Atualmente, a Universidade Federal do Ceará recebe, por meio de um convênio Brasil/África, estudantes de origem africana oriundos de países como Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola etc. Com base nessa informação, busquei convidar duas dessas alunas para que fossem à escola conversar com as crianças envolvidas nesse estudo. Tinha interesse em que as convidadas falassem à turma sobre o seu país e também fizessem tranças africanas nos cabelos dos/as discentes que desejassem.
Solicitei permissão aos pais das crianças para que essas pudessem ter seus cabelos trançados. Das 25 solicitações, obtive o seguinte resultado: 04 (ou seja, 16%) não autorizaram, 12 (48%) concordaram e 09 (36%) não se manifestaram. Das 12 autorizações, 04 eram de meninos e 08 eram de meninas, mas, devido ao fato de os cabelos dos meninos serem demasiado curtos, nenhum pôde participar do momento, o que os deixou bastante frustrados.
4.9.1. A presença das africanas na escola.
Ao entrar na escola junto com as duas africanas, encontramos dois alunos da turma participante da pesquisa. Eles logo se aproximaram e deram-me as autorizações assinadas pelos pais e perguntaram se elas eram as minhas amigas da África. Fiz sinal de confirmação. Em pouco tempo, a sala de professores ficou tomada por meninos e meninas de outras turmas da escola que vinham confirmar se aquelas duas moças eram da África e, após afirmar-se que sim, as crianças ficaram paralisadas olhando para as convidadas. Informei às africanas que após conversarmos com as crianças e as professoras elas poderiam fazer as tranças na sala de docentes, por ser um ambiente fechado e mais tranqüilo, mas elas manifestaram interesse em ficar no pátio, ao ar livre.
Fomos à sala de aula para que as africanas pudessem conversar com a turma e com a professora. Para minha surpresa, grande parte das indagações feitas pela turma às convidadas eram semelhantes às que eu apresentei durante a realização da terceira intervenção, quando a classe fez uma pintura coletiva sobre o Continente Africano. As crianças também fizeram perguntas sobre transportes, futebol, saúde, religião, vestimentas, educação, tipos de moradia e ainda sobre a realização das tranças. A turma manteve-se muito atenta às questões formuladas pelos colegas e foi muito interessante perceber que meninos e
meninas não se intimidaram em participar daquela atividade. Esse momento deu-se da seguinte maneira21:
P: “– Gente, como eu havia dito a vocês, eu trouxe duas estudantes da África que agora moram aqui em Fortaleza. São alunas da Universidade Federal do Ceará. Elas vieram conversar com vocês e depois vão fazer as tranças africanas em algumas crianças dessa sala e também nas professoras do 3º ano que desejarem. Essa é Maria e essa é Zaquiela”.
A: “– Eu sou Maria”.
A: “– Meu nome é Zaquiela. Eu sou da 2ª capital da Guiné-Bissau e a Maria é da 1ª capital de nosso país”.
C: “– Vocês estão morando na casa da tia Ge”?
A: “– Não, nós moramos em um outro local com outras pessoas de nosso país. Estamos aqui para estudar na Universidade Federal do Ceará”.
C: “– Na África tem carro”? A: “– Sim”.
C: “– E ônibus e caminhão”?
A: “– Sim, tem os ônibus, tem as vans como aqui no Brasil e tem outros transportes chamados de toca-toca para levar também pessoas, mas não levam tantas pessoas como os ônibus”.
C: “– Lá tem crianças... assim como a gente... desse tamanho”? A: “– Sim. Tem crianças de todos os tamanhos”.
C: “– Elas estudam na escola”?
A: “– Sim, lá também tem escolas parecidas com essas de vocês”. C: “– Lá tem um time de futebol chamado Camarões”?
A: “– Sim, mas é de outro país, um país da África chamado Camarões”. C: “– Lá só tem futebol”?
A: “– As pessoas se divertem fazendo outros esportes. Tem natação, basquete, vôlei e outros”.
C: “– Como é a roupa das pessoas”?
A: “– Nós usamos roupas igual a de vocês, mas nós temos algumas roupas que são diferentes que só tem na África, são roupas de festa”.
A: “– Essa roupa que eu estou usando é uma roupa de festa. É uma roupa característica lá do meu país que é a Guiné-Bissau”.
P: “– E quanto às religiões, que religiões existem no seu país”? A: “– Tem o catolicismo, as igrejas protestantes e o grupo dos fulas”. C: “– Lá tem santos”?
A: “– Sim”.
C: “– Quais os santos que tem lá”?
A: “– Tem Nossa Senhora da Assunção, Santo Antônio, Jesus, São Pedro e outros”.
C: “– Como é as casas de lá”?
A: “– Tem casas iguais as daqui, tem prédios e casas feitas de uma material que parece tela de alumínio”.
C: “– A senhora vai morar aqui em Fortaleza com a tia Ge”? A: “– Não, eu estou aqui pra estudar na Universidade”. C: “– Lá não tem isso ai”?
P: “– A Universidade”?
C: “– Sim [a criança confirma com a cabeça]”.
A: “– Tem, mas eu preferi vir para o Brasil. Aqui tem universidades melhores que as do meu país”.
P: “– E quanto à saúde? Os hospitais, quando as pessoas ficam doentes, como, onde recebem tratamento”?
A: “– Elas vão para os hospitais. Lá também tem médicos. A medicina daqui é melhor do que a de lá, tem mais avanços, mais tecnologia”.
C: “– Quem ensinou vocês a fazer as tranças”? A: “– A nossa mãe”.
C: “– Por que ela ensinou”?
A: “– Para gente se arrumar, ficar bonita [todos sorriem] e até ganhar dinheiro. P: “– Eu quero agradecer a presença da Maria e da Zaquiela”.
Enquanto estávamos na sala conversando, outras crianças ficaram do lado de fora ouvindo a conversa e, por várias vezes, a supervisora teve que levá-las para suas salas.
Posteriormente, dirigimo-nos ao pátio para que fosse dado início ao entrançamento dos cabelos das crianças. Muitos/as alunos/as de outras salas passaram a aproximar-se das africanas e fazer várias perguntas a elas. Indagavam sobre o que estavam fazendo em Fortaleza, como tinham chegado à escola, se falavam português, por que estavam fazendo as tranças nas meninas e ainda perguntavam se elas também poderiam participar daquela atividade. Por diversas vezes, tive que explicar às crianças que apenas os alunos/as do 3º ano
poderiam participar daquele momento, porque estavam estudando sobre a África, mas algumas delas chegavam a dizer que eu deveria falar com suas professoras para também fazer aquele estudo e, assim, eles/as poderem participar daquele momento.
4.9.2. Algumas análises.
As crianças sentiram-se à vontade para conversarem com as duas convidadas e tirarem dúvidas quanto à África. Houve interesse por parte da turma para obter informações e/ou tirar dúvidas sobre o continente africano e creio que a classe percebia que não tinha conhecimento sobre alguns temas referentes à África, de modo que se inspiraram em certas perguntas que eu apresentei a elas durante a realização da pintura coletiva sobre esse continente.
Imagens desse momento:
Figura 63 – Conversa com as Africanas Figura 64 – Tranças Africanas 1