim de que diariamente se expeçam escoltas contra o gentio, único modo de extingui- los, pois do contrário, fiados no abrigo das matas, suscitarão frequentemente discórdias, e sairão impunes, de ordinário, aterrorizando noite e dia os lavradores ali existentes.272

Apesar desse histórico conflito, não seria possível pensar no projeto ilustrado metropolitano sem os habitantes naquelas terras, e isso era um problema antigo, dada a impossibilidade da Coroa em promover um povoamento só com europeus. Se não havia portugueses suficientes para esse repovoamento, a única opção seria o aproveitamento dos próprios habitantes para tal empresa. Desta maneira, o governo metropolitano buscava maneiras de equilibrar suas ações entre os confrontos, os acordos e a aculturação dos indígenas em benefício de seu intento. Nesse sentido, se esses habitantes nativos eram um empecilho, também eram necessários e, mais que isso, eram um dos elementos fundamentais para a colonização. Paula Ribeiro tinha convicção que nesse ponto de equilíbrio estava a chave para o melhor aproveitamento daquelas terras.

Não seria tarefa fácil para o governo, pois de acordo com o militar, as nações gentias no interior da capitania eram “infinitas”. Ele afirma que essa grande concentração nas terras maranhenses era resultado não apenas do seu próprio crescimento vegetativo, mas também do histórico processo de expulsão de muitas tribos em outras regiões, como nas capitanias de Pernambuco, Minas Gerais e Pará.273 Na medida em que as fazendas avançavam, as nações

272

BELFORT, Sebastião Gomes da Silva. Roteiro e mapa da viagem... 1810, p. 14.

273

gentias eram impelidas para áreas mais distantes dos empreendimentos e, naquele momento, o sul do Maranhão se constituía como uma nova fronteira.

As tribos indígenas dos sertões maranhenses não poderiam ser subestimadas, porque, além de um povo guerreiro, eram grandes conhecedores da região, de suas matas e rios, ao contrário dos agentes metropolitanos, que pouco conheciam. Mesmo Paula Ribeiro, perito daquela geografia, se colocava, às vezes, como iniciante no assunto. Tal desconhecimento, por um lado motivava as descobertas, mas por outro, em caso de conflitos com os nativos, despertava medo. Ainda que não tenha tido contato pessoal com determinado grupo, Ribeiro citou os Timbira da região do Mearim e Grajaú como nações poderosas.274 Na ocasião, ele se valeu de relatos de moradores locais.

Ao considerar as incipientes forças militares governamentais para o efetivo combate, na região de Pastos Bons, ele propôs estratégias militares que pudessem apresentar resultados eficazes contra os nativos. Na sua perspectiva, enquanto os moradores colonos do sertão não tivessem a tranquilidade para viver e trabalhar nas atividades ligadas à agricultura, à pecuária e ao comércio, não se poderia pensar no melhoramento dos sertões. Sua lógica militar era simples: destruir os mais resistentes e seduzir aqueles que aceitavam um novo modo de vida. Com isso, ter-se-ia a harmonia necessária para o funcionamento das atividades econômicas. Fazer a guerra, do ponto de vista econômico e político, na maioria das vezes, era mais desvantajoso que os acordos de paz. Com base nisso, havia a proposição de “civilizar” aquelas nações mais predispostas, com “sentimentos positivos”.275 Dizia tratar-se de medidas lógicas para manter vivo o empreendimento português, que nunca parou de avançar, mas, também, em alguma medida, jamais deixou de ser ameaçado pelas nações indígenas da região.

Paula Ribeiro não compartilhava do entendimento de João Pereira Caldas de que a colônia só deveria fornecer suas matérias-primas. Nessa compreensão, ele não pensava nas condições de vida das pessoas que viviam naqueles lugares. Ribeiro, com suas concepções ilustradas, acreditava ser fundamental um modo de vida adequado aos habitantes daqueles sertões. Essa paz social deveria ser um ponto de partida para um macroempreendimento capaz de abarcar uma cadeia de produção e exportação. As partes deveriam somar-se para formar um só corpo, com isso, supostamente, caminharia em direção ao progresso. Na base dessa cadeia, estariam os colonos, aqueles que viviam nos sertões e que deveriam ter

274

RIBEIRO, Francisco de Paula. 1848. Roteiro da viagem... p. 40.

275

condições mínimas de trabalho e sobrevivência. Em seu favor, havia uma terra rica por suas águas, pastagens naturais e floretas. Contudo, apesar de suas dádivas naturais, que poderiam tornar a vida naqueles sertões menos árdua, faltava, de acordo com o militar, algo no espírito de seus moradores, talvez mais “luz”, para que pudessem enxergar seus próprios tesouros e dessa forma aproveitá-los.276

Apesar de suas infindáveis potencialidades, a pobreza marcava fortemente aqueles sertões. Entretanto, esse problema era percebido como algo superável, desde que houvesse mais investimentos governamentais e que se “educassem” as pessoas, especialmente os mais jovens, a uma nova maneira de se relacionar com aquela natureza. Nesse sentido, tanto o problema da “falta de visão” dos habitantes quanto a falta de atenção governamental estariam historicamente fadados à superação pela presença de uma nova forma de relacionamento com o mundo, por prismas mais racionais, em termos econômicos e sociais. Tal como o norte da capitania, que se destacava pela prosperidade de suas lavouras, faltava o desenvolvimento da outra parte, a sertaneja: “sua população, que não chega a 30 mil almas livres, vantajosas lavouras de algodão e arroz, em que ocupa mais de duzentos mil escravos

Benzer Belgeler