V. TARAYICILARDA YAPILAN TESTLER
6.5.1 Scangrıd Programı
DO PROGRAMA?
São lógicas que são diferentes de tudo. Não é a mesma lógica que move a Câmara dos Deputados para fazer um plano de equidade para os seus funcionários, que move a Eletrobras ou a Petrobras. É diferente. Tinha que ter um olhar diferente e um regulamento diferente. Eu não sei como fazer. Teria que chamar as pessoas, se debruçar e conversar (GSPM2, em 22 de outubro de 2013).
Conforme apontamos no capítulo anterior, a primeira edição do Programa Pró- Equidade de Gênero e Raça contava apenas com empresas públicas – em sua maior parte do setor eletroenergético. A partir da segunda edição, começaram a participar também
165 instituições públicas da administração direta e empresas do setor privado. Contudo, as vozes do campo-tema nos fizeram crer que esta mudança persiste imersa em um conflito de sentidos.
O que gera esse desconforto nas gestoras se deve ao fato de que empresas (públicas e privadas) possuem “lógicas de funcionamento diferentes” comparativamente a instituições públicas da administração direta. As narrativas das gestoras abaixo apresentadas demonstram de que forma percebem a entrada de instituições públicas no Programa:
Mas as naturezas distintas merecem avaliações distintas. Eu não posso avaliar uma prefeitura ou uma secretaria da mesma forma que eu avalio uma empresa. São tempos distintos, são coisas muito distintas. Eu acho isso... Que deveria ter uma mudança nesse momento. E, ao meu ver, ele [o Programa] deveria atingir a meta de pegar as 100 maiores empresas do país. Depois mudou e daí virou outra coisa. Se você tiver essa meta de atingir as 100 maiores empresas, daí você atinge em cascata os fornecedores, toda a cadeia produtiva daquelas empresas. Isso guardando os marcos do sistema capitalista, esses marcos do mundo em que nós estamos vivendo. Não estou questionando o sistema. O Programa não é para isso (GSPM5, em 22 de outubro de 2013).
E misturar essas empresas do mercado com secretaria de Educação, secretarias municipais, com essas questões, para mim precisava de outro Selo. Não poderia ser o mesmo Selo, com os mesmos critérios para julgar as duas formas de organização. Mas a ministra Nilcéa queria fazer porque assim o Pró-Equidade tomava um vulto muito grande. A minha avaliação é essa. Então, de repente passou para setenta e tantas instituições que haviam se candidatado. Enquanto que no setor empresarial... As pessoas achavam que não tinha fôlego para pegar o setor privado. Então o setor privado nunca foi muito procurado. Então, eu acho que tinha um impasse aí de como fazer essa questão. Então o setor público aderiu de cabeça. Prefeituras e secretarias e não sei o quê... Então eu acho que é um Pró- Equidade diferente (GSPM2, em 22 de outubro de 2013).
As narrativas expostas acima demonstram o desconforto em relação à entrada de instituições públicas sobre diversos aspectos. Um deles é o de que as avaliações e critérios de julgamento do Programa para a obtenção do Selo não deveriam ser iguais para empresas (públicas e privadas) e instituições públicas, tendo em vista as naturezas distintas dessas organizações. Ademais, as gestoras sinalizam que a entrada de instituições públicas no Programa não haveria apenas trazido uma confusão sobre a forma como são avaliadas, mas levaria ainda a uma mudança de seu propósito central.
Segundo a percepção de GSPM5 o Programa deveria ter como meta atingir as 100 maiores empresas do país para ser efetivo. Assim, ao incluir instituições públicas esse
166 propósito não estaria sendo atendido, uma vez que o Programa - originalmente formulado para lidar com a “lógica de funcionamento capitalista” - estaria sendo desvirtuado a partir da adesão maciça por parte de instituições públicas. A gestora GSPM2 também concorda com a percepção de que a entrada de instituições públicas teria mudado o caráter do Programa. Com isso, sugere que deveria haver um Selo para empresas (públicas e privadas) e um Selo diferente para instituições públicas.
A gestora GSPM2 coloca ainda que a decisão de manter as instituições públicas no Programa haveria sido tomada pela então ministra Nilcéa Freire porque, desta forma, a iniciativa “tomava um vulto muito grande”. Já outra gestora nos conta que existiriam mais motivos implicados na manutenção da outorga do Selo para organizações de diferentes naturezas:
Foi um processo bastante discutido e também um processo muito, vamos dizer, com opiniões distintas. Porque são lógicas diferentes de relação de trabalho, sabe? Mas isso acabou prevalecendo. Na quinta edição nós chegamos a pensar em não ter isso em instituição que não era empresarial e depois voltamos atrás. Chegamos a pensar nisso, em ficar só no âmbito empresarial. Mas você tem coisas que são meio... Não é ambígua, mas são instituições no meio do caminho. Por exemplo, nós temos vários fundos de pensão. Eles não são empresas da mesma forma que um banco, mas, por outro lado, têm um pouco esse caráter. Então achamos que não valia a pena um redesenho, até porque a gente teria um risco de perder parceiros importantes que são envolvidos no Programa, que desenvolvem o Programa (GSPM6, em 24 de outubro de 2013).
Essa narrativa da gestora evidencia que existiriam outras dificuldades implicadas em uma possível mudança que instituísse apenas a participação de organizações empresariais ao Programa como: a dificuldade de classificar algumas organizações (a exemplo dos fundos de pensão) segundo a sua natureza e o risco de que parceiros importantes do Programa deixassem de participar. Ou seja, esses fatores avaliados pelas gestoras da SPM teriam inibido uma mudança na concepção do Programa que incluísse apenas empresas (públicas e privadas).
Apesar de termos apresentado o desconforto das gestoras de que o Programa estaria se desvirtuando de seu propósito original a partir da adesão massiva de instituições públicas, localizamos em uma das vozes do campo-tema mais um argumento relevante que expõe outra razão sobre o porquê as instituições públicas não deveriam participar:
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O nosso temor do desenvolvimento do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça dentro de instituições públicas, como prefeituras e governos, é a influência inversa dessa. Onde ele faz com que o governo se volte para dentro e não faça as políticas para fora. Porque o objetivo do governo é atender o público externo, né? Como os organismos de política para as mulheres soam em geral institucionalidades muito frágeis, você criar outro polo em alguns lugares passa a concorrer com o polo... Por isso é que a gente tem um pouco de reticência em ampliar excessivamente o Programa dentro de governos. Entendeu?
Porque a prioridade da SPM de ampliação dentro do governo é o organismo de política das mulheres, para fazer política para fora. E quando você tem institucionalidades fracas tem coisa que concorre ao invés de ajudar... Quando você tem lugares mais bem estruturados, que as pessoas têm uma visão clara de qual é o papel, o que vão fazer, como o exemplo do Rio Grande do Sul, isso não ocorre porque ela sabe exatamente qual é o papel de um e qual é o papel do outro, e aí pode haver inclusive uma retroalimentação positiva. Mas quando você tem lugares muito pequenininhos o risco é muito grande. O risco é grande de que a instituição se volte só para dentro e não faça o seu trabalho para fora. Isso numa empresa não vai acontecer nunca (GSPM6, em 24 de outubro de 2013).
Esse discurso da gestora GSPM6 evidencia aquilo que está para além do argumento de que “as lógicas de funcionamento são diferentes”, mas aponta ainda para o fato de que a adesão das instituições públicas ao Selo poderia contribuir para o distanciamento do seu propósito central que deve ser a promoção da igualdade e justiça social “para fora” e não “para dentro” de sua estrutura funcional. Segundo ela esse perigo aumenta quanto mais frágil é a institucionalidade dos organismos de políticas para as mulheres em determinados lugares, uma vez que o Programa pode “concorrer” com outras iniciativas em prol da igualdade de gênero no município.
Esse argumento da gestora se vincula com a distinção que Thoenig (2007) faz em relação à efetividade dentro das organizações públicas e das organizações privadas. Segundo o autor, a efetividade das organizações públicas estaria mais vinculada aos efeitos de mudança societal do que em função de sua eficiência interna. Entretanto, o autor aponta também que as organizações públicas deveriam conjugar o equilíbrio entre a dimensão da efetividade relacionada à mudança societal e a da eficiência interna.
Com base nas contribuições de Thoenig e no destaque feito pela gestora sobre a participação das instituições públicas, somos levados a reconhecer que o Selo Pró-Equidade de Gênero poderia estar contribuindo para o desvirtuamento da efetividade dessas instituições relacionada à mudança societal, uma vez que se vincula a mudanças internas nas organizações. Poderíamos compreender também que o Selo possibilitaria estabelecer o equilíbrio das duas funções de produção ao destacar a relevância de que as relações de
168 trabalho internas às instituições deveriam também estar pautadas pelo princípio da igualdade de gênero e raça. Ou seja, no caso do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça, a efetividade de uma organização pública se daria na medida em que consegue conjugar efeitos positivos em relação à igualdade de gênero na sociedade a uma estrutura ocupacional interna que não reproduza desigualdades de gênero e raça.
Uma das gestoras de uma instituição pública outorgada com o Selo Pró-Equidade de Gênero e Raça ressalta que esse desconforto da SPM em relação à participação de organizações da administração pública direta é evidente nas oficinas formativas. Entretanto, em sua opinião, ao desconsiderar organizações desta natureza a SPM estaria deixando de abarcar um grande contingente de trabalhadoras/es ligados à administração pública direta e que isso seria incoerente com o seu propósito maior de fortalecer “a autonomia financeira das mulheres”. Nas suas palavras:
Vai em um município pequeno... Quem é o maior empregador de um município pequeno? É o serviço público. Os municípios que não têm nada, que não têm empresa, que não têm nada é a prefeitura que emprega. Então por que de repente ela não interessa tanto? Não sei, será que é de repente porque eu estou tentando mudar uma cultura de empresa privada do Brasil porque com o serviço público eu não preciso tanto me preocupar porque depois a gente pode ter uma norma que mude isso. Não sei. Eu só fui para uma oficina, que foi a última; e para mim ficou muito claro no discurso delas [as gestoras da SPM] que o interesse não é pelo serviço público, é pela iniciativa privada de adesão ao Programa.
E elas falaram mesmo: “O nosso interesse é principalmente por empresas privadas”. É uma coisa que está no discurso. E na hora eu não entendi porquê. Se o foco é o mundo do trabalho não interessa quem está contratando, porque o que eu quero é mudar a autonomia financeira das mulheres... (GIP2, em 24 de outubro de 2013).
Os discursos expostos nessa seção em relação ao desconforto das gestoras da SPM sobre a adesão maciça de instituições públicas no Programa revelam, sobretudo, o descontentamento da aplicação de uma concepção de política que estaria em desacordo com o seu propósito central de angariar a participação de empresas (públicas e privadas).
Sobre este ponto, deve-se relembrar que o Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça foi concebido tendo como inspiração outras iniciativas de certificação de empresas vinculadas à estratégia de responsabilidade social empresarial. Logo, a expectativa de criar um Selo para certificar organizações era a de, principalmente, dialogar com a linguagem do mundo corporativo. Mas ao passo em que a cada edição mais instituições
169 públicas da administração direta passam a aderir ao Programa, esse propósito central de “falar a língua” das empresas inseridas na lógica de mercado é sedimentado contribuindo para dissipar o seu sentido original.
Portanto, o incômodo central das gestoras em relação à entrada maciça de instituições públicas no Programa se deve principalmente à ruptura de seu sentido original, muito mais do que a dificuldade de avaliação e orientação de organizações com “lógicas diferentes” como uma análise superficial dos discursos pode nos fazer acreditar. Esta é uma “zona de incerteza pertinente” em aberto que, apesar de já ter mobilizado algumas tentativas para a sua resolução – como a inclusão das categorias ouro, prata e bronze na quarta edição e diversas conversas entre as gestoras da SPM - persiste submersa em dúvidas sobre qual seria a decisão mais coerente a ser tomada pelo corpo burocrático, preservando a sua relação junto a organizações parceiras do Programa.
5.3 TERCEIRA “ZONA DE INCERTEZA PERTINENTE”: O LUGAR QUE O