NOVEMBRO DE 1877 SETEMBRO DE 1878 FEVEREIRO DE 1879
DISTRITOS POPULAÇÃO POPULAÇÃO DISTRITOS POPULAÇÃO
Meirelles 4.480 Não consta esse dado Pimenta Alto da 22.967
São Luiz 14.129 Não consta esse dado Pacatuba 14.836
Pajehú 15.700 Não consta esse dado Tijubana 3.761
São
Sebastião 8.046
Não consta
esse dado S. Sebastião 7.735
Jacarecanga 576 Não consta esse dado Jacarecanga 9.463
- - - Lagoa -Secca 9.463 - - Engenheiros 1.561 - - Alagadiço 896 - - - Boa - Esperança 10.182 - - Moinho 5.476
TOTAL: 42.931 TOTAL: 114.404 TOTAL: 80.036
FONTE: THEOPHILO, Rodolpho. História da secca do Ceará (1877-1880). Rio de janeiro: Imprensa inglesa, 1922.
O comissário Joaquim Nogueira deu destaque aos “melhoramentos” realizados no distrito de Tijubana, procurando demonstrar que as estruturas ali construídas podiam atender a um grande número de retirantes (tabela 3). No geral, esses lugares buscavam suprir as necessidades mais prementes, uma vez que o objetivo central dessas obras foi promover algumas reformas que melhorassem a vida da população que ali habitava e, assim, tentar evitar a constante circulação dos emigrantes fora dos abarracamentos.
A análise desse documento favoreceu a compreensão de algumas questões que se mostram presentes nesse momento. Primeiramente, menciona-se o funcionamento de uma escola naquele distrito.
...Um edifício construido de tijolo e telha com 400 palmos de frente e 30 de largo, aonde funccionão duas escolas de primeiras letras, sendo uma do sexo masculino e outra do sexo feminino, tendo no centro salão destinado para uma officina.69
A partir das medidas citadas, tentou-se mostrar visualmente como provavelmente foi o edifício construído com a finalidade de instrução das crianças retirantes. Existiam três salas das quais duas foram destinadas ao ensino e separadas de acordo com o sexo, ou seja, havia uma turma para as meninas, outra para os meninos, e uma terceira, que foi reservada para as “oficinas”. É possível que nesse recinto fossem desenvolvidas atividades que encaminhassem as crianças a aprenderem algum trabalho.
Na documentação pesquisada foram encontrados alguns ofícios que apontam o funcionamento de escolas dentro de alguns abarracamentos ao longo do período da seca. Observou-se que alguns dos comissários responsáveis pela direção dos abarracamentos tiveram a preocupação de mostrar estatísticas dos distritos sobre a freqüência das crianças, como foi o caso do 6.° distrito do Benfica.
“...Que exitem duas escholas, sendo uma de meninas freqüentada por 100 alumnos, e outra de meninos com 100 em alistamento, mas freqüentada somente por 50, pela insufficiência do prédio em que funccionar...” 70. A situação
precária em que se encontravam os edifícios onde funcionavam as aulas são apontadas pelo comissário desse distrito como um dos fatores que mostram a
69 APEC – FUNDO: Governo da Província do Ceará; SÉRIE: Ofícios Expedidos; PERÍODO: 1879; MUNICÍPIO: Fortaleza;
CAIXA: 10, GRUPO: comissão de socorros públicos, comissão domiciliaria do 4.° distrito em 12 de julho de 1879.
grande lacuna na freqüência nas aulas. Entretanto poucas foram as fontes que abordaram essas dificuldades mais detalhadamente. É importante lembrar que nem todos os distritos construíram escolas e percebeu-se, ao observar alguns dados estatísticos, que muitas crianças foram aproveitadas nos trabalhos, juntamente com os adultos “válidos”, para os serviços nas obras públicas. Alguns usavam a justificativa de que “... Não havendo eschola no abarracamento, são os meninos,
maiores de 12 annos, empregados em diversos trabalhos públicos a meo cargo.”71
Outras fontes já referem-se aos tipos de trabalhos que essas crianças desenvolviam
“...de 452 pessôas que existem no abarracamento do Cocó sendo estas de viúvas, orphão e inválidos que estão conduzindo tijollos para igreja, das Cajaceiras...”72
A falta de roupas “decentes” para ir às aulas também foi uma das justificativas utilizadas pelo comissário do 2.° distrito de São Luiz para mostrar o escasso número de alunos que freqüentava a escola que ali funcionava.
Estando funcionando neste abarracamento a aula de 1ª letras, estabelecida por meo antecessor, achão-se matriculados 80 alunos, dos quais apenas freqüentavam 46. A rasão dessa pequena freqüência num abarracamento onde se encontram para cima de 400 meninos em idade de aprender, procede de que quase todos sentem faltas de roupas decentes com que se apresentem n´aula. Em vista d´isto, proponho a V.Excia a conveniência de se fazer uma distribuição de 200 vestimentas para meninos próprias para a freqüência da escola, embora de fazenda grossa...73
Não se encontrou nenhum indício de como foram aplicadas essas aulas, nem quantos abarracamentos tiveram escolas, contudo algumas das estatísticas e falhas apresentadas pelos administradores e comissários mostrando a freqüência dos alunos em seus distritos permite analisar que provavelmente a escola foi utilizada mais no intuito de ocupar as crianças e evitar a mendicância do que de aplicação de princípios educacionais.
Retornando à discussão do documento sobre as descrições do comissário do distrito de Tijubana, percebe-se outro ponto importante: o funcionamento e a
71 APEC – FUNDO: Governo da Província do Ceará; SÉRIE: Ofícios Expedidos; PERÍODO: 1879; MUNICÍPIO: Fortaleza;
CAIXA: 10, comissão de socorros públicos, Fortaleza 28 de junho de 1879.
72 APEC – FUNDO: Governo da Província do Ceará; SÉRIE: Ofícios Expedidos; PERÍODO: 1879; MUNICÍPIO: Fortaleza;
CAIXA: 10. Fortaleza 20 de setembro de 1879.
73 APEC – FUNDO: Governo da Província do Ceará; SÉRIE: Ofícios Expedidos; PERÍODO: 1878; MUNICÍPIO: Fortaleza;
organização do hospital que fazia parte das obras executadas por Joaquim Nogueira.
...Um outro de telha que serve de hospital medindo 365 palmos de frente sobe 25 de largo com as seguintes acommodações:
Duas enfermarias um para homens e outra para mulheres, com capacidade de 100 leitos cada uma tendo no centro uma capelhinha aonde se celebra os actos religiosos; um compartimento para ambulância; um outro para consultorio facultativo; duas pequenas casas em separadas servindo; uma para dormitório dos enfermeiros e a outra para deposito dos gêneros destinados à dieta dos doentes. Um outro das mesmas constucção que serve de armasem para os gêneros do prompto soccorro...um outro aonde funcciona a cosinha das enfermarias.74
Os detalhes com que Joaquim Nogueira fala sobre as estruturas do hospital apontam um debate e a preocupação reinante nesse momento: as epidemias e doenças que matavam a cada dia vários retirantes. A apresentação e a função dada a cada sala pelo comissário demonstra a necessidade que se tinha de melhorar o atendimento aos “indigentes” que estavam doentes.
A questão religiosa vai estar bastante presente no decorrer da seca, principalmente através da Igreja Católica, pois freqüentemente nas fontes aparecem referências e notícias da atuação de alguns padres, seja no auxílio aos “flagelados” ou na celebração de missas dentro dos abarracamentos. No entanto, os conflitos entre padres e retirantes também podem ser observados, principalmente, devido à cobrança de alguns serviços prestados por esses sacerdotes.
O Retirante publicou uma matéria no dia 14 de novembro de 1877, cujo
título foi chamado “falta de caridade” e tinha como intenção mostrar a atitude do vigário que pregava no abarracamento do Pajeú.
Consta-nos que no abarracamento do Pajeú, a cargo do Sr Capitão Raimundo Serafim dos Anjos Jatahy, acabam de falecer duas crianças – pagans – por não querer o caridoso vigário d´esta freguezia baptizal-os, bem como a outras mais, pelo simples facto e ter seus paes levado como padrinho o glorioso S. José, que não lasca os competentes cobres, como marca a tabella do bispado. Pois bem: já que o nosso Diocesano, tão caridoso como o seu vigário, não toma providencias sobre isto, o proprietário d´este jornal resolveu pagar ao dito vigário o preço por que vende aquelle sacramento afim de evitar que se reproduzam casos semelhantes. 75
74 APEC – FUNDO: Governo da Província do Ceará; SÉRIE: Ofícios Expedidos; PERÍODO: 1879; MUNICÍPIO: Fortaleza;
CAIXA: 10, GRUPO: comissão de socorros públicos, comissão domiciliaria do 4.° distrito em 12 de julho de 1879.
As palavras efervescentes do jornal mencionam que o padre, responsável pela pregação no abarracamento do Pajeú, estava cobrando pelos serviços sacramentais que ali desempenhava. Nota-se que esse tipo de conflito entre o sacerdotes e os retirantes ia além de uma questão religiosa e apoiava-se na tradição popular, em que os padrinhos deveriam ser responsáveis pelos afilhados na ausência dos pais, assegurando-os “financeiramente” e “moralmente”. Assim, ter “São José” como padrinho ia de encontro aos interesses desses padres que realizavam sua “caridade” em troca de um pagamento. Entretanto, deve-se tomar cuidado quanto às generalizações, pois esse caso não pode levar a acreditar que a maioria dos serviços desses representantes da Igreja Católica visava a esses interesses. Alguns sacerdotes tentaram contribuir no auxílio aos retirantes, como relata Rodolfo Teófilo em um trecho de seu livro sobre a seca de 1877.
O clero da Fortaleza não ficou indiferente aos sofrimentos da população. O virtuoso bispo D. Luis Antônio dos Santos foi o primeiro a dar o mais belo exemplo de caridade. O seu estado de saúde, a fraqueza de sua idade avançada não impediam que visitasse diariamente os hospitais de bexigosos! Aos moribundos do lazareto da Lagoa-Funda muitas vezes ministrou ele os socorros da religião. Sentava-se ao lado do enfermo e consolava com uma piedade evangélica que edificava...76
Analisando as fontes, nota-se a existência de diversas referências com relação à participação de sacerdotes no auxílio aos “indigentes” e à menção de alguns documentos a respeito das construções de capelas e pedidos de padres para realização de missas e celebrações religiosas. Acredita-se que esse também foi um dos meios usados para impedir que os retirantes buscassem as Igrejas que, em sua maioria, ficavam no centro da cidade e, por conseguinte, não saíssem constantemente dos abarracamentos.
O ofício expedido pelo comissário do 13.° Distrito do Alagadiço Grande, José Luiz Rangel, em 1879, também suscitou importantes discussões sobre as estruturas e funcionamento dos abarracamentos. Um outro esquema pode ser construído a partir dos principais aspectos da fonte analisada, pois é provável que o Alagadiço Grande deixou de ser abarracamento e foi transformado em distrito somente no final de 1878.