fenomenológica das cartas aos Tessalonicenses. Buscando oferecer, não uma “interpretação dogmática ou teológico-exegética” (HEIDEGGER, 2010, p. 61), nem tão pouco uma espécie de meditação religiosa, mas uma compreensão fenomenológica do Novo Testamento. E qual o diferencial de uma interpretação fenomenológica? Para Heidegger, é “pela compreensão fenomenológica que se abre um novo caminho para a teologia” (Idem). A peculiaridade deste “novo caminho” é a sua capacidade de trazer à tona o sentido originário da vida cristã primitiva 42, esquivando-se daquela postura que Heidegger caracteriza como um “pensar e dizer objetivantes na teologia” (HEIDEGGER, 2008, p. 80). Deste aspecto originário o pensamento cristão se distanciou em demasia, pois “caindo sob a tutela da filosofia grega, foi incapaz de inventar um aparelho conceitual, proporcionado à experiência da vida, própria da fé” (MACDOWELL, 1993, p. 127).
Este objetivo impulsiona a analise efetuada por Heidegger nesta epístola, e se manterá nas epístolas seguintes (1 e 2Tessalonicenses). Por isso a importância de nos determos aos resultados obtidos com a interpretação fenomenológica desta carta. Tais resultados serão de
caráter diretivo para as interpretações que se seguem.
42 Sobre este caráter específico da interpretação fenomenológica do fenômeno religioso, afirma Kisiel: “A
peculiaridade de tal interpretação [interpretação fenomenológica] é a tentativa de partir de uma pre-compreensão como modo de acesso originário ao mundo da vida do Novo Testamento.” (KISIEL, 1993, p. 173).
O que Heidegger pretende em sua analise da carta de Paulo aos Gálatas é “demonstrar a experiência religiosa fundamental e, perseverando nela, deve-se compreender a conexão de todos os fenômenos religiosos originários dela” (HEIDEGGER, 2010, p. 66). Para o cumprimento desta meta, a escolha específica desta carta não se deu de maneira aleatória. Dois aspectos foram decisivos para sua escolha: primeiro, porque para o jovem Lutero esta carta teve sua importância – transformou-se, junto à carta aos Romanos, em fundamento dogmático. E segundo, porque esta carta contém uma historicidade que brota da própria consciência de fé, como apresenta Heidegger:
A Epístola aos Gálatas encerra o relato histórico de Paulo mesmo sobre a história de sua conversão. É o documento originário de seu desenvolvimento religioso e, também historicamente, o relato da excitação apaixonada de Paulo mesmo. Junto dessa epístola deve considerar-se também os Atos dos Apóstolos. De imediato, deve-se procurar uma compreensão geral da Epístola aos Gálatas para poder penetrar, por meio dela, nos fenômenos fundamentais da vida cristã. (HEIDEGGER, 2010, p. 62)
Por que estes motivos ocupam tamanha importância na iniciação da fenomenologia da vida religiosa que se dá na análise da Epístola aos Gálatas? A exposição destes motivos leva- nos a entender de que modo os resultados da analise desta epístola coloca-nos em meio a uma experiência originária do cristianismo. O modo como a Epístola aos Gálatas pode propiciar um caminho para a compreensão originária da vida cristã torna-se evidente na explicitação dos motivos de sua escolha.
O primeiro motivo é a importância da Epístola aos Gálatas para Lutero. Para Heidegger Lutero será um dos pensadores religiosos que efetivamente avançou em direção a uma ostenção originária da vida cristã 43. Isto se evidencia, segundo Heidegger, por meio de sua oposição para com a assunção da filosofia grega por parte dos “Pais da Igreja” e da “Escolástica Medieval”. Por isso, afirma Heidegger, “explica-se seu ódio contra Aristóteles” (HEIDEGGER, 2010, p. 86). Para Lutero, o pensamento cristão, sob a influência da filosofia grega, distanciou-se da mensagem original dos Evangelhos. O esforço em tentar desenredar a mensagem cristã das teias da filosofia grega, através de sua “teologia da cruz”, é para Heidegger o aspecto mais positivo do trabalho de Lutero. Porém, ao passar para o nível da conceitualização e sistematização teorética, cai rapidamente no “influxo de esquemas
43 Vejamos o que afirma Heidegger: “Trata-se de uma decadência da compreensão autêntica quando se toma
Deus como uma objetualidade de especulação. Isso só poderá ser visto quando se levar a cabo a explicação dos complexos conceptuais. Isso porém jamais foi experimentado, porque a filosofia grega penetrou no cristianismo. Somente Lutero deu uma investida importante nessa direção e, a partir disso, explica-se seu ódio contra Aristóteles.” (HEIDEGGER, 2010, p. 86).
inadequados à transmissão de suas vivências” (MACDOWELL, 1993, p. 127). Lutero “vê Paulo a partir de Agostinho” (HEIDEGGER, 2010, p. 61).
Sendo, portanto, fundamento dogmático para Lutero (um dos principais pensadores cristãos a obter um significativo avanço em direção aos domínios originários da vida cristã primitiva), certamente a Epístola aos Gálatas detém em si dados fenomenais que podem fornecer o caminho para a experiência fundamental da vida religiosa. Ao escolher esta carta paulina, Heidegger pretende levar a cabo as intenções radicais da teologia de Lutero – intensificar os resultados fenomenologicamente positivos e esquivar-se de obstruções provindas da tradição metafísica.
O segundo motivo é a historicidade inerente à epístola. Este aspecto é fundamental para a possibilidade de uma fenomenologia da vida religiosa. Heidegger já havia afirmado que para obter a compreensão prévia, que possibilite uma via de acesso originária, era necessário “elaborar e interpretar o método da história das religiões de tal modo que possa ser comprovada criticamente” (HEIDEGGER, 2010, p. 61). A revisão criticamente fenomenológica da evidencia histórica posta por Paulo ele mesmo, nos dá acesso àquela consciência histórica que detona o mundo da vida religiosa do apóstolo. Isto é aquilo que, no curso sobre a “Mística Medieval”, Heidegger caracteriza como historicidade:
Um dos elementos de sentido mais significativo, fundantes, na vivencia religiosa é a historicidade. Na vivência já se encontra uma doação de sentido especificamente religiosa. Em sua originariedade – não em sua absolutez [Abgelostheit] teoricamente teológica – , o mundo da vivencia religiosa centra-se numa configuração histórica única (plenitude de vida pessoalmente atuante). (HEIDEGGER, 2010, p. 307)
Neste elemento de sentido, que Heidegger caracteriza como historicidade, “o mundo da vivência religiosa” concentra-se numa “configuração histórica única” – Heidegger esclarece isto: é a “plenitude de vida pessoalmente atuante”. O peso histórico, que na Epístola aos Gálatas é o relato da concreção da personalidade histórico-religiosa de Paulo por ele mesmo, é precisamente esta “configuração histórica única” – “plenitude de vida pessoalmente atuante”. Nela o mundo histórico do apóstolo torna-se acessível. A “plenitude histórica” que se revela na autodescrição da vida do apostolo é “avaliada com elementos de sentido e da vivência da consciência religiosa e não por critérios extrarreligiosos e até „científicos‟” (HEIDEGGER, 2010, p. 307). Esta autocompreensão da vida religiosa, nela e para ela mesma, que detona o mundo histórico, abre a via de acesso originária para a experiência fundamental da vida religiosa. Esta priorização pela historicidade da vida religiosa como elemento de
sentido fundamental para a interpretação fenomenológica é claramente um direcionamento proveniente da filosofia de Dilthey, e que é determinante para a escolha da Epístola aos Gálatas, como explica Kisiel:
Esta é a primeira indicação do porque Heidegger, a curto prazo, escolhe Gálatas como seu “concreto fenômeno religioso” para explicação. Desde 1919, ele tem estado sob a influência de um texto de Dilthey que propõe que a “consciência histórica” tenha começado no Ocidente com o cristianismo primitivo. Um exemplo de que Dilthey está claramente indicado no texto de Gálatas: a personalidade de Paulo como arena de combate da consciência onde a lei judaica, a consciência pagã do mundo, e a fé cristã se reúnem, onde a crença na Lei e fé no Cristo são mantidas na experiência do Deus vivo, onde a grande história passada e a grande história presente estão juntamente presentes na experiência de transição dos fundamentos religiosos. (KISIEL, 1993, p. 174)
Estes motivos ratificam, portanto, a potencialidade fenomenológica da Epístola aos Gálatas. O que nos cabe agora é indicarmos quais fenômenos serão previamente visualizados na interpretação fenomenológica de Gálatas. Ao elencarmos estes fenômenos poderemos fornecer uma situação preparatória para a compreensão autêntica da vida cristã primitiva, e assim, evidenciarmos seus resultados ontológicos.
2. Descrição dos dados fenomenais relevantes para a interpretação da vida cristã