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Várias áreas da ciência pesquisam e produzem conhecimento acerca da relação campo-cidade: a economia, a geografia, a história, a sociologia, a antropologia. Enquanto a economia tem uma lógica mais voltada para a questão do mercado e da produção no campo; a geografia dedica-se ao estudo das paisagens, das questões ambientais e territoriais; a sociologia por sua vez, volta-se mais para as relações sociais que se estabelecem no campo e a antropologia tem o foco maior nos estudos sobre a cultura e os aspectos simbólicos da vida cotidiana.

Segundo o filósofo Henri Lefebvre (1986) o período relativo ao século XVII não despertou muito o interesse dos estudiosos em refletir sobre o rural e a vida das populações camponesas. Foi o período relativo à Revolução Industrial (XVIII), que trouxe um crescente número de estudiosos se debruçando sobre o processo que levou ao predomínio da indústria sobre a agricultura e da expansão da cultura urbana no campo. Os estudiosos voltaram-se para o estudo das transformações pelas quais o campo passava em um momento em que a sociedade rural era fortemente afetada pela Revolução Industrial. Esse súbito interesse pela realidade rural pode ser explicado por dois fatores: de um lado havia uma nostalgia frente ao desaparecimento das tradições e do patriarcalismo presente nessas sociedades agrárias. Contraditoriamente, a burguesia que se enriquecia com o desenvolvimento do mercado, ao mesmo tempo, exaltava as formas de vida anteriores à ascensão da economia industrial (LEFEBVRE, 1986).

Moreira apud Biazzo (2008) aponta que as representações ligadas à ruralidade foram construídas a partir das relações de poder e expressas em discursos provenientes de elites urbanas. Assim sendo, o campo e o rural foram sendo concebidos como sinônimos e sendo, ambos, associados a um modo de vida típico do feudalismo. A sociologia rural anterior a 1950 teve como orientação teórica um conceito de rural

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essencializado, descritivo e empírico. A sociedade rural era entendida apoiando-se em uma polarização antagônica de rural-urbano, que opunham as suas características um ao outro. Esta concepção, inclusive, se refletiu em uma representação na forma de um

continuum rural-urbano, concepção essa baseada em uma lógica de gradação e

evolução de um rural profundo em direção ao apogeu da sociedade urbana (SOLARI, 1979).

A clássica definição formulada nos anos 30 do século XX por Sorokin e Zimmermann apud Solari (1979) elenca os seguintes traços como marcantes da condição rural em comparação à urbana: as diferenças ocupacionais entre os dois espaços, com maior peso das atividades primárias nos espaços rurais; as diferenças ambientais, com maior dependência da natureza no rural; o tamanho da população; a densidade demográfica; o grau de diferenciação social e de complexidade; as características de mobilidade social; e as diferenças de sentido da migração. É interessante se perceber, também, como nesta primeira abordagem do continuum rural- urbano, o rural é concebido como sinônimo de campo. Na economia, a tradição sempre foi pensar o rural como algo relacionado à agricultura, incorporando, às vezes, aspectos que vão além daqueles diretamente relacionados à produção primária, mas tendo por universo as famílias ou empresas ligadas a essa atividade. É evidente que isso teve durante determinado período um motivo, o fato de que o “rural” era predominantemente agrícola (FAVARETO, 2007).

Segundo Favareto (2007) na sociologia, a própria criação de uma parte dedicada ao rural veio apoiada na oposição comunidade–sociedade, restringindo a sua análise à vida social dos pequenos lugarejos, também, com forte presença da agricultura na determinação da direção das vidas das pessoas ou das economias locais, e sempre pensando essa esfera com uma relativa autonomia e em contraste com a sociedade englobante. Todavia, atualmente, o “rural”, ainda entendido como sinônimo de campo apresenta mudanças estruturais, devido em grande parte ao modelo de desenvolvimento global. Estas mudanças trazem a necessidade de revisão e análise do termo e, nesse contexto, cabe questionar as concepções tradicionais do rural (FAVARETO, 2007). O

“rural” transcende o agropecuário e passa a comportar uma série de outras atividades,

como a oferta de bens e serviços, entre os quais destaca-se a oferta e cuidado de recursos naturais, os espaços para o descanso, o turismo, a moradia, entre outras. Com isso, mudam as vantagens comparativas do rural em termos das suas possibilidades de

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captação das rendas urbanas. A localização, a fertilidade e o preço da terra passam a dividir importância com a acessibilidade, a paisagem, que são chamadas hoje de amenidades rurais (FAVARETO, 2007; ROSA E FERREIRA, 2010).

Dentro dessa perspectiva as relações de proximidade, marcadas por uma relativa homogeneidade se diversificam e os laços de solidariedade que marcavam uma ruralidade passada se afrouxam. A relação com as cidades deixa de se basear na exportação de produtos primários para dar origem a redes territoriais complexas e com múltiplas facetas, baseadas em novas formas de integração dos mercados de trabalho, de produtos, de serviços e de bens simbólicos. De exportador de recursos, tais como bens materiais e trabalho, os territórios rurais passam a ser atrativos de novas populações e de rendas urbanas. Em suma, desaparece todo o sentido em tratar o “rural” exclusivamente como o oposto do “urbano”, em proclamar seu desaparecimento, ou em resumi-lo a apenas uma de suas dimensões: o agrário (FAVARETO, 2007).

Nesse sentido, segundo Lefebvre (1986), o campo não teria mais nada de autônomo. Ele não pode mais evoluir segundo leis distintas, ele se relaciona de múltiplas maneiras à economia geral, à vida urbana e à tecnologia moderna. Contudo,

de acordo com Carneiro (1998) seria importante ponderar que o “rural” não está

passando por um processo único de transformação em toda a sua extensão e de maneira uniforme. Os efeitos desse processo modernizador seriam percebidos e incidiriam de forma diferente sobre as diferentes populações. Nesse sentido, não se deveria falar de ruralidade em geral (macro categoria), já que ela se manifestaria de formas diferentes em universos culturais, sociais e econômicos heterogêneos (CARNEIRO, 1998).

Wanderley (2001) sustenta que o “rural” seria um modo de vida, por meio do qual os indivíduos enxergariam a si mesmos e o mundo à sua volta. A autora reflete

sobre a idéia de “mundo rural”, caracterizando-o como um universo que não estaria

isolado do todo, mas que carregaria as suas especificidades, as quais teriam se estabelecido através da história, definindo o “rural” como formação social e histórica concreta. Carneiro (1998) traz como proposta pensar o rural e o urbano de forma a romper com a dualidade inerente às concepções tradicionais que definiam essas categorias, normalmente, tendo a imagem de uma como a negação da outra, com base em critérios puramente descritivos e empíricos veiculados pelo modelo que associa o

“rural” ao agrícola e ao atrasado e o urbano ao industrial e ao moderno. Dessa forma,

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delimitação de fronteiras entre os dois a partir de uma classificação baseada em atividades econômicas ou mesmo em hábitos culturais.

Carneiro (1998) propõe a necessidade de análises centradas nas relações sociais que se desenvolvem a partir de processos de integração das aldeias à economia global. Porém, esse processo não é visto como um processo de diluição de diferenças, mas que ao contrário, pode permitir o reforço de identidades apoiadas no pertencimento a uma localidade. Essa lógica tem por base o território sobre o qual a cultura realizaria a interação entre o rural e o urbano de um modo determinado, ou seja, mantendo uma lógica própria que lhe garantiria a manutenção de uma identidade.

Segundo Favareto (2007), com a racionalização da vida rural, se diluiria todo o universo estabelecido sobre a ruralidade agrária, para dar lugar a novas significações. A partir da interposição de dois universos: o “rural” e o “urbano”, que antes eram concebidos como nitidamente separados, geográfica, econômica e culturalmente, pode- se dizer que há o enfraquecimento do paradigma agrário que percebia a sociedade rural como sinônimo de sociedade agrária. Já Biazzo (2008), como tantos outros pesquisadores, se distanciam deste paradigma agrário diferenciando campo e cidade como formas concretas, como materialidades que compõem as paisagens produzidas pelo homem, face aos conceitos de urbano e rural concebidos como representações sociais, como conteúdos das práticas dos sujeitos e das instituições presentes na sociedade. Por isso, urbanidades e ruralidades se combinariam em cada recorte do espaço, nos atos e na visão de mundo de cada indivíduo. Ruralidades e urbanidades seriam, portanto, racionalidades, construções simbólicas, manifestações ou criações culturais concebidas a partir de hábitos e costumes.

Benzer Belgeler