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4.2 Saklama
Segundo Lyons (1977), as noções deônticas de obrigação, permissão e proibição procedem, ou derivam, de alguma origem ou causa. Essa origem ou causa pode ser uma pessoa ou instituição a cuja autoridade alguém se submete, pode ser um corpo moral ou legal de princípios mais ou menos explicitamente formulado, pode ser não mais do que uma compulsão pertinente à mente ou ao espírito, que seja difícil de identificar e precisar.
Dessas palavras de Lyons, compreendemos que identificar e precisar a fonte de noções semânticas nem sempre é fácil. Em contextos de interlocução rigidamente hierarquizados, por exemplo, não há grandes dificuldades: se alguém na função de patrão dirige-se a alguém na função de funcionário e diz que determinado relatório deve ser finalizado até o final do dia, é evidente, em decorrência da estrutura hierárquica na qual os interlocutores se encontram, que o patrão é autoridade à qual se submete o funcionário. O indivíduo no cargo de chefia é autoridade reconhecida, da qual emanam obrigações, permissões e proibições, às quais, em geral, ele sequer fará anteceder explicações. Mas, no caso das expressões modalizadoras deônticas constantes nos proferimentos políticos com os quais estamos lidando nesta pesquisa, o que temos são instaurações de obrigações, permissões e proibições entre iguais, pois parlamentares aconselham-desaconselham a outros parlamentares.
Quando Lyons estabelece a distinção entre modalidade deôntica subjetiva versus modalidade deôntica objetiva, a nosso ver, o autor apresenta o parâmetro fonte por um viéis mais operacional. Para Lyons, na modalidade deôntica subjetiva, o enunciador compromete-se pessoalmente com o valor semântico instaurado (obrigação, permissão, proibição): ele tanto pode ser identificado como a autoridade da qual emana o valor modal como pode ser identificado como aquele que transmite dado valor de alguém cuja autoridade para criar esse valor ele aceita. Na modalidade deôntica objetiva, o enunciador não se compromete
pessoalmente com o valor semântico instaurado, apenas se reporta a um valor ou afirma sua existência.
Conforme destacamos no capítulo IV, essa compreensão da modalidade deôntica em função subjetiva não é ponto pacífico. A função subjetiva vem sendo compreendida como concernente ao comprometimento do falante em relação ao valor de verdade do que ele enuncia. Como vimos, a única parte do enunciado, segundo a Gramática Funcional, ou nível de organização linguística, segundo a Gramática Discursivo Funcional, que representa as visões e crenças dos falantes, caracterizando-se, portanto, como construto que pode ser avaliado em termos de seu valor de verdade é a proposição. Ma o nível de análise dos modais deônticos é o representacional, não o interpessoal. No entanto, se a função subjetiva for compreendida como concernente também ao comprometimento do falante com a desejabilidade da ação ou não ação, o modal deôntico poderá ser interpretado em exercício da função subjetiva, embora não recaindo sobre a proposição.
Conforme explicitamos no capítulo IV, postulamos que a compreensão das expressões linguísticas modalizadoras deônticas em razão do discurso deve levar em conta a existência de graus de subjetividade. Consideramos que há usos modais deônticos nos quais o falante se apresenta como fonte (evidenciando comprometimento com a desejabilidade das ações recomendadas) e usos modais deônticos nos quais o falante não se apresenta como fonte (evidenciando comprometimento com a desejabilidade das ações que ainda irá recomendar, contrárias às relatadas).
Em consonância com nossa proposta de realização de um estudo retórico- funcional das expressões linguísticas modalizadoras no modo de discurso argumentativo, reconhecemos a existência de graus de subjetividade, conforme apresentamos e ilustramos na sequência:
a) Grau 01
O orador compromete-se com o valor deôntico instaurado por se deixar perceber como a fonte da avaliação da distinção modal. A expressão linguística modalizadora deôntica é escopo de um elemento linguístico que remete para o orador.
(93) É no município que enfrentamos todas as consequências dos problemas sociais: desemprego, falta de escola, de moradia, de atendimento à saúde, da violência e
criminalidade, etc. Digo isso porque penso que devemos nos voltar mais para a vida concreta do povo brasileiro. (Discurso 01)
(94) Acho que esta Casa tem de fazer um debate mais amplo, mais profundo e dar respostas, como estamos dando para um momento conjuntural. (Discurso 03)
(95) Entendo que a educação e as questões sociais não podem ser deixadas de lado[...] (Discurso 10)
Observamos, nos exemplos (93), (94) e (95), que as expressões linguísticas modalizadoras deônticas ―devemos nos voltar mais para a vida concreta do povo brasileiro‖ ―esta Casa tem de fazer um debate mais amplo, mais profundo e dar respostas‖, ―a educação e as questões sociais não podem ser deixadas de lado‖ estão como escopo, respectivamente, de verbos indicadores de opinião (penso, acho) e de saber (entendo). Nos conteúdos que expressam, os oradores dos respectivos discursos optam por subordinar obrigações (exemplos 93 e 94) e proibição (exemplo 95) ao seu modo particular de ver as questões. Assim, pela recorrência a enunciados em primeira pessoa, apontam para si mesmos como fontes das quais emanam os valores deônticos instaurados.
b) Grau 02
O orador dilui seu comprometimento com o valor deôntico instaurado por apresentar uma fonte da avaliação da distinção modal. O orador coaduna com a fonte citada.
(96) Concordo com a preocupação central de V.Exa., de que esta Casa tem de pautar de forma continuada o tema e elaborar política permanente para o setor. (Discurso 06)
(97) Outro dia, o Ministro da Justiça falou algo muito importante. Para fazer segurança pública com competência neste País, precisamos de integração e de inteligência. (Discurso 07)
(98) A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente determinam que é dever do Estado oferecer creches e pré-escolas gratuitas às crianças de até 6 anos de idade. (Discurso 21)
Observamos que, no exemplo (96), o orador expressa sua anuência com a preocupação manifesta pelo Deputado que discursa, ao qual ele aparteia, ecoando, como
sendo também sua, a avaliação modal segundo a qual ―esta Casa tem de pautar de forma continuada o tema [da violência] e elaborar política permanente para o setor [o de segurança]‖. No seu aparte, é esse o ponto que o Deputado defende.
Por sua vez, nos exemplos (97) e (98), não há uma marca linguística da anuência dos oradores com as fontes por eles citadas: respectivamente, o Ministro da Justiça, A Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente. No entanto, ao longo do discurso 07 (exemplo 97), o orador defende a necessidade de integração entre as Polícias e de construção de uma polícia científica e aparelhada como meio de contenção da violência. Por sua vez, no transcorrer do discurso 21 (exemplo 98), o orador defende a necessidade do início do processo de escolarização na infância como medida preventiva ao envolvimento de futuros adolescentes com práticas ilícitas. As fontes citadas são, portanto, meios de indicar que não só ele orador pensa desse modo, há outros que também defendem o mesmo ponto de vista (exemplo 97) e há respaldo documental para o ponto de vista que ele defende (exemplo 98).
Desta feita, dentro do que chamamos de grau 02 de subjetividade, há também uma gradação: quando o orador marca linguisticamente que coaduna com a fonte de uma avaliação modal, quando o orador, pelo que defende ao longo de seu discurso, evidencia que coaduna com a fonte de uma avaliação modal apresentada.
c) Grau 03
O orador dilui seu comprometimento com o valor deôntico instaurado por apresentar a avaliação da distinção modal como fato, como algo ao qual o raciocínio lógico conduz.
(98) É evidente que, diante dessa problemática, é necessário um conjunto de medidas. (Discurso 20)
(99) É preciso que o Governo, ao invés de apenas falar, tome medidas cabíveis para que as crianças não fiquem, como estão, mais expostas à marginalidade. (Discurso 22)
No exemplo (99), o orador avalia como sendo ―necessário um conjunto de medidas‖ para contenção da violência. Observamos que a expressão linguística modalizadora
deôntica está como escopo de um modal evidencial, o qual apresenta a necessidade de um conjunto de medidas como uma conclusão lógica a que o auditório naturalmente chega. No exemplo (100), o orador avalia que ―É preciso que o Governo tome medidas para que as crianças não fiquem mais expostas à marginalidade‖. Observamos que a expressão linguística modalizadora deôntica não é escopo de um modal indicador de que o valor deôntico instaurado é consensual. Essa ausência torna a expressão ainda mais atrelada ao que se supõe consabido, mais forte, portanto, dada a sua proximidade a um ideal demonstrativo de exclusão de subjetividade. Apresentar uma proposição como ponto de vista comum é importante estratégia retórica à medida que poupa o orador do ônus da prova.
d) Grau 04
O orador mostra indesejabilidade em relação ao estado de coisas por ele relatado. Há comprometimento com a desejabilidade das ações que ainda serão recomendadas, contrárias às relatadas. Assim, há comprometimento com as obrigações subsequentes instauradas no discurso ou até subjacentes.
(101) Por exemplo, se um delegado no Rio de Janeiro, seja da Polícia Civil, seja da Polícia Federal, tiver de prender algum criminoso que esteja na cidade de Caxias, não pode fazê-lo, pois não pode atuar em outra região que não seja a de sua jurisdição. Isso é o fim do mundo. (Discurso 07)
(102) Para terminar este assunto e ouvir o aparte dos colegas, digo que a própria Deputada Rita Camata, ontem, entregou um discurso como lido. Ela é contra, e uma frase sua é bastante importante: ―[Devemos dar] proteção integral à infância, desde a gestação, no pré-natal, atendimento em creche, pré-escola, ensino fundamental, médio e profissionalizante‖. Ou seja, faça filho que o Governo garante. (Discurso 02)
Em (101), observamos que, ao defender a necessidade de integração entre as Polícias, o orador ilustra as consequências da falta de integração. O orador mostra indesejabilidade em relação ao estado de coisas por ele relatado. A negação de permissão à atuação de um delegado do Rio de Janeiro em Duque de Caxias é uma proibição constante na legislação brasileira, com a qual o orador discorda. Ele apresenta essa proibição à reflexão de
seus pares, conclamando-os a mudar a legislação. A desejabilidade do orador é contrária a essa proibição, ou seja, ele argumenta em favor da retirada dessa proibição.
Em (102), observamos que o orador traz, para dentro de seu discurso, ponto de vista contrário ao seu. Nesse exemplo, o orador também mostrar indesejabilidade em relação ao estado de coisas por ele relatado. O orador defende a necessidade de um controle rígido de natalidade no País, como medida a ser adotada na política de segurança nacional em discussão, pois, segundo o orador, o Estado não tem como cuidar satisfatoriamente da quantidade de filhos de famílias carentes. Assim, o orador não concorda com o discurso da parlamentar mencionada, pois esse incitaria novos nascimentos. Valendo-se do expediente da ironia, o orador interpreta as palavras da Deputada do seguinte modo: ―Ou seja, faça filho que o Governo garante.‖ O que o orador deseja é que o Estado desestimule novos nascimentos para poder dar atenção devida aos já nascidos.
As expressões linguísticas da modalidade deôntica aqui definidas como no exercício da função subjetiva grau 04 são importantes na construção de discursos argumentativos à medida que, em geral, por meio delas, o orador instaura a contra- argumentação. Ele apresenta uma obrigação, permissão ou proibição com a qual não corrobora, para instaurar o que, em sua opinião, seria o útil, o belo, o correto, o justo.
Assim, para o que entendemos ser, no contexto, ocorrências de expressões linguísticas modalizadoras deônticos em exercício da função subjetiva, desenvolvemos uma gradação de subjetividade alicerçada na estratégia retórica de maior ou menor comprometimento pessoal com valores deônticos instaurados no discurso. O orador pode demarcar seu comprometimento pessoal com a desejabilidade de uma ação ou não ação por assinalar linguisticamente que o valor deôntico evocado é fruto de uma interpretação sua. O orador pode diluir seu comprometimento pessoal com uma fonte que julga autorizada, reconhecida por seu auditório. O orador pode diluir seu comprometimento pessoal com a imagem que faz de todos os homens e mulheres adultos e normais que compõem a opinião pública de seu país, os quais são representados pelos parlamentares aos quais se dirige. O orador pode relatar um estado de coisas com o qual não concorda a fim de estabelecer o contraditório, evidenciando que seu comprometimento é com as obrigações subsequentes instauradas no discurso ou até subjacentes.
Do total de 464 expressões linguísticas da modalidade deôntica constantes no corpus desta pesquisa, fez-se notar, em relação ao parâmetro Comprometimento da fonte com valores deônticos instaurados no discurso, a distribuição quantitativa especificada na tabela 05:
Tabela 05 – Graus de subjetividade da expressão modalizadora deôntica: depreendida do parâmetro comprometimento da fonte com valores deônticos instaurados no discurso
Função Frequência absoluta Percentual
Subjetiva – grau 01 41 8,8 Subjetiva – grau 02 28 6,0 Subjetiva – grau 03 357 77,0 Subjetiva – grau 04 38 8,2 Total... 464 100,0
Observamos que a maioria das expressões modalizadoras deônticas constantes no corpus desta pesquisa exercem a subjetividade a qual chamamos de grau 03, ou seja, uma subjetividade marcada pela forte diluição do comprometimento do orador com a desejabilidade das ações que recomenda. Ao instaurar valores deônticos cuja fonte se apresenta como ele, orador, em aparente consonância ao modo de pensar de todos os demais homens e mulheres adultos e tidos como normais que compõem a opinião pública de seu país, aquele que profere o discurso alicerça suas recomendações naquilo que é ―normal‖ para a maioria. Evidencia-se a autoridade do ―grande número‖.
6.5 Tipo de alvo da avaliação de uma distinção modal
Segundo Lyons (1977), a modalidade deôntica relaciona-se à necessidade ou possibilidade de atos realizados por agentes moralmente responsáveis. Sentenças modalizadoras deônticas, destaca o estudioso, expressam uma proposição, ou seja, um
enunciado passível de ser verdadeiro ou falso. Assim, quando impomos a alguém a obrigação de agir ou de se refrear de agir, ou concedemos permissão para agir de determinado modo, claramente, não estamos descrevendo nem o desempenho presente nem o desempenho futuro de ações recomendadas, mas descrevendo um estado de coisas a ser obtido caso o ato em questão seja levado a contento. Apenas um alvo caracterizado pelo traço semântico [+ controle], portanto um ―agente‖, é que pode, em tempo posterior ao tempo em que obrigações, proibições ou permissões foram instauradas, levá-las a contento.
Conforme consideramos no capítulo IV, Hengeveld e Mackenzie (2008), na Gramática Discursivo Funcional (GDF), substituem o termo ―agente‖ pelo termo ―participante‖. Ao darem exemplo da modalidade volitiva, os estudiosos ponderam que a
adoção de um termo mais neutro, como ―participante‖, é adequada, pois a expressão ―voltada para o agente‖ não é feliz, uma vez sugerir que apenas participantes caracterizados pelo traço semântico [+ controle] em estados de coisas dinâmicos podem ser objeto deste tipo de modalização, o que não seria o caso de ―João‖ em ―João deseja ser jovem de novo.‖ Assim, ao versarem sobre a modalidade deôntica, Hengeveld e Mackenzie mantêm o termo ―participante‖ e postulam que a modalidade deôntica pode incidir sobre ―o participante do evento descrito no enunciado‖ ou sobre ―o evento descrito no enunciado‖. A nosso ver, enquanto os estudiosos contribuíram à melhor compreensão da modalidade volitiva, geraram um problema para a compreensão da modalidade deôntica: quando afirmamos que a modalidade deôntica pode incidir sobre o evento descrito no enunciado isso significa inexistência de alvo humano que poderá ou não levar o estado de coisas descrito a termo?
Entendemos que, tendo em vista a natureza da modalidade deôntica, o alvo deôntico caracteriza-se pelo traço semântico [+controle], mesmo que indiretamente. Ou seja,
em construções do tipo ―É preciso observar o dia-a-dia da sociedade e trazer as questões para
o contraditório e a reflexão.‖ (Discurso 03), observamos que não há explicitação do alvo humano sobre o qual recai a obrigação instaurada (alvo deôntico), o alvo da modalização (que aqui chamaremos de orientação da expressão linguística modalizadora) é, nesse caso, o evento descrito no enunciado. No entanto, é evidente que apenas um alvo caracterizado pelo traço semântico [+ controle] poderá, em tempo posterior ao tempo em que a obrigação foi instaurada, levá-la a termo. Ou seja, a terminologia ―agente‖, com sua sugestão de traço semântico [+controle], não é problemático para o estudo da modalidade deôntica. Assim, afirmamos que a expressão linguística modalizadora deôntica pode ser orientada, em termos formais, para ―o participante do evento descrito no enunciado‖ ou para ―o evento descrito no
enunciado‖. Em ambos os casos, no entanto, o alvo deôntico será um agente, respectivamente,
indicado (direta ou indiretamente) ou inferível.
Em consonância com nossa proposta de realização de um estudo retórico- funcional das expressões linguísticas modalizadoras no modo de discurso argumentativo, procedemos à observação (1) da orientação da expressão linguística modalizadora: se voltada para o participante do evento descrito no enunciado ou para o evento descrito no enunciado e (2) dos modos pelos quais os alvos deônticos são apresentados nos discurso que constituem o corpus desta pesquisa, nos casos em que o foco da construção linguística modalizadora é o participante.
Na sequência, expomos os modos de apresentação de alvos deônticos com os quais nos defrontamos na análise dos dados, concedemos exemplos dos referidos modos de apresentação e discutimos os valores argumentativos dessas escolhas.
a) Diretamente indicado – individualizado
(103) O Presidente da República tem de pensar nisso todos os dias e todas a horas. Se não quiser pensar, basta ligar a televisão para ver que os fatos estão diante de nossos olhos. (Discurso 08)
(104) V.Exa. é técnico, pós-graduado, mestrado. V.Exa. vai ter de nos ajudar nessa luta em favor da criança e do jovem e em favor da educação e da saúde do brasileiro. (Discurso 23 – aparte)
Nos exemplos (103) e (104), observamos que os oradores instauram obrigações que recaem sobre terceiros, respectivamente, o Chefe de Estado Luis Inácio Lula da Silva, tendo em vista que o discurso ocorre no transcurso do segundo mandato eletivo de Lula como Presidente da República Federativa do Brasil e o Deputado Paulo Henrique Lustosa. Poucos são os exemplos, no corpus desta pesquisa, de alvos deônticos diretamente indicados, pois isso tende a estabelecer embate, em tom pessoal, entre orador e alvo deôntico citado no discurso. Como estratégia argumentativa, os oradores costumam evitar o confronto direto.
b) Indiretamente indicado – não-individualizado b.1) Como membros de um grupo
(105) Os governantes precisam, de uma vez por todas, diminuir os gastos com mordomias e aumentar os investimentos em educação. (Discurso 06)
(106) Cabe-nos, na qualidade de Deputados e Deputadas, tomar medida que seja a melhor para o momento que vivemos. (Discurso 03)
Nos exemplos (105) e (106), observamos que os oradores indicam alvos deônticos indiretamente, respectivamente, os governantes e os que estão atuando como Deputados e
Deputadas. Os alvos humanos sobre os quais recaem as obrigações instauradas são, portanto, indiretamente indicados como membros de determinado grupo.
b.2) Em referência à esfera pública ou privada à qual integram ou em relação à atividade na qual participam
(107) A Câmara dos Deputados não se podecurvar ante a vontade procrastinadora e tolerante de alguns. (Discurso 06)
(108) A mídia deve exercer papel crítico e fiscalizador com liberdade de opinião, mas sem preconceitos e aviltamento da esfera política. (Discurso 02)
(109) Não vejo os meios de comunicação advogarem a idéia da unificação e da integração, que, como V.Exa. aponta, é a possível no momento. Mais do que isso: deveria o debate nacional ocupar-se com essas propostas corretas, e não com a da diminuição da idade penal. (Discurso 07)
Nos exemplos (107), (108) e (109), observamos que os oradores indicam alvos deônticos indiretamente, respectivamente, os deputados [por meio da menção à ―Câmara dos
Deputados‖], os que fazem a mídia: repórteres, redatores, editores [por meio da referência à
―mídia‖] e os que atuam no debate nacional [por meio da menção à atividade ―debate
nacional‖].
Enquanto ao indicar alvos deônticos como membros de grupos, ainda há forte referência ao traço semântico [+humano], a indicação de alvos em referência a esferas públicas ou privadas as quais humanos integram ou em relação a atividades nas quais participam é menos individualizada, parecendo-nos atenuar o traço semântico [+humano], o que torna a indicação, numa análise gradativa, ainda mais indireta. Muitos são os exemplos, no corpus desta pesquisa, de alvos deônticos indiretamente indicados, pois propiciam instauração de obrigações e proibições sem embates em tom pessoal entre orador e alvo deôntico citado no discurso. Assim, os oradores aconselham-desaconselham, mantendo-se distantes de confrontos pessoais.
c) Não indicado – inferível
(110) É salutar não esquecer que o debate sobre a redução da maioridade penal não encerra a questão da violência, do combate às praticas criminosas. Medidas socioeducativas preventivas e políticas de inclusão têm de ser pensadas em longo prazo. (Discurso 10)
(111) O problema da redução da maioridade penal precisa ser debatido de forma profunda nesta Casa. (Discurso 18)
Nos exemplos (110) e (111), observamos que os oradores não indicam os alvos deônticos sobre os quais recaem os valores que instauram. Em (110), ao enunciar que medidas socioeducativas preventivas e políticas de inclusão têm de ser pensadas em longo prazo, fica