CHAPTER 3. INSIDER
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3.2.4. Samsung
A chamada crise agrária teve lugar no século II a.C. e não tinha qualquer relação com a dificuldade produtiva ou comercial em relação à atividade agrícola que, pelo contrário, estava em expansão. Após três guerras, já em 146 a.C., Roma derrota Cartago nas chamadas Guerras Púnicas. Tal vitória, como se sabe, veio acompanhada de profundas mudanças socioeconômicas.
As guerras e a convocação para o serviço militar agravaram o empobrecimento dos camponeses, base do exército. Conforme nos ensina Maria Luiza Corassin106, os mais ricos foram os mais beneficiados com essa situação, já que os pequenos e médios proprietários, mortos em batalha, deixaram viúvas e filhos que, arruinados pela perda do pai, eram levados a abandonarem suas propriedades, as quais, por sua vez, eram “anexadas” pelos vizinhos. Em contraste com essa situação, sabemos que as vitórias romanas em suas investidas no Mediterrâneo traziam riquezas para as camadas mais elevadas da sociedade. Com recursos em mãos, o investimento mais seguro era certamente a aquisição de novas propriedades. Como resultado, podemos identificar um considerável abismo social estabelecido por conta desta situação. Adicionalmente, temos a vinda de aproximadamente 20.000 prisioneiros que se transformaram em escravos e, portanto, disponibilizados aos grandes latifundiários como mão de obra. Desta forma o camponês, já despossado de suas terras, teve sua situação agravada pela falta de trabalho ocasionada pelos novos escravos provenientes das guerras.
Para solucionar este problema social, era necessário recorrer à distribuição de terras. Quanto às propriedades privadas, estas estavam cada vez mais se concentrando nas mãos dos ricos investidores e, ante ao tratamento dado ao direito de propriedade em Roma, não cabia ao Estado qualquer interferência nessas terras. A questão, portanto, centrava-se nas terras que
105 DEL GIGLIO, Alfredo José F. Direito Romano. Parte II. São Paulo: José Bushatsky, 1970, p. 282. 106 CORASSIN, Maria Luiza. A Reforma Agrária na Roma Antiga. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 13-17.
pertenciam coletivamente ao povo romano, as chamadas ager publicus. Quanto a elas, o Estado podia vendê-las ou concedê-las gratuitamente. Havia ainda as terras não cultivadas, como florestas, pastos e pântanos, as quais, por serem economicamente rentáveis, eram entregues aos interessados em sua exploração; e também terras conquistadas por Roma, onde os ex-proprietários (e agora meros possessores) não eram expulsos, mas permaneciam mediante o pagamento de tributos. 107
Em 133 a.C., um grupo de senadores reabriu a discussão sobre o ager publicus. O tribuno da plebe108 Tibério Graco, proveniente da mais alta nobreza, apresenta uma nova lei agrária. Uma de suas preocupações era o reforço do poderio militar. Isso se dava por conta do procedimento aplicado para o recrutamento, o qual era realizado mediante um censo (census) para verificar a fortuna dos cidadãos e o posterior escalonamento em níveis. Visto que cada cidadão deveria se equiparar para a batalha, aqueles que não tinham um mínimo estipulado de verba eram isentos do serviço militar. Os pobres, portanto, tornavam-se inúteis ao Estado romano se totalmente despossuídos. Assim, a lei agrária foi apresentada como forma de restaurar as antigas virtudes militares de Roma, preservando a grandeza do império. 109
Não obstante esta motivação, Tibério também argumentava por justiça e equidade ao questionar sobre a distribuição das terras conquistadas a todos. 110 Os empossados do ager
publicus acusaram-no de tentar subverter e abalar o Estado. Muito além da questão militar, a
reforma agrária trazia consigo implicações sociais, políticas e ideológicas. 111 O projeto proposto por Tibério tinha as seguintes características:
O projeto de Tibério Graco limitava o direito de possessio sobre as terras públicas. Estabelecia que cada indivíduo poderia ocupar no máximo 500 jeiras (125 hectares) do ager publicus. Cada pai de família poderia receber mais 250 jeiras por cada filho; a extensão total permitida seria no máximo de 1000 jeiras (250 hectares).
A parte excedente a este limite seria devolvia ao Estado; as terras assim recuperadas seriam divididas em pequenos lotes e distribuídas aos cidadãos pobres. Os beneficiários deviam pagar um pequeno imposto, o vectigal, uma taxa anual sobre a terra. Não sabemos com certeza a extensão dos lotes; crê- se que seriam no máximo 7,5 hectares (30 jeiras).
107 CORASSIN, Maria Luiza. A Reforma Agrária na Roma Antiga. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 29-30. 108 Este cargo remonta à luta entre Patrícios e Plebeus no início da República.
109 CORASSIN, Maria Luiza. A Reforma Agrária na Roma Antiga. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 32-40. 110 A história de Roma é fortemente marcada por uma reinvindicação permanente de terras por parte dos plebeus que nunca chega a ser satisfeita. Tal reinvindicação se dava, em especial, pelo fato das conquistas de novos territórios terem como consequência a apropriação da totalidade ou de parte das terras dos vencidos. (LÉVY, Jean-Philippe. História da Propriedade. Trad. Fernando Guerreiro. Lisboa: Estampa, 1973, p. 30).
Como compensação aos expropriados, a terra pública que eles tinham o direito legal de reter era transformada em propriedade privada. 112
A oposição a tal projeto vinha em particular daqueles que ocupavam ilegalmente o
ager publicus que, para perfazerem tal oposição, utilizam-se do veto concedido aos tribunos
da plebe, feito na ocasião por Otávio. Tendo apenas mais um ano como tribuno da plebe, Tibério recorreu às ideias democráticas do mundo ateniense, defendendo a soberania absoluta da assembleia popular. Otávio, pressionado, foi deposto, tendo a lei sido aprovada pela assembleia de cidadãos. Com a aprovação, uma comissão foi designada para a recuperação, transferência e distribuição de terras. Trabalho desenvolvido com dificuldade, ante a falta de rigorosidade de registro do ager publicus por parte do Estado. 113
Tibério, ao tentar sua reeleição (contra o costume), foi acusado de expulsar os demais tribunos e desejar torna-se tribuno sem eleição. Com isso, uma multidão de senadores e cavaleiros, acompanhados de seus clientes e escravos, realizou um massacre, no qual Tibério e inúmeros partidários foram mortos. 114
A comissão agrária prosseguiu com seu irmão mais novo, Caio Graco, eleito tribuno da plebe em 123 e 122 a.C. A enorme oposição à lei ia de encontro às dificuldades para sua realização, sobretudo quanto aos complicados julgamentos dos litígios. Não obstante os efeitos mitigados da lei agrária, em sua atuação como tribuno da plebe, Caio implementou uma série de mudanças em favor dos mais despossuídos, sendo inclusive acusado de esvaziar os cofres públicos. 115 Com a perda de seu poder político, Caio não consegue uma terceira reeleição e, após conflitos referentes à fundação de uma colônia em Cartago, é morto. A lei agrária nunca foi revogada, entretanto diversas mudanças foram colocadas para ofuscar seus efeitos, tornando-a inócua. Assim, a situação da classe mais baixa piora e, como consequência, foi necessário permitir o alistamento militar mesmo dos despossuídos. 116
Em síntese, as mudanças pretendidas pelos Graco intentaram restaurar a harmonia econômica e social em Roma, após seu equilíbrio nestes aspectos ter sido rompido em virtude da expansão imperialista de Roma no Mediterrâneo.
112 CORASSIN, Maria Luiza. A Reforma Agrária na Roma Antiga. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 46. 113 CORASSIN, Maria Luiza. A Reforma Agrária na Roma Antiga. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 49-53. 114 CORASSIN, Maria Luiza. A Reforma Agrária na Roma Antiga. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 54. 115 Conforme nos ensina Cláudio de Cicco, Caio Graco, sugeriu a distribuição de trigo pelo Estado (lex frumentária), o que arruinaria paulatinamente os latifúndios. (DE CICCO, Cláudio. História do Pensamento
Jurídico e da Filosofia do Direito. 5ª ed. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 57).