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Vários foram os riscos associados à espiritualidade e religião citados durante este estudo, desde o risco de conflitos e segregação de pessoas ou grupos, do uso indevido e da influência de poder para interesses políticos ou pessoais, à falta de reflexão, diálogo e claridade sobre a vivência da espiritualidade. Assumindo esses riscos como inerentes à vida humana há que estar desperto e alerta, estabelecendo estratégias que permitam lidar com os mesmos.
Se um dos riscos associados à espiritualidade se refere ao preconceito social em relação a organizações religiosas que possam privilegiar determinados grupos de crentes em detrimento de outros, desenvolver uma ação universal sem discriminar, criando acesso a todos os interessados foi uma estratégia adotada em todas as organizações. Uma voluntária dos LD reforça como é importante assumir um projeto missionário cristão que tem uma ação universal:
“o projeto Leigos é um projeto de voluntariado missionário cristão (...) mas no fundo a nossa atuação é universal… Com todos. Se eu colaborar numa escola de muçulmanos, eu colaboro da mesma forma, porque eu não estou a evangelizar, não é esse o objetivo da minha atuação (…) Mas se a minha espiritualidade já está trabalhada para a universalidade (...) de estar ao encontro do outro (...) se eu aceito que haja algum que não acredita e que isso é positivo e que tem toda a validade, então, não vai haver limitações da espiritualidade em PD.” (D2)
Com esta estratégia as organizações, em particular de cariz religioso, como acontece nos LD, devem ter uma visão estratégica de inclusão de todos aqueles que estejam interessados em contribuir para o processo do desenvolvimento, sejam eles intervenientes comunitários, governamentais ou organizações a trabalhar na mesma área geográfica, independentemente das suas crenças. Para uma maior eficiência desta estratégia, deve trabalhar-se a espiritualidade para a universalidade no seio da organização e com os AD, como defendem os participantes. Trabalhar a espiritualidade para a universalidade não passa somente pela capacidade de aceitar as diferenças dos outros como válidas ou oportunidades, passa também pela capacidade de ir a encontro do outro, valorizando-o e convidando-o a participar no desenvolvimento de todos. Tornar a espiritualidade pública, e não exclusiva, especialmente entre pessoas que são ou foram socialmente desprezadas, como as mulheres (o que ainda acontece em muitas regiões marcados pela dominância masculina) é também uma forma de desenvolver uma ação universal, criando acesso a quem deseja participar. Partilhar o conhecimento espiritual com o maior número de pessoas é claramente uma forma de evitar o risco de instrumentalização da espiritualidade, como explica AD de Tamera:
“One thing is also to dare to make it public (...) in history spirituality was also very hidden (...) it was exclusive, it was a knowledge that not everyone should have and so on, and then we are in this is misuse and structures (...) that we dare to speak, especially the women, because they were killed because they did in history, and we have it in our cells.” (E4)
Para além de promover a participação, a organização deve orientar-se de modo a não retirar liberdade nem consciência, permitindo a escolha de diferentes caminhos. Deve, segundo os participantes, abster-se de qualquer forma de imposição religiosa e diferenciação de
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tratamento das pessoas locais que optam por não acolher os valores espirito-religiosos da organização.
Há que distinguir dois aspetos tão comummente confundidos e que geram preconceitos em relação a organizações de cariz religioso: a imposição e a partilha de valores religiosos. A imposição ocorre quando se verifica coação, explícita ou implícita, de formas diversas de agressividade física ou psicológica para se obedecer a uma ordem sem permitir alternativa. A partilha refere-se uma ação de partilha, isto é, de repartir, distribuir, o que pode envolver um sentimento de identificação com a maneira de pensar e/ou sentir existente entre pessoas. (Séguier, 1969) Por conseguinte, abster-se de qualquer forma de imposição religiosa não significa que uma organização não tenha o direito ético de partilhar os seus valores, sem se impor, assegurando que cria as mesmas oportunidades a todos.
Outro risco associado à espiritualidade referido pelos participantes foi o risco de se ignorar as necessidades humanas básicas, focando-se somente nas questões espirituais. Priorizar e agir, sabendo reconhecer as necessidades da população é uma estratégia para lidar com este risco. O diretor de projeto do Centro Mar Thoma explica que nos primeiros contactos com a comunidade, elaboraram uma avaliação das necessidades locais, recolhendo informação diretamente das pessoas aí residentes, concluindo que a educação era uma área basilar, bem como uma alimentação reforçada para todas as crianças, para começar a estimular o desenvolvimento local.
Ainda, o assistente espiritual dos LD reforça que uma oração tem de ser depois confrontada com a realidade. Confrontar o discernimento espiritual com a realidade concreta é uma forma de levar a pessoa e a organização a ver as coisas como elas são e a agir em conformidade com isso num determinado momento e espaço.
Refletir sobre a organização social, as questões de hierarquia e o poder espiritual de uma organização ou comunidade é uma outra estratégia importante. Evoluir de líderes espirituais para uma liderança espiritual coletiva e trabalhar sobre a organização social, onde as questões de hierarquia e poder podem ser mal usadas, devem fazer parte da reflexão da organização, como defende uma AD de Tamera:
“if you have this classical hierarchy, you always have the danger of misusing, because (…) you open your insight, you open your deepen wishes and if someone is using this he has the power over you (…) in a wrong way. And therefore projects have to work also in this issue and take care of it.” (E2)
Uma vez que estes riscos podem surgir ao longo de todo o ciclo de projeto é importante que de forma sistemática a organização monitorize o seu desempenho ao lidar com estes riscos, bem como inicie um processo de previsão dos mesmos. Holenstein (2005) apresenta o Conflict-
Sensitive Programme Management (CSPM), como um método que permite integrar os riscos no
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participação dos vários atores locais e organizacionais nos PD e capte a opinião de todos numa base de diálogo aberto, propiciando maior transparência nas relações e no papel de cada um, atrairá claridade a qualquer risco e aos meios de o prevenir ou solucionar. Quando o respeito pela liberdade e consciência de cada pessoa são princípios da ação da organização e dos AD que são capazes de atender às necessidades humanas básicas e ao mesmo tempo de refletir sobre a organização social, as questões de hierarquia e o poder espiritual com verdade, não só se previnem muitos riscos e conflitos, como o seu impacto é minorado e a resolução fica mais acessível.
7. Respeitar os beneficiários nas suas diferentes dimensões, nomeadamente na liberdade pela