Na esteira das teorias que aparecem, com o intuito de dar conta das novas feições da migração está a nova economia da migração de mão de obra de Stark, uma variante da concepção neoclássica, de viés economicista. Embora ambas percebam a decisão de migrar como uma atitude pensada racionalmente pelo indivíduo, na teoria de Stark, essa decisão passa pela unidade familiar. A família, neste sentido, passa a ter um papel fundamental no processo de migração (RIPOLL, 2008, p. 69).
Como a família possui uma função fundamental na decisão de migrar, a teoria de Stark também dá ênfase ao envio de remessas para a família que permanece no país de origem.
Essa teoria, na perspectiva de Arango (2000) não consegue dar conta da dinamicidade do processo de migração, tendo em vista que há contextos menos propícios à migração da unidade familiar. Além disso, ela enfatiza demais os fatores presentes na sociedade de origem, esquecendo a relevância dos aspectos presentes na sociedade de acolhida.
Uma segunda teoria contemporânea é o do mercado de trabalho dual, de Piore. (RIPOLL, 2008). Essa perspectiva, também centrada no âmbito econômico, dá ênfase aos fatores macroestruturais presentes no país de acolhida. Neste rumo, as economias mais desenvolvidas precisam de trabalhadores para desempenhar as atividades consideradas indignas pela população nativa. Os trabalhadores estrangeiros, por sua vez,
63 aceitam desempenhar essas atividades porque mesmo os salários baixos são considerados altos em comparação com os de seu país de origem.
As migrações, dessa forma, se produzem por conta da demanda estrutural de mão de obra inerente ao processo de produção industrial do capitalismo. Neste aspecto, segundo Arango (2000), reside a virtude desta teoria, que lança luz sobre esses aspectos mais macro, ao mesmo tempo em que explica como se produz essa demanda estrutural que contribui para a migração.
Esse mesmo autor aponta, contudo, que há pontos negativos nesta teoria, como o fato de ela se centrar demais na estrutura de acolhida, deixando de lado fatores presentes na sociedade de origem, bem como fatores de ordem pessoal que influenciam a decisão de migrar.
Com o objetivo de também dar conta do caráter global do processo de migração, surge a teoria de Portes e Sassen, para os quais, os movimentos migratórios, bem como o capital, as tecnologias e outras estruturas institucionais e culturais não estão circunscritas ao estado-nação, mas extrapolam este, ao desenvolveram inter-relações recíprocas dentro do sistema global. Ambos os autores consideram que os meios sociais influenciam e alteram os comportamentos econômicos (RIPOLL, 2008, p. 71).
Na perspectiva de Alejandro Portes (1990), os processos migratórios devem ser percebidos numa relação entre a nação de origem e a de chegada. Da mesma forma, para se compreender a migração, faz-se necessário entender a posição ocupada pelos países no sistema mundial.
Portes, em conjunto com outros autores, criou a teoria do contexto de recepção, segundo a qual a migração deve ser estudada com base nos processos de adaptação da população imigrante nos países de recepção. Embora a teoria do contexto de migração, na concepção de Ripoll (2008, p. 72), não leve em consideração as diversidades de origens e as distintas trajetórias dos migrantes, ela “constitui um instrumento conceitual adequado e valioso que aponta os fatores estruturais que influenciam o modo de adaptação da população imigrante”.
Saskia Sassen (1988), por sua vez, compreende o processo de internacionalização como o desencadeador de impactos nos recentes deslocamentos de
64 pessoas. Para entender as migrações, neste sentido, é necessário compreender a interface entre a mobilidade do capital e do trabalho.
O movimento do capital rumo aos países periféricos, na perspectiva dela, contribui para modificar o mercado de trabalho interno, criando, assim, maior oferta de mão de obra, devido à desorganização da estrutura produtiva nacional. Aliados a isso estão a criação de novos desejos de consumo, tendo como parâmetro as sociedades centrais, e a crescente feminização dos trabalhadores, dado que a mão de obra feminina é tida como mais flexível e menos exigente, o que faz com que os trabalhadores masculinos migrem no intuito de encontrar melhores oportunidades de emprego e salários mais generosos (RIPOLL, 2008, p. 72).
Outra abordagem que vem ganhando adeptos na contemporaneidade é o transnacionalismo, entendido como um fenômeno proveniente da globalização, que vem ganhando força nos últimos tempos. Os teóricos da visão transnacional são Glick Schiller, Basch e Blanc-Szaton que, ao analisarem os fluxos migratórios provenientes do Haiti e das Filipinas em direção à cidade de Nova Iorque, perceberam que os migrantes mantinham relações econômicas, sociais e políticas com seus países de origem, enquanto residiam nos Estados Unidos.
Isso é só possível porque a globalização possibilita a criação de espaços transnacionais que ultrapassam as fronteiras dos estados-nação, fazendo com que os migrantes desenvolvam subjetividades, bem como identidades, que os vinculam a mais de um estado-nação.
Para alguns adeptos dessa teoria, como Portes, Guarnizo y Landlot (RIPOLL, 2008), para que uma prática seja considerada transnacional é necessário que ela se desenvolva de forma regular e contínua para além das fronteiras nacionais.
A teoria transnacional aponta de fato alguns aspectos presentes no processo de migração contemporâneo, bem como nas sociedades de maneira geral, qual seja, a produção e o consumo de bens simbólicos, assim como, a formação de identidades que extrapolam as fronteiras nacionais. Há, porém, algumas limitações nesta teoria que precisam ser apresentadas.
Uma delas se deve ao fato de criar uma confusão entre migração e transnacionalismo. Ora, esses dois fenômenos, embora estejam vinculados, não são
65 sinônimos, o que pode ser exemplificado pelo fato de que há comunidades estrangeiras que reforçam o sentido de sua identidade de origem e chegam a rechaçar a cultura do país de acolhida. Outras limitações também são elencadas por Ripoll (2008, p.75), citando Vertovec (2004):
- Utilização do termo transnacionalismo como sinônimo de internacional, multinacional, global e diáspora;
- Essa teoria pode transparecer a ideia de que todas as atividades transnacionais são novas;
- Os pesquisadores só estudam os casos em que há atividades transnacionais, esquecendo-se dos casos em que elas não ocorrem;
- O transnacionalismo não é incompatível com a integração e a assimilação; - Tendência a um determinismo tecnológico, ao dizer que o aumento das migrações se deve ao barateamento dos transportes e à possibilidade das comunicações em tempo real;
- Existem práticas que extrapolam as fronteiras nacionais, mas não devem ser consideradas transnacionais;
- Existem dúvidas quanto à manutenção das práticas transnacionais nas gerações posteriores.
Os estudos transnacionais, como pudemos perceber, apresentam diversas limitações, o que não significa dizer que deva ser descartado. Pelo contrário, o fato de levarem em consideração os aspectos transnacionais aponta para tendências presentes nas migrações atuais e que ajudam a compreender esse fenômeno.
Outra teoria que toma como base as relações que se desenvolvem além das fronteiras dos estados-nação é a teoria das redes de migração. As redes de migração, segundo Arango (2000, p. 41), são “o conjunto de relações interpessoais que vinculam os migrantes com parentes, amigos ou compatriotas que permanecem no país de origem”.
Essas redes, portanto, são anteriores ao processo migratório e, inclusive, contribuem para que ele se concretize, dado que os pretensos migrantes recebem, dos
66 migrantes de fato, informações e ajuda econômica, além de forneceram, no momento da chegada ao país de destino, acolhimento, alojamento e ajuda para a inserção no mercado de trabalho.
Os autores que se debruçam sobre a migração com base nas redes de migração fazem algumas subdivisões com o intuito de facilitar a compreensão do processo. É o caso dos autores citados por Ripoll (2008): Martínez Veiga (1997), Weber Soares (2003) e Claudia Pedone (2005).
O primeiro autor estabelece uma diferenciação entre a dimensão comunicativa e a dimensão instrumental das redes sociais. De um lado, a esfera comunicativa se refere à transmissão de informações concernentes ao país de destino, que estimula a migração ao mesmo tempo em que permite a obtenção de informações prévias que facilitam a inserção no país de destino. Por outro lado, a dimensão instrumental diz respeitos aos resultados que não seriam alcançados sem o apoio das redes.
O segundo autor, Weber Soares (2003), aponta a importância de fazer uma distinção maior com relação ao conceito de redes sociais. Para ele, há a rede social, que consiste num conjunto de indivíduos, organizações e instituições vinculadas por algum tipo de relação; há também a rede pessoal, que é a rede social baseada no parentesco e na amizade; e, por último, há a rede migratória, que se refere às redes sociais que são adaptadas ao processo migratório.
Claudia Pedone (2005), por sua vez, faz uma distinção teórico-metodológica entre rede e cadeia migratória. No caso desta última, trata-se da transferência de informações e apoio material, concedidos a parentes e amigos, com o objetivo de possibilitar a concretização da migração. Já a rede concerne a uma estrutura maior de relações de parentesco e amizade que existem ainda na sociedade de origem e se forma também na sociedade de destino.
Um dos pontos fortes da teoria das redes de migração, e que está presente em todas essas definições apresentadas, é justamente a troca de informações, que permite o conhecimento das condições que garantem o ingresso na sociedade de destino. Como considera Arango (2000, p. 42), na medida em que crescem as restrições à entrada de estrangeiros nos países de destino, essas redes sociais passam a ter ainda mais
67 importância, pois, muitas vezes, são elas que vão informar quais as estratégias de acesso para burlar a vigilância das fronteiras.
Dessa forma, podemos dizer que as redes sociais são um importante instrumento de compreensão do processo migratório vez que permite percebê-lo a partir do lugar de origem até chegar à sociedade de destino, abarcando, assim, os dois polos que constituem a migração, o que também pode indicar o porquê de fluxos migratórios de determinado país ocorrer com mais intensidade em direção a outro determinado país, como o caso da corrente Governador Valadares-Boston, estudada por Teresa Sales (1999). Em outras palavras, com base nesta teoria é possível entender como se forma a migração e por que ela se mantém ou não tem continuidade (RIPOLL, 2008; GURAK e CACES, 1992).
Ainda no que tange à teoria das redes sociais, Arango (2000) acrescenta que esta tem também o mérito de nos situar tanto no nível micro das decisões individuais, quanto no nível macro dos fatores estruturais, contribuindo, assim, para uma visão mais ampla do processo. O autor complementa, contudo, que há um aspecto pouco estudado da migração que seria o seu oposto, o imobilismo. Para ele, neste sentido, para se compreender o que leva as pessoas a migrarem, seria fundamental também entender o que leva outras a não migrarem.
Com base nas teorias contemporâneas sobre as migrações, pudemos perceber que, cada uma delas, com seus pontos fortes e fracos, apontam para aspectos presentes no processo migratório, o que implica dizer que, todas elas, umas mais intensamente e outras menos, irão contribuir para a compreensão da migração de brasileiras para a capital da República Popular da China.
O objetivo dessa pesquisa, porém, não é só compreender como se dá e por que se estabelece a migração de brasileiras para a China, mas, principalmente, entender de que forma o contato com os chineses reconstrói a identidade brasileira. Isso porque, como já havíamos discutido, é na alteridade, ou seja, na relação com o outro que a identidade é não só pensada como também repensada. É com base nesta perspectiva, aliás, que iremos buscar perceber as motivações das migrações, que tipos de migração são praticados pelas brasileiras em Pequim e de que formas elas se inserem em redes sociais.
68 Como nos lembra Stuart Hall (2005, p. 83), os “enclaves étnicos” formados na sociedades de destino, no caso estudado por ele, a Inglaterra, faz com que sejam contestados “os contornos estabelecidos da identidade nacional”, a partir das pressões da diferença e da diversidade cultural. No caso da China, essa pressão da diferença é ainda mais evidente, uma vez que as características fenotípicas já demarcam claramente a fronteira do estrangeiro brasileiro28, fazendo com que seja necessário constantemente acionar a identidade de brasileiro.
Essa identidade construída e reconstruída na diáspora, para empregar mais um conceito de Hall (2005), vai se estabelecer com base num diálogo entre a tradição, as referências históricas, as tradições forjadas, que compõem uma espécie de núcleo-duro, ao qual fazemos referência quando precisamos pensar na formação de nossa identidade nacional; e a tradução, isto é, a forma como essas identidades passam a ser repensadas na alteridade.
Neste rumo, tendo como base as teorias sobre a migração e, sobretudo, as discussões em torno da identidade no contexto de migração, vamos buscar compreender quais as trajetórias migratórias das brasileiras para Pequim e de que forma a inserção na cultura chinesa reconstrói ou influencia a identidade brasileira. Antes disso, porém, precisamos enveredar pelos estudos das migrações brasileiras.
28 A exceção aqui fica por conta dos estrangeiros descendentes de chineses ou demais asiáticos que
possam passar por chineses. É o caso de uma de nossas entrevistas, embora como ela mesma tenha deixado claro, o fato de possuir características físicas semelhantes e de dominar o idioma não diminui o estranhamento provocado pelas demais diferenças culturais.
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