6. Ahiret Hayatı
6.1. Kabir Azabı
Ao retornar do Festival, sentia-me muito mais conectado ao universo chorístico, tanto em relação aos códigos de sua linguagem musical, como na construção de relações com os chorões. Por iniciativa de Son e Paulinho, uma roda de choro foi criada às segundas-feiras no Sax Bar18, com o intuito de ser uma atividade do grupo de estudos durante o período de férias da universidade. Inicialmente ela aconteceria no Bar do Feitosa, mas foi transferida para lá, cujo dono era Zezinho, um saxofonista que já tocou com
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Relação musical pautada em convite e improvisação durante as apresentações. Por se tratar de uma relação permeada pela espontaneidade, a jamsession (ou jam) tem como principal característica a informalidade e a imprevisibilidade.
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Também conhecido como “Tia Fátima”, trata-se de um estabelecimento comercial localizado no bairro Benfica, em Fortaleza e muito frequentado por estudantes universitários da área de humanas da Universidade Federal do Ceará.
grandes nomes da música brasileira, e assim ele poderia fazer alguma participação na roda.
Esta era uma roda em que eu poderia tocar sem receio de errar ou “fazer feio” na frente de grandes músicos. Seu intuito era pedagógico, era de “não deixar esfriar os estudos de choro do grupo”, como sempre ressaltavam os participantes. Desta forma, boa parte de seus participantes faziam parte do grupo de estudos, mas que também contava com a presença de vários nomes do choro da cidade, entusiasmados principalmente por se tratar de um dia da semana em que não existia nenhuma atividade de choro.
Por ser pedagógica, a roda permitia e indicava o uso das bíblias para que todos pudessem tocar correndo menos riscos de errar uma música. A possibilidade de poder tocar observando as partituras era um atrativo para músicos que se iniciavam no choro, sendo uma forma de incentivo por parte dos organizadores da roda para que muitos que se sentiam intimidados em tocar em outras ocasiões pudessem participar. Na verdade, a roda se pautava em um repertório já indicado antes, composto pelas músicas já estudadas pelos participantes do grupo de estudos. Mesmo assim, surgiam músicas diferentes, puxadas principalmente pelos convidados externos ao grupo, além de possíveis sambas que ocorriam já no fim da roda.
Nestas rodas quase todos os presentes participavam. Mesmo sem saber tocar algum instrumento típico do choro, alguns componentes levavam tamborins, chocalhos e outros instrumentos percussivos que os participantes de mãos vazias tomavam para si, numa forma de colaborar com a música. Por outro lado, tal colaboração poderia vir a atrapalhar o desenvolvimento das músicas quando não-músicos tocavam fora do ritmo ou não conheciam as minúcias necessárias de cada música, como pausas ou mudanças de andamento. Numa ocasião, Tauí reclamou de que vários participantes sempre pegavam algum outro pandeiro, atrapalhando a execução do pandeiro que ele tocava, comprometendo a música inteira.
A experiência nesta roda mostra a outra vertente de ensino de choro em Fortaleza. A Roda de Choro se encaixa na modalidade do ensino informal, pois mesmo quando não se tem a intensão de aprender e ensinar, como no caso
desta roda pedagógica, ela se configura como um espaço de formação e de transmissão oral.
Enquanto no grupo de estudos o foco da aprendizagem está na compreensão técnica do choro, na roda os procedimentos mais acentuados da transmissão do choro estão no contato visual, pois contribui para o diálogo musical entre os instrumentistas. Trata-se, neste caso, na competência de ler os sinais gestuais no desempenho do outro instrumento, ou seja, somente o domínio da partitura não supre a necessidade de prática musical, visto que no choro a recriação e improvisação acontecem com frequência. (LARA FILHO, 2009, p. 90-91).
Desta maneira, pode-se perceber que a formação de um chorão está sujeita a vários procedimentos presentes no estudo do gênero. O aprendizado não é focado apenas no estudo da técnica do instrumento, mas em ouvir o repertório, observar as práticas dos chorões mais experientes, frequentar a roda, pedir orientação para professores e músicos frequentadores da roda. O choro necessita interação, o chorão necessita do outro.
4 IMPRESSÕES DO CHORO19: DIMENSÕES DA PARCERIA
O fazer choro é permeado por diferentes esferas de atividades que envolvem processos de associações entre seus músicos. Em tais processos, que perpassam as diferentes etapas da produção de choro, ocorrem formações de relações interpessoais de caráter afetivo e profissional.
As conexões entre músicos de choro existem em dimensões que formam laços e podem ser pensadas a partir de práticas que perpassam os processos de aprendizagem, de formação de grupos, de formas de inserção no mercado, assim como nos processos de distinção e legitimação de um músico de choro.
É possível pensar estas conexões como interações que ultrapassam o caráter momentâneo, agindo como produtora de ligações afetivas nesta rede de cooperação entre os sujeitos músicos. Ou seja, trata-se do contexto musical como formador de relações interpessoais (SCHUTZ, 1977). Desta forma, penso que o termo nativo “parceria” apresenta-se como constituído por diversas dimensões interpessoais que, em suas especificidades, são formadoras e formadas de alianças entre os músicos de choro. Trata-se, assim, de uma musicalidade social ou uma socialidade musical.