A relação de Priscila com a migração inicia muito antes do ato de migrar em si. Curiosamente, numa das conversas, ela lembrou um episódio da sua adolescência muito revelador da interface que ela viria a estabelecer com a migração.
“Quando eu tinha 14 anos, porque eu acho que a minha história começa ali, em Curitiba, no Brasil, eu fui com a minha mãe uma vez no aeroporto, eu morava numa cidade pequena de colonização alemã, aquela coisa muito tradicional, fechada, né? Eu cheguei lá, eu venho de uma família muito simples, limitada, na época, muito limitada financeiramente, quando eu
pisei assim no aeroporto eu tive uma intuição, e
falei: ‘mãe, eu vou viajar o mundo’. E minha mãe cometeu o maior erro davida dela.
138 De ter dito uma coisa... ou erro ou acerto, eu não sei ainda. De que ela chegou pra mim e disse assim: ‘Filha, você tá doida, ponha seus pés no chão que você sonha muito alto’. Ela começou a usar tudo aquilo que achava que era bom. Disse que eu iria ser uma professora, que ela queria que eu fosse professora. Você vai casar com alguém, vai dar aulas no interior, vai ter sua vidinha, vai ter seus filhos, vai engordar, essas coisas... e pronto, você está condenada a isso. Essa é a sua vida! O que é que eu fiz? Eu inverti.”
A transgressão dela talvez tenha se iniciado, simbolicamente, ali. Isso porque, diferentemente do que ocorreu com outras brasileiras que migraram por reagrupamento familiar, a migração para ela possibilitou um turning-point, ou seja, um ponto de virada na sua vida. Algumas das brasileiras que compartilham da mesma motivação de migração até conseguiram romper com a dependência conseguindo um emprego e aprendendo o chinês.
Essa atitude, porém, não mudou muita coisa na condição que possuíam antes, no Brasil. A maioria delas continua grande parte do tempo dedicada ao lar, porque realizam trabalho esporádico, como tradutora, por exemplo, ou voluntário, junto às atividades vinculadas ao Brasil – algo que voltaremos a discutir mais à frente. Priscila, contudo, decidiu mudar de vida começando por pôr um fim ao casamento.
A ruptura com o casamento redundou em outra ruptura, com a comunidade brasileira. O primeiro rompimento se deveu ao fato de que Priscila não se sentia mais feliz ao lado do marido. Segundo ela, a migração havia proporcionado outros modos de vivenciar a vida que não cabiam mais no casamento que ela tinha.
“Então, provavelmente meu processo seria outro (se continuasse no Brasil). Talvez viesse a separação, porque não tava bom, estava ruim. Mas não seria assim. Com certeza não! E meus ganhos não seriam tantos. Eu acho que a migração já estava na minha história, já estava no meu destino, eu já estava buscando isso.”
Priscila, dessa forma, atribui à migração uma carga valorativa muito grande na sua vida. Embora ela chegue à conclusão de que seu casamento terminaria de qualquer forma, a maneira como o fim do casamento foi decidido, de forma direta, sem rodeios, ela considera como proveniente da maneira como ela aprendeu a lidar com os
139 sentimentos com os estrangeiros. É o que fica claro na seguinte fala dela ao comparar a reação das estrangeiras com a das brasileiras quando ela falou que iria se separar:
“As brasileiras me diziam que eu deveria continuar casada. Elas são todas casadas. Não encontrei apoio nesse meio. O que é que eu fiz? Eu sabia que a diretora da escola é uma mulher divorciada. Uma inglesa que se divorciou aqui. E que deu certo! Tem a vida dela. Tem um namorado mais jovem que ela. Tomara que isso aconteça comigo! (Risos) Deve acontecer. Então, assim, fui buscar ajuda nela. Fui falar com ela e disse: ‘não vejo mulheres separadas aqui além de você’. Preciso de ajuda! Eu quero me separar. Ela é bem britânica assim, decidida e disse: ‘se separe’! Por isso eu adoro a convivência com estrangeiros. Me trouxe a mudança em termos de ser mais direta. Por que ficar parada? Vá à luta! Não é o fim do mundo!”
Neste trecho da fala, principalmente com o tom empregado no momento da conversa, havia uma admiração muito grande no que diz respeito ao modo prático como os assuntos relacionados a sentimento são tratados pelas europeias. Em outros momentos da conversa, ela já havia elogiado essa praticidade das amigas alemãs e inglesas, que contrastava com a maneira de encarar temas como esse por parte das brasileiras.
Aliás, essa maneira como as brasileiras perceberam a separação foi o motivo principal de rompimento de Priscila com a comunidade brasileira. Assim que decidiu se separar, ela procurou algumas brasileiras mais próximas, que a aconselharam a permanecer no casamento, apelando para o valor da família. “Teve uma brasileira, que
prefiro não citar o nome, que me disse que tinham brasileiras muito mais jovens que eu reclamando que em Beijing não tinha homem, e que eu ia jogar um casamento fora e terminar sozinha”,relatou Priscila.
O problema é que, para ela, isso mostrava que as brasileiras estavam muito mais preocupadas com as aparências que com a felicidade dela. Ao que parece, para as outras brasileiras, que migraram por reagrupamento, houve um reavivamento do sentimento de família, ao lado do fato da dependência econômica e social em relação ao marido. Para Priscila, porém, o contato com um país estrangeiro, com outros modos de vida, exacerbou o sentido de direito à uma vida própria, à noção de felicidade individual, necessariamente não vinculada à vivência familiar.
140 O incentivo e o apoio para pôr um fim no relacionamento, neste rumo, vieram das amigas estrangeiras, o que a fez perceber as brasileiras como recalcadas e apegadas a valores materiais, características às quais ela passou a se contrapor, chegando a se vangloriar por não ser reconhecida como brasileira.
“Porque o que é que percebo, se eu encontro uma brasileira aqui que mora há quase o mesmo tempo que eu, você vai vendo, aquele discurso é igual ao de 4 anos atrás. Cê entende? Entende! Assim, não conecta mais. Você perde a conexão! Você perde o vínculo. Você vai falar o que? Da minha vida que está assim, essa loucura, esse boom? Ela vai chamar você de louca! Você tá louca! Cê tá fazendo o que? Eu não preciso disso! Não nesse meu processo agora. E outra coisa que te falei, essa coisa de que o brasileiro é muito de comparar. Compara carro, casa, tudo. Eu acho isso assim, cansativo, pobre! A vida é muito mais que isso! Gente, essas pessoas que eu convivo, essas mulheres, essas gringas, são todas casadas com mega-executivos, presidentes, diretores de multinacionais, elas são super simples. Pra elas o importante é ser culto. Ter cultura.”
Priscila opõe, desse modo, o universo da domesticidade e do consumo, que vê prevalecer entre suas compatriotas, a um universo mais cosmopolita que valoriza a autonomia e a ampliação do universo cultural. Outras duas brasileiras também já haviam sinalizado algo neste sentido, ao comentar sobre a futilidade presente na relação entre as mulheres brasileiras dentro da comunidade brasileira. “Quando eu não estou
entre brasileiros não preciso ficar me preocupando com a roupa que estou vestindo, porque chinês é tudo estranho mesmo. No Brasil, eu preciso me preocupar com que estou vestindo”, falou Ana, casada, com dois filhos e que migrou porque o marido foi
expatriado para a China.
É interessante que o que muitas delas consideram como característica das brasileiras se deve ao fato de que elas estão inseridas no mesmo código cultural – não só brasileiro, mas de um estrato social específico – seja no Brasil, seja dentro da comunidade brasileira na China. A partir do momento em que elas estão, ou entre chineses ou entre outros estrangeiros, não há tanta pressão dos códigos culturais vinculados ao Brasil. Nos almoços do Brapeq ou outros eventos brasileiros, por outro lado, é como se um microcosmo do Brasil fosse criado dentro da China. Nessa
141 circunstância, ninguém talvez arriscasse soltar “arrotinhos” depois de comer, mesmo que estivesse acostumado a fazer isso na presença de chineses.