Os relatórios dos presidentes da província do Ceará, datados de 1871 a 1884, são também fontes da pesquisa. São 28 ao todo – como observado na Tabela 4 –, pois, às vezes, mais de um relatório era apresentado por ano.
41 Após trinta anos de trabalho, os pesquisadores do Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica,
integrado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar/UFMG), disponibilizaram virtualmente, em janeiro de 2013, os dados do Recenseamento Geral de 1872, juntamente com a correção das somas totais. No âmbito do Núcleo são realizados, desde o início da década de 1980, estudos sobre a estrutura e dinâmica econômica e demográfica mineira.
Tabela 4 - Relatórios dos presidentes da província do Ceará (1871-1884)
Ano dos relatórios Quantidade de relatórios
1871 04 1872 02 1873 03 1874 03 1875 02 1876 01 1877 02 1878 01 1879 - 1880 - 1881 03 1882 04 1883 02 1884 01 Total 28 Fonte: www.crl.edu/brazil/provincial/ceara
Não há relatórios para os anos de 1879 e 1880, período em que o nordeste do Império recuperava-se de uma grande seca, como exponho no capítulo seguinte. Os relatórios encontram-se disponíveis no portal: www.crl.edu/brazil/provincial/ceara.42
O cargo de presidente da província foi instituído em 20 de outubro de 1823 e sua nomeação competia ao imperador, para funcionar como seu representante. As dificuldades de comunicação e de transportes, juntamente com a escassez de funcionários no Estado, que então se constituía, impossibilitava uma centralização excessiva. A criação de governos regionais com relativa autonomia significava a organização de um aparelho burocrático e administrativo local que deveria servir de braço do Estado na região, “uma condição sine qua non para a construção de um Estado nacional viável”43 (DOLNHIKOFF, 2003, p. 467) [grifos
no original].
Era um cargo importante, segundo José Murilo de Carvalho (2010, p. 123), “uma vez que dele dependia a vitória do governo nas eleições”, pois o cargo lhe permitia influenciar
42O site ‘www.crl.edu/brazil’ surgiu a partir de recursos oferecidos pela Fundação Andrew W. Mellon para The
Latin American Microform Project (LAMP), no Center for Research Libraries, para explorar aspectos da digitalização de microfilmes, em 1994. Trabalhando em cooperação com a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a LAMP microfilmou sua coleção de documentos do governo brasileiro. A intenção do projeto é de proporcionar acesso via internet aos documentos, facilitando a sua utilização por pesquisadores e prestando apoio às pesquisas latino-americanas. Ver: <http://www.crl.edu/pt-br/brazil/about-project>. Acesso em: 15 mai. 2011.
43 Há diversas vertentes de interpretação sobre a formação do Estado Nacional, ver, por exemplo, Fernando
Uricoechea (1978); Miriam Dolhnikoff (2003, 2005); Ilmar Rohloff de Mattos (2004); José Murilo de Carvalho (2010); e Marcello Basile (2009). Sobre este período, especificamente no Ceará, ver Raimundo Alves de Araújo (2011).
eleitores e até a fraudar urnas. Todavia, mesmo em períodos não eleitorais, conservava relevantes atribuições,
[...] uma vez que controlava nomeações estratégicas como a dos promotores, delegados e subdelegados de polícia e oficiais inferiores da Guarda Nacional. Indicava ainda os oficiais do recrutamento militar, reconhecia a validade de eleições municipais e encaminhava ao ministro do Império, com parecer pessoal anexo, os pedidos de concessão de títulos honoríficos, a começar pelos de nobreza (CARVALHO, 2010, p. 123).
Miriam Dolhnikoff elencou, ainda, outras atribuições do presidente provincial. Competia-lhe:
[...] convocar a assembléia provincial para reunir-se no prazo marcado para suas sessões; convocá-la extraordinariamente; prorrogar ou adiar a sessão anual, a seu critério; expedir ordens, instruções e regulamentos adequados à boa execução das leis provinciais; além de sancionar as leis aprovadas pela assembléia (DOLNHIKOFF, 2003, p. 440-441).
Anualmente, o presidente deveria apresentar à Assembleia Legislativa, em sua sessão ordinária, o estado dos negócios públicos da província, bem como as providências necessárias a serem tomadas para o melhoramento e resolução dos problemas desta. Os relatórios versavam sobre educação, obras públicas, gastos públicos, eleições, escravidão, criminalidade, impostos, enfim, assuntos diversos, que contribuem, pontualmente, para uma melhor contextualização social, política e econômica da cidade do Crato, no período em análise. No entanto, as informações contidas nesses relatórios devem ser lidas e analisadas com cuidado, uma vez que os presidentes, almejando cargos mais elevados na política do Império, deles se utilizavam para sua promoção.
Outras fontes da pesquisa são os relatos de viajantes que passaram pelo Crato no século XIX e o site do Instituto de Pesquisa e Estatística Econômica do Ceará44 – www.ipece.ce.gov.br – onde são encontrados os mapas presentes no segundo capítulo, referentes à Região Metropolitana do Cariri e à Divisão político-administrativa do Ceará em 1872.
Quanto ao designativo “escravo”, de acordo com Florence Carboni e Mário Maestri (2003, p. 76-97), o seu sentido profundo remete à visão aristotélica da escravidão. Para Aristóteles a ordem escravista era ditada pela natureza. Homens e mulheres, por algumas disposições físicas apresentadas, estavam destinados à escravidão. “Escravo” era também como aqueles que detinham a propriedade dos trabalhadores escravizados referiam-se a estes.
44 O Instituto é uma autarquia vinculada à Secretaria do Planejamento e Gestão do Estado do Ceará e tem como
missão “disponibilizar informações geosocioeconomicas, elaborar estratégias e propor políticas públicas que viabilizem o desenvolvimento do Estado do Ceará”. Ver <http://www.ipece.ce.gov.br>. Acesso em: 16 out. 2011.
Estes, por sua vez, ainda segundo os mesmos autores, autodenominavam-se, no mais das vezes, “cativos”.
A palavra “cativo” descreve um sujeito capturado durante uma guerra – como os escravizados eram comumente feitos prisioneiros por meio de guerras, passaram a ser também denominados de “cativos” – e descreve, ainda, uma situação transitória: se está cativo, não se é cativo. Sugere uma relação de desigualdade, uma vez que para alguém ser cativado é preciso que haja aquele que cativa. Todavia, “ao enfatizar a violência do ato de subordinação plena, a categoria ‘cativo’ apresenta uma ruptura ontológica entre essa e as formas posteriores de trabalho. Sugere diferença essencial entre o cativo – sem direitos civis – e o trabalhador livre – com direitos civis –, diluindo a unidade profunda entre os diversos produtores de riquezas e de sobretrabalho” (CARBONI; MAESTRI, 2003, p. 95-96).
Nesse sentido, “a definição categorial da verdadeira natureza social do ‘escravo’ – ser um ‘trabalhador escravizado’ – desnuda igualmente a impertinência das formas apologéticas de autodenominação utilizadas pelas classes opressoras no passado e retomadas pelas ciências sociais no presente” (CARBONI; MAESTRI, 2003, p 96). O termo “escravizado”, proposto por Carboni e Maestri, vem sendo adotado pela historiografia mais recente sobre a escravidão – ver, por exemplo, Solange Rocha (2001, 2009), Isabel Reis (2007, 2010), Hebe Mattos (2012) e Sidney Chalhoub (2012). Foi utilizado, também, por abolicionistas nos últimos anos da escravidão no Brasil Imperial, especialmente pelos abolicionistas ligados à jurisprudência. Sidney Chalhoub (1990, p.171-172), ao relatar os casos de Virgílio e Beatriz, que recorreram à justiça por se considerarem injustamente escravizados, afirmou que os curadores deles se recusaram “a utilizar a forma tradicional de identificação dos cativos nos documentos judiciais. Ao invés de escrever, ‘Fulano, escravo de Sicrano de tal’, eles escrevem ‘Virgílio, escravizado por Henrique das Chagas Andrade’ e ‘Beatriz, escravizada por Antônio de Pádua Monteiro’. Uma sutil mudança de expressão enfatiza o ato de força que está na origem da instituição que se quer abolir” [grifos no original].
Os abolicionistas cearenses também utilizaram o termo “escravizado”. Na ata da sessão da organização abolicionista Perseverança e Porvir, expressando o seu contentamento pela abolição definitiva da escravidão em todo o Império brasileiro, o designativo “escravizado” apareceu duas vezes. A primeira vez, ao se falar da adesão dos jovens de Fortaleza ao movimento abolicionista, quando estes apoiaram o fechamento do porto da capital cearense ao tráfico: “A nobre mocidade cearense, todos moços da Capital, para ali [o porto] afluíram e desposaram desde logo a causa dos escravizados” (GIRÃO, 1969, p. 188)
[grifos meus]. A segunda vez, ao se remeter à abolição da escravidão na dita província: “Libertaram-se todos os escravizados cearenses entre hinos e flôres, e a Província, pelo órgão oficial do Govêrno, aclamou-se livre no memorável dia 25 de março de 1884” (GIRÃO, 1969, p. 191) [grifos meus]. No entanto, por questões estéticas e para evitar repetições que possam cansar o leitor, também utilizo, no trabalho, as designações ‘escravo’ – termo jurídico da época – e ‘cativo’ – termo usual na época –, sempre em itálico.
Isso posto, no segundo capítulo, intitulado O cenário para o desenrolar da vida familiar, apresento, em linhas gerais, aspectos sociais, econômicos, políticos e religiosos, presentes na história do Crato. Disserto também sobre o surgimento de um forte movimento abolicionista no Ceará, no início da década de 1880. E realizo, ainda, um estudo acerca de alguns aspectos da escravidão na localidade, no decorrer dos anos de 1871 a 1884. Neste sentido, a disseminação e o tamanho das posses; o valor dos escravizados e a sua participação na composição do monte bruto45 dos inventários; bem como a composição social da população cativa, são questões investigadas.
No terceiro capítulo, intitulado A vida familiar dos escravizados do Crato no contexto dos últimos anos da escravidão, busco compreender, a partir da análise de episódios da experiência de vida familiar dos escravizados, que tipos de vínculos familiares foram capazes de constituir; a organização, a estabilidade e os significados destes vínculos; e as relações de auxílio e solidariedade que estabeleceram por meio do batismo das crianças ingênuas. Por fim, nas considerações finais, sistematizo resultados relevantes das análises feitas nos referidos capítulos.
45 O monte bruto corresponde à soma do valor de todos os bens arrolados nos inventários, incluindo-se as dívidas
ativas, referentes a endividamentos contraídos pelos inventariados antes do falecimento, levando os inventariantes a se desfazerem de bens para quitá-los antes da partilha, e excetuando-se as dívidas passivas – créditos a receber (ARAÚJO, 2006).