Acréscimo refere-se à ação do escritor de incluir mais algum fragmento/frase ao texto original com o objetivo de reafirmar uma ideia. Segundo o Dicionário Houaiss, acréscimo é “aquilo que se acrescenta, inclusão pelo autor, em prova tipográfica, de palavra(s), frase(s) ou trecho(s) que não constavam no original; acrescento, intercalação”.106 Almuth Grésillon, em
Elementos de crítica genética, define acréscimo como “expansão sintática e semântica por inserção de palavras, sintagmas ou frases suplementares”107
num texto, no qual há a expansão de uma ideia.
O acréscimo autógrafo só é encontrado nos documentos de trabalho da obra literária, nas marcas deixadas durante o processo escritural, sendo impossível de ser visualizado no texto publicado, uma vez que o texto publicado não porta esses indícios explicitamente. O acréscimo não existe para a crítica literária fora dos manuscritos, pois a edição impressa elimina a dimensão temporal do acréscimo.
O acréscimo “vem depois”, ele acrescenta uma ideia, explicita uma ideologia, um detalhe que porta significados quantitativos e qualitativos ao primeiro elemento que serve de referência. Para Anne Herschberg Pierrot, o acréscimo é a volta de uma ideia retroativa, de uma virtualidade que auxilia na produção do texto:
L’ajout génétique, lui, est de passage, il est em devenir et s’inscrit dans la temporalité d’un processus de transformation de l’écrit. Sauf cãs particuliers, bientôt évoqués, l’ajout de genèse n’est pás destiné à subsister dans Le texte, mais à se lisser au fil des rédactions.108
106 HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 68.
107 GRÉSILLON, Almuth. Elementos de Crítica Genética: Ler os manuscritos modernos. Tradução de Cristina Campos Velhor Birck et al. Porto Alegre: UFRGS, 2007, p. 329.
108
“O acréscimo genético é de passagem, ele é um devir e se inscreve na temporalidade de um processo de transformação do escrito. Salvo suas particularidades, em breve mencionadas, o acréscimo da gênese não é destinado a permanecer no texto, mas a limpar-se no fio do texto”. PIERROT, Anne Herschberg. Ajout génétique et ajout linguistique. In: AUTHLER- REVUZ, Jacqueline e LAILA, Marie-Christine. Figures d’ajout: frase, texte, écriture. Paris:
O acréscimo genético existe apenas no manuscrito, que porta as marcas textuais do processo de textualização. Insere-se em uma dinâmica de escritura que não é linear, mas composta por retomadas das versões anteriores que marcam um processo em constante mutação, evidenciando as campanhas de escritura e os novos contextos discursivos em que se insere a narrativa. Ao confrontar o texto no estágio de gênese, deduz-se sua provável incompletude e a forma como a sua construção se transforma do virtual, do “texto móvel”, ao real. A transformação do texto é flagrada e pode ser observada nos manuscritos, revelando como o texto nasce e como ele se materializa e vai sofrendo mutações ao longo do percurso criativo.
No acréscimo genético, as marcas gráficas (nas margens, nas entrelinhas) geralmente não portam paradigmas de significados, mas há elementos que oferecem maiores condições para o autor explicitar suas ideias. Nesse sentido, o acréscimo genético pode, por exemplo, desenvolver e explorar um tópico que não tinha sido inicialmente planejado ou que não estava presente no roteiro. Isso vai depender da prática de textualização de cada escritor.
Para os escritores que não programam o desenvolvimento da narrativa, mas que necessitam escrever, “se jogar” na escrita, sem ter de obedecer a roteiros, o acréscimo é um elemento essencial. De Biasi afirma que
La redaction est de “premier jet” et se poursuit, à chaque reprise dutravail, par une révision et souvent une “augmentation” de cequi a été précédemment rédigé: em haut Du feuillet, sur sés marges ou dans les espaces interlinéaires, Le manuscrit comporte souvent dês insertions, ponctuelles ou massives, qui constituent des “ajouts”.109
109
“A redação é o primeiro jato e continua, a cada retomada do trabalho, para uma revisão e frequentemente uma “argumentação”, o que tem sido escrito precedentemente: no alto da folha, sobre suas margens ou nos espaços interlineares, o manuscrito comporta frequentemente inserções, pontuais ou massivas, que constituem “adições”. Biasi, Pierre-Marc de. Les paradoxes génétiques de l’ajout. In: AUTHLER-REVUZ, Jacqueline e LAILA, Marie- Christine. Figures d’ajout: frase, texte, écriture. Paris: Presses Sorbonne Nouvelle, 2002, p.
De Biasi acrescenta, ainda, que ao fim dessa primeira etapa de escritura podem aparecer sucessivamente outras reescrituras globais que formarão etapas consecutivas do trabalho de criação. A partir da comparação do conteúdo, da forma e da sua distribuição nas páginas, será possível ordenar cronologicamente os maços de manuscritos.
Para o geneticista, o acréscimo é muitas vezes o elemento que oferece um novo significado ao texto, semelhante ao que o precede e/ou ao que antecede uma ideia, inserindo argumentos que o transforma de tal modo que o novo segmento acrescido torna-se indispensável para a compreensão geral do texto. É como um encaixe de um quebra-cabeça, no qual cada parte contribui para a formação de um todo.
Assim, a cada retomada da escritura surgem novas palavras e novas ideias, o que resulta no que Dominique Combe denomina de “ampliação da escritura”. Ampliação, no contexto da crítica genética, significa adicionar semanticamente, isto é, não só adicionar, mas também desenvolver ideias, qualitativa e quantitativamente: “d’accroître et d’augmenter participe em effet au procede général de l’amplification, [...] comme um ”accroissement de paroles”, ou par Marmontel comme un “art d’agrandir “, qu’il faut entendre dans um Double sens, quantitatif et qualitatif (grandissement)”.110
O acréscimo no texto literário corresponde a um momento de decisão, de fixação de uma ideia a outra preexistente, o que resultará na ampliação do texto de uma campanha de escritura para a outra. O trabalho do escritor testemunha através da palavra o seu pensamento, e o transforma através das ideias que acrescenta. Nesse ínterim, nasce a obra de arte literária, resultado de trabalho de pensamento, pulsão e cálculo, enfoque dos estudos de crítica genética.
110
“Acrescer e aumentar participa, com efeito do processo geral da ampliação, como um aumento das palavras, ou para Marmontel, como uma “arte de ampliar”, que é necessário entender em um sentido duplo, qualitativo e quantitativo (ampliação)”. COMBE, Dominique. L’ajout em rhétorique et em poétique. In: AUTHIER-REVUZ, Jacqueline e LAILA, Marie- Christine. Figures d’ajout: phase, texte, écriture. Paris: Presses Sorbonne Nouvelle, 2002 p. 21.