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SCADA Sisteminde ĠletiĢim

3. SCADA SĠSTEMĠ

3.3. SCADA Sisteminde ĠletiĢim

“Falta de interesse da gente não foi, né. Eu ia até na escola vê... mas chega um ponto que tá rapaz, né... né possível que cê tenha que tá atrás... rapaz, moça... tê que pajiá... Saía pra ir pra escola e não ia.”

Num dos anos em que parou de estudar, Paulo Roberto perdeu o direito de ser estagiário em uma empresa da cidade. O estágio remunerado era vinculado à escola. A empresa, assim que tomou conhecimento de que ele havia parado de freqüentar as aulas, dispensou-o do estágio, apesar dos protestos de Dona Ângela Maria e do próprio Paulo Roberto. Paulo disse que foi bastante “ingênuo” neste caso, ele pensou que, sendo um bom funcionário, não seria desligado do estágio mesmo se abandonasse os estudos.

Para Paulo Roberto, o fato de ter interrompido os estudos justifica-se por ter se interessado por coisas que a escola não poderia lhe oferecer:

“Eu acho que amizade teve a ver também. Ah... eu acho que na minha opinião mesmo foi que eu comecei a descobrir muita coisa que não tinha na escola. Então... assim... aquilo me interessava mais... comecei a namorar, na época eu tava bebendo, gostava de beber... festas... essas coisas assim me chamavam a atenção.”

Dona Ângela também acredita que as amizades tenham exercido sobre Paulo Roberto muitas influências nesse sentido:

“Eu acho que tinha as amizades também. Eu lembro assim que ele tava saindo... terminando de tomar banho, tinha colega dele esperando. A gente não quer falar que fulano fez isso porque eu acho que ninguém faz a cabeça da gente. Eu penso que, quando eu não quero, ninguém faz. Mas todos os dias tinha gente aqui.”

Paulo Roberto disse ter se arrependido “e muito” de ter ficado tanto tempo sem estudar, esse sentimento fica mais forte, segundo ele, todas as vezes em que toma conhecimento de que alguém que estudou na mesma época em que ele estudou já se encontra na universidade. Por outro lado, Paulo acredita que “a gente não deve arrepender nunca do que faz”, até porque, segundo ele, conheceu “muita coisa diferente, muita gente, muita coisa”. Por isso, para ele, “tem coisas que eu conheço da vida que muita gente não conhece”. Quando perguntado que coisas seriam essas, ele respondeu:

“Posso falar mesmo?... Posso ser bem sincero?... Ah... a respeito de sexo... conheci muita coisa. Conheci muita gente diferente, sabe. Conheci gente assim de toda espécie que você

pensar. Conheci gente que era ladrão, conheci gente que era santo, conheci gente que usava droga, conheci gente que bebia, conheci gente que não fazia nada, conheci gente que trabalhava muito, gente que não trabalhava nada, conheci todo tipo de pessoas.”

É possível, então, que essas pessoas com quem Paulo Roberto se relacionou nessa época tenham realmente exercido forte influência sobre ele, pelo menos no que diz respeito a interrupção dos estudos, já que, segundo ele, “a maioria dessas pessoas não tinham interesse nenhum de estudar”. E Paulo afirmou que eles o achavam “bobão”, e que acreditavam que seriam as pessoas que “iam mudar” a vida dele, mas nem isso impedia a amizade, já que para ele:

“não é porque essa pessoa roubou que eu não posso ser amigo dela, sabe. Não é porque a pessoa... o cara é homossexual que ele não pode ser meu amigo. Não é porque aquela pessoa usa droga que eu não posso ir lá conversar com ela.”

Hoje reconhece que, embora tenha aprendido muito com essas pessoas, teria aprendido mais na escola, mas essa é a sua visão atual: “depois é que eu descobri que na verdade aquilo ali tava tudo errado”. Na época ele achava “o máximo” o fato de ser amigo dessas pessoas e não ter envolvimento nenhum com roubo ou com drogas: “nunca fiz nada de mais... eu sempre sabia o meu limite”.

Voltou a estudar, segundo ele, porque ele mesmo sentiu “necessidade”:

“Assim... foi uma idéia minha, sabe, porque eu não fui obrigado, eu senti necessidade disso... eu passei por uma fase... era novo... achava que as coisas sempre seriam como eu queria... mas aí você vai vendo que não é como você quer... hoje assim no caso... meu avô já está velho, minha avó tá velha... o dia que eles morrerem... o que que vai sobrar? Vai sobrar... vai ficar eu, minha mãe, minha irmã, né... e eu não vou ser sustentado a vida toda por eles. Eu vou acabar ficando, ficando pra trás, porque meus amigos... eu tenho amigos hoje que moram em Goiânia... já têm escolaridade, estão na faculdade... Então a gente começa a perceber as coisas, né.”

Paulo Roberto disse que outro motivo que o fez voltar a estudar diz respeito a sua família. Tanto Dona Ângela quanto Dona Tereza fazem questão de frisar as qualidades de Paulo Roberto. Para a avó: “Em casa o Paulo não dá problema, graças a Deus. Ele é ótimo, ele não é malcriado, ele é educado com a gente, sabe.” E a mãe, mesmo reconhecendo que ela e Dona Tereza, são “suspeitas” para falar sobre ele, em função do grau de parentesco, diz que:

“O Paulo é uma pessoa muito boa... Tem às vezes as revolta, tudo, mas ele é um menino que com a gente ele não tem briga. Às vezes ele faz alguma coisa errada, a gente chama a atenção, ele não responde. Às vezes faz, faz porque ele acha que tá certo, mas ele não tem o hábito de tá brigando com a gente.”

Essa imagem positiva que mãe e avó fazem influencia Paulo Roberto em suas atitudes, “eu sempre procurei fazer as coisas certas”. Quando parou de estudar, Paulo Roberto lamentava, segundo ele, estar decepcionando os avós e a mãe. Por isso, esse foi, segundo ele, um dos motivos que o levou a retomar o estudo, “já pedi desculpas pra eles... tô pedindo, mostrando pra eles que esse ano eu tô estudando”.

Em todos os anos em que iniciou a primeira série do ensino médio, inclusive no ano em que a concluiu, Paulo Roberto foi aluno do professor Marcelo, de História. Esse professor afirmou que ele se destacava tanto nas aulas, por suas participações pertinentes, quanto nas avaliações. Mas, ainda assim, não via no aluno uma dedicação total ao estudo:

“Fez boas provas, mas não demonstrando tanto interesse. Fez boas provas pela capacidade dele mesmo de argumentar, mas não era demonstrando tanto interesse. Ficava atento, participava, mas eventualmente eu pegava ele conversando. Não era uma empolgação total.”

No segundo ano do ensino médio, Paulo Roberto deixou de estudar na Escola Técnica. Transferiu-se para um colégio estadual. O motivo alegado na escola foi de que as aulas de sábado, que começavam ao meio dia, eram incompatíveis com o horário de trabalho dele, que se encerra às 15 horas. Ou seja, para estudar aos sábados, Paulo Roberto tinha que sair no mínimo três

horas mais cedo do trabalho nesse dia da semana e isso, segundo ele, trazia- lhe conseqüências negativas sobre o seu salário, uma vez que recebe comissões sobre vendas.

Além desse motivo, entretanto, Paulo Roberto admitiu que trocou de escola também porque estava com medo de ser reprovado em Matemática. Devido a uma troca de professor2, a turma dele passou a contar com um profissional mais exigente. Paulo achou que não conseguiria acompanhar os ensinamentos do novo professor e procurou abrigo em outra escola. O critério da escolha foi, portanto, ser uma escola mais fácil que a Escola Técnica:

Ele é um bom professor, só que ele é muito rigoroso. Eu não tava acompanhando muito bem a matéria dele. Não tava entendendo... Um pouco não tava entendendo e um pouco tava um pouco desinteressado, não vou mentir não. De certa forma eu tava desinteressado, porque o ano anterior eu ficava até duas horas da manhã estudando, e no ano passado eu não tive interesse de estudar... e nos finais de semana eu ia pra casa da minha namorada em Mineiros. Eu fiquei com medo de bombar... Então eu fui pro [nome da escola] que é uma escola mais fácil.”

Em nenhum momento Paulo Roberto considerou a possibilidade de se transferir para uma escola particular, por dois motivos, segundo ele: por não ter condições financeiras para isso e por não se sentir bem com pessoas de classes sociais mais elevadas:

Primeiro porque eu não tenho condição. Se eu me esforçar, eu tenho como pagar porque eu trabalho. Só que o meu salário eu não direciono totalmente a isso [...] E na escola particular muita gente que estuda nela são pessoas que têm condições financeiras boas. Você conheceu a minha casa, viu onde que eu moro, tudo. Então, eu... eu... eu não conseguiria... eu não tenho familiaridade com pessoas assim. Eu prefiro pessoas mais no meu nível de vida.”

Paulo Roberto, entretanto, considerou a possibilidade de ingressar em uma suplência (ensino supletivo), mas, segundo ele, não foi possível matricular-se em virtude de não ter a idade mínima exigida. Além disso, ele desconsiderou a

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possibilidade de fazer esse tipo de curso por achar que poderia não “aproveitar muito” por ser “só seis meses”.

Paulo Roberto comentou que se surpreendeu com o grau de dificuldade da escola onde estuda atualmente; ele esperava que fosse mais fácil. Ainda assim, ele foi aprovado para a terceira série do ensino médio.

Mobilização Familiar: até que ponto?

Dona Ângela Maria sabe em que série estão Paulo Roberto e Paula Cristina e conhece detalhes de suas trajetórias escolares. No entanto, o fato de Dona Ângela Maria ter cursado Magistério e, durante muito tempo, ter sido professora nos dá a impressão de que Paulo Roberto teve sempre o acompanhamento dela no que se refere às tarefas escolares. A realidade, no entanto, nos mostra que, embora tivesse capacidade para ajudá-lo, Dona Ângela não tinha tempo:

“O Paulo, mesmo quando era pequeno, estudou sozinho, porque eu não tinha tempo de ensinar. Eu saía cedo, às sete horas, ele ia pra escola. Eu chegava pra almoçá, ao meio dia, às vezes ele tava almoçando ou às vezes ele tinha acabado de almoçá e tava fazendo tarefa. A uma hora, eu saía. À tarde eu chegava, tinha que chegá e saí pra escola. Se eu parasse um pouquinho pra conversar com alguém, aí eu chegava atrasada. E ele, quando eu chegava à noite, ele tava dormindo, então eu não tinha tempo de vê ele.”

Paulo Roberto estudava na mesma escola onde a mãe lecionava, mas ele estudava pela manhã e ela trabalhava à noite. Segundo a mãe, quando eles moravam no colégio, “era mais fácil”, mas depois que saíram de lá (Paulo Roberto estava na segunda série), o contato com o filho ficou ainda mais difícil nos dias úteis.

Paulo Roberto, de fato, pouco precisava de ajuda para as tarefas escolares. Segundo a professora Marilda, da primeira série, “ele não foi o tipo

de aluno que precisava tanto de ajuda, de ter alguém pra orientar”. Nas poucas vezes em que precisava de ajuda, era o tio José Antônio que a prestava.

Mesmo reconhecendo que não teve tempo suficiente para dedicar à escolarização do filho, Dona Ângela acredita que o fato de poder ter corrigido o filho quando observava alguma coisa errada no seu caderno: “de vez em quando eu passava os cadernos dele” pode ter contribuído com o seu desempenho escolar: “eu fazia ele apagar”. Em relação à filha, entretanto, Dona Ângela lamenta não tê-la podido corrigir, em função de ela ter iniciado seus estudos no CBA – Ciclo Básico de Alfabetização – e a escola orientar aos pais que não corrigissem a criança.

Segundo a Professora Marilda, Paulo Roberto sempre fazia as tarefas de casa. Marilda acredita que, embora a avó não o ajudasse efetivamente com os trabalhos, ela verificava diariamente os cadernos do neto para se certificar de que tudo havia sido feito.

Apesar de trabalhar durante todo o dia, às reuniões e a outros eventos promovidos pela escola, Dona Ângela disse que sempre comparecia

“Sempre participei, isso aí eu nunca deixei de fazer. Matava o serviço, era muito raro minha mãe ir. Minha mãe trabalhava lá, mas eu sempre ia.”

Estimulada pela Irmã Bárbara, Dona Ângela, no início da trajetória escolar dos filhos, fazia questão de comprar materiais escolares de boa qualidade para eles, acreditando que teriam mais interesse em estudar se tivessem um material melhor:

“Aí eu comprava caderno melhor... tudo era assim... borracha melhor. Eles iam junto, aí comprava mais o que eles queriam. Eu apertava, mas comprava o que ele queria. Eu encapava os cadernos dele.”

Paulo Roberto, quando pequeno, gostava muito de ler gibis e recebia o apoio da família para isso. Embora houvesse “gente” que falasse que gibis atrapalham a leitura, Dona Ângela nunca proibiu que Paulo Roberto os lesse. Ao contrário, freqüentemente dava dinheiro ao filho para que os comprasse. Além disso, segundo a família, ele ganhava gibis de seus primos

com muita freqüência. A decisão de Dona Ângela Maria de não impedir o filho de ler gibis recebeu o apoio de Dona Tereza, “que nada... gibi é bom pra ficá bom pra lê, desenvolvê a leitura”, e do próprio Paulo Roberto, “ainda bem que [me] não tirou [o gibi]”. Segundo Dona Ângela Maria, Paulo Roberto, mesmo quando ainda não era alfabetizado, “pegava o gibi assim como se ele estivesse lendo a história... ele não pegava de cabeça pra baixo”. Eventualmente, segundo a avó, Paulo lhe pedia que lesse gibis para ele:

“Aí eu ia lê. Eu tava lendo aqui, ele já tava contando a história lá adiante. ‘Ah... não... cê tá sabendo mais do que eu... pela figura ele sabia o que tava acontecendo.”

Irmã Bárbara também comentou sobre esse gosto de Paulo pelos gibis. Ela disse achar interessante o fato de dar a impressão de ele estar realmente lendo as revistinhas, embora ainda não fosse alfabetizado: “ele punha o dedinho assim e ia seguindo as figuras”. Além de gibis, Paulo Roberto gostava de folhear uns livros ilustrados que havia em sua casa. Segundo ele, sua avó achava interessante que ele folheasse os livros sem destruí-los, o que para ele era um estímulo. Gostava também de folhear a Bíblia que havia na casa de uma tia. Durante a catequese, que freqüentou quando tinha cerca de dez anos, Paulo Roberto gostava de ler “aquelas histórias da bíblia”.

Quando criança, normalmente Paulo Roberto não brincava na rua, até porque, segundo Dona Ângela, “ele foi de ficar mais em casa porque sempre foi viciado em televisão”. Isso também foi estimulado pela avó, principalmente depois que “ele arrumou um ‘skate’, desceu a Anhanguera, quase tocou debaixo de um caminhão”. Depois desse dia, segundo Dona Ângela, elas passaram a preferir que Paulo Roberto trouxesse os amigos para brincar em casa, “a casa vivia cheia de criança”. Quando eventualmente brincava fora de casa, havia, segundo Dona Tereza, sempre a preocupação em saber sobre as companhias de Paulo Roberto.

O hábito de Paulo Roberto de ver televisão foi sempre estimulado pela família:

“O Paulo era pequenininho, idade de dois, três anos. Cê dava banho nele, punha ele no sofá, ligava a televisão... cê podia esquecê.”

O próprio Paulo Roberto disse que a televisão foi sua “babá”. Não havia, então, qualquer controle, por parte da família, em relação ao tempo de exposição à televisão, nem mesmo quanto a horários:

“Ele sempre fica até tarde vendo televisão. Toda vida. Aqui nunca teve esse negócio: ‘Você não pode assistir isso, você não pode assistir aquilo, toda vida em casa minha mãe, meu pai, foi liberal, né, e eu peguei a mesma coisa, então eu nunca proibi dele assistir televisão, então assiste até a hora que quiser. Ele fica até tarde.”

Irmã Bárbara disse achar interessante que Paulo, “desde pequeno”, gostasse de assistir a filmes “difíceis de entender”. Segundo ela, ele “foi uma criança assim muito viva, muito ativa, de querer conhecer, de querer saber”.

Essa religiosa acredita que o desenvolvimento de Paulo Roberto, nessa época, está associado à mobilização da família, até porque, segundo ela, Paulo nem sempre esteve estimulado em relação à escola:

“Teve seus altos e baixos, dele não querer aprender, dele não querer fazer as tarefas, teve essas dificuldades, dele não querer estudar, houve esses altos e baixos do Paulo, mas acho que a família sempre foi muito atenta ao desenvolvimento dos dois, do Paulo e da Paula.”

Essa atenção a que se refere Irmã Bárbara, entretanto, foi se tornando menos efetiva à medida que Paulo Roberto crescia. A partir de determinada época, não houve por parte da família qualquer controle em relação ao desempenho de Paulo na escola:

“De certa forma sempre me deixaram um pouco liberado, porque as duas trabalhavam, todo mundo trabalhava, né. Não tinha tempo de ficar fazendo cobrança, né. Então de um certo período pra frente, minha mãe já até me deixou mais à vontade ainda [...] De um certo período pra frente, minha mãe nem importava se eu tinha nota ou não, se eu quisesse mostrar, tudo bem, não ficava aquela coisa ‘Cadê as notas? Cadê aquilo? Cadê as provas?”

Esse período culminou com o abandono dos estudos na primeira série do ensino médio. Dona Ângela, como já foi dito, admitiu que nessa época realmente não controlava as atividades do filho, porque ele já era um “rapaz” que não precisava “pajiá”.

É possível, portanto, considerar distintamente dois períodos na trajetória escolar de Paulo Roberto. O primeiro em que houve uma certa mobilização familiar para a ascensão de Paulo na escola, e outro em que a família deixou de manifestar interesse em relação a isso. E isto pode ter sido, junto com outros fatores, um dos motivos de Paulo ter ficado quatro anos sem estudar.

O processo de socialização de Paulo Roberto: ausência de diálogo

Sobre seu processo de socialização familiar, Paulo Roberto reclamou da ausência de diálogo entre ele e seus familiares, afirmando que “sempre foi assim”:

“Eu dentro de casa não tenho tanto contato... tenho contato com minha avó, com a minha mãe, com a minha irmã, mas... não tenho tanto diálogo assim, sabe... de eu expor o que eu acho e o que eles acham.”

Depois da experiência de ter conhecido “gente de toda espécie”, já relatada, Paulo Roberto passou a considerar que “os melhores amigos é a família”. No entanto, reconhece que, no caso dele, não houve “contato” suficiente: “a gente tem contato mas não é aquela coisa assim... todo mundo sente carinho pelo outro, mas não é aquela coisa assim ‘Vamos sentar junto, vamos conversar’”.

Acredita Paulo Roberto que esse “erro” que a família cometeu em “nunca” procurar a aproximação do outro seja difícil de ser corrigido, uma vez

que se criou em todos os membros da família uma certa “vergonha” de “tomar a iniciativa” do primeiro contato.

Paulo Roberto, em outro momento da entrevista, demonstrou que a ausência de diálogo faz com que ele desconheça alguns aspectos da vida de seus familiares mais próximos, porque ele próprio não tem interesse de saber sobre determinados assuntos:

“Meu avô tem uma fazendinha e eles tem um negócio, mas eu não sei como é o negócio deles... eu não sei se é... o que eu lembro é que todo mês esse rapaz que ficou com as terras dele pagava uma certa quantidade, todo ano, por ano. Mas eu não sei como é que é porque nunca tive interesse de ficar perguntando pra eles, né... e depois né acham que a gente tem algum interesse... tá interessado.”

Bastante significativo para o processo de socialização de Paulo Roberto é o fato de ele ter crescido sem nenhum contato com o pai. Isso, como já foi dito, fez com que alguns de seus questionamentos não fossem dirigidos a ninguém, uma vez que se recusava conversar com a mãe, uma mulher, sobre assuntos que acreditava serem de homens.

Participação em outros grupos: a importância do trabalho na discoteca

Todos os empregos que Paulo Roberto teve, segundo ele, contribuíram para aumentar sua capacidade de comunicação. Quando

Benzer Belgeler