Implementar uma estrutura que avalie a incorporação da espiritualidade corresponde à última fase do ciclo de projetos, avaliação e auditoria. Contudo, uma boa avaliação deve ser sistemática e desenvolvida por uma estrutura que acompanhe o processo ao longo do tempo,
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confrontando os objetivos que se desejavam atingir com os resultados obtidos, como alerta uma AD de Tamera:
“also transparency in our frame of plans for the year (...) it is functioning or not, so that we can see, we are missing or it’s working well – so that you have a level to observe, it needs a social structure of community that may observe the process running through the year” (E2)
De um modo mais individualizado, os AD dos LD usam a contemplação na ação como uma forma de viver a ação ao mesmo tempo que a avaliam, segundo um referencial de valores. Depois, esse processo é revisto num momento de pausa e, mais tarde, confrontado com a comunidade LD no terreno em orações de grupo, conversas e/ou reuniões:
“as pessoas devem ser contemplativas na ação, ou seja, os EE não terminam quando acaba esse período espiritual, mas depois continuam enquanto a pessoa vai para a ação. (…) E depois os EE acabam por ser pontos de avaliação, de olhar para trás e olhar para a frente, mas depois isto pode-se ir fazendo todos os dias, isso depende.” (D1)
De um modo geral, a avaliação pode incluir formas de monitorizar o desenvolvimento espiritual através de escalas, parâmetros (como a satisfação ou o bem-estar), a narrativa de histórias sobre a vivência da espiritualidade e o sentido de vida ou dos PD para as pessoas inerentes à organização. A colheita de dados deve atingir diferentes segmentos da organização e da comunidade, como beneficiários, responsáveis, pessoas mais distantes da comunidade, de modo a obter-se uma boa representatividade. (Holenstein, 2005)
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4. CONCLUSÕES
Para concluir proceder-se-á à sistematização dos resultados mais relevantes do estudo desenvolvido, fazendo-se referência às práticas relacionados com a espiritualidade, à significância da espiritualidade e às estratégias que integram a mesma na reflexão-ação do desenvolvimento. Serão ainda referidas as limitações do estudo e descritas algumas sugestões para a continuidade da investigação nesta área.
No que se reporta às práticas e rituais espirituais, verificou-se que estas se expressam em práticas e rituais individuais, de grupo e comunitários. A oração e a meditação são as práticas mais comummente observadas e verbalizadas pelos participantes. Ainda que assumam formas diversificadas, são recursos usados transversalmente a todas as organizações. Contudo, a oração é uma prática transversal a diferentes culturas e religiões, sendo a mais frequentemente observada e referida pelos participantes. Não só é considerada um meio de buscar auxílio, mas principalmente um meio de sintonizar com uma consciência que transcende a pessoa que ora. Neste sentido, a pessoa procura realizar a sua vontade mais íntima, coincidente com essa consciência que a transcende, chamada de Deus(a), o Todo, o Universo, entre outras expressões referidas pelos participantes. Para tal, são necessárias humildade, confiança e perseverança; verdade e capacidade de escuta e abertura sobre o que se quer manifestar; e também clareza e precisão na comunicação sobre as suas perceções e objetivos.
No que se refere à compreensão da significância da espiritualidade nas organizações que integram o estudo, foi possível explorar os significados e o papel atribuídos à espiritualidade, a importância da relação da espiritualidade e do desenvolvimento, e os riscos associados à espiritualidade e religião no processo de desenvolvimento. Quanto aos significados, a espiritualidade manifestou-se, ligando três conceitos pilares: o Divino, a Vida e o Ser, onde as dimensões da transcendência, da entrega pacífica, do sentido de vida, da orientação-interna, da graça, da consciência e da verdade se integram e expressam. A espiritualidade através do Divino/Todo expressa a ligação, união ou relação com a transcendência, o que se relaciona com a capacidade de compreender que toda a realidade e o que a compõe, fenómenos, eventos e matéria estão ligados ente si. Logo a pessoa tenta realizar e expressar a manifestação divina numa
entrega pacífica e confiada, que brota na Vida. A espiritualidade relacionada à Vida é, portanto,
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dualidades e limitações espaciotemporais, cocriando o seu mundo. Por isso, a espiritualidade é uma forma de orientação-interna, como uma bússola, que leva a pessoa a realizar a graça e a viver alinhada com a manifestação sagrada da vida. Através de uma atitude de abertura permanente que possibilita aprofundar a realidade além das ilusões, alcançando a verdade e a
consciência da realidade, a pessoa realiza o Ser que é, manifestação imaterial e transcendente do
Todo.
Quanto ao papel da espiritualidade, os participantes referiram que num caminho espiritual de liberdade, o ser humano mais facilmente vai conhecer qual é a sua posição e papel no Todo. Os participantes defendem, ainda, que os seres humanos fazem parte de um Todo, que tendo a capacidade de pensar, prever, decidir e orientar, têm a responsabilidade de cuidar da terra atendendo a todos os seres que nela habitam. Nesse caminho, as pessoas, nomeadamente, os AD dão sentido à sua ação e esforços, o que influencia as suas motivações, molda as atitudes, a maneira de estar e as decisões fundamentais da vida, bem como do quotidiano.
Perante as vicissitudes e dificuldades do desenvolvimento, a espiritualidade ajuda a demarcarem-se de uma visão estritamente técnica, pois orienta os AD a um contacto mais próximo entre si e com os beneficiários, bem como gera um sentimento de confiança e esperança que suporta a vida e o seu risco.
No contexto das organizações, a espiritualidade é reconhecida como promotora da unidade humana e, concretamente, nos PD desenvolve a capacidade de resistência e perseverança pela experiência de sentido. Orienta para o discernimento na cooperação e para uma ação de desenvolvimento mais humana e eficaz, a par do desenvolvimento da consciência das pessoas sobre a própria realidade. Os participantes referem que a espiritualidade os ajuda a promover uma visão holística e o desenvolvimento integral das pessoas e comunidades, a criar abertura e recetividade perante a vida, a pôr-se em contacto com o sentido e o essencial das religiões, a fomentar a capacidade de flexibilidade e adaptabilidade e, ainda, a manter a esperança e a impulsionar a capacidade de arriscar confiadamente.
No processo de desenvolvimento, a importância da espiritualidade reflete-se no contributo em ultrapassar o mito do desenvolvimento dos outros para aceitar que neste processo todos os intervenientes se estão a desenvolver, num desenvolvimento mútuo, em codesenvolvimento. O conceito de desenvolvimento integrado, porque é inserido num contexto e ambiente que devem ser tidos em conta, num trabalho de cooperação mútua, parece até ao momento ser o que melhor descreve o desenvolvimento para o qual a espiritualidade.
Por último, no que se reporta às estratégias que integram a espiritualidade na reflexão- ação do desenvolvimento, identificaram-se as seguintes: criar uma visão sobre a incorporação da espiritualidade na organização, desenvolver individual e internamente a sua espiritualidade,
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providenciar uma formação integral dos AD onde se integra a espiritualidade e acompanhar e estimular o apoio e suporte para com os pares e a comunidade, onde se integra a natureza e os seus seres. Estes são respeitados e valorizados pelo seu papel no ecossistema e pelo conhecimento que podem disponibilizar, daí a estratégica também de desenvolver um processo contínuo de escuta para sintonizar e conectar com a situação, a pessoa, a comunidade e/ou os seres. Ainda existem outras estratégias que passam por cooperar com organizações parceiras que partilham uma base comum, bem como integrando diferentes líderes religiosos; estar consciente do contexto histórico-socio-cultural e religioso-espiritual da população; criar ambientes e espaços propícios ao desenvolvimento espiritual; respeitar os beneficiários nas suas diferentes dimensões, nomeadamente na liberdade pela escolha religiosa/espiritual; e implementar uma estrutura que avalie a incorporação da espiritualidade. Por fim, lidar com os riscos associados à espiritualidade e religião é outra estratégia incontornável, tendo em conta os conflitos históricos e os riscos de instrumentalização da espiritualidade.
Os participantes reforçavam a importância do diálogo sobre a espiritualidade com quem demonstre interesse e disponibilidade no sentido de compreender como a espiritualidade dá forma às suas vidas e decisões, como afeta e é afetada pelos diferentes caminhos do desenvolvimento e como podem as pessoas tomar decisões informadas sobre o seu próprio caminho.
O estudo possibilitou uma reflexão sobre a espiritualidade e o seu contributo às organizações ligadas ao desenvolvimento, evidenciando-se as práticas e rituais a ela associados, a sua significância e as estratégias que a integram nas organizações. Este conhecimento pode então contribuir para a mobilização de outras organizações que pretendam aprofundar a sua reflexão- ação sobre a vivência da espiritualidade e integrá-la como fator fundamental do desenvolvimento. Também, sendo as organizações ligadas ao desenvolvimento, um dos contextos de ação da enfermagem, onde o papel do enfermeiro é tão necessário e requisitado, as contribuições apresentadas neste estudo poderão contribuir para o estabelecimento de projetos e programas mais ajustados às dinâmicas interacionais de cada comunidade, onde a espiritualidade, quer do AD, quer dos beneficiários são elementos essenciais para o sucesso dos mesmos.
Em relação às limitações do estudo, por um lado, identificou-se a morosidade associada à metodologia selecionada, uma abordagem etnográfica, usando uma metodologia triangular baseada na análise documental, na observação participante numa perspetiva transcultural e nas entrevistas semiestruturadas. Contudo, o tempo de preparação pré-observação suportado pela análise documental revelou-se crucial para a integração na realidade da organização. A observação participante foi sem dúvida a grande mais-valia, pois foi a vivência que deu sustentação e vida à análise documental e que deu orientação e realismo à análise das
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entrevistas. Estas foram um recurso importante para sistematizar e aprofundar o conhecimento intuído durante a observação, onde se recorria novamente à análise documental. Apesar de permitir um conhecimento aprofundado e significativo da realidade em estudo, exigiu grande dedicação e mais tempo face ao previsto. Por outro lado, o recurso à técnica de focus group, onde os membros das organizações validariam as informações colhidas, poderia contribuir para maior validade externa do estudo. Crê-se que muitos foram os aspetos negligenciados, pelo que muito se valoriza e apela à necessidade de outros contributos, noutros contextos e organizações, para aprofundar o conhecimento sobre a espiritualidade.
Assim, sugere-se no âmbito de investigações futuras, estudar a relação entre a integração da espiritualidade nas organizações e a eficácia dos projetos de desenvolvimento e a realização de estudos comparativos sobre o desempenho de organizações ligadas ao desenvolvimento que assumam a espiritualidade na sua reflexão e ação com outros que não o assumem. Considera-se ainda pertinente aprofundar a influência da espiritualidade no processo de desenvolvimento individual através da descrição e interpretação das experiências espirituais marcantes vivenciadas e relatadas por indivíduos ligados a essas organizações. Por fim, sugere-se, também, o aprofundamento das consequências para o desenvolvimento infantil de crianças, expostas a influências religiosas de uma organização, que provêm de um contexto familiar religioso diferente.
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