De acordo com Orlandi (2012, p. 31) “o americano L. Bloomfield propõe nos Estados Unidos, uma teoria geral da linguagem”. Bloomfield se destacou como o principal defensor de uma linguística que se caracterizou como descritiva, a qual excluiu toda e qualquer influência do historicismo e da semântica. Nela, os linguistas deveriam se deter às análises de enunciados, sem uma preocupação com os sentidos dos mesmos.
Nessas análises, buscavam-se decompor os respectivos enunciados em busca das regularidades existentes, a fim de classificá-los e produzir uma descrição que seria a base de um método linguístico único e generalizável. A ausência de uma preocupação com os sentidos das palavras e a nítida relevância aos procedimentos mecânicos de descrição gramatical, traduzem um enfoque positivista em sua análise linguística.
De acordo com Orlandi (2009, p.38), “assim é que surge a gramática gerativa de Noam Chomsky”. Essa gramática ficou conhecida como gerativa “porque permite, a partir de um número limitado de regras, gerar um número infinito de sequências que são frases, associando-lhes uma descrição” (ORLANDI, 2009, p.38).
O gerativismo, termo utilizado como referência a um modelo de linguagem defendido por Noam Chomsky, ficou marcado teoricamente a partir da publicação de
Syntactic Structures (1957). Tal concepção parte do pressuposto de que a linguagem é um
fenômeno interno do falante e tem origem genética, inata do sujeito.
O mecanismo que essa teoria gerativa instala é dedutivo: parte do que é abstrato, isto é, de um axioma e um sistema de regras, e chega ao concreto, ou seja, as frases existentes na língua. Essa é a concepção de gramática: um conjunto de regras que produzem as frases da língua (ORLANDI, 2009, p.38).
Chomsky baseia seu estudo da linguagem nesse sistema de regras, pelo qual pretende que a linguística saia de seu estágio de mera observação e classificação dos dados. A teoria da linguagem deixa, segundo sua proposta, de ser apenas descritiva para ser explicativa e científica.
Segundo Orlandi (2012), é a partir do gerativismo que a língua começa a ser entendida como sistema, cuja estrutura não se resume à própria estrutura, mas sim considerando a faculdade mental natural, que permite ao sujeito desenvolver uma competência linguística.
De acordo com Orlandi (2012), Noam Chomsky propôs um avanço em relação aos distribucionistas, cujo ponto central das atenções, a “análise do contexto [linguístico] em que a palavra aparece, sem referir ao seu significado” (p.37), não contemplava as questões da linguagem.
Inspirado no racionalismo e na tradição lógica dos estudos da linguagem, ele propõe uma teoria a que chama de gramática e centra seus estudos na sintaxe. Esta, segundo ele, constitui um nível autônomo, central para a explicação da linguagem (ORLANDI, 2012, p. 37).
Esses pressupostos da linguística gerativa estabelecem que as características morfológicas e sintáticas da língua, explicam as competências daqueles que fazem uso dela. Chomsky analisa a linguagem de um modo lógico e dedutivo, parte da regra (abstrata) para chegar à frase (concreta), isto é, Chomsky definiu a gramática como “um conjunto de regras que produzem as frases da língua”. Ele se opõe à gramática dos distribucionistas, porque considerou que as regras que organizam o sistema da língua foram construídas pela mente do sujeito e não são “leis da natureza” (ORLANDI, 2012, p.38).
Essa gramática, em determinado momento chamada de “universal”, é formada por regras que servem como parâmetro para análise de todas as línguas. Nessa perspectiva, deve-se considerar o conhecimento que o falante tem de sua língua e que lhe permite gerar e compreender a linguagem, para a construção de uma gramática. As regras gramaticais que permitissem gerar orações inteligíveis em um idioma formariam a chamada gramática gerativa.
De acordo com o Manual de Linguística de Martelotta (2012), embasados em Chomsky, os gerativistas construíram dois modelos teóricos gerativistas: a gramática transformacional e a gramática universal (GU), para explicar o funcionamento da linguagem.
A gramática transformacional, baseada no sistema de regras, preconiza que todo sujeito possui uma gramática internalizada, que se desenvolve com o passar do tempo. Trata-se de um conhecimento em que o sujeito falante faz uso adequado de regras gramaticais, mesmo sem ter os conhecimentos da gramática normativa. Esse foi um avanço importante em relação à linguística preconizada pelos distribucionistas, dada a relevância
da língua em uso, porque começa a considerar a participação do sujeito no processo de construção do conhecimento sobre a língua.
Desses estudos e princípios, surgiu o que os linguistas denominaram de gramática universal. Para Kenedy (2012), o conjunto das propriedades gramaticais comuns compartilhadas por todas as línguas naturais, bem como as diferenças entre elas que são previsíveis segundo o leque de opções disponíveis na própria GU.
Essa gramática universal, que também é gerativista, por tratar de um conjunto de regras que orientam as análises de todas as línguas, passou agora a incluir, nesses parâmetros gerais, especificidades de propriedades variáveis de algumas línguas.
Nesse sentido, a teoria gerativista de Noam Chomsky apregoa regras universais que permitem infinitas possibilidades de elaborar frases gramaticais que contemplam em geral todas as línguas e, em particular, outras em suas especificidades, sempre considerando um sujeito capaz de formular sentenças de forma adequada.
As ideias de Chomsky (1957), sobretudo, no que diz respeito à competência linguística, considera que um sujeito competente em sua língua domina todas as regras gramaticais que a constituem. Dessa maneira, é possível aprender a língua, por meio de técnicas de uso das regras no contexto da frase. O saber do aluno centra-se no manejo correto das regras estabelecidas e, em função disso, esse conhecimento passa a ser o ponto de partida para a elaboração e compreensão dos enunciados. Assim, Orlandi (2009) afirma que:
[...] para Chomsky, a tarefa do linguista é descrever a competência do falante. Ele define competência como a capacidade que todo falante (ouvinte) tem de produzir (compreender) todas as frases da língua. Também faz parte dessa capacidade todo um saber que o falante tem a respeito das frases: ele sabe comparar estruturas sintáticas semelhantes, sabe separar frases que fazem parte da língua das que não fazem etc. (ORLANDI, 2009, p.38).
Ao tratar o aluno competente, como aquele que domina as regras gramaticais, Chomsky e seus seguidores, vislumbram um sujeito idealizado, que domina o texto sob a única ótica possível de leitura. Esse modo de conceber a língua, descarta a possibilidade de que, por meio da leitura, os sujeitos possam atribuir outros sentidos ao que leem. Dessa maneira, essa teoria expõe uma visão excludente, em relação ao sujeito que lê e, portanto, de novas possibilidades de leituras.