Todos os dias, costuma-se dizer, “o ouvido ouve aquilo que ainda não ouviu”. Assim, a educação podia durar a vida inteira (HAMPATÉ BÂ, 2010, p. 200). Concluí a formação com as educadoras em junho do ano de 2011 e logo em seguida procurei a professora Tânia para darmos início às intervenções em sala de aula, expliquei-lhe que poderíamos planejar em conjunto as atividades que ela iria desenvolver sobre a cultura afro-cearense. Todavia, ela falou-me que ainda não se sentia preparada para tal desempenho, pois considerava imprescindível ver e ouvir como eu abordava essa temática junto às crianças, para posteriormente ministrar as aulas. Por outro lado, também argumentou que estava lotada junto a uma turma do 4º ano B, (estudantes entre 10 e 16 anos de idade), considerados fora de faixa, ou seja, ainda em processo de alfabetização, e que, assim, seria preciso adequar esse conteúdo ao nível de escolarização e de maturidade da turma.
Frente a essas argumentações não me vi em condição de desconsiderar os argumentos da educadora, isso porque, intuitivamente, sentia que ela estava de fato imbricada na pesquisa, e passava a se dar conta da complexidade dos temas estudados e do envolvimento político necessário para tratar da cultura afro-brasileira e afro-cearense.
Importante ressaltar que promover o estudo acerca da cultura de base africana a partir dos princípios da Pretagogia é entender que tanto a aprendizagem como a prática docente não se limitam ao uso da razão e tampouco a questões técnicas. Dessa forma, a Pretagogia ousa romper com o modelo ainda preponderante na academia em que a formação de professoras é pautada pela racionalidade, e assim:
[...] residem no reducionismo do papel do professor e dos problemas da prática como sendo prioritariamente técnicos. [...] o questionamento a esse modelo tem se pautado no reconhecimento do papel do professor não como um técnico que aplica à sua prática as teorias transmitidas pelos cursos de formação de professores, mas como um profissional que adquire e desenvolve conhecimentos a partir da prática e no confronto com as condições da profissão (GUARNIERI, 2005, p. 9-10).
Cabe então afirmar que a Pretagogia tem uma pedagogia própria, isso quer dizer que tem um corpus de estudo definido, requer para isso metodologias e estratégias de ensino e
103 aprendizagem alicerçadas em princípios e valores africanos e afro-brasileiros, daí poder se afirmar que só há ensino e aprendizagem quando há corpo e mente, razão e sentimento, atuando de forma integrada.
Muniz Sodré (2012) participa desse debate convidando-nos a algumas reflexões acerca do status da pedagogia, pois diz que Pedagogia não é discurso, e enfatiza:
dizer que pedagogia é discurso implica sustentar que as práticas educativas se manifestam sob forma racionalmente linguística, podendo ser assim tanto
objeto quanto sujeito de discurso. Ironiza Nietzsche num aforismo: “Na
Alemanha, somente há três tipos de profissão que falam muito: o mestre-
escola, o pastor e a ama de leite”. Por meio do discurso pedagógico, a
educação, no limite, fala de si mesma. E pode falar tanto e de tal maneira que a pedagogia não raro envereda conceitualmente pelos caminhos de uma
“teoria do ensino”, independente daquilo que tem a ensinar. O discurso de algum modo “emancipa” o professor do conteúdo disciplinar específico,
levando-o à capacidade suposta de “ensinar qualquer coisa” (SODRÉ, 2012, p. 122-113).
Partindo do entendimento do que é a Pretagogia vi que fazia sentido as questões levantadas pela docente. E, assim, selamos esse acordo de parceria.
As demandas apresentadas pela professora Tânia levaram-me a rememorar que algo semelhante havia ocorrido durante a execução do meu mestrado, em que também propus que, eu e a docente, pudéssemos coletivamente estudar, planejar e executar as ações para tratar da literatura africana e afro-brasileira. No entanto, ocorreu que logo durante as primeiras intervenções em sala, quando da apresentação da História do Rei Galanga32, a professora ficou tão chocada com algumas informações expostas que a partir de então evitou executar junto comigo as atividades, pois alegava não ter conhecimento suficiente para tal ação. Logo abaixo, exponho a fala desta sobre tal fato:
eu, nessa História da África eu estava assim (...) Então eu disse: eu vou ficar ouvindo porque eu estou aprendendo! Tinha coisa que eu não podia ajudar no planejamento porque eu não tinha nenhum conhecimento! Eu não ia fazer as intervenções se eu estava praticamente alheia ali. Eu não sabia. Eu vou ouvir e ouvindo eu estou aprendendo! Você sabe que naquele dia eu fiquei pasma de saber que lá na África eles tinham uma realeza, eles tinham pessoas abastadas, (...) que tinha ouro, que tinha isso, que tinha aquilo porque eu achava, a maioria das pessoas, a concepção que você tem de África e dos escravos é porque lá eles morriam de fome e vieram pra cá ser escravos, se sujeitaram a isso! (G. SILVA, 2009, p. 108).
Mas outros elementos também me vieram à mente após a argumentação da professora Tânia, como, por exemplo, que a mitologia africana nos ensina que há muitas
32 História em que apresenta os porquês da Europa se voltar para a África e também da participação direta da
104 formas de se aprender a fazer algo e uma delas é por meio da observação. Importante ressaltar que tal princípio foi citado logo quando expressamos no início desse manuscrito o mito em que Exu aprende a produzir os corpos do homem e da mulher observando Oxalá trabalhar. Nesse sentido, creio que a docente se colocou no lugar de aprendiz, ou seja, alguém que deseja observar para aprender. Para o historiador africano Hampaté Bâ, observar se constitui como um momento essencial para que o aprendente possa assimilar o conhecimento, e, assim, posteriormente evidenciar o que conseguiu apreender. Vejamos então como Bâ explica a importância da observação no processo de aprendizagem:
durante o trabalho, o ferreiro pronuncia palavras especiais à medida que vai tocando cada ferramenta. [...] O aprendiz não deve fazer perguntas. Deve
apenas observar com atenção e soprar. Esta é a fase “muda” do aprendizado.
À medida que vai avançando na assimilação do conhecimento, o aprendiz sopra em ritmos cada vez mais complexos, cada um deles possuindo um significado. No decorrer da fase oral do aprendizado, o Mestre transmitirá gradualmente todos os seus conhecimentos ao discípulo, treinando-o e corrigindo-o até que adquira a mestria. Após uma “cerimônia de liberação”, o novo ferreiro poderá deixar o mestre e instalar a sua própria forja (HAMPATÉ BÂ, 2010, p.187-188).
A partir das minhas experiências na área de formação de professoras para o trato da cultura africana e afro-brasileira, bem como formando pedagogas33, tenho percebido que muitas docentes têm dificuldades para diferenciar manifestações racistas de simples brincadeiras infantis e tampouco sabem lidar com os embates étnico-raciais presentes no espaço escolar. De um modo geral, a solução apontada para a eliminação de conflitos raciais tem sido a criação de projetos nomeados de Cultura Afro, que fazem alusão ao 20 de Novembro. Por sua vez, a grande maioria destes se limita em expor personalidades afro- brasileiras, ou mesmo em apontar grupos de maracatu, maculelê, coco, samba de roda e congada, como expressões da cultura afro-brasileira, e, assim, a escola acredita estar contribuindo para dirimir ou eliminar conflitos étnicos raciais. Todavia, creio que fazer cumprir a Lei nº 10.639/03 ultrapassa a exposição de conteúdos pertinentes à História da África ou mesmo da Cultura Afro-brasileira. Trata-se, sobretudo, de levar as docentes a pensar, por um lado, como tem se dado (e como se dão) as relações raciais dentro e fora de nossas instituições escolares. De outro, cabe também pensar qual o grau de pertencimento étnico e que tipo de implicações os/as professores/as, bem como nossos alunos e alunas têm com a matriz étnico-racial de origem africana. Assim, venho cada vez mais compreendendo que tratar da cultura africana e afro-brasileira é, sobretudo, tratar de gente, assim como eu,
33 Professora colaboradora do curso de Pedagogia das Faculdades INTA (Sobral-Ce), desde 2011. Ministrando as
105 você, nós, pessoas que possuem experiências individuais e coletivas em sua grande maioria marcadas pelo racismo e pela rejeição da negritude. Nesse sentido, o fato de apresentar a cultura africana e afro-brasileira aos/às docentes não significa dizer que estes/as passarão a se perceber como partícipes, ou implicados/as com estas.