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Entendemos que, na execução de crédito tributário oriundo de autuação fiscal, o redirecionamento da cobrança contra integrantes de um grupo econômico não é possível, salvo nos casos de sucessão.

Isto porque não cabe à procuradoria, a pretexto de garantir crédito tributário já constituído contra determinado sujeito passivo, alterá-lo no momento da cobrança da dívida (se ainda não decorrido o prazo decadencial, eventual erro no lançamento poderia, neste momento, ser corrigido).

72 “Art. 133. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será instaurado a pedido da parte ou do

Ministério Público, quando lhe couber intervir no processo.

§ 1o O pedido de desconsideração da personalidade jurídica observará os pressupostos previstos em lei.

§ 2o Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração inversa da personalidade jurídica.

Art. 134. O incidente de desconsideração é cabível em todas as fases do processo de conhecimento, no cumprimento de sentença e na execução fundada em título executivo extrajudicial.

§ 1o A instauração do incidente será imediatamente comunicada ao distribuidor para as anotações devidas.

§ 2o Dispensa-se a instauração do incidente se a desconsideração da personalidade jurídica for requerida na

petição inicial, hipótese em que será citado o sócio ou a pessoa jurídica.

§ 3o A instauração do incidente suspenderá o processo, salvo na hipótese do § 2o.

§ 4o O requerimento deve demonstrar o preenchimento dos pressupostos legais específicos para

desconsideração da personalidade jurídica.

Art. 135. Instaurado o incidente, o sócio ou a pessoa jurídica será citado para manifestar-se e requerer as provas cabíveis no prazo de 15 (quinze) dias.

Art. 136. Concluída a instrução, se necessária, o incidente será resolvido por decisão interlocutória. Parágrafo único. Se a decisão for proferida pelo relator, cabe agravo interno.

Art. 137. Acolhido o pedido de desconsideração, a alienação ou a oneração de bens, havida em fraude de execução, será ineficaz em relação ao requerente.”

73 Nesse sentido, fazemos referência ao RE 608.426/PR, assim ementado: “AGRAVO REGIMENTAL.

TRIBUTÁRIO. RESPONSABILIDADE TRIBUTÁRIA. AUSÊNCIA DE CORRETA CARACTERIZAÇÃO JURÍDICA POR ERRO DA AUTORIDADE FISCAL. VIOLAÇÃO DO CONTRADITÓRIO, DA AMPLA DEFESA E DO DEVIDO PROCESSO LEGAL. INEXISTÊNCIA NO CASO CONCRETO. Os princípios do contraditório e da ampla defesa aplicam-se plenamente à constituição do crédito tributário em desfavor de qualquer espécie de sujeito passivo, irrelevante sua nomenclatura legal (contribuintes, responsáveis, substitutos, devedores solidários etc). Porém, no caso em exame, houve oportunidade de impugnação integral da constituição do crédito tributário, não obstante os lapsos de linguagem da autoridade fiscal. Assim, embora o acórdão recorrido tenha errado ao afirmar ser o responsável tributário estranho ao processo administrativo (motivação e fundamentação são requisitos de validade de qualquer ato administrativo plenamente vinculado), bem como ao concluir ser possível redirecionar ao responsável tributário a ação de execução fiscal, independentemente de ele ter figurado no processo administrativo ou da inserção de seu nome na certidão de dívida ativa (Fls. 853), o lapso resume-se à declaração lateral (obiter dictum) completamente irrelevante ao desate do litígio. Agravo regimental ao qual se nega provimento” (RE 608.426/PR, Segunda Turma, Rel. Min. Joaquim Barbosa, j. 04.10.2011).

Desse modo, no curso do processo executivo de débito constituído por auto de infração, constatada a inexistência de bens em nome do devedor, compete à procuradoria averiguar se houve a prática de fraude à execução fiscal ou mesmo a alienação indevida de bens do contribuinte original com o objetivo de frustrar o pagamento da dívida exequenda. Neste último caso, a reversão da alienação do patrimônio do devedor deveria ser discutida mediante ajuizamento de ação pauliana.

Nesse contexto, não vemos como seria possível o redirecionamento da cobrança decorrente de autuação fiscal contra empresas de um mesmo grupo econômico, com amparo no art. 50 do Código Civil. Lembramos que a verificação da fraude e da confusão patrimonial, para fins de autorização da desconsideração da personalidade jurídica de determinado contribuinte, deve se referir ao momento de ocorrência do fato gerador, e não a período posterior a ele.

A respeito do assunto, interessante a discussão travada no precedente abaixo, retirado da mostra de jurisprudência selecionada para a elaboração deste trabalho. A decisão proferida pelo MM Juiz de primeira instância estava em consonância com o entendimento que defendemos, muito embora o TRF-3 a tenha revertido. Confira-se:

A decisão agravada foi proferida nos seguintes termos:

“[...] requer a exequente o redirecionamento do presente feito para as empresas CM4 Participações Ltda., Indústrias Reunidas CMA Ltda., CMA Indústria de Subprodutos Bovinos Ltda., M4 Logística Ltda. e de Alfeu Crozato Mozaquato, em razão daquelas sociedades e a executada terem constituídos [sic] um grupo econômico de fato, em que o controlador seria Alfeu Crozato.

É o relato do necessário. [...]

Não obstante os fatos narrados gerem indícios da existência de um grupo econômico e de atos, em tese, caracterizadores de fraude cometidas pelo mesmo, não têm, contudo, o condão de atribuir responsabilidade solidária das empresas indicadas, pela dívida exequenda, pois os fatos geradores dos créditos precederam, em muitos anos, a constituição do alegado grupo econômico.

O entendimento que tem sido adotado pelo Egrégio Superior Tribunal de Justiça, é no sentido de que não basta a mera existência do grupo econômico para atribuição de responsabilidade solidária às empresas integrantes do mesmo. [...]

É necessária, para a responsabilização, a participação das empresas integrantes do grupo na realização do fato gerador do crédito tributário [...]. As dívidas executadas neste feito referem-se às contribuições previdenciárias [...].

Todas as dívidas acima foram lançadas em nome do Frigorífico Caromar Ltda. e não há nos documentos juntados pela exequente, fato que indique a participação das empresas que pretende responsabilizar nos fatos geradores que originaram os créditos executados.

Tampouco houve demonstração pela exequente, de que o alegado grupo econômico existisse nos períodos acima.

Os documentos juntados levam ao entendimento contrário, pois demonstram que o alegado grupo econômico sequer existia no período devido [...]. Os fatos constantes nos documentos juntados, que poderiam caracterizar a existência de um grupo econômico capitaneado por Alfeu, são posteriores ao período devido. [...]

Assim, muito embora os fatos narrados pelo exequente venham a constituir fortes indícios de um grupo econômico, não há prova de existência do alegado grupo no período devido e também da participação de Alfeu na administração da sociedade devedora (Caromar).

Diante disso, não socorre a exequente a edição da lei n. 8.212/91 e as normas contidas na CLT e Código de Defesa do Consumidor.

Tampouco o disposto no art. 50 do Código Civil, que trata da desconsideração da personalidade jurídica para avançar sobre o patrimônio dos sócios, quando houver abuso da personalidade jurídica. Observe-se que o dispositivo tem por finalidade atribuir a responsabilidade pelo pagamento das dívidas da empresa aos administradores ou sócios que fizeram uso indevido da sociedade.

Referido artigo não é aplicável ao caso dos autos porque os fatos que caracterizaram abuso da personalidade, narrados pela exequente, são posteriores ao período devido. Os fatos que poderiam amparar a desconsideração da personalidade jurídica não se relacionam com a dívida exequenda nestes autos. [...]”

O MM. Juízo a quo, embora tenha reconhecido a existência desse grupo econômico em outras execuções fiscais, não incluiu essas empresas na execução fiscal originária deste agravo, ao fundamento de que os fatos geradores teriam ocorrido antes da própria formação do grupo econômico. [...]

No caso da desconsideração da pessoa jurídica há o art. 30, IX, da Lei n. 8.212/91, que consagra a solidariedade das empresas do mesmo grupo econômico. Não há nenhum óbice, até onde se pode entender, para que a empresa seja incluída no polo passivo mesmo na hipótese de não pertencer ao grupo econômico à época do fato gerador, ou ainda, ter sido criada posteriormente. Isso porque há norma legal expressa que imputa responsabilidade solidária a empresas de um mesmo grupo econômico, posto que absolutamente desvinculada do fato gerador. [...]

Assim ainda, que não tenha a empresa integrado o grupo econômico ao tempo do fato gerador, não identifico fundamento jurídico para livrá-la da responsabilidade solidária (AI 0037340-07.2010.4.03.0000/SP, TRF-3, julgado em 11.10.2013).

Benzer Belgeler