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Frederico de Castro Neves (2011, p. 112) pontuou que a generalizada acepção de que a pecuária era incompatível com a escravidão derivava do fato de tal atividade produtiva não demandar número significativo de mão de obra. Uma vez que a ocupação do território cearense, sob os auspícios da Coroa portuguesa, deu-se por meio da criação de gado, historiadores associaram a escravidão, no Ceará, ao trabalho doméstico, negligenciando o emprego do trabalho escravo no campo, por exemplo.104 Girão (1984, p. 78), em sua Pequena História do Ceará, assegurou que os escravizados, no Ceará, “restringiram-se aos misteres da criadagem, gerando os ‘negros velhos’ e as ‘babás’, que não sofriam, em regra, o peso e os castigos do eito, como nas zonas dos engenhos de açúcar e nas da mineração”. Um pouco mais à frente, no mesmo trabalho, citou Santos, que também asseverou que o escravizado, no Ceará, apenas conheceu o trabalho doméstico:

[...] é preciso deixar bem acentuado que, muito embora a crudelíssima disciplina da família antiga, que penetrava até as escolas, o escravo do Ceará não era o mesmo mártir da lavoura do Sul. Não conhecia o eito e a senzala dos latifúndios; fazia tão somente de doméstico em contato imediato com seu senhor (SANTOS apud GIRÃO, 1984, p. 167).

Para os autores partidários da assertiva de que a população cativa foi empregada unicamente nos misteres domésticos, a escravidão teria sido mais branda do que em áreas de grande lavoura e a relação entre senhor e escravizado, pautada pela fraternidade e cordialidade, devido à maior proximidade entre ambos. E, por isto, “as fugas não eram comuns e as rebeldias muito raras” (GIRÃO, 1969, p. 44). Todavia, Figueiredo Filho (2010c, p. 108) enfatizou a participação dos homens e mulheres submetidos à escravidão para o desenvolvimento econômico caririense, destacando o seu trabalho nas minas de ouro encontradas no Cariri, nos Setecentos: “A mineração de ouro fracassou por falta de resultados

104 De acordo com Ciro Flamarion Cardoso (1990, p. 79), a historiografia da escravidão, produzida,

principalmente, no início da década de 1960, “refletia, em última análise, os interesses metropolitanos e os dos grupos dominantes coloniais e posteriormente imperiais [...], sob uma perspectiva simplificadora que já foi chamada de ‘obsessão plantacionista’, não vislumbrava a considerável complexidade econômico-social brasileira” e, por isso – além de minimizarem a importância “de outras relações de produção que não a escravidão de africanos e seus descendentes” –, duvidava “da presença expressiva de negros escravos em um setor complementar ou secundário da economia colonial: o da pecuária, em que se acreditava predominassem os indígenas, os libertos e os mestiços” – tal presença sendo comprovada por pesquisas posteriores tanto para o período Colonial quanto para o Imperial.

compensadores, deixando, no entanto, o trabalhador escravizado na região. Muito contribuiu êle para a riqueza do Cariri, mesmo naquelas tristes condições de cativeiro”.

Alguns anos antes, escreveu Figueiredo Filho (2010, p. 24) sobre o cotidiano nos engenhos caririenses, confirmando a presença de escravizados trabalhando em engenhos da região, ao lado de homens e mulheres livres, e não apenas realizando tarefas domésticas: “Houve escravos na faina canavieira do Cariri mas não com a importância que tiveram em Pernambuco. Cedo mesmo o engenho caririense teve que alugar braços para o trabalho. O elemento cativo por si só chegava para todos os misteres do sítio de cana”. E não só para os misteres do sítio de cana. Com o fim da atividade mineradora, foram incorporados ao setor produtivo se fazendo presentes “na pecuária, na agricultura, em serviços especializados, nos serviços domésticos, ou ainda como escravo de aluguel e de ganho” (FUNES, 2000, p. 110). Analisando as listas e certidões de matrícula, anexadas aos inventários, é possível conhecer as atividades que desempenhavam. As informações a respeito encontram-se sintetizadas na Tabela 6.

Tabela 6 – Profissão dos escravizados matriculados, com base nos inventários do Crato (1872-1884)

Profissão Número de escravizados

Não referida 13 Nenhuma 130 Agricultor 02 Cozinheiro/ Cozinheira 01/ 06 Costureira 01 Engomadeira 03 Lava roupa 01 Alfaiate 02 Rendeira 01 Fiandeira 02 Total 162

Fonte: Inventários, 1872 a 1884, caixas XXIII a XXVIII, CEDOC – C.

Como dito no primeiro capítulo, não disponho da matrícula de todos os cativos do Crato, contudo, dos 162 para os quais a matrícula consta no inventário do proprietário, dezenove possuíam alguma especialização e a maioria destes desempenhava atividades hoje consideradas domésticas, como engomar, lavar roupa e cozinhar. Porém, Peraro (2001, p. 105) chamou a atenção para a necessidade de se buscar compreender o que, na época, era tido como serviço doméstico e “se a atividade tinha a mesma função de hoje”, antes de afirmar categoricamente que a maior parte dos escravizados restringia-se a esses serviços.

Em contrapartida, 130 cativos foram matriculados como não possuindo nenhuma profissão – assim como a maioria dos da província. Este alto número pode ter sido resultado do significativo número de crianças dentre eles, perfazendo um total de 69, enquanto os adultos eram em número de 92 – excetuando-se desse cálculo uma escravizada, para a qual não consta a idade na matrícula. De toda forma, não significa que os escravizados não desenvolviam nenhum trabalho, pelo contrário, talvez desempenhassem mais de uma atividade (FUNES, 2000, p. 113). Figueiredo Filho mesmo assegurou que o trabalhador escravizado chegava ao Cariri “para todos os misteres do sítio de cana”. Além disso, de acordo com os inventários, este trabalhava na pecuária, na lavoura, nos engenhos e nas casas ou aviamentos de farinha. Peraro (2001, p. 105-106) apontou, ainda, que poderia ser indício da prática de atividades reconhecidas como desprezíveis e sem importância ou de ausência de rigor no desenvolvimento das tarefas econômicas, ou seja, “as atividades iam se dando num desenrolar de necessidades e de interesses mediados pelas contingências do cotidiano, moldado pelo sistema escravista”.

Como o Censo de 1872 contemplou maior número de escravizados, os dados revelados, quanto às profissões – sintetizados na Tabela 7 –, permitem visualizar melhor a presença destes em inúmeros tipos de trabalho – com destaque para a atividade agrícola –, evidenciando a sua onipresença naquela sociedade escravista.

Tabela 7 – Profissão dos escravizados do Crato, com base no Recenseamento Geral do Império de 1872

Profissão Paróquia Nossa Senhora da Penha H / M

Paróquia São Pedro da Serra do Crato H / M Costureira - / 03 - / 01 Operário em metais 04/ - - / - Serviço doméstico 24 / 194 - / 09 Lavrador 249 / 122 13 / 04 Criados e jornaleiros (assalariados) - / - 02 / - Sem profissão 132 / - 12 / 14 Total 409 / 319 27 / 28

Fonte: Recenseamento Geral do Império de 1872. Disponível em:

<http://www.nphed.cedeplar.ufmg.br/pop72>. Acesso em: 30 jan. 2013.

Retomando a análise das listas e certidões de matrícula dos escravizados do Crato, é possível obter, também, informações sobre as suas aptidões para o trabalho – como especificado na Tabela 8.

Tabela 8 – Aptidão para o trabalho dos escravizados matriculados, com base nos inventários do Crato (1872-1884)

Aptidão para o trabalho Número de escravizados

Capaz de qualquer serviço 96

Capaz de serviço leve 24

Qualquer serviço doméstico 01

Boa 01 Nenhuma 02 Não trabalha 12 Não tem 03 Não referida 23 Total 162

Fonte: Inventários, 1872 a 1884, caixas XXIII a XXVIII, CEDOC – C.

Na Tabela 8, vê-se que, de 162 escravizados, 17 foram matriculados com “nenhuma” aptidão ou como quem “não trabalha” ou, ainda, “não tem” aptidão para o trabalho. Isto se deve, provavelmente, ao substancial contingente de crianças entre os matriculandos. Na matrícula dos irmãos João, Maria e Raimundo, de seis, quatro e dois anos, feita em 1872, consta, quanto ao quesito aptidão para o trabalho, que nenhum dos três trabalhava à época.105 Raimunda, por sua vez, com três anos quando matriculada, em 1872, foi registrada como “capaz de nenhum serviço”.106

Por outro lado, 120 foram matriculados como sendo “capaz de qualquer serviço” ou “capaz de serviço leve”, indício de que a mão de obra de muitas crianças foi empregada em diversas atividades econômicas. Sabino, com apenas nove anos em 1872, foi matriculado como “capaz de qualquer serviço”.107 Raimunda,108 em 1872, com então doze anos e

Francisca,109 com quatorze, foram registradas, respectivamente, como “capaz de qualquer serviço” e “capaz de qualquer serviço doméstico”. Os cratenses, Pedro, Miguel e Benedicto, de dez, oito e sete anos, respectivamente, quando das suas matrículas em 1872, foram registrados, cada um, como “capaz de serviço leve”.110 Benedicto111 e José,112 com apenas

dois anos ao serem matriculados em 1872, já foram apontados com sendo capazes de serviço leve!

105 Inventário de Leopoldena Bezerra Dias Monteiro, caixa XXIII, pasta 361, ano 1873, CEDOC – C. 106 Inventário de Joaquim Pedroso Lima, caixa XXIV, pasta S/N, ano 1874, CEDOC – C.

107 Inventário de Manoel Antonio de Brito, caixa XXIV, pasta 381, ano 1877, CEDOC – C. 108 Inventário de Ana Teodoro de Aguiar Melo, caixa XXVI, pasta 411, ano 1880, CEDOC – C. 109 Inventário de Umbilina Biserra Dias, caixa XXVII, pasta 430, ano 1883, CEDOC – C. 110 Inventário de Dona Eufrazia Alves Feitoza, caixa XXIII, pasta 355, ano 1872, CEDOC – C. 111 Inventário de Francisco Linhares Gonçalves, caixa XXIV, pasta S/N, ano 1874, CEDOC – C. 112 Inventário de Vicente Alves Biserra, caixa XXVII, pasta 429, ano 1883, CEDOC – C.

Mattoso (1988b, 40-42), por meio de testamentos e inventários, distinguiu duas idades de infância para os escravos: a primeira, “de zero aos sete para oito anos”, quando “o crioulinho ou a crioulinha, o pardinho ou a pardinha, o cabrinha ou a cabrinha, são crianças novas, geralmente sem desempenho de atividades de tipo econômico”; e a segunda, “dos sete para os oito anos até os doze anos de idade”, quando “os jovens escravos deixam de ser crianças para entrar no mundo dos adultos, mas na qualidade de aprendiz”. Jacinto (2008, p. 155), por sua vez, achou mais coerente considerar que “a idade em que essas crianças começavam a trabalhar de forma mais sistemática dependia tanto das condições específicas de cada uma, quanto do posicionamento do seu proprietário”. Referindo-se à iniciação das crianças no mundo do trabalho, nas pequenas posses – abundantes no Crato –, escreveu Santos:

Nas posses menores as crianças certamente acompanhavam suas genitoras nos afazeres, fossem na lavoura ou nas casas. Inicialmente ficavam presas ao corpo das mães enquanto estas trabalhavam e, um pouco maiores, ficavam no chão se distraindo com pequenos objetos, sob o olhar atento do adulto. Depois de crescidas desempenhavam pequenas tarefas ajudando na colheita e tirando pequenos galhos e cipós das plantações (SANTOS, 2004, p. 98).

A compra de crianças escravizadas poderia ser uma estratégia daqueles que possuíam pouco dinheiro e queriam se utilizar do trabalho escravo, ou “num momento de partilha podiam preferir ficar com um escravinho que com outro bem, pois as crianças ainda teriam toda uma vida produtiva” (SANTOS, 2004, p. 45). Crianças foram escravizadas e comercializadas durante todo o período escravista e, “vender ou comprar a escrava ‘com cria ou sem ella’, trocar crianças por escravos adultos, vender crianças de todas as idades foram procedimentos comuns nos tempos escravistas” (REIS, 2001, p. 58). Marcus Carvalho (2002, p. 228) salientou também que, “psicologicamente a puberdade era uma boa idade para desenraizar um ser humano e quebrar seu espírito”, mas para o adulto era mais difícil “aceitar a escravização, a não ser quando já era um escravo antes”. Além da compra de crianças, a reprodução interna também podia ser incentivada, como meio para se aumentar o tamanho das posses.

2.2.3 E O PASSADO NÃO FOI SÓ PRETO E BRANCO: REPRODUÇÃO NATURAL E