No âmbito da prevenção de queda deve ser incluída a avaliação dos fatores de risco multifatoriais, a comunicação e a educação sobre o risco de queda, a implementação de
medidas ou ações preventivas e/ou corretoras do ponto de vista institucional e a execução de intervenções individualizadas (Decreto-Lei n.º28/2015). De facto, segundo o Plano Nacional de Segurança dos Doentes (2015), deve haver uma avaliação dos fatores de risco de todos os cidadãos no momento de entrada em serviços prestadores de cuidados de saúde, após qualquer alteração notória dos fatores de risco e após a ocorrência de uma queda.
Este pressuposto é também incorporado pela entidade certificadora do hospital onde exerce funções, a JCI, que tem como meta internacional de segurança: a redução do risco de lesões provenientes de quedas nos utentes. Este organismo define como elementos mensuráveis: a implementação de um processo para avaliação inicial e contínua; a reavaliação e intervenção de utentes internados e externos, identificados como estando sujeito a risco de queda; a implementação de medidas para reduzir o risco de queda nos utentes, situações e locais identificados e avaliados como sujeitos a risco (JCI, 2015). De forma a ir ao encontro do protagonizado por estas duas entidades, pretendeu implementar um procedimento de avaliação inicial, através da criação de indicadores para desenvolver a EARCN.
Risco é definido na CIPE®, versão 2 (2011, p.83), como: “Potencialidade: existir em possibilidade, risco”. Entende então que o RN se encontra em risco sempre que o enfermeiro identifique um stressor que possa causar possíveis alterações no sistema RN. No ambiente hospitalar existem stressores intra e inter pessoais que contribuem para facilmente fragilizar ou deteriorar as linhas flexíveis de defesa do RN. Do ponto de vista teórico e das experiências que adquiriu ao longo dos estágios, é factual que o RN está em constante risco de queda, no ambiente hospitalar, por pertencer a uma população vulnerável que depende exclusivamente dos seus cuidadores (e.g. familiares e profissionais de saúde) para estar protegido de lesões. Tal como foi denominado no subcapítulo anterior correspondente ao Contexto de Unidade de Neonatologia e Internamento de Obstetrícia, os fatores de risco estão ligados ao próprio RN, ao profissional de saúde, ao ambiente e à sua mãe/cuidador (cf. Apêndice 10).
A identificação dos indicadores baseados nos fatores de risco de queda do RN permitiu assim, desenvolver o “desenho” de uma escala denominada “Escala de avaliação do risco de cair neonatal”. A decisão de desenvolver uma escala de raiz prendeu-se com o facto de na evidência científica consultada não serem encontradas escalas que avaliassem todos os campos de fatores de risco identificados.
Sendo assim, o “desenho” da EARCN é constituído por 12 indicadores, cada um com um formato de medida ordinal com quatro pontos (1 a 4), onde os “scores” (somatório) dos indicadores variam entre 6 e 48 pontos, sendo que, quanto menor for o somatório da pontuação menor é o risco de queda e vice-versa. Da avaliação desta pontuação sairá a classificação e identificação dos graus de risco de queda de cada RN (e.g. elevado, moderado ou reduzido). A escala EARCN e o respetivo guia de preenchimento encontram-se no apêndice 11.
Contudo este “desenho” ainda só contem a definição de indicadores, faltando ainda a realização do pré-teste e a validação estatística com RNs portugueses para se poder utilizar em cada RN.
A leitura dos resultados da investigação permitirá dizer, com toda a certeza, que na idade neonatal, o ambiente hospitalar representa um conjunto de stressores que, pela situação de grande fragilidade do sistema RN, facilmente podem comprometer a segurança e o desenvolvimento do RN. Desta forma e tendo em conta esta fragilidade e dependência do RN, o grupo de trabalho ao atuar na reformulação do foco “Cair” para o RN, decidiu que o diagnóstico: “Risco de Cair” seria sempre elevado para o RN (em todos os serviços onde é possível o seu internamento - UN, SIO, SIP, SUP, serviço de bloco de partos e unidade de cuidados intermédios de pediatria), levantando-se assim o diagnóstico “Risco de Cair: Elevado” até a escala de avaliação criada se tornar aplicável. Decidiu também que seria sempre levantado o diagnóstico: “Aprendizagem: Cair” em todos os RNs, juntamente com o diagnóstico anterior, onde estarão descritos os ensinos realizados à família para a prevenção da queda.
O passo seguinte foi a criação de intervenções de enfermagem para a prevenção da queda do RN, relacionadas com estes diagnósticos, com especificações direcionadas para cada serviço (cf. Apêndice 12). Estas intervenções aplicam-se a todos os RNs e família e são planeados pela equipa de enfermagem. Visam identificar e modificar os fatores de risco que poderão contribuir para a queda do RN e consciencializar os profissionais para esta problemática. Visam também o ganho de competências da família através da realização de ensinos sobre segurança para que os possam demonstrar com autonomia durante os cuidados ao RN. As intervenções com especificações dirigidas a cada RN/família, associadas a estes dois diagnósticos devem ser introduzidos no plano de cuidados e calendarizadas de modo a individualizar os cuidados. São muitas vezes intervenções comuns aos dois diagnósticos, e pertencem aos três níveis de prevenção de Neuman (primária, secundária e terciária). Uma mesma intervenção, como “Providenciar:
dispositivos de segurança” no RN pode ser uma intervenção primária, quando se pretende que “o RN seja colocado para dormir no berço” de forma a diminuir o risco, ou terciária, quando se pretende corrigir que “o RN não adormeça na cama com mãe”, na reeducação para a prevenção de futuras lesões, no sentido da manutenção da estabilidade e da readaptação do sistema RN/família.
Após o começo da reformulação do Foco “Cair” com a associação de diagnósticos e intervenções dirigidas ao RN, iniciou a sensibilização/formação dos profissionais para que aplicassem na prática dos cuidados um ambiente seguro para o RN e a sua família, através de sessão de formação, que foi realizada em Abril de 2015 e teve como público todos os enfermeiros do departamento da pediatria do hospital (cf. Apêndice 13). É prioritário a atualização de conhecimentos por parte dos enfermeiros, através da formação, de forma a desenvolver uma prática profissional cada vez mais complexa, especializada e exigente, permitindo à população obter cuidados de enfermagem personalizados, neste caso a população neonatal e sua família (OE, 2001). Após esta primeira sessão de formação, sentiu-se, por parte de toda a equipa, a necessidade de serem efetuadas sessões de formação mais pequenas e em maior número, por serviço, onde fossem abordadas as intervenções de enfermagem com as especificações direcionadas a cada serviço, que decorreram no mês de Junho e Julho de 2015. No apêndice 14 encontram-se as especificações direcionadas à UN, no apêndice 15 ao serviço de bloco de partos, no apêndice 16 ao SIO e finalmente no apêndice 17 ao SUP, SIP e unidade de cuidados intermédios de pediatria. Foi no final do mês de Julho que toda a equipa de enfermagem destes serviços, já levantava os diagnósticos corretos para os RNs, assim como selecionava as intervenções de enfermagem pertinentes para redução do risco de queda.
O envolvimento da família para a promoção de um ambiente seguro, é conseguido, como referido anteriormente, pelo ganho de competências sobre a segurança, através dos ensinos realizados pela equipa de enfermagem aquando do levantamento do diagnóstico: “Aprendizagem: Cair”. Outra forma de alertar e consciencializar a família para as medidas de prevenção de quedas foi também a realização de um folheto a ser entregue à família no início de cada internamento, denominado “Prevenção da Queda no RN” (cf. Apêndice 18).
Por fim, ainda dentro do âmbito da prevenção de quedas no RN, foi definida pelo grupo de trabalho a necessidade de se elaborarem normas/procedimentos reconhecidas como uma base estrutural importante para a melhoria contínua da qualidade do exercício
profissional dos enfermeiros (OE, 2003). No sentido de existir uma linha orientadora comum para a prática de cuidados, foi assim criado o procedimento: “Prevenção da ocorrência de quedas nos RNs” transversal aos vários serviços do departamento de pediatria (cf. Apêndice 19).