Vimos que a metáfora do Atlântico Negro representa um espaço de trocas culturais que conecta todas as regiões formadas pela diáspora negra. Por ele circulam imagens que se traduzem na dupla possibilidade de se perceber como membro de duas comunidades distintas, mas que a mesmo tempo se encontram e se reinventam na dupla-consciência. De todas imagens jogadas no Atlântico Negro, vimos que a mais forte delas é aquela que vem dos Estados Unidos, um país que sentiu a violência do racismo na sua forma mais virulenta e que em resposta a esta
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condição criou mecanismos de defesa que puderam garantir a existência dos negros naquele país. Ao obterem sucessos nestes mecanismos, devolveram-no para o Atlântico Negro, como uma carta dentro na garrafa, que depois de uma longa jornada pelo Atlântico chega a costa brasileira como uma mensagem de esperança para os que aqui compartilham da diáspora negra, os afro-brasileiros. Assim, se no período colonial o Atlântico servia como rota para o transporte dos corpos negros, hoje ele serve de rota para as idéias negras. Idéias que vem e idéias que vão, por isso não podemos desconsiderar que, principalmente nas idéias que vão, ao saírem daqui elas levam consigo traços do negro brasileiro e da sua forma de lidar com a raça e o racismo. Isso significa que cada vez que uma onda do Atlântico Negro toca a costa brasileira, ela se modifica de algum modo.
Além disso, não podemos esquecer que o Atlântico se alimenta das águas fluviais brasileiras que nele deságuam todos os dias. Estas águas vêm de nascentes originadas no Brasil e na América Latina, o que as torna um fenômeno enraizado na própria dinâmica natural da região. Assim, se de um lado a força do Atlântico nos traz o movimento das águas intercontinentais, de outro, ele recebe o movimento das águas produzidas no próprio continente, gerando um fluxo constante entre o movimento das águas daqui e o movimento das águas de lá. De todas as correntes que nascem no Brasil e deságuam no Atlântico, a que vem do Amazonas é a mais forte delas, tanto que ao tocar o oceano produz o fenômeno da pororoca (do tupi "poro'roka", que significa estrondar), que reflete o equilíbrio de forças entre os dois movimentos. Porém, antes de chegar a este encontro, o rio atravessa o continente desde a parte ocidental da Cordilheira dos Andes até o delta do amazonas quando finalmente encontra o Atlântico. No meio deste trajeto recebe vários nomes e aumenta sua força com as águas de outros rios que o alimentam durante o percurso. Ao sair do Peru, entra em território brasileiro com o nome de rio Solimões e somente em Manaus, após a junção com o Rio Negro, recebe o nome de Amazonas e como tal segue até a sua foz no Atlântico.
Todavia, antes de se juntarem para formar o rio amazonas, os dois rios produzem um fenômeno que reflete bem a metáfora que proponho aqui como complemento ao Atlântico Negro. Trata-se do “Encontro das Águas”, que é a confluência entre o rio Negro, de água preta, e o rio Solimões, de água barrenta, onde as águas dos dois rios correm lado a lado sem se misturar por uma extensão de mais de seis quilômetros. Isso acontece em decorrência da diferença entre a
temperatura e a densidade das águas e, ainda, à velocidade de suas correntezas. Considerando sua coloração diferente, sua trajetória rumo à uma direção comum e o fato de compartilharem um mesmo espaço líquido, podemos pensá-lo de forma heurística para entender os dilemas que venho tratando neste capítulo.
Pela coloração diferente, entendo como sendo as diferenças que definem o preto e o pardo no Brasil. Não obstante os incontáveis esforços do frame racialista em assumi-los como fazendo parte de um único fluxo, a temperatura, densidade e velocidade impedem que sejam vistos assim. O que significa dizer que pretos e pardos circulam de maneiras distintas na sociedade brasileira. Ainda que compartilhem das mesmas dificuldades de acesso a uma vida boa, possuem uma maneira própria de encarar estas dificuldades e, por isso, exigem que sejam vistos a partir destas especificidades e não a partir de uma identidade que é posta a priori. Dentro de cada uma destas identidades, com suas características que os definem de maneira categórica, compartilham de uma direção comum, qual seja, a de buscarem as mesmas oportunidades de vida. Querem acessar a vida boa, mas não aceitam as mesmas soluções por acreditarem que a promoção da igualdade racial pode seguir caminhos diversos. Finalmente, compartilham do mesmo espaço líquido onde as raças aparecem de maneira fluida na experiência brasileira. Os espaços duros, moles e de negro nos mostram como podem variar as percepções sobre raça e racismo, deixando borradas as supostas linhas de cor.
Olhando a metáfora do Encontro das Águas na dinâmica dos frames de ação coletiva, podemos dizer que o caso brasileiro nos revela dois fluxos, que seguem lado a lado quilômetros a fio, produzindo movimentos diferentes para quem os vê a partir das margens. Nas águas escuras do rio Negro, temos um conjunto de ações que se desencadeiam a partir de um olhar diferencialista, que na busca pela preservação das raças assume o racialismo como guia para uma luta de resultados,
dentro das instituições políticas, vistas neste fluxo como mais uma arena de luta.
Dentro desta arena, propõe políticas voltadas especialmente para população negra. Nas águas mais claras do rio Solimões, temos um outro conjunto de ações que se orientam a partir de uma olhar assimilacionista, que reconhece na figura do mestiço o principio mais elementar da igualdade racial e a partir de uma luta de esquerda projetam uma sociedade de classes cujas contradições, ao serem superadas, abrem espaço para a utopia de uma sociedade sem raças. Para tanto, defendem as políticas universais como saída não-racialista para resolver tais assimetrias.
O problema deste último fluxo é que ao enfatizar nosso caráter inclusivo e integracionista, ele reifica a idéia de “identidade nacional” e, com isso, deixa de considerar o crescente processo de heterogeneização das culturas locais diante das novas identidades transnacionais que emergem da diáspora negra e da própria metáfora do Atlântico Negro. Assim, quando apostam num tipo de cidadania universal como saída para corrigir assimetrias, acabam ignorando o fato de que desde a abolição nenhuma política universalista foi capaz de favorecer os negros a serem incluídos na sociedade brasileira. Sendo assim, o fluxo não-racialista, ainda que preocupado em eliminar o racismo, carece de uma proposta efetiva.
Por esta razão, o Encontro das Águas encontra o seu limite no rio amazonas. Apesar de deslizar por muitos quilômetros mantendo suas propriedades, chega o momento de se juntar antes de alcançar o Atlântico. O estrondo que se anuncia pelo espetáculo da pororoca, revela a necessidade de unir forças, não só pela possibilidade de continuar avançando e de preservar algumas das suas propriedades mesmo depois do encontro, mas sobretudo pela violência do próprio encontro, que, ao se impor pelas águas do mar, acaba salgando o que havia de doce naquelas águas que caminhavam juntas, mas que agora se desfazem.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Meu objetivo nesta tese foi compreender o processo de transnacionalização do movimento negro brasileiro e as suas consequências para a luta antirracista no Brasil. Em outras palavras, busquei compreender como os negros brasileiros se articulam com os negros do mundo para cumprir seus objetivos. Uma vez que hoje a cultura negra global tem sido compreendida a partir da metáfora do Atlântico Negro, que representa uma espaço de trocas transnacional que conecta todos os sujeitos da diáspora negra, assumo esta mesma metáfora como ponto de partida para minha reflexão. Entretanto, me interessa refletir sob um dos aspectos do Atlântico Negro, que é a sua dimensão organizacional. Se é pelo Atlântico Negro que hoje circulam um conjunto de conteúdos que são compartilhados pela comunidade negra mundial, tais como idéias e práticas que estão relacionadas a religião, a música, a literatura e as formas de organização, então podemos afirmar que a organização do movimento negro brasileiro se alimenta também destas múltiplas dimensões.
Para cumprir este objetivo, utilizei um quadro teórico que articulou análise de movimentos sociais com análise de narrativas. Procurei entender os aspectos subjetivos do movimento negro com base nos seus frames de ação coletiva que fazem a conexão com o Atlântico Negro formando o que eu denomino aqui de frame racialista. Este frame se alinha de forma muito peculiar ao transnacionalismo negro formando um tipo de framing global que orienta os negros da diáspora sobre como o negro deve ser definido e como as lutas contra o racismo e pela igualdade racial devem ser conduzidas. Ao ser apropriado, este frame contribui na construção do diagnóstico, prognóstico e motivação do movimento negro, bem como na sua organização – estrutura, estratégia e mobilização de recursos.
Com base neste quadro teórico desenvolvi meu argumento a partir dos cinco objetivos específicos que foram cumpridos ao longo dos quatro capítulos principais de discussão desta tese. O primeiro deles consistiu em descrever a origem do frame racialista e a sua influência no processo de transnacionalização do movimento negro brasileiro. Aqui foi importante abordar como se forma o debate brasileiro sobre raça,
desde as primeiras iniciativas com o racismo cientifico, que se esforçava em provar a inferioridade do negro brasileiros e a consequente degradação social que a miscigenação poderia gerar; seguido da ruptura feita por Gilberto Freyre que, ao analisar a mesma questão, inverte a lógica do racismo científico e assume o mestiço como a consagração de uma sociedade tropical, cuja adaptação se consolida justamente a partir do mestiço; até as reflexões críticas elaboradas durante o projeto Unesco nos anos 1950-60, que via na proposta de Freyre uma teoria racial para o mundo com base na excepcionalidade do caso brasileiro. Contudo, os estudos revelaram que tal excepcionalidade não existia, pois o Brasil era tão racista quanto os outros e que a suposta democracia racial era um mito.
Esta discussão gerou algumas polaridades nos estudos sobre relações raciais no Brasil, produzindo três vertentes de estudos que enfatizaram diferentes aspectos do racismo no Brasil. Uma destas vertentes continuava alinhada ao ideal de democracia racial elaborado por Gilberto Freyre; a outra entendia que até poderíamos pensar na possibilidade de um dia haver este tipo de democracia, mas antes disso era preciso entender o problema do negro como um problema de classe social na medida em que eles eram marginalizados no mercado de trabalho; e a terceira vertente concordava com esta marginalização, mas pensava o negro de forma autônoma, desvinculado da classe social, como uma categoria racial que deveria ser tratada pelas pesquisas e pelas políticas públicas enquanto negro.
Esta última vertente resgata a noção de raça e, ao fazer isso, constrói uma ponte com outras perspectivas racialistas já em circulação no Atlântico Negro, com é o caso do racialismo norte-americano que também não reconhece a questão de classe e, ao longo da sua história, sempre tratou o negro como categoria autônoma. Neste momento a argumentação nos conduz ao segundo objetivo específico da tese, que foi identificar os mecanismos de difusão do frame racialista e as suas consequências para o modelo classificação racial brasileiro. Ou seja, como as perspectiva racialista já em curso no Atlântico Negro se alinha a perspectiva brasileira fazendo emergir um novo modelo de classificação racial inspirado na one
drop rule norte-americana, em que os mestiços não existem e toda a dinâmica de
relações raciais se desenvolve em torno de apenas duas raças: brancos e negros. Vimos que este alinhamento com o transnacionalismo negro ocorre por meio de mecanismos relacionais e não-relacionais. Sendo que no primeiro caso, o ativista Abdias do Nascimento aparece como um típico “cosmopolita enraizado”, conectando
a luta racial brasileira aos diversos contextos ligados a diáspora negra. Junto com ele, outros negros também fizeram esta ponte utilizando-se das oportunidades que se abriram no campo político, quando o Brasil participa com suas delegações dos fóruns internacionais de discussão sobre racismo, discriminação, xenofobia e formas correlatas de intolerância, com destaque para Durban, visto por muitos como um momento-chave para a globalização do movimento negro brasileiro.
Além destes mecanismos relacionais, foi possível também identificar livros, revistas estrangeiras e notícias internacionais como fontes de informação que contribuíram para que a maior parte da militância pudesse acessar o Atlântico Negro, possibilitando sua difusão não-relacional. O que fica claro nas duas formas de difusão é que as principais referências para a luta antirracista no Brasil são, em primeiro lugar os EUA, seguido dos movimento de libertação da África.
A partir deste contexto, o terceiro objetivo específico buscou analisar a apropriação do frame racialista na produção do diagnóstico, prognóstico e na motivação do movimento negro. Aqui foi possível visualizar como o movimento negro incorpora em suas propostas a perspectiva racialista e a partir disso desenvolve toda uma lógica de interpretação do racismo brasileiro à luz desta perspectiva, com a reprodução artificial de categorias nativas que não fazem parte da nossa formação cultural, mas que politicamente são vistas pelo militância como a “única” solução possível para melhorar as condições de vida na comunidade negra no Brasil. Baseados nesta convicção, os negros se organizam a partir desta perspectiva, o que nos conduz ao quarto objetivo específico da tese, que foi analisar a influência do frame racialista na estrutura, estratégias e mobilização de recursos do movimento negro brasileiro.
Apesar de o movimento negro estar ligado – por meio do Atlântico Negro – ao contexto de lutas norte-americano, assumindo suas categorias nativas como modelo de classificação racial e suas políticas de ação afirmativa como solução para o racismo no Brasil, curiosamente não assumem o que levou o movimento dos direitos civis a justamente conquistar estas políticas, que foram as suas formas de organização e ação. Observamos na experiência americana que as lutas se deram a partir de organizações de base (grassroots), articuladas pelas igrejas negras e atuando de maneira extra-institucional a partir de boicotes, marchas e ocupações que não envolveram diretamente a luta partidária (exceção feita aos Partido dos Panteras Negras), tampouco o Estado por meio de órgãos de apoio ao negro.
Tratou-se de uma forma de luta que mobilizou ampla rede de recursos através de organizações civis como a NAACP, SNCC, SCLC e CORE.
No Brasil, as lutas também se formaram a partir de muitas organizações negras, que foram determinantes para as conquistas do movimento ao longo de sua trajetória, que remonta desde as lutas pela abolição, até as lutas pela inclusão social já no século XX com a FNB, o TEN e o MNU. No entanto, vimos que a maior parte destas organizações eram formadas por universitários e se articulavam basicamente de forma intra-institucional, por meio dos partidos políticos ou de órgão de governo ligados a causa negra, como as secretarias estaduais e o atual ministério da igualdade racial. Neste sentido, o movimento negro contemporâneo rompe com a visão tradicional de que os movimentos sociais são, por definição, contra o Estado. Ao assumirem o Estado como mais uma arena de luta, o movimento negro redefine os espaços da ação coletiva e, com isso, mostra a efetividade de se atuar neste novo espaço. Principalmente quando constatamos que suas maiores conquistas, tais como a criminalização do racismo, a criação de organismos de Estado, a inclusão do ensino de História da África e a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, se deram por meio de articulações do movimento negro dentro do Estado.
Apesar de terem sido bem sucedidos nestas conquistas, o movimento negro ainda hoje – e as mudanças no estatuto da igualdade racial mostram isso – não conseguiu concluir a etapa de adaptação local do transnacionalismo negro. Isso nos leva ao último objetivo específico da tese, que foi avaliar os limites do ativismo transnacional a partir da disputa que o frame racialista estabelece com o frame não- racialista na definição do que é ser negro e de como deve ser orientada a luta antirracista no Brasil. Ao ampliar sua base de apoio no âmbito do Estado e de outros setores da sociedade, o movimento negro alcança o debate público com suas propostas de promoção da igualdade racial e, com isso, atrai a atenção da população brasileira para o que estava acontecendo no país. Se de um lado conseguiram ampliar sua base de apoio, de outro passaram a contar com uma grande oposição por parte daqueles que são contrários ao uso de categorias diaspóricas para se pensar as relações raciais no Brasil
Vimos que estes opositores se articulam numa ampla rede de atores intra e extra institucionais (acadêmicos, intelectuais, cidadãos, movimento sociais e políticos) que compartilham de uma perspectiva não-racialista para lidar com as questões ligadas ao racismo e a promoção da igualdade. São guiados por um frame
não-racialista que busca resgatar na tradição de estudos brasileiros, que reconhecem mestiçagem como nossa maior virtude, uma narrativa válida para se compreender as relações raciais. Argumentam que nossas relações sociais e a nossa própria forma de estar no mundo se configura a partir deste frame, que representa a idéia de um Brasil mestiço. Com efeito, os não-racialistas conseguem fazer uma poderosa associação disso com a própria identidade nacional, criando uma barreira de difícil transposição para o movimento negro, que agora não enfrenta apenas grupos opositores, mas a própria identidade do país.
Além de enfrentarem esta resistência, o próprio movimento negro se vê frustrado na sua tentativa de obter a ressonância do seu frame racialista junto a sociedade brasileira. Ao deixar de atender os requisitos básicos para uma ressonância bem sucedida, o movimento negro deixa de mobilizar o apoio dos mestiços e é colocado em suspeição quanto a eficácia do seu prognóstico.
Diante deste cenário poderíamos supor que não haveria chances de vitória para o transnacionalismo negro no Brasil, pois é bastante razoável concluir que a identidade nacional não se deixaria colonizar por visões de mundo externas a nossa formação cultural e que a luta por uma mudança social seria uma luta perdida. Enganam-se os que pensam assim. Apesar da força que as identidades nacionais ainda exercem sobre as sociedade modernas, cada vez mais esta idéia de nação vai se reconfigurando a partir de um referente transnacional. A própria dinâmica da globalização traz para os espaços domésticos formas de sociabilidade que não foram desenvolvidas internamente, tampouco se baseiam em categorias nativas que garantam sua permanência e a sua apropriação no contexto local, mas sim, que também elaboram novos modos de convivência que se sobrepõem aos já existentes. Dentro desta perspectiva, as identidades coletivas são uma destas categorias que os Estados nacionais não controlam mais.
O sujeito contemporâneo dispõe hoje de múltiplas formas de afiliação identitárias que são difundidas pela mundialização da cultura, sobretudo através das mídias eletrônicas que há muito não obedecem as fronteiras normativas dos países. É neste contexto que a ação coletiva se reconfigura e se distancia cada vez mais do paradigma clássico em que se determinavam identidades e plataformas de luta de maneira apriorística e baseada em territórios que eram definidos pelo contexto local das lutas sociais. Quando falamos aqui de uma dimensão organizacional do Atlântico Negro, estamos falando deste contexto transnacional de lutas que não