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O estruturalismo linguístico surgiu no início do século XX e ficou conhecido mundialmente, em 1916, com a publicação da obra Curso de linguística Geral (CLG), de Ferdinand de Saussure. Segundo ele, a língua é um sistema de signos, ou seja, um conjunto de unidades que estão organizadas formando um todo. Define signo como a associação entre significante (imagem acústica) e significado (conceito) (ORLANDI, 2012).

A publicação desse trabalho constituiu-se um marco na história da linguística, ficando conhecida como a linguística do código, uma vez que definiu a língua como objeto imutável, um sistema estável de representação de signos.

De acordo com Saussure (1969, p. 18), "a língua é conhecida como um sistema de Signos", no qual existe uma relação direta entre significante (imagem acústica) e um significado (conceito). O significado (conceito) e o significante (som, ou imagem acústica) são inseparáveis. Esse ponto de vista, denominado pelos linguistas de estruturalismo, pressupõe que a fala existe em decorrência da existência da língua.

Saussure (1969) considerou a fala, em separado, como o ato linguístico individual dos sujeitos, que depende das circunstâncias psicofisiológicas de cada um. Em decorrência desse modo de pensar, a linguística da fala tem menor relevância em relação à linguística da língua, porque esse teórico não concebia os fatos de fala como algo que merecesse uma sistematização em seus estudos.

Considerando o contexto sócio, histórico e cultural, é possível inferir que Saussure tenha herdado princípios da corrente filosófica positivista e os tenha incorporado em sua teoria linguística. Uma característica do positivismo é a visão do sujeito separado do objeto, ele lidou com dualidades ou dicotomias, onde o conhecimento do homem se baseava na razão. Assim, onde existisse um estímulo haveria de ter uma resposta, ou onde existisse um texto, haveria de ter uma leitura única e generalizável (ORLANDI, 2012 p. 19- 26).

Em outras palavras, Saussure (1969) baseou-se na busca das propriedades do objeto e, a partir da definição desse objeto, de acordo com ele, seria possível generalizar esse conhecimento. Para ele, a significação resultava das relações sintagmáticas e paradigmáticas estabelecidas no texto.

Nesse modo de conceituar a língua, o sintagma compõe-se de uma combinação sequencial de signos linguísticos, representado por morfemas que se organizam linearmente e ordenadamente para formar uma palavra ou expressão no interior da frase. Por exemplo, é sempre fixo o lugar que o prefixo ocupa (à esquerda) na palavra, ou o lugar que o artigo ocupa na frase (antes do substantivo). O sintagma não existe isoladamente, mas se relaciona com outros, estabelecendo uma ou mais relações entre si.

As relações associativas ou paradigmáticas, segundo Saussure (1969), são definidas por um conjunto de signos que se relacionam na frase ou no texto, não necessariamente de forma linear, mas indeterminada, conforme as relações estabelecidas com outros signos na frase. Sintagma e paradigma se relacionam intimamente, uma vez que no conjunto formam a linguagem.

Para Paveau (2008), no entanto, a teoria saussuriana definiu como objeto da linguística a língua e não a linguagem. Nesse aspecto, a linguagem é considerada uma faculdade humana, que nos vem da natureza, enquanto a língua é parte dela e, porque é

composta de um arcabouço de regras e convenções sociais que viabilizam o seu uso, é também o produto da linguagem. A linguagem, nesse contexto, é vista como multiforme, não classificável, por não considerar possível inferir sua unidade, pertence ao domínio tanto individual como social.

Sob esse enfoque, no positivismo não se justificava o trabalho com a linguagem, nas entrelinhas. Os aspectos subjetivos implícitos no texto não eram valorizados do ponto de vista da ciência. O que pode explicar o fato de Saussure ter considerado, nesse estudo, a linguagem separada do sujeito.

Por conceber a semântica como algo estabelecido a priori dentro de cada língua, Saussure (1969) restringiu a atribuição de significados às relações entre os elementos estruturais nesse processo de análise linguística. Ele se concentrou no estudo da língua como algo exterior ao sujeito, como um sistema abstrato de representação, organizado por forças exteriores ao indivíduo e seu contexto. Para ele, “a língua é um sistema em que todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica (SAUSSURE, 1969, p.102).

Ele fez uma distinção entre o estudo sincrônico (descrição da estrutura) e diacrônico (descrição histórica) de uma língua, no qual destacou o estudo sincrônico como o mais importante, do ponto de vista de estabelecer a estrutura da língua.

Essa perspectiva inaugura outro modo de pensar a língua, para além da linguística histórica de F. Bopp, abordada em Grammaire comparée des langues indo-européennes (1985), assim como os trabalhos dos irmãos A.W. e F. Von Schlegel, de J. L. C. Grimm, de A. Schleicher e R. Rask. Esses teóricos, anteriores a Saussure, segundo Ducrot e Todorov (2001), partiam do pressuposto de que todas as línguas tinham uma origem comum e, portanto, em suas análises preocupavam-se em comparar as diferentes línguas, do ponto de vista de suas semelhanças e “parentescos”, procurando estabelecer correspondências, de modo independente dos seus contextos, por meio dos seus elementos gramaticais.

Saussure, no CLG, inova, em relação a isso, quando delineia uma teoria importante na história da linguística, pois rompe com a tradicional visão da linguística comparada. Trata-se de uma concepção objetivista semelhante a do positivismo, em que o ensino de leitura tem características de treino, de repetição, para internalizar o significado “correto”

do texto. Decodificar corretamente o texto requer que cada leitura tenha uma significação própria, isto é, convencional.

As implicações desse modo de pensar no âmbito das escolas eram (ou ainda é) determinantes do sucesso ou fracasso dos alunos, pois a leitura de textos, nesse modo de pensar, consente respostas únicas, consideradas certas, não abre espaço para outras leituras.

A leitura como decodificação “considera que o leitor, perante o texto, processa seus elementos componentes, começando pelas letras, continuando com as palavras, frases... em um processo ascendente, sequencial e hierárquico que leva à compreensão do texto´’ (SOLÉ, 1998). Segundo Solé (1998), as propostas de ensino decorrentes dessa concepção consideram que o leitor pode compreender o texto porque pode decodificá-lo totalmente.

A concepção saussureana é de que a língua é como um código, portanto como instrumento de comunicação, obedece a princípios racionais lógicos. Pressupõe um sujeito (pré) determinado pelo sistema, pois, nesse ato de ler, o texto é concebido como produto da codificação de um emitente a ser decodificado pelo leitor/ouvinte, bastando apenas o conhecimento do código utilizado (KOCH, 2006).

Em decorrência disso, a atividade de leitura, nessa visão de língua, “exige do leitor o foco no texto”, ou seja, a leitura obedece uma “linearidade”, uma vez que “tudo está dito no dito”. Cabe ao leitor o “reconhecimento dos sentido das palavras e estruturas do texto” (KOCH, 2006). Trata-se, portanto, de um modelo de leitura que:

[...] não pode explicar fenômenos tão correntes como o fato de que continuamente inferimos informações, o fato de ler e não perceber determinados erros tipográficos e mesmo o de que possamos compreender um texto sem necessidade de entender em sua totalidade cada um de seus elementos. (SOLÉ, 1998, p. 24)

Historicamente, até meados do século XX, o estruturalismo é marcado pela exclusão de “fenômenos dignos de atenção – tais como o equívoco, o nonsence, a ambiguidade –” e, por isso, é responsabilizado por instaurar uma “concepção de língua completamente asséptica”. É nesse “ambiente teórico” que na linguística americana surgem as concepções gerativistas (ORLANDI, 2012, p. 36).