Desde os primórdios da história o homem, para sobreviver, tinha, em primeiro lugar, a obrigação de dominar a natureza para não conviver sempre com o inesperado, ou seja, estar sempre à mercê das forças e intempéries da natureza que poderiam aniquilar a vida. Esta possibilidade de aniquilamento era e continua a ser a raiz de quase todo o medo. É, também, o que tornou importante a funcionalidade dos fins, a razão humana mostrando-se um crível instrumento que poderia livrar o homem do medo da destruição e colocá-lo em uma condição de domínio sobre a natureza: o medo que atormenta a vida do homem só desaparece quando ele deixa de ser dominado para ser dominador.80
O conhecimento na Idade das Luzes (Aufklärung/Esclarecimento) no poder da razão contra as obscuridades, o primitivismo e ingenuidade, alavancado na Revolução Científica, acarretou a dominação da natureza pela razão técnica que, não chegou a cumprir as promessas anunciadas de progresso e bem-estar terem sido anunciadas, na verdade, não foram cumpridas; ao contrário disso, foi pago um preço altíssimo, tanto pelo indivíduo como pela natureza. Nesse mundo de predomínio técnico, e de dominação da natureza pelo homem em busca do capital, dos processos técnicos onde a grande maioria dos homens entram apenas como instrumento, o pensamento perdeu força no sentido de que muitos são excluídos, porque se deixa de lado o pensar crítico passando a predominar o saber calcular. Dobrar-se e adaptar-se ao ganho de capital sem nenhuma reflexão parece ser a tônica.
Kant, ao tratar sobre esta situação do homem em relação ao Esclarecimento (Aufklärung), assevera que a saída do homem da menoridade representa a perda do medo em relação ao futuro. Para ele, o objetivo do Esclarecimento era livrar os homens do medo, fazendo deles senhores do mundo desencantado, no qual os mitos seriam varridos e a imaginação mítica
79 Cf. MORIN, 2010, p. 30. 80
trocada pelo saber, porque é na razão que reside a superioridade do homem. “Sapere aude é o lema da Aufklärung”.81No entanto, ao se perguntar se vivia em uma época esclarecida, Kant
encontra uma resposta direta e concreta:
Não, vivemos em uma época de esclarecimento. Falta ainda muito para que os homens, nas condições atuais, tomados em conjunto, estejam já numa situação, ou possam ser colocados nela, na qual em matéria religiosa sejam capazes de fazer uso seguro e bom de seu próprio entendimento sem serem dirigidos por outrem. Somente temos claros indícios de que agora lhes foi aberto o campo no qual podem lançar-se livremente a trabalhar e tornarem progressivamente menores os obstáculos ao esclarecimento geral ou à saída deles, homens, de sua menoridade, da qual são culpados. Considerada sob este aspecto, esta época é a época do esclarecimento.82
Kant, quando respondeu a essa interrogação, estava no século XIX, mas se estivesse neste século certamente responderia da mesma maneira. É notável que muitos já consigam fazer esse processo, mas ainda é difícil para a maioria deixar a menoridade e pensar por si próprios. Este fato, na compreensão de Adorno e Horkheimer, tem o seguinte entendimento:
O esclarecimento tem perseguido sempre o objetivo de livrar os homens do medo e de investi-los na posição de senhores. Mas a terra totalmente esclarecida resplandece sobre o signo de uma calamidade triunfal. O programa do esclarecimento era o desencantamento do mundo. Sua meta era dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber.83
O processo de desencantamento do mundo da obscuridade da magia, da imaginação, dos mitos e a sua substituição pelo conhecimento científico, acarretou, em contrapartida, não só o esclarecimento, mas também a violência contra a natureza. Para muitos, não bastava apenas conhecê-la, era preciso controlá-la para obter muito lucro. Para tanto, colocaram alguns homens para serem escravos enquanto outros se tornavam senhores do mundo.
Em a “Dialética do Esclarecimento”, Adorno e Horkheimer, em 1947, propuseram-se a investigar as origens do esclarecimento, evidenciando, acima de tudo, que este esclarecimento mudou de forma drástica a relação entre homem e natureza. Para eles, no transcorrer de toda a história do pensamento, o homem continuamente acreditou que estava em plena evolução, que o conhecimento iria sempre ascender e, desta maneira, o ser humano ganharia cada vez mais poder para o domínio total da natureza. Segundo os referidos filósofos,
81Sapere aude
é uma frase em latim que significa “ouse saber” ou “atreva-se a saber”, por vezes traduzido como “tenha a coragem de usar teu próprio entendimento”.A frase teve seu emprego mais conhecido no ensaio Was ist
Aufklärung? (O que é Iluminismo?) de Immanuel Kant, escrito em 1784, que a estabeleceu como uma espécie de grito de guerra iluminista.
82 Cf. KANT, 2005. P. 70. 83
doravante a matéria deve ser dominada sem o recurso ilusório a forças soberanas ou imanentes, sem a ilusão de ocultas. O que não se submete ao critério da calculabilidade e da utilidade torna-se suspeito para o esclarecimento. A partir do momento em que ele pode se desenvolver sem a interferência da coerção externa, nada mais pode segurá-lo. [...] O esclarecimento é compreendido como o processo de evolução do pensamento do homem no transcorrer da história, a saída da fase mítica para a racionalidade técnica. Desde então o sobrenatural, o espírito e os demônios seriam as imagens especulares dos homens que se deixam amedrontar pelo natural. Todas as figuras míticas podem se reduzir, segundo o esclarecimento, ao mesmo denominador, a saber, o sujeito.84
Depois disso podemos falar que poder e conhecimento tornaram-se sinônimos. Por meio deste poder é que o homem estima dominar a natureza e não deixa mais lugar para desconfianças ou pontos obscuros, porque se tornou esclarecido. Assim, ao equipararmos poder e conhecimento, surgiu um problema que é o fato do conhecimento deixar de ter consciência de si próprio ao se transformar em um simples instrumento na luta pela dominação da natureza. Para Silva, “na medida em que conhecimento e poder se identificam, os resultados do saber já não são vistos como fins em si mesmos, mas principalmente como meios de interferir na realidade a partir de propósitos humanos”.85
Doravante essa possibilidade que o homem encontrou para controlar a natureza aliou a tecnociência que não separa mais episteme e techné. É uma ciência, como tudo no mundo hodierno, muitas vezes transformada para utilidade de poucos. Ao realizar a justificação racional de algumas práticas técnicas, os donos do capital que investem na ciência abrem espaço para que as teorias científicas sejam avaliadas não só pelo seu valor de conhecimento, mas, sobretudo, pela possibilidade de resolver problemas práticos, com a criação de aparelhos que facilitam o trabalho do homem, por exemplo.86
Os pensadores da Escola de Frankfurt se posicionam frente à técnica moderna como um móvel de preponderância do homem em, ao menos duas coisas: a primeira implica a dominação do homem por parte da própria técnica; a segunda se revela na dominação do homem pelo próprio homem. A realização deste domínio se dá pelo fato de que o homem da técnica moderna só apreende as coisas quando as manipula, ou seja, quando pode fabricá-las. De tal modo, o caminho deste acondicionamento do homem técnico nos transporta a um mundo totalmente constituído e gerido. Por isso, as resoluções de problemas antigos da
84 Cf. Idem, p. 19-23. 85 Cf. SILVA, 2010, p. 52. 86 Cf. SEVERINO, 2009.
humanidade transformaram-se em um tecnicismo a mais. A ordem emblemática da transcendência, as angústias primitivas, as forças espirituais oriundas de um povo são domesticadas e moderadas pela ordem cirúrgica dos processos técnicos de controle e fabricação. Recuperar estes aspectos da existência é o clamor final dos frankfurtianos; após ter atravessado o “civilizado” modo do pensar e agir do ser técnico, talvez não só reste mais a saudade, mas a pura melancolia pelo que foi perdido.87
Convém salientar que o conhecimento tecnocientífico levou a humanidade a um estágio elevado de desenvolvimento tecnológico e, além do conhecimento e controle da natureza promoveu, também, transformações políticas, sociais, históricas e culturais. Adorno e Horkheimer, ao fazerem uma análise do Esclarecimento revelam que:
enquanto mera construção de meios, o Esclarecimento é tão destrutivo como o acusam seus inimigos românticos. Ele só se reencontrará consigo mesmo quando renunciar ao último acordo com esses inimigos e tiver a ousadia de superar o falso absoluto que é o princípio da dominação cega. O espírito dessa teoria intransigente seria capaz de inverter a direção do espírito do progresso impiedoso, ainda que este estivesse em vias de atingir sua meta. Seu arauto, Bacon, sonhou com as inúmeras coisas ‘que os reis com todos os seus tesouros não podem comprar, sobre as quais seu comando não impera, das quais seus espias e informantes nenhuma notícia trazem’. Como ele desejava, elas couberam aos burgueses, os herdeiros esclarecidos do rei. Multiplicado o poder pela mediação do mercado, a economia burguesa também multiplicou seus objetos e suas forças a tal ponto que para sua administração não só não precisa mais dos reis como também dos burgueses: agora ela só precisa de todos. Eles aprendem com o poder das coisas a, afinal dispensar o poder. O esclarecimento se consuma e se supera quando os fins práticos mais próximos se revelam como o objetivo mais distante finalmente atingido, e os países, ‘dos quais seus espias e informantes nenhuma notícia trazem’, a saber, a natureza ignorada pela ciência dominadora, são recordados como os países de origem. Hoje, quando a utopia baconiana de ‘imperar na prática sobre a natureza’ se realizou numa escalada telúrica, tornou-se manifesta a essência da coação que ele atribuiu à natureza não dominada. Era a própria dominação. É à sua dissolução que pode agora proceder o saber em que Bacon vê a ‘superioridade dos homens’. Mas, em face dessa possibilidade, o esclarecimento se converte, a serviço do presente, na total mistificação das massas.88
Com o advento do Esclarecimento, todas as esferas da vida passaram a sofrer interferências do discurso científico, desde convicções religiosas, conduta sexual, preferências de consumo, padrões de lazer e trabalho a maneiras de ser, agir e pensar. Por isso, Adorno e Horkheimer não o entendem como apenas aquele movimento de pensamento que caracterizou a época das luzes. Para eles, é importante pensar no trajeto que fez a razão, ao tentar racionalizar o mundo
87 Cf. BRÜSEKE, 2001. 88
para dele afastar o medo, bem como saber “por que a humanidade, em vez de entrar em um estado verdadeiramente humano, está se afundando em uma nova espécie de barbárie”.89
Na visão de Adorno e Horkheimer, com o Esclarecimento prevaleceu a ideia de que o saber científico é mais técnico do que crítico. Por outro lado, perdeu-se a confiança na razão objetiva e, com isso, a capacidade de indagar sobre os propósitos das ações humanas. Assim,
O saber que é poder não conhece barreira alguma, nem na escravidão da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo. Do mesmo modo que está a serviço de todos os fins da economia burguesa na fábrica e no campo de batalha, assim também está à disposição dos empresários, não importa sua origem. Os reis não controlam a técnica mais diretamente do que os comerciantes: ela é tão democrática quanto o sistema econômico com o qual se desenvolve. A técnica é a essência desse saber que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital.90
Depois que o homem passou da fase do mito para o esclarecimento acreditou ter o domínio e conhecimento quase total sobre a natureza. O preço pago por tal mudança de paradigma, contudo, na compreensão de Adorno e Horkheimer,91 foi a alienação daquilo sobre o que
exercem poder. A partir de então, a natureza e o homem passaram a ser percebidos somente como meros objetos. No entanto, isso não é um problema de conhecimento incompleto, mas de perda de finalidade.
Nos tempos hodiernos a ciência promoveu um grande paradoxo ao emancipar o homem da tutela da natureza deixando-o vítima de outro domínio, isto é, o homem saiu do status de dominado pelo medo da natureza para se tornar reprimido pelo próprio homem. Para subjugar a natureza exterior o homem precisou, em primeiro lugar, dominar a natureza interior, modificar seus instintos e postura, adotando uma relação com a natureza e com ele próprio totalmente diferente da que tinha na época do mito.
O mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera objetividade. O preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem o poder. O esclarecimento comporta-se com as coisas como o ditador se comporta com os homens. Este conhece-os na medida em que pode manipulá-los. O homem de ciência conhece as coisas na medida em que pode fazê-las. É assim que
seu em-si torna para-ele. Nessa metamorfose, a essência das coisas revela-se como sempre a mesma, como substrato da dominação.92
89 Cf. Idem, p. 11. 90 Idem, 2006, p. 18. 91 Cf. ADORNO e HORKHEIMER, 2006. 92 Idem, p. 21.
Com o passar do tempo, pôde-se observar que a instrumentalização da razão trouxe consequências teóricas e práticas de longo alcance. A razão entendida como logos sempre esteve ligada à faculdade que o sujeito tem de pensar. Tal faculdade foi responsável por afastar o homem da superstição, levando-o a acreditar que o mito possui, apenas, uma falsa objetividade, ou seja, é somente uma criação do próprio homem.
Igualmente, para fazer com que seu plano de dominação da natureza fosse concretizado, fez- se necessário o uso de força física, e depois com o surgimento da produção em massa pelas fábricas a grande maioria dos homens foi obrigada a vender sua força de trabalho. A elite que tem força social para determinar os rumos que a humanidade deve seguir, entretanto, foi composta pelos homens que detêm o conhecimento e o capital. Deste modo, a finalidade última do esclarecimento que era a liberdade, acabou suscitando um novo tipo de dominação. A razão técnica passa a se impor como única forma de razão, enquanto o pensamento que antes almejava a liberdade tornou-se totalitário devido ao uso de modo equivocado a que foi submetido pela técnica. Daí porque Ortega y Gasset93 profetizou ao dizer que a técnica seria
um dos temas debatidos com maior brio, nos próximos anos, para tentar compreender seu real sentido, vantagens, danos e limites. Com esta assertiva o filósofo espanhol nos coloca perante o centro do nosso tempo: a tecnociência.
O sucesso alcançado no domínio da técnica e da ciência – tecnologia - tenta fazer com que todo o conhecimento científico e seus frutos sejam vistos como sendo por si mesmo racionais. No entanto, como bem esclarece Horkheimer, “nenhuma realidade particular pode ser vista como racional per se; todos os conceitos básicos, esvaziados de seu conteúdo, vêm a ser apenas invólucros formais”. Deste modo, a crise pela qual vem passando a razão, segundo Horkheimer, “consiste no fato de que até certo ponto o pensamento ou se tornou incapaz de conceber tal objetividade ou começou a negá-la como uma ilusão”.94
É, pois, sobre a bandeira da certeza e do rigor científico, e da crença no progresso que a razão, cooptada pelo crivo científico, e para atingir a “verdade,” degenerou-se em razão
instrumental.
Assim que um pensamento ou uma palavra se torna um instrumento, podemos nos dispensar de ‘pensar’ realmente isso, isto é, de examinar detidamente os atos lógicos envolvidos na formulação verbal desse pensamento ou palavra. Como já se tem afirmado, com frequência e corretamente, a vantagem da matemática – o modelo de
93 Cf. ORTEGA Y GASSET 2009. 94
todo o pensamento neopositivista – reside justamente nessa ‘economia intelectual’ [...]. Tal mecanização é na verdade essencial à expansão da indústria; mas isso se torna a marca característica das mentalidades, se a própria razão é instrumentalização, tudo isso conduz a uma espécie de materialidade e cegueira, torna-se um fetiche, uma entidade mágica que é aceita ao invés de ser intelectualmente aprendida [...]. Quanto mais emasculado se torna o conceito de razão, mais facilmente se presta à manipulação ideológica e à propagação das mais clamorosas mentiras. O avanço do Iluminismo dissolve a ideia de razão objetiva, dogmatismo e superstição; mas com frequência a reação e o obscurantismo tiraram muito proveito dessa evolução.95
Esse ímpeto que o ser humano possui de controlar tudo e todos exigiu a instauração de uma ordem impessoal, que, em nome do triunfo da razão instrumentalizou, além da natureza, o próprio homem. Na contemporaneidade, o progresso tecnocientífico coloca à disposição objetos e bens que antes só existiam nas visões utopistas. E, no entanto, alerta Horkheimer, incide sobre todos a impressão de medo e desilusão, porque as expectativas da humanidade parecem mais longe de se concretizarem do que nas épocas bem mais obscuras. Este medo e desilusão é fruto da diminuição da dimensão da autonomia por parte daqueles que sofrem por serem tratados como coisas que podem ser substituíveis.
Assim, o progresso da tecnociência, que deveria servir para iluminar a mente humana, veio acompanhado da desumanização, de tal maneira que põe em risco a própria sobrevivência da vida no planeta Terra. Tudo isso é possível porque o poder de crítica, caro à tradição, encontra-se subjugado pelo sistema que mantém de pé o poder econômico contemporâneo.
Ainda, segundo Horkheimer, desde o nascimento o indivíduo parece repetir continuamente esta lição: “só existe um modo de abrir caminho no mundo, o de arruinar a si mesmo. Só se alcança o sucesso através de limitações [...]. O indivíduo, pois, deve a salvação ao mais antigo expediente biológico de sobrevivência, o mimetismo”96. A capacidade de adaptação do ser
humano a ambientes, climas e situações diferentes de vida possibilitou a lenta colonização do planeta Terra, e o desenvolvimento da técnica foi, sem sombra de dúvidas, o que favoreceu o crescimento da humanidade.
O homem com a habilidade para encontrar soluções aos problemas que o aflige, converteu-se na Idade Moderna em um projeto audacioso, a saber, o de libertar-se inteiramente das sujeições que a natureza impõe à sua espécie. A expressão mais legítima que representa a salto dado pelo homem com o desenvolvimento científico encontra-se no que Descartes preconizou: passará a ser senhor e dono da natureza. De fato, Descartes via no aproveitamento
95 Idem, 27-28. 96
prático da ciência um modo de permitir ao homem gozar “sem esforço nenhum, dos frutos da terra e de todas as comodidades que nela se encontram, mas principalmente também para a conservação da saúde”.97
O domínio da natureza, assim como a abolição completa do esforço e do sofrimento da espécie humana, sempre fez parte do ideário do homem. O propósito de amenizar as tarefas mais duras – condição inicial – e de alargar o tempo de vida com boa saúde para as pessoas já é realidade nos países ricos. Sutilmente, à medida que se transformavam as relações de poder, as ameaças mais visíveis foram superadas pelo avanço das pesquisas científicas em todas as áreas do conhecimento, chegou a vez de transformar o próprio imaginário ocidental. Assim, a natureza deixou de ser um meio majoritariamente hostil ao homem para se tornar algo a ser protegido para a sobrevivência da vida na terra.98
Historicamente, a espécie humana desenvolveu o controle do ambiente como opção às migrações em casos de escassez de recursos, bem como consequências evidentes da própria evolução da espécie. É difícil não notar, entretanto, paralelismos reproduzidos ao longo da história entre fases de crescimento da complexidade social e tentativas de controle de recursos naturais.
O projeto moderno de dominação da natureza diferencia-se, sobretudo, pela dimensão e a rapidez das transformações que promove, e por várias inovações conceituais: uma noção explícita de progresso, em um sentido consciente de direção na história; uma dicotomia efetiva entre o humano/cultural/social/ e a natureza, transmitida pela tradição cristã e reforçada pelo racionalismo moderno; e um procedimento que se ampara na revolucionária emergência da tecnociência, elemento chave do projeto de conhecimento e domínio da natureza.99