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Michael Kunczik define jornalismo como a “profissão principal ou suplementar das pessoas que reúnem, detectam, avaliam e difundem as notícias; ou que comentam os fatos do momento”63. Desta forma, jornalista é aquele que “está envolvido na formulação do conteúdo

do produto da comunicação de massa, seja na reunião, na avaliação, na apuração, no processamento ou na divulgação de notícias”64.

Para outro pesquisador alemão, Otto Groth, a essência do jornalismo está no fluxo de informações da atualidade que ocorre nas páginas dos jornais65. Groth procura entender o jornalismo como um processo social, que se articula a partir da relação (periódica ou oportuna) entre organizações formais (editoras ou emissoras) e coletividades (públicos), através de canais de difusão que asseguram a transmissão de informações atuais em função de interesses e expectativas (culturais ou ideológicos). Assim, Groth elenca como principais características do jornalismo a periodicidade, a difusão, a atualidade e a universalidade.

O jornalista e pesquisador brasileiro José Marques de Melo faz uma reserva à definição de Otto Groth, acrescentando que ela não dá conta da diferença entre o jornalismo e as atividades de publicidade ou de relações públicas:

A fronteira entre elas está no território da persuasão. Enquanto a propaganda e as relações públicas processam mensagens que pretendem persuadir e levar os cidadãos à ação, adentrando muitas o espaço do imaginário e apelando para o inconsciente, o jornalismo atém-se ao real, exercendo um papel da orientação racional66.

Temos, aqui, uma tentativa de definir o jornalismo pela referência à realidade. Sobre o jornalismo, “nada se explica fora do pressuposto que organiza as expectativas sociais em relação ao jornalismo – o de que o discurso jornalístico contém o predicado essencial da

63 KUNCZIK, Michael. Conceitos de jornalismo: norte e sul. São Paulo: Edusp / Com-Arte, 1997, p. 16. 64 Idem, ibidem.

65 MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1985, p. 8. 66 Idem, p. 9.

José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos

veracidade”, afirma Manuel Carlos Chaparro67. Assim, no jornalismo, ao contrário de outras

atividades de comunicação, como a propaganda, os propósitos devem se limitar à finalidade de informar tendo em vista o interesse público.

Chaparro diz ser o jornalista, basicamente, um “contador de histórias”68. Mas não

qualquer história. O jornalista se ocupa do acontecimento real, recente e com implicações para certos grupos sociais. O acontecimento com o qual o jornalismo trabalha, mais do que um simples fato, é “aquilo que, ao acontecer e ser revelado, produz alterações significativas na realidade presente das pessoas”69.

Desta forma, o jornalismo, para Chaparro, não é somente uma profissão, mas “transformou-se numa linguagem e num ambiente que a sociedade organizada utiliza para expressar e ajustar discursos interessados, conflitantes, para os confrontos discursivos do tempo presente”70. Ou seja, uma linguagem dos conflitos, o território onde se desenrolam os

conflitos na esfera pública.

O bom repórter, na visão de Chaparro, é aquele que vai a campo, assegura-se da veracidade das revelações, completa a informação e, desta maneira, faz da ação jornalística uma intervenção completa na realidade 71.

Embora procure a referência à realidade, o jornalismo se distingue de outras formas de conhecimento, como a ciência, por ser um conhecimento do mundo sensível e se pautar pelo acontecimento singular – o acontecimento jornalístico72, a chamada pauta no jargão da

imprensa.

Há autores que, considerando o jornalismo como revelação de acontecimentos reais e relevantes para a sociedade, também o definem por uma postura ética, como Eugênio Bucci:

O jornalismo já é em si mesmo a realização de uma ética: ele consiste em publicar o que outros querem esconder mas que o cidadão tem o direito de saber. Isto é a notícia: a informação que, uma vez revelada, afeta as expectativas do cidadão, do consumidor, do homem e da mulher comuns quanto ao mundo que os cerca, quanto ao futuro ou quanto ao passado. Notícia não é apenas uma “novidade”. É uma novidade que altera o arranjo dos fatos, dos poderes ou das idéias em algum nível. A notícia incide, portanto, sobre as relações humanas: ela é socialmente notícia. Ou não é. O jornalismo não lida prioritariamente, portanto, com a ‘divulgação’ de relatos.

67 CHAPARRO, Manuel Carlos. Pragmática do jornalismo: buscas práticas para uma teoria da ação jornalística.

São Paulo: Summus, 2007, p. 11.

68 CHAPARRO, Manuel Carlos. Linguagem dos conflitos. Coimbra: Minerva, 2001, p.35. 69 Idem, p. 41.

70 Idem, p. 38.

71 Idem, p. 176 (grifo nosso).

José Ismar Petrola ●Jornalistas e Dramaturgos

Ao contrário, sua justificativa é descobrir segredos que não se quer divulgar.73.

Desta forma Bucci define o jornalismo como a divulgação veraz de fatos que possam alterar a vida de grupos sociais – e com um destaque para o termo veraz, pois, ainda que não tenha acesso “à realidade”, o jornalista deve se manter o mais fiel possível aos fatos que é capaz de apurar. Esta é a diferença que, para o autor, separa o jornalismo de outras atividades do campo da comunicação social, como a publicidade e as relações-públicas: “jornalista é estritamente o profissional encarregado de levar notícias ao público, num serviço que atende, no fim da linha, o titular do direito à informação e mais ninguém”74.

Chaparro também relaciona a ética e o ideal de verdade no jornalismo: “A âncora ética do jornalismo, da qual deriva a responsabilidade moral de cada jornalista pelo seu fazer, é o direito individual e universal de investigar, receber e difundir informações e opiniões”75.

O jornalismo, tal como o conhecemos, é fruto do iluminismo burguês dos revolucionários franceses e se alimenta do mesmo ideal, o da revelação da verdade que, em última instância, levaria a humanidade à emancipação. Esta razão de ser do jornalismo, bem como os processos através dos quais a imprensa se transformou numa grande indústria, são os responsáveis pelo estabelecimento das formas de narrativa próprias do texto jornalístico.

Benzer Belgeler