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DOKUZUNCU BÖLÜM PARTİ DİSİPLİN İŞLERİ

Eis alguns saberes apreendidos com a Pretagogia:

a) Preciso dizer que nem de longe eu tinha a devida noção do quanto essa experiência seria valiosa. Decerto que eu possuía algum conhecimento sobre a cosmovisão africana, mas estar, viver e sentir o quilombo foi fundamental para que pudesse dar vida à Pretagogia, e, por conseguinte, pensar como trataria essa tese a partir de então. Nesse sentido, passei a ser porteira de dentro e, assim, adentrei o Quilombo, e passei a viver intensamente a Pretagogia.

Para realizarmos a abertura oficial do curso e o 1º módulo no Quilombo de Minador19, distante 30 km da cidade de Novo Oriente (CE), nosso grupo passou a viver situações inusitadas, pelo menos para a maioria dos cursistas, como, por exemplo: percorrer estradas de barro em microônibus e/ou carros pau-de-arara, sentir o clima mais ameno da serra, a impossibilidade de usar celular e internet (até a televisão tinha um sinal ruim), buscar água em cisternas, dormir em redes ou mesmo no chão, acordar ouvindo o canto dos galos, a presença constante de animais (cães, gatos, galinhas, pássaros, jumentos, abelhas, mutucas, vacas), degustar uma alimentação sem conservantes preparada por algumas mulheres da comunidade, ouvir os sons produzidos pelos grilos e sapos ao final do dia, conversar noite a dentro sentindo o frescor das plantas, a brisa, e o redescobrir das estrelas, pular porteiras, o convívio com pessoas negras, dentre outras situações. Todos esses episódios levaram-me a

tocar memórias de um tempo em que morei no Maranhão, da fazenda onde fui criada, o contato com muitas pessoas negras, o andar descalça e a cavalo, tomar banho em riachos, sentar no chão, comer com colher ou mesmo pegar o alimento com a mão, conversar com as

mulheres da cozinha etc. Situações e elementos que foram determinantes para que eu me reconhecesse como mulher negra e percebesse que era vítima de racismo no seio familiar.

72 E assim, após viver esse momento, decidi realizar apenas a 1ª intervenção de minha tese, pois senti que vivenciar aquela proposta curricular, estando naquele lugar marcado por uma ancestralidade negra, proporcionar-me-ia muitos aprendizados, que por certo ajudar-me- iam a conduzir essa pesquisa. Na verdade, era como se dissesse à minha tese: Espera um pouco que eu volto já! Cheguei mesmo a pensar que estaria sendo irresponsável por afastar- me de meus estudos, mas avaliei que precisava viver aquela experiência, pela sua proposta curricular inovadora e diferenciada, pois além de participar da elaboração dessa Proposta Curricular teria oportunidade de colocá-la em prática.

b) Com toda essa vivência, logo confirmei que para estudar a História e Cultura Africana e Afro-brasileira requeria de fato as bases conceituais e filosóficas de origem materna, ou seja, valer-se dos princípios da cosmovisão da Mãe África. O uso de metodologia diferenciada é necessário, pois trata-se da particularidade de expressões dos afrodescendentes, o que levará à intervenção no modo como estão estabelecidas as relações sociais brasileiras. O uso dessa metodologia diferenciada focada em um novo paradigma conceitual para produção de saberes, conceitos e

conhecimentos visa, portanto, “uma autonomia do pensamento dos

afrodescendentes com relação à produção eurocêntrica ocidental” (CUNHA JR., 2007, p. 9);

c) Na perspectiva da Pretagogia, falar de aprendizagem é falar de um corpo integrado, ou seja, de um corpo inteiro que pensa e sente. Daí o entendimento de que a aprendizagem envolve vivências corporais, o recordar experiências, envolvendo pessoas negras ou a negritude, visitações a alguns espaços-recursos e ainda rodas de conversa com pessoas e grupos detentores de saberes relevantes para os temas estudados. Significa dizer que a produção de saberes efetiva-se por meio do corpo (não existindo a ideia de corpo e mente, só corpo), que integra emoção, razão, ludicidade, sensação, intuição e sentimento. Nesse sentido, durante esse curso, os corpos foram convidados a distanciarem-se das cadeiras e dos calçados, de modo que os cursistas e coordenação tiveram o chão como assento do corpo... sentindo-o e tocando-o, e sendo tocado por este. Essa postura também favoreceu com que os nossos corpos tivessem mais próximos e tocassem- se com frequência, o que resultou em constantes expressões de carinho mútuo entre todos e todas;

73 d) À medida que avançamos na execução da Pretagogia começamos a sentir, de forma velada e/ou explícita, que alguns cursistas evitaram ser porteira de dentro,

e assim, recusavam-se a dormir no quilombo e estar em companhia dos/as quilombolas, deixaram de comer a alimentação ofertada, faziam ingestão de refrigerantes dentro do quilombo, dentre outras ações. Por diversas vezes, alguns educadores/as tomaram decisões que evidenciam tão somente interesses pessoais e/ou de grupos distintos, nesse sentido quebravam a lógica da vivência grupal UBUNTU, em que EU SOU POR MEIO DOS OUTROS;

e) Decidimos criar um novo perfil de monografia em que os/as cursistas pudessem iniciar escrevendo acerca da relação de suas vidas com a Negritude. Queríamos que os/as docentes dessem-se conta do momento em que o tema da Negritude passou a fazer parte de suas histórias de vida. Para isso, cada cursista deveria construir o que chamamos de Árvore dos Saberes, para a qual apresentariam sete saberes produzidos a cada sete anos de vida, até que chegassem à idade atual20. Posteriormente, os/as docentes construiriam um texto em que apresentariam esses saberes das Árvores. Como acreditamos que o ser humano é dotado de um grande potencial criativo, acordamos com o grupo que esses escritos poderiam ser dispostos em gêneros literários diversos, como o cordel, o conto, a poesia, a carta etc. De imediato, esse modelo de memorial causou estranhamento em grande parte dos/as educadores/as, de modo que inicialmente nos trouxeram textos que mencionavam apenas, de forma superficial, o tema da Negritude em suas vidas (SILVA, G.; PETIT. 2011).

De um modo geral, acreditamos que isso se devia, por um lado, a pouca ou nenhuma reflexão que certos/as docentes faziam acerca da temática. Por outro, outros/as educadores/as ainda tinham dificuldades em tratar desse tema para além do senso comum.

Um elemento interessante era que muitos/as professores/as tiveram dificuldades em escrever na primeira pessoa - mesmo se tratando de um texto individual – sob a alegação de que tinham aprendido, em outros cursos de especialização, que esse não seria o modelo de uma escrita científica. Diante de tal situação, aprofundamos o debate acerca do conceito de cientificidade a partir do olhar da Análise Institucional e da Sociopoética.

74 f) Apresentamos a Sociopoética (PETIT, 2002) e Pesquisa-intervenção como referências teórico-metodológicas de pesquisa a serem utilizadas para a construção das monografias. Para ajudar na escolha dos temas dos trabalhos, construímos uma lista de temas e apresentamos à turma, sendo a iniciativa bem recebida pelo grupo. Todavia, quando questionados/as acerca da metodologia, apresentaram-se problemas. Constatamos que os/as docentes tiveram, inicialmente, muita dificuldade em diferenciar metodologia de técnica de pesquisa, o que se mostrava quando eram questionados/as acerca da metodologia e, em geral, respondiam que iriam fazer entrevistas.

g) Outro fundamento significativo da Pretagogia e que está embasado nos princípios da cosmovisão africana é a Dança, assim, sempre iniciávamos os módulos com músicas africanas e/ou afro-brasileiras para que nossos corpos pudessem DANÇAR. Dessa forma ritualística convidávamos os nossos corpos a dançarem, a bailar e assim produzimos movimentos corporais dançantes. Fizemos uso do ato de dançar, sabendo que a dança é um dos princípios que rege as religiosidades de matriz africana, como, por exemplo: a Umbanda e o Candomblé. Nessas religiões, a chegada de um orixá ou linhas de entidades é anunciada por uma dança e toque (tambor) específico. Por sua vez, os cultos, realizados em homenagem aos eguns (espírito dos ancestrais) também são marcados pela música e pela dança. Assim, ao dançar estávamos reverenciando os ancestrais negros e negras daquele lugar, bem como pedindo autorização às entidades locais para adentrarmos àquele espaço quilombola. A dança foi particularmente valorizada porque é uma expressão da tradição oral africana e que, segundo VIDEIRA (2010, p. 56), ao estudar a dança no quilombo em referência ao sentido espiritual explica:

[...] a dança não é espetáculo, não dançam para se exibir dentro de seus festejos. Dançam para celebrar seus ancestrais e os conhecimentos que eles plantaram dentro de cada um(uma). Dançam porque se re-ligam com seus antepassados. E esticam o tecido dessa história para envolver seus descendentes. Dançam porque para festejar tem de dançar. Dançam porque seus(as) santos(as) vêm dançar junto consigo.

Por sua vez, encerrávamos os módulos, mantendo esse sentido espiritual, com a entrega da cabaça a uma pessoa do grupo. Nesse momento, o indivíduo beneficiado pela cabaça preparava uma dinâmica ou vivência para realizar a passagem à pessoa escolhida por ela para ser o/a novo/a detentor/a da cabaça. Esse era um momento de fortes simbologias e ritualização da oferenda da energia vitalizante da cabaça, entendida como fortalecimento dos

75 laços comunitários e empoderamento da pessoa escolhida a ser guardiã/o, pela responsabilidade outorgada em nome do grupo como um todo.

Benzer Belgeler