Incorporar à história tensões sociais de cada dia implica a reconstrução da organização de sobrevivência de grupos marginalizados do poder e, às vezes, do próprio processo produtivo.
Maria Odila62
As trajetórias de vida dos milhares de sertanejos têm na cidade um desfecho surpreendente, pois diante de todos os conflitos e misérias, o cotidiano vai mostrar pessoas determinadas e que tentam moldar-se aos costumes citadinos na busca pela sobrevivência. Suas marcas e histórias se fazem presentes nos registros estéticos e documentais de Fortaleza.
Os estudos da História Social têm trazido importantes contribuições para que esses personagens “esquecidos” possam participar e contribuir para os estudos historiográficos. A abordagem realizada pela historiadora Maria Odila, em seu trabalho sobre o cotidiano e os poderes em São Paulo no final do século XIX, traz importantes reflexões sobre como os estudos do cotidiano possibilitam entender a participação de determinados grupos sociais que até então eram excluídos das análises históricas. Assim, pensar as experiências dos retirantes em Fortaleza, a partir do cotidiano das tentativas de controle, permite abrir novos campos de pesquisa, uma vez que se busca pelo conhecimento das relações construídas e consolidadas, a partir da chegada desses emigrantes, aprofundar os estudos e problemáticas sobre a capital cearense durante a segunda metade do século XIX.
Apesar dos vários caminhos e passagens referentes à presença dos retirantes na urbe mostrarem-se um campo fértil de possibilidades, as fontes pesquisadas ainda restringem a compreensão de suas trajetórias pela cidade durante o conturbado momento da seca de 1877-79, uma vez que restam somente os discursos oficiais como norteadores dessa busca incansável pelo entendimento de seu cotidiano.
Devido à variedade de descrições de alguns distritos e de abarracamentos, priorizou-se nessa parte analisar as relações existentes entre os retirantes e os ordenamentos estruturais realizados pelos administradores desses
lugares, permitindo reconstruir um pouco do cotidiano, através dos olhares das fontes pesquisadas.
A chegada em Fortaleza desses emigrantes está cercada por diversos relatos que privilegiam as cenas de sofrimentos e penúrias às quais essas pessoas estavam submetidas naquele momento. Não é muito diferente quando são descritos os abarracamentos construídos a partir da vinda dos retirantes.
Penetra-se depois em ruas fétidas ou quadrados formados por enormes lanços de casaria, edificados pelo mesmo modelo, formando imensos salões ou divididos em apertados casebres. É ai a cidadela da miséria onde a resignação da penúria ouve sem prostesto as calúnias da fartura...63
A vida nos também chamados acampamentos para retirantes está cercada de diversas problemáticas que permitem tentar entender os embates e lutas desses emigrantes na capital cearense. Através das palavras escritas pelo jornalista José do Patrocínio pode-se ver o completo descaso e a situação desastrosa em que viviam os retirantes. Percebe-se que os discursos vão consolidar os estereótipos criados sobre a população “flagelada”, e, principalmente, vão colocar essas pessoas como responsáveis pelas condições físicas em que se encontravam esses ambientes.
...Visitei os alojamentos da fome. Encontrei alli o quadro das miserias humanas com todas as suas nuanças. Aquella multidão de desgraçados, formando uma grande esterqueira, onde se misturavam vícios e virtudes, me fez pena. Enquanto os meus olhos viram desconhecidos, as lagrimas iam ficando retidos à custa de um grande esforço...64
As impressões de Teófilo ao visitar um dos abarracamentos não foram tão diferentes. Além de retratar as estruturas desses lugares, ele também mostrou o desconforto e a repugnância que os aspectos visualizados causavam àqueles que os visitavam. Nota-se que tanto os citadinos como os memorialistas do período descreveram a situação procurando dar ênfase à questão da miséria e às condições precárias de higiene, pois uma das intenções era conseguir auxílio do Governo Imperial. Divulgar a seca como um evento trágico para as Províncias do Norte era algo imprescindível. Entretanto, deve-se lembrar que esses vestígios e discursos não podem ser considerados como determinantes para a compreensão da vida
63 PATROCÍNIO, José do. Op.cit. p. 123, nota 1.
migrante nos abarracamentos, mas devem ser analisados e entrecruzados com outras fontes para que possibilitem uma melhor análise.
Dentre os constrangimentos que a presença desses emigrantes traziam aos citadinos, percebe-se que a forma como estavam vestidos trouxe preocupações para o poder público. As constantes trocas de correspondências dos comissários com os presidentes de Província demonstram que, muitas vezes, eles chegavam à cidade praticamente sem nenhuma roupa.
Sendo de indeclinável necessidade mandar preparar diversas peças de roupas para o fornecimento de vestuarios a emigrantes indigentes desta capital e interior da província, apresento a V.Ex.ª a relação inclusa da factura de 1600 saias de chita e igual quantidade de camisas de mandapolam...65
As referências encontradas com relação às roupas distribuídas para os retirantes trazem em suas descrições os tipos de roupas que lhes foram entregues tais como, as “saias de chita” e “camisas de mandapolam”. Nessa fonte percebe-se que as roupas atendiam mais às mulheres, talvez devido à quantidade e à carência nos alojamentos serem mais ligadas ao público feminino, porém não se pode deixar de abordar que se tentava preservar o “pudor” e a “moral” dos hábitos tanto dos homens quanto das mulheres, mas, principalmente, dos citadinos.
Em um dos ofícios enviados ao presidente Dr. Paulino Nogueira, o comissário Álvaro Leão de Miranda pede que sejam enviadas algumas peças de roupas para o abarracamento pelo qual era responsável. Essas roupas deveriam ser distribuídas entre os retirantes que estavam empregados nos serviços do armazém que ficava na Tesouraria geral.
...apresenta-se elles com serviço inteiramente trapillhos e em estado tal de indecencia que as familias que moram enfronte e nas immediações do armasem, seriam privadas de chegar a porta de suas casas por aquelle motivo; assim, eu peço a V.EX.ª que se digne de me conceder autorisação para tirar do respectivo deposito de roupa feita cinco desta vestimentas destinados a provel-os preciso e convenientemente, para deste, modo evitar certos casos de escandalo e immoralidade.66
Nessa descrição existe um ponto central que mobiliza o pedido do comissário: o incômodo que os retirantes estavam trazendo às pessoas que
65 APEC – FUNDO: Governo da Província do Ceará; SÉRIE: Ofícios Expedidos; PERÍODO: 1878; MUNICÍPIO: Fortaleza;
CAIXA: 9, comissão de socorros públicos, Fortaleza 12 de fevereiro de 1878.
moravam em frente ao armazém, pois como andavam mal trajados e em estado indecente, as famílias que ali viviam sentiam-se privadas de circular pelos espaços próximos aos seus lares, uma vez que consideravam impróprio à “moral familiar” visualizar tais cenas. Assim, percebe-se que em geral as fontes pesquisadas dão destaque à preocupação com a questão moral.
As reformas realizadas em cada abarracamento foram sendo consolidadas ao longo dos anos de 1877-79. A princípio não havia tanto planejamento e os abarracamentos foram sendo construídos apenas no intuito de abrigar os retirantes, talvez por que esperavam que logo a seca terminaria. Nota-se que dentre os mandatos administrativos de Fortaleza, o de José Júlio de Albuquerque Barros possibilita observar mais detalhadamente as tentativas de controle sobre retirantes dentro dos alojamentos. Desse modo, escolheu-se analisar os documentos desse período, pois o funcionamento e os melhoramentos implementados nos abarracamentos aparecem mais detalhadamente nesse momento.
O Dr. José Lourenço de Castro e Silva, comissário e médico do 1.° distrito do Meireles, enviou no dia 28 de outubro de 1878 um ofício contando “...
esclarecimentos sobre os melhoramentos executados, no districto a meu cargo de março até hoje e os que estam em via de execução...”67
Qual o numero de indigentes soccorridos no meu abarracamento com declaração de pessoas de cada família, validos e inválidos. Qual o systema adaptado na destribuição de soccorros, a qualidade e quantidade destes que se tem distribuído mensalmente desde março do corrente anno ate fim de setembro. Quais as occupações ordinárias dos indigentes validos. Qual o movimento da enfermaria. O quadro dos empregados com declaração dos salários que recebem mensalmente... 68
Esses primeiros pontos têm como intenção identificar os retirantes que estavam aptos ao trabalho e mostrar ser fundamental que os emigrantes fossem direcionados aos trabalhos, principalmente porque no governo Albuquerque as obras públicas se intensificaram. É também importante dar destaque que essas “prestações de contas” que os administradores realizavam, em grande parte, tinham
67 APEC – FUNDO: Governo da Província do Ceará; SÉRIE: Ofícios Expedidos; PERÍODO: 1878; MUNICÍPIO: Fortaleza;
CAIXA: 9, comissão de socorros públicos, Fortaleza 28 de outubro de 1878.
a finalidade de assinalar que as ordens exigidas para a organização dos distritos estavam sendo cumpridas.
José Lourenço, nesse ofício expedido, afirma que havia tomado posse há poucos meses e, por essa razão, não podia responsabilizar-se pelos atos do antigo administrador, ou seja, ele absteve-se de assumir a culpa por qualquer problema que ocorreu durante o começo da sua direção.
O restante do documento é dedicado às providências que ele acreditava serem necessárias para o melhoramento do distrito. Entre as principais medidas foram citadas a verificação das turmas de trabalhadores que eram formadas por retirantes de outros distritos, a organização das turmas de trabalhadores, alistamento de famílias recém-chegadas, e as construções de mais barracas para abrigar retirantes e de um asilo para as viúvas e órfãos.
Com a finalidade de entender a composição e o funcionamento dos abarracamentos dentro de cada distrito, escolheu-se representar através de um desenho esquemático como estavam estruturados esses alojamentos. A opção do material analisado foi feita levando-se em conta os ofícios que apresentavam uma descrição mais detalhada das edificações presentes nesses espaços (figura 3).
No entanto, não foi possível no esquema mostrar como estavam ordenados os prédios e as barracas, pois os documentos não continham referências sobre as posições e os locais onde eles estavam dispostos. Além disso, outro fator importante foi a escolha do ano de 1879, já que nesse momento percebeu-se que as descrições dos comissários eram mais minuciosas, possibilitando entender a vida dos retirantes nesses lugares.
O desenho deteve-se a analisar o ofício expedido pelo comissário Joaquim Nogueira de Hollanda Lima, responsável pelo 11.° distrito do Jacarecanga, e que a partir do ano de 1879 passou também a administrar o 4.° distrito de Tijubana, que tinha uma administração diferenciada e separada no ano de 1878. Esse distrito provavelmente sofreu uma junção administrativa e assim passou a ser dirigido pelo mesmo comissário do 11.° distrito (figura 2).