7. SAYI GRUBU
7.2 SAYI GRUBUNUN KELİME GRUPLARI İÇİNDEKİ DURUMU
Os castanheiros, geralmente vindos de outras regiões, atuavam nos municípios de Marabá, São João do Araguaia, Itupiranga e Jacundá. Para a realização do trabalho de coleta e poderem se manter até o final da safra, no mês de maio, teriam que ser aviados por patrões. Normalmente, ao chegarem a Marabá os trabalhadores procuravam as pensões para poderem ser vistos e posteriormente contratados no serviço de coleta. Muitas vezes, o castanheiro hospedava-se apenas com a roupa do corpo.
Em alguns casos, os donos das pensões faziam o papel de agenciadores de homens, recebendo dos patrões a conta da hospedagem, que era posteriormente debitada ao castanheiro. Este último ganhava um adiantamento em dinheiro, normalmente gasto na própria cidade em casas de diversão.156 O mais comum era que os patrões arregimentassem os castanheiros por meio de um encarregado ou intermediário, mais conhecido como “gato”, que percorria as pensões, casas de refeições e cabarés. Nesses mesmos locais era feito o acordo e o castanheiro era registrado no “livro do patrão” para receber todo o equipamento de que necessitava. Nessa mesma oportunidade, já era estabelecido o preço da castanha a ser coletada.157 Alguns castanheiros recebiam financiamento do comércio local de Marabá e organizavam grupos de trabalhadores separados para coletar a castanha. 158
Figura 25 - Castanheiro em Marabá, equipado para entrar na mata em meados da década de 1970
Fonte: Casa de Cultura de Marabá.
156 PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE MARABÁ, op. cit. 157 MONTEIRO, op. cit.
158 Em Marabá são conhecidos os casos de castanheiros que se aviavam com mais de um patrão. Quando isso era descoberto, o último patrão pagava aos outros o valor que o castanheiro tinha recebido e o castanheiro assumia com este o valor da dívida (PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE MARABÁ, op. cit.).
A forma de apropriação do excedente era feita por meio de uma troca das castanhas que eram coletadas e as mercadorias adquiridas antes do castanheiro ter entrado na mata para a realização da coleta. O dono do castanhal estipulava um preço pelo hectolitro que era trocado por tais mercadorias, vendidas a um preço bem superior aos custos. Ao entrar no castanhal, o castanheiro ia equipado com o necessário para a sua manutenção na mata e para a realização do serviço de coleta das castanhas. Era o típico sistema de aviamento ou aviar produtos em troca da safra extraída.159 Esse adiantamento aumentava ainda mais a dívida do castanheiro com os patrões. 160
Normalmente a viagem para os castanhais tinha início pelo rio Itacaiúnas até serem alcançados os afluentes e igarapés. Esse percurso costumava durar mais de cinco horas em um barco a motor. Ao final da viagem, os castanheiros “arranchavam-se” ou faziam a primeira refeição na mata. No dia seguinte eram levados até as “colocações”, pontos no meio da floresta onde era feita a coleta das castanhas e informados sobre onde ficava o barracão para o recebimento da safra coletada. Os castanheiros armavam uma barraca nas colocações e dentro da mesma era instalado um girau, onde eram guardados os pertences e o “trempe” ou fogão. Caso fosse necessário, os castanheiros procediam à limpeza das trilhas que levavam às “reboleiras”, locais onde se concentravam as castanheiras. Um pequeno paiol era preparado para depósito das sementes que fossem retiradas dos ouriços.161 No final da tarde, após um banho no igarapé próximo, os castanheiros se alimentavam e aguardavam o descanso. 162
159 Entre os equipamentos e produtos aviados aos castanheiros destacavam-se: uma rede para descanso, cordas, mosquiteiro, cobertor, facas, um rifle com munição, paneiros para a coleta dos frutos, fumo de corda, fósforo, lanterna com pilhas, medicamentos para a malária e picada de cobras, botinas, sebo de gado, querosene, lamparina, panelas, pratos, bacias, tigela, colheres e o “rancho”, que constituía a alimentação do castanheiro e que normalmente continha farinha, arroz e um pouco de carne seca. O castanheiro podia também receber um adiantamento em dinheiro para cobrir algumas despesas antes de entrar na mata, como o envio de recursos para os parentes que permaneceram em outras regiões ou para a diversão nos cabarés de Marabá (MONTEIRO, op. cit.).
160 Existiam vários casos relatados pela memória local de castanheiros que gastavam mais do que recebiam de adiantamento nos bares e casas de diversão. Muitos acabavam presos e depois eram “resgatados” pelos patrões que acabavam assumindo as dívidas, que deveriam ser descontadas do castanheiro no final da safra (Ibid.).
161 SAMPAIO, op. cit., 1998.
162 Os memorialistas locais guardaram alguns relatos referentes à rotina de trabalho dos castanheiros. De acordo com os mesmos, de manhã cedo, com roupas grossas, um castanheiro quebrava uma jatoba (fêmea do jaboti) encontrada na mata e o outro coletava alguns ouriços, retirando as sementes que eram descascadas para serem raladas em uma raiz pontiaguda do cipó “paxiuba”. O castanheiro enchia a mão com algumas castanhas roçando-as contra a parte espinhosa da raiz obtendo uma massa que, misturada com a água, produzia o “leite” obtido com um coador de pano. O leite da castanha-do-pará era misturado com a carne da jatoba, dentro de uma panela de ferro e cozido, propiciando a refeição dos castanheiros. Em alguns casos as jabotas eram mantidas em um pequeno chiqueiro, prontas para serem abatidas e depois consumidas. Esse prato, conhecido como “mujica”, era o predileto dos castanheiros. Outro alimento preparado pelos trabalhadores da castanha, antes do início do trabalho na mata, era o “pubo”, uma mistura do mesmo leite de castanha com farinha de mandioca (MONTEIRO, op. cit., p. 48).
Para o trabalho de coleta, os castanheiros iam equipados com o paneiro, feito de cipó, utilizado para transportar os ouriços coletados; o machado ou terçado, para o corte do ouriço e retirada das sementes; a porunga ou lamparina; o pé de bode ou furqueta 163, própria para remexer folhiço e fisgar os ouriços com um simples manejo de braço 164, sendo os mesmos imediatamente jogados no paneiro, que ficava nas costas do castanheiro. Uma vez obtida uma quantidade volumosa de frutos após quase um dia de trabalho, os mesmos eram reunidos em um terreiro, fora do alcance da copa das castanheiras para evitar o perigo de um acidente com a queda de algum outro fruto. 165
Após alguns dias reunindo os ouriços, tinha início o corte. Antes disso, o castanheiro improvisava um paiol, na verdade um cercado de madeira para colocar os frutos já coletados e também para protegê-los dos animais que apreciavam a castanha, como porcos do mato, cotias e tatus. Para o trabalho de corte, o castanheiro colocava pedaços de madeira como apoio no chão e sobre os mesmos cortava a tampa dos ouriços com um único golpe. Uma vez retirada a tampa ou o “opérculo” do fruto, outros golpes menores eram dados para a retirada das sementes, que eram colocadas no mesmo paiol que abrigara antes os ouriços e ficavam lá amontoadas até poderem ser levadas ao barracão do castanhal. Um castanheiro poderia obter com a quebra dos ouriços até cinco hectolitros por dia de castanhas. Em condições normais, 3 ou 4 paneiros cheios de ouriços rendiam, em média, um único paneiro cheio de sementes.
As sementes também tinham que ser protegidas dos animais da floresta, principalmente as cotias, que levavam as sementes e as guardavam no solo para posterior consumo e ainda do quatipuru, pequeno e ágil esquilo, que roubava as sementes para também guardá-las na parte oca das árvores. Por isso era comum o castanheiro cobrir os paióis com arbustos de espinhos, algo que em termos práticos, produzia poucos resultados.
Um dos graves problemas que afetavam a produção extrativa da castanha-do-pará era exatamente o fato das sementes permanecerem por muito tempo em contato com o solo, sujeitas às chuvas e intempéries naturais. O terreno onde o ouriço caia exercia influência na qualidade da castanha. Se fosse alto e seco, bastava que o fruto permanecesse protegido da
163 Na verdade, a furqueta era um pedaço de vara com aproximadamente um metro de comprimento que, depois de descascado, era rachado em uma de suas extremidades, ficando sob a forma de um “pé de bode” com quatro dentes mantidos amarrados com cipó através dos quais o ouriço era agarrado (MONTEIRO, op. cit.).
164 Em outras áreas da Amazônia o próprio facão ou terçado podia ser utilizado para a coleta dos ouriços caídos no solo.
165 Após o trabalho de coleta, o castanheiro retornava para a sua barraca à tarde, cortava algumas castanhas para serem raladas a fim de obter o leite e colocá-lo junto ao jaboti, que já havia sido deixado para cozinhar. Para complementar a alimentação preparava, às vezes, um cupuaçu com leite de castanha. O castanheiro também tomava um banho para retirar do corpo a sujeira escura saída dos ouriços. Após o jantar, o castanheiro ainda poderia tentar abater outra caça para a refeição no dia seguinte. Com o passar dos anos, com a intensa presença dos coletores de castanhas nas matas do Sudeste Paraense, a caça e os jabotis começaram a rarear e nessa situação o castanheiro passava a “cabeça de galo”, o leite de castanha fervido e misturado com a farinha de mandioca com um pouco de pimenta, para dar sabor (SAMPAIO, op. cit., 1998).
chuva e do sol intenso, para garantir a qualidade natural das sementes. Quando caia em solo molhado e frouxo, o ouriço costumava penetrar fundo no mesmo, permanecendo exposto ao sol e à chuva antes de ser coletado. A penetração de água misturada com argila e outros elementos nocivos podem alcançar as sementes e contribuir para a formação de fungos. Nesse caso, até 30% do produto colhido podia ser perdido.166 Nenhuma providência concreta foi efetuada nos anos de maior produção de castanha para, ao menos, amenizar esse problema. Aliás, esse processo de trabalho nos castanhais não sofreu, praticamente, nenhuma alteração até a fase de declínio da castanha no Médio Tocantins, a partir da década de 1970.
Enquanto era efetuado o corte, outros ouriços continuavam a cair das árvores e o processo descrito anteriormente se repetia. Para o castanheiro da região de Marabá, uma safra considerada boa equivalia a algo em torno de 200 hectolitros de castanha. Finalmente, quando a colocação já estava esgotada ou considerada “vazia”, o castanheiro ia embora apesar de ainda ocorrer a queda de ouriços e de algumas outras castanheiras terem sido deixadas de serem coletadas, por estarem em local de difícil acesso ou mais distantes. Por outro lado, os castanheiros poderiam se aviar novamente e retornar para a chamada “catação”, última etapa de trabalho na safra da castanha. 167
Na ida para a sede do castanhal, depois de encher por completo o paneiro com as sementes, o castanheiro ainda completava o mesmo com uma “cabeça” ou uma quantidade extra. Caso a trilha para o barracão fosse muito extensa, exigindo uma grande caminhada para a volta, o castanheiro podia fazer uma parada no meio do caminho para um descanso e colocar o paneiro em um “mutá”, constituído por dois pedaços de paus encostados em uma árvore na posição horizontal e apoiados em forquilhas, funcionando como um tipo de estrado ou assento no tronco das árvores na qual o castanheiro se apoiava, sem tirar o paneiro das costas. Esse dispositivo era utilizado também quando o castanheiro estava à espera de algum animal para ser abatido.168
O emprego de animais no transporte, após a Segunda Guerra Mundial, representou uma maior rapidez na operação da coleta, ao mesmo tempo em que serviu “para alterar o caráter puramente expedicionário” do extrativismo. O castanhal necessitava de uma maior manutenção, como a implantação de pastagens e o plantio de capim para alimentar os muares utilizados no transporte. 169
166 REALE, Vicente Balby; SOARES, Laudelino Pinto. Castanha do Brasil: levantamento preliminar. Belém: Ministério da Agricultura, 1976.
167 Nesta última etapa do processo de coleta, o castanheiro não poderia retornar para a mesma colocação, uma vez que haveria a suspeita de que o mesmo pudesse ter deixado os frutos para uma posterior coleta. O preço da castanha proveniente da catação era, muitas vezes, superior (PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE MARABÁ, op. cit.).
168 Ibid.
Ao chegar ao barracão, a castanha era banhada em um córrego ou igarapé próximo e, em seguida, armazenada em um paiol improvisado feito de varas e forrado com palhas. Nesse rudimentar processo de seleção, que até o início do século XX não era realizado, eram retiradas as castanhas “chochas”, por não terem sido ainda formadas as amêndoas e que flutuavam na água por serem muito leves. Na lavagem, emergiam também as sementes podres. Após esta etapa, as castanhas já poderiam ser transportadas para Marabá. Mesmo após esse procedimento, o acondicionamento da castanha ainda deixava muito a desejar nos depósitos, com o chão úmido e sem a aeração devida, sob intenso calor. Normalmente, as castanhas deveriam ser reviradas constantemente para evitar a deterioração. O corte ou perda do produto deveria ser inferior a 5%, mas a falta de cuidado poderia fazer superar os 10% e alcançar até mais de 20% de perdas.
Figura 26 - Barco que transportava a safra da castanha até Marabá, em foto do final da década de 1920 Fonte: Casa de Cultura de Marabá.
O mesmo barco que trouxe os castanheiros para a mata transportava as castanhas para Marabá, tendo como tripulantes apenas o motorista-piloto e o barqueiro-cozinheiro. A partir do advento dos motores na década de 1920, algumas embarcações foram adaptadas com motor de quatro cavalos e meio de força na popa, os conhecidos “pentas”. O nome dado a essa embarcação têm origem na potência de seus motores medida em “HP”. Os pentas substituíram os antigos botes e batelões no transporte daquele produto e facilitaram a mobilidade pelos rios menores e igarapés, principalmente na bacia do rio Itacaiúnas.
O memorialista João Brasil Monteiro nos relata o acerto de contas que era efetuado entre o patrão e o castanheiro ao final da safra, sendo que tudo o que foi adiantado a este último estava registrado em um livro de “capa preta”. O acerto era feito na presença de um encarregado, do piloto da embarcação, do cozinheiro do barco e dos próprios castanheiros. O patrão pedia ao encarregado, que possuía outro caderno de anotações, a quantidade de caixas
de castanhas que cada coletor tivesse entregue. Verificado o crédito de cada castanheiro, o mesmo era confrontado com o que estava registrado no livro de “capa preta”, referente às mercadorias fornecidas “com acréscimo de 30%, no pé da conta, em razão das despesas inseridas ao transporte daquele aviamento”.170 Muito raramente o valor do adiantamento ou
aviamento era coberto pelo trabalho do castanheiro, ficando este preso a um regime de servidão por dívidas com o dono do castanhal. 171
Outro agravante nessa forma de obtenção do excedente da castanha era a não observância do peso correto do hectolitro, por parte dos patrões. No início da década de 1920, com a falta de um padrão de medida para as vendas ou embarques de castanha até Tucuruí, usava-se a barrica, medida de 120 litros, correspondente a três caixas de querosene. Posteriormente, tal medida foi substituída pelo hectolitro, um caixote que deveria corresponder a 100 litros de castanhas, mas que na prática comportava até 130 litros, com a chamada “cabeça”, que era a castanha colocada acima das bordas superiores da medida e que, segundo a tradição local, teria contribuído para o enriquecimento de muitos produtores. 172 Os antigos patrões jamais admitiram a fraude no processo de pesagem do hectolitro e sempre ressaltavam que pagavam os castanheiros de forma correta. Portanto, o pagamento feito ao castanheiro não têm relação com o lucro real obtido pelos patrões, que poderiam ganhar entre 100% a 500%. Portanto, para o castanheiro, nada afetava a cotação boa ou ruim do produto no mercado internacional ou os preços registrados em Belém pelas casas exportadoras. 173 A maior parte dos riscos no processo de extração das castanhas cabia ao próprio castanheiro. 174
Imprevistos produzidos pela natureza prejudicavam a safra da castanha, sobretudo as enchentes na bacia do rio Tocantins e os períodos de estiagem, que poderiam ocorrer até
170 MONTEIRO, op. cit., p. 51.
171 Outros relatos apontavam também o fato de que muitos patrões impingiam dívidas aos seus aviados, os quais eram obrigados a assinar compromissos apenas colocando uma “cruz” como assinatura. No final da safra eram conduzidos de volta à cidade para o acerto de contas. Muitos patrões tinham também um “guarda-livros”, que preparava a contabilidade e estabelecia os saldos que os castanheiros deveriam receber. Quando o patrão considerava esses saldos elevados, pedia para o guarda-livros refazer o cálculo abaixando ainda mais o saldo a ser concedido aos castanheiros, a um valor mínimo (SAMPAIO, op. cit., 2000). 172 De acordo com Walter Leitão Sampaio, que também atuou como patrão, o hectolitro era medido em uma
caixa que continha 110 litros, já com a respectiva “cabeça”, portanto, um pouco menos do que é descrito nos demais relatos por nós consultados (Ibid.).
173 LAGENEST, H. D. Barruel de. Marabá, cidade e habitantes. São Paulo: Anhembi, 1958.
174 As situações de maior risco apontadas eram as doenças, sobretudo a malária; os ataques dos índios; acidentes provocados pela queda dos ouriços; enfrentamento com animais selvagens , entre outros. Ao que parece, o perigo maior era com os índios, dos quais até mesmo a imprensa do sul do país deixou notícias referentes a ataques. Na fase da entressafra ou “verão”, alguns castanheiros poderiam ser contratados para os serviços preparatórios da coleta, como a conservação das estradas, os aterros dos alagadiços, reparos das pontes, limpeza dos igarapés, conservação de armazéns e depósitos. Normalmente esses serviços empregavam em torno de dez homens, sendo dois mensalistas responsáveis pela administração e outros oito contratados por empreitada. Em épocas posteriores, começou a ser feito também o serviço de limpeza das castanheiras com a retirada dos cipós que envolviam o tronco da árvore, trabalho que poderia facilitar a coleta dos frutos (MONTEIRO, op. cit.).
mesmo na estação chuvosa, prejudicando a retirada das castanhas do interior das matas. O escritor marabaense Augusto Morbach, nos deixou um relato sobre tais imprevistos:
“Mas, apesar de todas as precauções, acontecia de ficar toda aquela gente retida no recesso dos castanhais. Bastava uma estiagem de improviso e prolongada. Tomavam-se providências: suspendia-se o “corte” nas colocações centrais e todos cuidavam de aproveitar o serviço já realizado, e era um por todos e todos por um. Transferida a castanha dos centros para os pontos de embarque, esperavam-se as chuvas. E se estas não chegassem, então o sofrimento era grande para fazer chegar a produção ao porto de Marabá. Era o arrastar de canoas, dia e noite, pelos leitos vazios, hora sobre longos “gorgulhos”, para encalharem depois no visgo dos lameiros. Improvisavam-se tapagens e estivas, faziam-se descarretos e um dia, esfalfados e famintos e doentes, chegavam às águas grandes, ao porto da esperança, Marabá”. 175
As enchentes, que ocorriam todos os anos, podiam alcançar proporções imprevistas e praticamente inundar toda a cidade de Marabá, incluindo a zona portuária e os armazéns, onde eram depositadas as castanhas. Foi o que ocorreu em 1926, que praticamente destruiu a cidade e é lembrada pelos mais antigos, como a pior da história de Marabá.
Figura 27 - Ensacamento das castanhas na região do médio Tocantins paraense Fonte: Casa de Cultura de Marabá.
Todos esses problemas influíam na qualidade do produto que era colocado no mercado. Além do caso do Sudeste Paraense, as cheias dos rios afetavam a produção de
castanhas em praticamente toda a Amazônia, sobretudo nas áreas de produção mais distantes dos centros de comercialização do produto, como era o caso do Acre. O beneficiamento local poderia ser uma alternativa para minimizar esses efeitos. Contudo, o mesmo era feito em escala muito reduzida, embora se saiba da existência de usinas, por exemplo, no antigo território do Acre, desde o início da década de 1940. Além disso, a maior parte das castanhas era exportada na casca, aumentando os riscos de podridão ou ataque de fungos.
Além do processo de coleta e armazenagem serem feitos de forma rudimentar, poucas alterações foram verificadas na organização da exploração da castanha-do-pará ao longo de muitas décadas. No caso de Marabá, houve apenas um "aperfeiçoamento" no gerenciamento