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Em sua quarta edição, o Festival Choro Jazz14 surgiu como uma oportunidade de aproximar os dois gêneros musicais que batizam o evento. Como um festival de grande porte no cenário brasileiro, atrai músicos e apreciadores nacionais e internacionais. Nele, músicos renomados não apenas presenteiam o público com suas produções artísticas, como também promovem oficinas que incentivam o aprendizado e o intercâmbio de práticas musicais. Desta forma, o Festival Choro Jazz fomenta a composição de uma partitura rara e fecunda a ser percorrida pelo público durante intensos dias repletos dessa atmosfera musical. A aproximação dos gêneros musicais que batizam o festival provoca a troca entre músicos e estilos proporcionando a experimentação sonora da audácia, virtuosismo e a improvisação, de forma graciosa e principalmente maliciosa. O público é presenteado com um panorama musical cheio de nuances, estilos e sotaques diversificados, um repertório que raramente é incluído nas temporadas de shows tradicionais.
Como músico e apreciador de música, o Festival já seria em si um grande atrativo. Como pesquisador do choro, seria uma oportunidade a não ser desperdiçada. Minha presença era obrigatória. O campo exigia minha presença, afinal, meus interlocutores estariam lá, assim como “grandes nomes” de choro.
O Festival foi dividido em duas etapas, ocorrendo durante três dias em Fortaleza e mais uma semana em Jericoacoara-CE15. Em Fortaleza participei de oficinas de prática de choro e assisti aos shows que preenchiam o cronograma do evento. Foram dias permeados por novos aprendizados e movimentação cultural. Apesar de Fortaleza ter recebido o festival, foi em Jericoacoara que ele foi consolidado. A mim, então, cabia a necessidade de percorrer a segunda etapa do choro jazz. “Jeri” era a próxima parada.
Cheguei às 15h na cidade, no horário em que se iniciam as oficinas, que aconteciam num local chamado Centro Comunitário. Por não conhecer a cidade, pedi informações que apontavam para uma casa que ficava a três ruas
14 Disponível em: http://chorojazz.com/apresentacao2.php.
15 Mundialmente conhecida por suas belezas naturais e por ser um dos destinos turísticos brasileiro que mais recebe visitantes estrangeiros, Jericoacoara (ou Jeri, como é apelidada) é uma cidade litorânea do Ceará, localizada a 300 km de Fortaleza.
de onde me hospedei. Caminhei sob as ruas de areia carregando o violão nas costas e muita curiosidade sobre a movimentação que observava naquela cidade. Pessoas passando com algum instrumento ou com aparelhagem de som utilizadas nos palcos se misturavam com um bom número de turistas, mesclando sotaques brasileiros e outras línguas, entrando e saindo das pousadas e restaurantes que tinham suas fachadas cheias de cores tropicais, com nomes que quase sempre remetiam ao sol, à lua e ao mar. Parecia que a cidade, bem menor do que minha imaginação esperava, estava em prol daquele evento.
As oficinas se instalavam pelo Centro Comunitário, onde os professores ocupavam tanto as salas disponibilizadas da casa, como os dois quiosques que ficavam em suas laterais. A oficina de choro, ainda sob orientação de Maurício, ocupava uma destas estruturas externas, que eram cobertas por palha, que por serem localizadas ao ar livre tinham acesso direto à rua. Isto facilitou com que eu localizasse, pois qualquer pedestre tinha acesso visual e sonoro à oficina. Ao olhar inicialmente, imaginei que o som exterior pudesse atrapalhar o encontro, mas me dei conta de que raros foram os veículos que cruzei ao caminhar pela cidade. Além disso, os passantes que percebiam estar atrapalhando logo silenciavam, demonstrando respeito sobre o que ali acontecia.
Somente alguns personagens se repetiam, se comparados aos que estavam presentes na oficina de Fortaleza, como Brenna, Samuel, Paulinho e Gil. Em sua maioria, os participantes eram músicos de outros estados brasileiros e até de outros países. Havia pessoas que estavam já hospedadas nos hotéis da cidade há alguns dias, aproveitando as atrações turísticas do lugar enquanto aguardavam o início do festival, e outras que vieram somente para participar do Festival, tanto pela oficina quanto pelas apresentações, que contavam com granes nomes do choro e do jazz.
Apesar de contar com pessoas diferentes, a metodologia da oficina que ocorria em Jeri não se diferenciou da proposta de Fortaleza, onde Maurício Carrilho16 organizava a roda e tocávamos músicas sugeridas por ele ou por
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qualquer participante, estando escrita ou somente verbalizada. No entanto, uma série de eventos diferenciava o Festival na edição em Jericoacoara.
Prestes a terminar a oficina no primeiro dia, um dos organizadores do Festival surge anunciando que tinha acertado com um restaurante da rua detrás do Centro Comunitário para acontecer uma roda de choro depois da oficina, que terminava às 17h. Deduzi que iríamos voltar para a pousada e em seguida ir para a roda e assim o fiz, mas ao chegar na rua do Restaurante do Sapão já pude ouvir o som agudo das platinelas do pandeiro. Eram os chorões da oficina, juntamente com os outros músicos que compunham o quadro de instrutores das oficinas ofertadas e participantes das apresentações do evento, como os violonistas Penezzi, Cainã Cavalcante e o próprio Maurício Carrilho, o percussionista Bolão, o clarinetista Alexandre Ribeiro e o multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo. Também já estavam Samuel, Paulinho, Brenna e Gil, mas contou com a presença posterior de Igor e Lauro.
As experiências anteriores que tivera como chorão aprendiz não se caracterizavam ainda como uma “autêntica” roda de choro. Para Lara Filho (2011), a roda de choro pode ser considerada a matriz do choro, sendo o contexto de performance mais característico deste gênero. É marcada pela informalidade, não possuindo uma definição prévia do que irá tocar, ou de quem irá tocar. É um encontro de músicos, mas com a presença de audiência, onde todos constituem audiência. Além disso, ao se intercalarem nas performances, os próprios músicos se fazem audiência para os outros.
Podemos caracterizar a Roda como um conjunto de círculos concêntricos, sendo que, no primeiro círculo, estão os músicos (geralmente em volta de uma mesa); no segundo círculo, os interessados pela música (conhecedores desse universo musical e participantes do ambiente de relações pessoais dos músicos); nos círculos subsequentes ficam os frequentadores do ambiente musical - algumas vezes interessados apenas na interação social. (LARA FILHO, p.7, 2011).
A roda tem por característica ser um encontro de pessoas cujo foco é o lazer. Se tratando de um encontro, uma roda se forma sem a necessidade de
ensaios preparatórios. A princípio, todos podem tocar na roda, desde que possuam determinado domínio técnico do instrumento e sejam aceitos pelos músicos do momento. A possibilidade de qualquer instrumentista presente na ocasião da Roda ter a liberdade de tocar reforça também seu caráter de encontro social. A Roda de Choro tem a música por objetivo, pois ela é o elemento principal, o fator agregador de pessoas. Pode-se dizer, assim, que a música origina o contexto, que, por sua vez, interfere na música. O ritual da roda de choro acontece porque existe a música; são indissolúveis contexto e música. Desta maneira, são fatores importantes as pessoas presentes e as relações de troca que os músicos estabelecem entre si. (LIVINGSTON- ISENHOUR; GARCIA, 2005, LARA FILHO, 2011)
E assim me aproximei da primeira roda de choro que enfrentaria. Intimidado com tantos grandes nomes, deixei meu violão ser tocado por Samuel e Paulinho, enquanto observava os componentes da roda e desfrutava dos sons emanados por tantos excelentes músicos. Estava cansado demais para “catar o milho” pelo violão de Maurício, além de desgastado pela viagem. Ao ceder meu violão, percebi que o mesmo ocorria com outros presentes, onde os que estavam sentados cediam seus instrumentos para os músicos de choro que estavam de pé ao redor da roda, juntamente com amigos dos músicos e uma tímida plateia que parava para ouvir a música ao ar livre.
Da mesma forma que ocorria um rodízio de instrumentos para que nenhum dos músicos permanecesse muito tempo sem tocar, ocorria outro gesto de gentileza quanto à escolha das músicas. Havia sempre alguém que olhava para o lado e sugeria para o colega puxar um choro, convite remetido principalmente aos portadores de instrumentos melódicos, como clarinetistas, cavaquinhistas e bandolinistas. Aqueles que iriam puxar uma música perguntavam aos outros se sabiam tocar a que escolheram, caso esta fosse mais desconhecida, fora do repertório coletivo, para que ninguém deixasse de tocar a música. No caso de alguém não saber, outras pessoas iam “cantando a pedra” dos tons ou acordes das músicas, ou mesmo repassavam seus instrumentos para os que não estavam tocando, dando um tempo para tomar suas cervejas, que por vezes esquentava por emendarem seguidamente choros.
Com o tempo, os músicos iam se retirando, seja pelo cansaço de ter tocado o dia inteiro ou por se preservarem para tocar no palco principal do evento como atração da noite. Penezzi, que seria a primeira atração, retirou-se cedo enquanto olhava para suas unhas, já desgastadas pelo uso excessivo. Alguns também evitavam o consumo de bebidas alcoólicas para reservarem energias para tocar ainda no restante da noite.
Estar presente nesta roda com músicos mais velhos e consagrados sempre me fazia lembrar os conselhos dos músicos sobre observar e ouvir todas as informações repassadas por eles em contexto de roda para aprender as “manhas” do choro. Sandroni (2000, p.2) chama esses processos de metodologia “invisível” de ensino, pois considera que ao classificar os processos de transmissão oral como informais, pode-se dar a falsa impressão de um caráter desorganizado e sem forma. Segundo o autor, existe uma tendência a se pensar que o modo como se aprende fora das escolas de música é menos importante e irrelevante. Então, é frequente referir-se a eles como “informais” e “assistemáticos”. A palavra “informal”, de acordo com Sandroni (2000, p.2), estaria associada às ideias de “relaxado” e “descontraído” mas, em suas palavras, esse termo significa na verdade algo “destituído de forma”, algo “desorganizado” (SANDRONI, 2000, p.2).
Durante as apresentações, que ocorriam na praça principal da cidade, era fácil localizar os músicos presentes. Estavam sempre reunidos com total atenção às atrações do evento, ainda que fossem músicos de jazz, outra vertente do Festival. “A gente aprende muito observando estes caras”, era o que sempre ouvia em cada conversa que participava neste período da noite, seguido de promessas como “vou estudar muito pra tocar como esse cara”, principalmente pela voz dos mais jovens, mostrando reverência à figura destes grandes músicos.
Ao final das apresentações, ouviam-se comentários sobre a possibilidade de um novo encontro entre músicos de choro ainda naquela noite. Achei improvável, pois muitos já tocaram o dia inteiro e o horário já passava de meia-noite. No entanto, fui guiado por outros músicos para um restaurante de
esquina, que ficava uma rua acima da praça principal, onde alguns músicos já se preparavam para começar a jamsession17.
O lugar se destacava entre os demais, não somente pela música que acontecia, mas por ser o único estabelecimento em funcionamento naquele horário. Percebi ali uma maior aglomeração de público, o que não acontecia durante as rodas no Sapão, onde a maior parte da plateia era formada de músicos. Estavam ali algumas poucas pessoas que sabiam da existência da
jam e que ainda tinham energia para apreciar, tocar e até dançar, fazendo da
rua o lugar perfeito para tal.
A experiência em Jericoacoara me fez perceber a importância de um evento como este para o choro de Fortaleza. Não é a toa que era tão aguardado e indicado pelos chorões durante todo o ano. A troca de experiências, de estilos e de linguagens durante cada momento do dia esclarecem o que todos diziam do evento ser “a chance do ano para respirar choro”.
3.6 Roda pedagógica – “Nessa roda é permitido chorar com a bíblia aberta