• Sonuç bulunamadı

O homem atual, com a perda do significado último para a sua existência, percebe ao mesmo tempo que é incapaz de realizar sua humanidade plenamente. Como conseqüência, não está mais disposto a seguir nenhuma diretriz ou lei ideal. Vive como se não tivesse mais energia para viver tal lei. É o que Giussani chama de desespero ético, sem nenhuma possível “dignidade ou lealdade últimas”.43

Para Luigi Giussani a natureza mesma do nosso eu é a de uma espera, como se uma promessa lhe tivesse sido feita. No diário do escritor italiano Cesare Pavese encontram-se várias frases que corroboram, de algum modo, a tese da natureza do eu como espera. Uma, em especial, escancara essa constatação: “Alguém alguma vez nos prometeu algo? E então por que esperamos?”44 Sobre essa passagem de Pavese Giussani comenta:

Talvez ele não tenha pensado que a espera é a estrutura mesma da nossa natureza, a essência da nossa alma. Ela não é um cálculo: é dada. A promessa está na origem, desde a própria origem da nossa criação. Quem fez o homem o fez “promessa”.

Estruturalmente o homem espera; estruturalmente é mendicante: estruturalmente a vida é promessa.45

O abismo das perguntas últimas encontra na morte um grande estímulo, pois nela encontra a sua contradição mais escancarada. Essa contradição torna essas perguntas ainda mais vivas, ao invés de eliminá-las, de acordo com Giussani. Ele compara essa exasperação das perguntas diante da proximidade da morte com uma energia que, tensionada, encontra pela frente um obstáculo. A tensão aumenta ainda mais, ao invés de diminuir.

Por esse motivo, se a natureza de nosso eu é o de uma espera, a proximidade da morte não poderá jamais diminuir esse estado de expectativa. Ao contrário, o abalo de uma

42 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 81.

43 Cf. Idem, O senso de Deus e o homem moderno, p. 122-123. 44 Apud, Idem, O senso religioso, p.82.

doença ou de um acidente que quase nos tenha levado a vida são momentos propícios à exasperação das perguntas últimas do nosso coração.

Essa natureza de espera faz parte desse complexo de exigências e evidências que constitui a experiência elementar do homem, ou seja, daquilo que o homem experimenta fundamentalmente, estruturalmente.46 Se o homem tem exigência de felicidade47 é porque ele espera ser feliz. Se ele tem exigência de justiça, verdade e beleza, é porque, no fundo, ele espera que tudo isso possa acontecer. Segundo Giussani é essa a dinâmica da esperança:

A esperança, como exigência de que se realize aquilo que o coração deseja, não pode ser uma certeza que nasça do próprio coração porque o coração não sabe, deseja, mas não sabe. Como pode tornar-se certeza do coração (...), certeza de que se realize aquilo que o coração humanamente deseja? A natureza da dinâmica da esperança é desejo, mas é um desejo que não pode ser seguro de si.48

Tal constatação leva Giussani a perceber o senso religioso como “capacidade que a razão tem de exprimir a própria natureza profunda na interrogação última”, isto é, como o “locus da consciência que o homem tem da existência”. Essa “pergunta inevitável está em cada indivíduo e dentro do seu olhar para todas as coisas”. Giussani chega a afirmar que o indivíduo humano é, ele mesmo, aquela pergunta, e é ela quem define a dignidade humana de cada pessoa.49

Diante da pergunta última sentida no interior do homem, continua Giussani, ele encontra-se totalmente só e faz a experiência de solidão, pois nada pode preencher ou responder satisfatoriamente a essa situação. Mas concomitantemente, diante dessa experiência de solidão definida pela pergunta, o homem pressente uma companhia, “porque significa que eu sou constituído de uma outra coisa, ainda que misteriosa”.50 A descoberta

dessa companhia está na origem da solidão sentida, pois a pergunta nasce gratuitamente, sem meu consentimento e torna a solidão sinal de uma companhia escondida.51

46 Vide cap. 2, p. 70-75.

47 “Todos os homens procuram ser felizes. Isso é sem exceção, sejam quais forem os diferentes meios que eles

empreguem para isso. Eles tendem todos a esse fim. (...) É o motivo de todas as ações de todos os homens”. Blaise PASCAL, Pensées, p. 197.

48 Luigi GIUSSANI, É possível viver assim? p.161. 49 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 85. 50 Ibid., p. 86.

Luigi Giussani conclui que somente a existência de um mistério insondável além da nossa capacidade pode corresponder à pergunta pelo sentido último da existência, à estrutura original do homem. Aquilo que pode corresponder ao homem “é algo que não é ele mesmo, que não pode dar a si mesmo, que não consegue medir, que o homem não sabe possuir”.52 Como afirma Pascal, “os homens são todos indignos de Deus e capazes de Deus,

indignos por sua corrupção, capazes por sua natureza primeira”.53

Dessa maneira, para Giussani, é perfeitamente razoável admitir a hipótese da existência de Deus. Se a natureza do homem é desejo de infinito, se é espera – e, por isso mesmo carrega dentro de si a esperança de uma felicidade plena que intui não poder dar a si próprio – é adequadamente plausível admitir a possibilidade de existir um Mistério correspondente a esse desejo e a essa espera. Se sua natureza é constituída pela pergunta sobre o significado de tudo e se ele busca exaustivamente uma resposta, não admitir sua existência é ir contra o dinamismo da razão. Conseqüentemente, qualquer tentativa de suprimir a pergunta gera uma diminuição da potencialidade da natureza do eu.

Julien Ries, afirma que o homo religiosus aparece como um personagem histórico encontrado ao longo de toda a história humana, e que emergiu no transcurso dos milênios da pré-história. Afirma, também, seguindo Eliade, que suas dimensões e estrutura mostram que existe unidade espiritual na humanidade, apesar dos diferentes rostos que este homo religiosus apresenta nas diversas culturas e épocas.54

Portanto, o modo com que Giussani utiliza a expressão “senso religioso” teria como finalidade expressar a percepção, existente em cada ser humano, de uma vontade ou tendência de relacionamento com um Outro transcendente, o Mistério que nos origina, mantém e a quem seríamos destinados naturalmente.

Toda essa abordagem giussânica do senso religioso, de sua importância capital para a definição da dignidade insubstituível de cada indivíduo humano tem o intuito, também, de efetuar um contraste com a noção reduzida de religiosidade e razão, separadas uma da outra, que o autor percebe como dominante na cultura hodierna. De fato, Giussani cita a

52 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 86-87. 53 Blaise PASCAL, Pensées, p.193.

famosa frase de Shakespeare, “O mundo sem Deus seria uma fábula contada por um idiota num acesso de raiva”,55 como uma boa definição do tecido de uma sociedade atéia.

À primeira vista, no mundo Ocidental, poucas sociedades assumem abertamente o seu ateísmo. O que normalmente é difundido atualmente como “senso comum” é uma espiritualidade mais ou menos vaga, a crença, por parte da grande maioria das populações, na existência de um Ser supremo ou algo semelhante.

Essa espiritualidade, no entanto, não tem praticamente nenhuma incidência na vida pessoal de cada indivíduo contemporâneo, segundo Giussani. Um dos principais motivos é justamente o desconhecimento e a desvalorização do senso religioso, na forma como ele o descreve acima. Vivemos, de acordo com o autor, um processo de esvaziamento e redução das perguntas últimas que constituem a natureza mais caracteristicamente humana.56

A conseqüência mais imediata que se pode depreender de um tal processo é a redução e o aniquilamento da dignidade do homem, atacada naquilo que, para Giussani, constitui sua marca diferencial; naquilo que, de fato, o coloca em um nível privilegiado em relação a todo o restante da natureza. É, realmente, uma conseqüência lógica: se o senso religioso constitui o fator primordial da dignidade humana; se, ao mesmo tempo, vivemos um processo de esquecimento, esvaziamento e redução deste mesmo senso religioso, estamos vivendo um processo de clara desumanização do homem.

Segundo Angelo Scola, a obra de Giussani – em especial sua recuperação da dimensão do senso religioso e da razão – é uma visão crítica das reduções racionalistas e fideístas a que o pensamento Ocidental sujeitou a razão.57 Ela nos ajudaria a tornar

evidentes, na realidade atual, os resultados do caminho percorrido no processo de encolhimento da razão – e suas reduções decorrentes – ao longo dos últimos séculos.

55 Apud, Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 87. 56 Vide Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 89-115. 57

2 – Um exemplo: o senso religioso e a cultura americana, segundo

Benzer Belgeler