Segundo o Programa Nacional de Segurança dos Doentes as instituições prestadoras de cuidados de saúde devem desenvolver planos para a gestão da prevenção das quedas, mas quando não se consegue prevenir que a queda aconteça, devem-se investigar as causas e realizar auditorias internas regulares, para identificar os fatores contribuintes e prevenir a recorrência das mesmas (Decreto-Lei n.º28/2015).
Também, como já foi referido, segundo a JCI, o hospital deve desenvolver e implementar um processo para reduzir o risco de lesões provenientes de quedas nos utentes internados ou em ambulatório (JCI, 2015).
Neste sentido, no âmbito da atuação pós-queda, de forma a diminuir o risco de lesão proveniente da mesma, a primeira estratégia utilizada foi a elaboração de um algoritmo de atuação pós-queda (cf. Apêndice 20), em que a sua aplicação irá permitir a redução do risco de lesões, através de uma atuação atempada e em conformidade por todos os elementos da equipa multidisciplinar.
Quando um RN cai, dentro do ambiente hospitalar, estamos perante um problema multifacetado devido às complexidades físicas que podem ir desde o hematoma à fratura ou à morte e às complexidades emocionais de todos os que poderão estar envolvidos, como a ansiedade, o medo e culpa associada à queda. Neste sentido, através da utilização do algoritmo, existirá uma uniformização na prestação de cuidados de saúde no período pós-queda do RN, de modo a garantir que todos os RNs sejam adequadamente e atempadamente avaliados e cuidados, reduzindo o risco da lesão. E ao reduzir-se o risco da lesão, irá contribuir-se para a manutenção do bem-estar físico, psicológico e social do RN e da sua família.
Após a queda é importante realizar o registo das vigilâncias sistemáticas e também fazer o correto registo do episódio. É importante notificar o incidente para que, em equipa, se possa discutir, partilhar, aprender, antecipar e prevenir.
O grupo de trabalho ao qual pertence, ao atuar na parametrização do foco “Cair” para o RN, decidiu introduzir no âmbito do diagnóstico: “Cair: Atual” (que é levantado quando
existe uma queda no ambiente hospitalar) as intervenções de enfermagem que devem ser vigiadas e registadas e calendarizá-las de modo a individualizar os cuidados, nunca num intervalo superior a 4h durante as primeiras 48h após a queda, também para chamar a atenção da equipa de que existiu uma queda recentemente. Nessas intervenções de enfermagem estão incluídas a monitorização dos sinais vitais, a vigilância do padrão respiratório, da pele e mucosas, da atividade e tónus muscular, do choro, da perda sanguínea, dos sinais de compromisso neurocirculatório, da cabeça (e.g. fontanela, suturas, reação pupilar), dos reflexos e do vómito e também o ensino da família sobre prevenção de queda e a respetiva validação. Desta forma, é possível antecipar alguma alteração do comportamento do RN e intervir mais atempadamente e também proporcionar o ganho de competências da família, sobre segurança e prevenção de quedas, através da realização de ensinos durante os cuidados ao RN.
Esta abordagem do RN inscreve-se na visão sistémica defendida pelo modelo de Neuman, ao dar enfase aos stressores provenientes da queda que podem danificar as linhas de defesa da criança/família e provocar uma reação do sistema que pode comprometer a variável desenvolvimento. Assume aqui a importância da prevenção secundária, direcionada para o tratamento de lesões e para a prevenção de outros possíveis stressores e da prevenção terciária, com a reeducação para a prevenção de futuras lesões e manutenção da estabilidade, através da instituição de medidas reforçadas para prevenir o aparecimento de novas lesões (Neuman & Fawcett, 2002).
Com a mesma importância foi trabalhado, no foco “Cair”, a intervenção: “Registar: Queda”, onde será notificado todo o episódio da queda do RN. Desta intervenção, já são mensalmente extraídos e trabalhados dados, pertencentes ao adulto e à criança, pelo grupo de trabalho, nomeadamente: o serviço onde ocorreu a queda, o horário, o motivo de queda, o grau de severidade, se estava registado o risco de queda aquedado ao utente e se existiam medidas preventivas na altura do incidente. Todos estes dados, após trabalhados e convertidos em valores percentuais, são exportados mensalmente, semestralmente ou anualmente para a administração regional de saúde ou para a entidade certificadora da qualidade e segurança do hospital, a JCI. Desta forma, foi importante criar motivos de queda e graus de severidade adequados ao RN, para se poderem extrair dados do mesmo, juntamente aos dados já extraídos do adulto e da criança. No apêndice 21 encontram-se os diferentes motivos da queda e graus de severidade que foram criados para responder às exigências da população neonatal, baseados na investigação existente.
A extração de dados reais sobre esta problemática só é possível, se os registos estiverem o mais corretos possível. Somente através dos registos se conseguem identificar os fatores contribuintes para a queda e prevenir a sua recorrência (Decreto-Lei n.º28/2015). Esta continuação da reformulação do foco “Cair” com a associação do diagnóstico “Cair: Atual” e de novas intervenções e formas de registo dirigidas ao RN foi também transmitida a todos os enfermeiros do departamento de pediatria, do hospital onde exerce funções, através da sessão de formação realizada em Abril de 2015 (cf. Apêndice 13), já referida anteriormente.
Por fim, dentro do âmbito da atuação pós-queda do RN, no ambiente hospitalar, foi também elaborado o procedimento: “Atuação após a ocorrência de quedas nos recém- nascidos no ambiente hospitalar” (cf. Apêndice 22) transversal aos vários serviços do departamento. Neste procedimento está incluído o algoritmo de atuação pós-queda e também as intervenções a realizar para prevenir o risco de lesão e os registos a serem elaborados para notificar o incidente, no sentido de orientar a prática dos cuidados. A procura da qualidade de cuidados de enfermagem centra-se numa intervenção prática que exige um contínuo aperfeiçoamento das competências teóricas, de forma a desenvolver uma prática profissional cada vez mais complexa, especializada e exigente, permitindo à população obter cuidados de enfermagem personalizados face às necessidades e aos novos desafios que se impõem. Neste desafio, foi a teoria de sistemas de Betty Neuman que norteou o processo de análise da prática ao identificar um conjunto de stressores que podem influenciar o adequado desenvolvimento do RN, bem como dos recursos que o podem fortalecer. O resultado desta análise, fundamentada pela evidência científica, foi a essência da reconstrução do foco de cuidados em estudo.