No século XX, o que define a ciência, tanto as ciências naturais como as ciências sociais, é a sua orientação epistemológica - referente a fatos e não a valores. A ciência moderna almeja ser neutra em termos de valores tanto nos seus objetivos quanto no seu processo de
97 Cf. DESCARTES, 1975, p. 52. 98 Cf. KRIMSKY, 2003. 99 Cf. MODEN, 2007.
elaboração. É um instrumento a serviço dos objetivos do homem, porém afasta do seu campo de responsabilidade os julgamentos de valores sobre suas finalidades.100
A posição central da ciência no imaginário moderno, todavia, conduziu, paralela e paradoxalmente, à ascensão do progresso científico de mero instrumento ao estatuto de objetivo intrínseco, mensageiro de valores positivos implícitos. Com isso, a lógica utilitarista agregada ao controle da natureza entrou em crise nos últimos cinquenta anos, bem como a visão idealizada da tecnociência neutra e da concepção da natureza como um reservatório infinito de recursos inesgotáveis para uso humano.
A despeito de haver indicadores de impactos no planeta Terra, no tocante à atividade humana desde o Neolítico, foi o aumento da população humana e o uso abusivo dos recursos naturais que levaram, pela primeira vez no século XX, à preocupante percepção do que realmente significam em escala global, representados na concentração de poluentes atmosféricos, na perda de biodiversidade, na dissipação de florestas virgens, na redução das populações de peixes, etc.101
Dentre todos os dados preocupantes do consumo abusivo dos recursos naturais, a questão das alterações climáticas102 representa a última de uma série de alertas ambientais crescentes. Não
só porque é autêntico ponderar que uma parte do aquecimento global está inteiramente relacionada a opções tecnológicas, na energia, na construção, nos transportes. Isto tudo ocorreu, como já dito, porque o objetivo era livrar o homem das agruras das intempéries naturais. Por outro lado, o objetivo de maior destaque que estabeleceu sempre, implícita ou explicitamente, a tecnociência como religião hodierna, para muitos, que tem como representante maior o lucro que vem na esteira dessa nova área do saber, mesmo que para isso tivesse que usar abusivamente a poluidora energia do carvão. No entanto, as incertezas inerentes aos meios utilizados pela tecnociência para alcançar tais objetivos, bem como os interesses econômicos em jogo expõem visivelmente as contradições que os sucessos tecnológicos anteriores conseguiram afastar da humanidade, antes que seus efeitos viessem à
100 Cf. LANCEY, 2004. 101
Cf. REDMAN, 1999.
102Aqui se escolheu como exemplo de problema ambiental as alterações climáticas, por ser o que mais afeta a
humanidade no momento, tanto que foi eleito pelo Comitê do Programa Científico do Ano Internacional da Terra, como problema a ser debatido, dentre tantos outros que afetam nosso planeta. Além disso, a Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o ano de 2012, como o Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos.As formas de se produzir, consumir e distribuir energia influencia diretamente na erradicação da pobreza, além de responder eficazmente às mudanças climáticas, melhorando as condições e a qualidade de vida para a maioria da população mundial. Ver PIELKE (2008); ARCHER (2010).
tona. O grande problema de não revelar de forma clara o risco que o “progresso” da tecnociência afastada da ética representa, reside no fato de que
diferentemente dos agentes ambientais ‘antigos’ – os agentes infecciosos -, os novos desafios ambientais apresentam uma dificuldade adicional para seu controle. Por exemplo, o descobridor de uma vacina para AIDS será premiado e objeto de grande admiração por parte de toda a sociedade humana. Em situação oposta, a caracterização das emissões de veículos como fator de agravo à saúde, embora estas causem um número de mortes no mundo da mesma magnitude, enfrentará resistência de parte de grandes grupos econômicos das áreas automobilísticas e de combustíveis, além de contar com a antipatia de bilhões de proprietários de veículos que encontram nos seus carros um objeto de satisfação, conforto e prazer.103
Na contemporaneidade, os desafios ambientais põem em evidência não somente os limites à pretensão de dominar e transformar a natureza, mas igualmente à independência da tecnociência, no tocante ao social e ao político, o que não é desejável, nem possível. Estes seriam os atributos da “ciência pós-normal”.104 O novo estado de esse saber não corresponde
ao seu corpus de conhecimento, mas sim, aos dilemas de elevadas consequências, cada vez mais frequentes, por encontrar-se afastado dos valores éticos, bem como as implicações e o crescente resultado do manejo feito pela tecnociência em áreas diversas da atividade humana e pelo aumento da escala dos impactos potenciais causados pelas máquinas à disposição da humanidade para cada vez mais aumentar lucros.
No século XXI, a tecnociência confronta-se com desafios sem precedentes que são os de orientar decisões em face de ameaças globais. Hoje, é essencial difundir uma compreensão adequada do processo científico. Não se trata de acabar com a ciência, mas com a sua imagem mitológica. O resultado pode ser uma nova concepção, livre das frustrações ligadas a expectativas irrealistas, com vocação prometeica, capazes de defender tal saber eficientemente, assim como os seus contributos contra argumentos baseados em um mal- entendido fundamental sobre a sua operação.
Desde suas origens, a tradição da ciência moderna foi representada respondendo a dois ideais: o ideal cartesiano de um entendimento abrangente da realidade e o ideal baconiano do controle da natureza a serviço da humanidade. A influência recíproca entre os dois tem se refletido na persistente dialética entre ciência e tecnologia avançada, uma dialética que se tornou tão complexa e tão arraigada, que aparece como uma necessidade, ou como um componente integral, da racionalidade.105
103 Cf. SALDIVA e VORMITTAG, 2012, p. 95. 104 Cf.RAVETZ e FUNTOWICZ,1991. 105 Cf. LACEY, 2008, p. 141.
Este propósito constitutivo de ciência tornou-se visivelmente a conduta de muitos cientistas do século XIX que acabou por desenhar essa sociedade tecnologizada e sem limites éticos do século XXI. As indústrias da microeletrônica, entre outros, elevaram a Física no século passado à categoria de ciência paradigmática, responsável também pelo aumento da longevidade. Por outro lado, levou a humanidade a viver sob o medo do Holocausto, fruto do homem que esqueceu das necessidades do outro.106
Habermas107 é outro filósofo contemporâneo que critica a racionalidade dessa sociedade
tecnicista que visa, apenas, estabelecer os meios para se alcançar um fim determinado. Ou seja, o desenvolvimento tecnocientífico voltado, tão somente, para a aplicação técnica acarreta a perda do bem humano próprio que estaria submetido às regras de dominação técnica do mundo natural. Lembrando Kant,108 o homem perde sua dignidade, já que se torna
um mero meio e não um fim em si mesmo. Pois, para ele, cada pessoa é um fim em si mesmo e não pode jamais servir de meio para qualquer outra coisa.109
A visão de Habermas110 sobre o papel da tecnologia é mais crítica quando associada ao seu
papel em relação aos benefícios à natureza e à cultura. Tal postura é compreendida, pela visão habermasiana, como uma intimidação da tecnociência para aqueles que questionam os novos procedimentos científico-tecnológicos do final do século XX, ligados à biotecnologia e à nova engenharia genética. Habermas discute os aspectos subjetivos das antigas e das atuais identidades do homem, à luz das novas e revolucionárias tecnologias que podem salvar e modificar radicalmente a humanidade. Daí a repercussão do exercício sem precaução da tecnociência na esfera da ética. Desde a década de 1990, as técnicas de reprodução assistida, por exemplo, são capazes de introduzir uma série de alterações nos indivíduos interferindo, desse modo, para melhorar sua genética. Por outro lado, elas são preocupantes no que toca as diferenças acarretadas por estes procedimentos em relação à sociedade. Certos aspectos impalpáveis da personalidade humana poderão em breve ser modificados por terapias genéticas reparadoras ou não reparadoras em benefício de outrem.
Assim, a oferta cada dia mais crescente de possibilidades de modificações nos padrões genéticos dos indivíduos suscita a questão da seletividade das aptidões e habilidades. A partir 106 Cf. SMITH, 2008. 107 Cf. HABERMAS, 1989. 108 Cf. KANT, 1999. 109 Cf. CALDAS 2008. 110 Cf. HABERMAS, 2004.
daí, a maneira natural de se conceber os seres humanos pode ser modificada, trazendo consequências bastante sérias para as relações intra e intergeracionais. Na compreensão de Habermas, as “consequências de manipulação genéticas parcialmente realizadas a partir de uma decisão unilateral significa uma responsabilidade problemática para aquele que se julga capaz de tal decisão”.111
Outra modificação que o desenvolvimento de tecnociência levanta são as de mediações relativas à liberdade de nossas ações, sobre questões de responsabilidade. É desejável que as tecnologias sejam capazes de nortear nossas ações, mesmo que isto signifique entrar em conflito com a nossa autonomia? Até que ponto elas limitam a nossa liberdade? Estas questões são de suma importância porque tecnologias, cada vez mais, passam a direcionar nossas ações, sendo por isso mesmo questionável se ainda podemos ser responsáveis por elas. A reflexão sobre tais questões morais é extremamente importante porque as tecnologias são uma parte substancial de nossas vidas e um dos aspectos que mais influencia a sociedade contemporânea.112
Jacques Ellul argumenta que o desenvolvimento tecnológico mudou a forma de agir da sociedade contemporânea. Entretanto, há os que defendem uma posição oposta.113 Para estes
últimos, as tecnologias são projetadas para satisfazer os desejos humanos. Já Jonas114 acredita
que as intermediações da técnica na vida humana são tão sérias que apela para uma mudança também na ética. Karl Jasper, Meadows e Bostrom115 argumentam que o homem deve
aproveitar os desenvolvimentos da tecnociência para se tornar um ser melhor.
Um dos problemas das tecnologias são, dentre outros, as armas de destruição em massa, como é o caso da bomba atâmica e das armas químicas. Por isso, é viável questionar quanto espaço ainda há para a escolha do modo de agir frente à mediação tecnocientífica. Questões como esta chamam a atenção para a interação entre as tecnologias e as ações moralmente relevantes das pessoas. Assumir a responsabilidade neste sentido mais amplo implica questionar o porque de certos aspectos da tecnologia seriam bons ou maus do ponto de vista moral.116
111 Cf. HABERMAS, 2004, p. 89. 112 Cf. ELLUL, 1989. 113 Cf. FLORMAN, 1976; SUNDSTRÖM, 1998. 114 Cf. JONAS, 1984.
115 Cf. MEADOWS et al,1972; JASPER, K (1962 apud SALAMUN, 2006), e BOSTROM, 2005. 116