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Este tópico, a partir dos discursos teológicos ambientais de Carriker, Reimer, Schaeffer, Marshall e Genebra, abordará as narrativas da destruição/restauração no livro de Apocalipse apresentando o final da criação de Deus como um evento único e universal em que novos céus e novas terras serão criados.

Na leitura cristã do Novo Testamento, a visão apocalíptica da criação pressupõe não apenas o seu julgamento (2 Pedro 3.1-12), mas também e por último a sua renovação (2 Pedro 3.13; Apocalipse 21). Como o ser humano (suas obras, seu corpo) passará por julgamento e “fogo” (1 Coríntios 3.12-15), também a criação passará pelo fogo do julgamento. Porém, da mesma forma que ainda haverá alguma continuidade entre os nossos corpos atuais e os corpos ressuscitados (1 Coríntios 15.35-58), assim também será com toda a criação, da qual fazemos parte. Ou seja, como Deus havia prometido após o dilúvio, nunca mais Deus realizará tal destruição (Gênesis 9.15). A intenção de Deus é criar novo céu e nova terra, ou melhor, recriar este céu e esta terra, da mesma forma que cria os seguidores de Cristo em nova humanidade, ou melhor, recria nossas mesmas pessoas em pessoas renovadas.

Segundo Reimer (2006), num contexto sócio-histórico hostil, as comunidades cristãs reinterpretam tradições profético-apocalípticas dentro de um horizonte histórico-salvífico. A partir de um contexto de opressão política, de exploração econômica e de discriminação religiosa – o ressurgir do caos original – é que o Apocalipse faz também sua releitura do Gênesis. A expectativa da salvação vem da certeza de que Deus pode recriar todas as coisas: todas as coisas serão recriadas (Apocalipse 21,22). Os textos apocalípticos relêem e reescrevem a tradição da criação na expectativa de novos céus e nova terra.

O comentário de Reimer, de acordo com Foucault, “conjura o acaso do discurso fazendo-lhe sua parte: permite-lhe dizer algo além do texto mesmo, mas com a condição de que o texto mesmo seja dito e de certo modo realizado.” (Foucault, 2009, p. 25-26)

Para Carriker (2011), em Cristo somos “nova criação” (literalmente a frase usada em 2 Coríntios 5.17, e não “novas criaturas”; veja também Gálatas 6.15), isto é, pessoas recriadas e renovadas, porém com os mesmos corpos. Novo homem não é outro homem material. E o mesmo se aplica a toda a criação. Para que haja a renovação da criação, Deus chama os cristãos para evangelizar e é Ele quem salva, chama os cristãos para renovar a criação, mas não deixa de ter a autoria sobre o novo céu e a nova terra. Através da salvação trazida por Jesus, a própria Criação será redimida, por isso o povo de Deus, a igreja, tem relevante papel na redenção da criação.

Na visão apocalíptica de João, ele diz “Então vi novos céus e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a Cidade Santa, a nova Jerusalém, que descia dos céus, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu marido”. Isto significa, conforme Carriker, que “novos céus” e “nova terra” não são outros céus e outra terra, mas céus e terra renovados da mesma forma que Cristo nos transforma em novos homens e novas mulheres, isto é, não fisicamente outras pessoas, mas pessoas renovadas, e assim, outras pessoas interiormente.

A missão “integral” inclui não só os diversos ministérios da igreja em relação ao seu próximo, mas também integra este mundo todo criado por Deus e esta história toda guiada por Deus. A escatologia da missão “integral” é uma escatologia engajada no projeto de Deus para o mundo que ele próprio criou e ainda redimirá.

De acordo com Schaeffer,

O chamamento atual do cristão e da comunidade cristã, por parte de Deus, no tocante à natureza [...] é para que demonstremos uma cura substancial aqui e agora, entre o homem e a natureza, e a natureza consigo mesma, até onde os cristãos possam conseguir que isto assim seja. (Schaeffer, 1976, p. 75)

É possível inferir que, no entendimento de Carriker acerca do que disse Schaeffer, uma missiologia que leva a sério o papel criador de Deus, que age dentro da história humana, compreenderá o seu destino também dentro duma história e dentro dum mundo ainda em construção por Deus.

Para os cristãos, a história da salvação se inicia com a criação. Deus viu tudo o que tinha feito e disse que tudo quanto criou era muito bom. A vida era plena e satisfeita em Deus. Como conseqüência da queda, no pecado, a morte entrou no mundo. Esta queda trouxe a separação entre Deus e o ser humano, do ser humano com o seu semelhante e do ser humano com o restante da criação. Mas, esta separação entre o estado de morte do homem para com a natureza tem sua solução através da redenção em Jesus.

O que chama a atenção é que, segundo Carriker (2010), no processo de redenção do ser humano, Jesus utiliza duas figuras terrenas para consolar e estimular o homem a ir para o céu: A figura do paraíso: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lucas 23:43). O céu de Jesus é o Éden com as portas abertas. Com o pecado Deus expulsou o homem do jardim, com a redenção Deus recebe de volta o homem no jardim que figuradamente é a cidade. Na visão final de João, o jardim se tornou uma praça da Nova Jerusalém, onde a árvore da vida está no meio e suas folhas curam os povos (Apocalipse 21:1-5).

Muitas vozes são ouvidas nos comentários sobre as narrativas da destruição/restauração do Apocalipse, entretanto, os capítulos 21 e 22 são recorrentes na leitura ecológica do Apocalipse e, por isso, foram escolhidos para uma análise mais pontual.

Transcrição de Apocalipse 21.1-5; e 22.1-6 na versão Almeida, Corrigida e Revisada, Fiel Referência Autor Texto Bíblico

Apocalipse 21 João 1 E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.

2 E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido.

3 E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus.

4 E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.

5 E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis.

Apocalipse 22 João 1 E MOSTROU-ME o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro.

2 No meio da sua praça, e de um e de outro lado do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a saúde das nações.

3 E ali nunca mais haverá maldição contra alguém; e nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos o servirão.

4 E verão o seu rosto, e nas suas testas estará o seu nome.

5 E ali não haverá mais noite, e não necessitarão de lâmpada nem de luz do sol, porque o Senhor Deus os ilumina; e reinarão para todo o sempre.

6 E disse-me: Estas palavras são fiéis e verdadeiras; e o Senhor, o Deus dos santos profetas, enviou o seu anjo, para mostrar aos seus servos as coisas que em breve hão de acontecer.

Quadro X - Transcrição de Apocalipse 21.1-5; e 22.1-6 na versão Almeida, Corrigida e Revisada, Fiel

Os textos apocalípticos relêem e reescrevem a tradição da criação na expectativa de novos céus e nova terra. Não há nada de intrinsecamente mau na natureza, na criação, no universo, mas o pecado é que leva a criação ao seu estado atual e a redenção que ela aguarda deverá resolver este problema – como é possível ler em Apocalipse que João, em visão, enxerga esta redenção já concretizada – “Vi novo céu e nova terra” (Apocalipse 22:1).

Para Schaeffer, “de acordo com o ponto de vista cristão das coisas, a natureza é restaurada à sua verdadeira posição”. (Schaeffer, 1976, pg. 99).

Em Genebra (1995), a voz de Deus anuncia a descida da nova Jerusalém num cenário de total renovação: um novo céu e uma nova terra. As visões finais do Apocalipse entrelaçam inúmeros temas bíblicos em uma bela unidade: criação, comunhão, habitação de Deus, o povo exclusivo de Deus, fim do sofrimento e da morte, confiabilidade da Palavra de Deus, água da vida e advertências. A última

revelação de Deus conduz todas as revelações anteriores a um clímax. A descrição final do paraíso contém elementos que aludem ao Jardim do Éden. O estado final restaura a comunhão inquebrável e idílica entre Deus e os seres humanos.

Segundo Marshall (2007), os capítulos 21 e 22 de Apocalipse dedicam-se, principalmente, a uma nova descrição da nova Jerusalém (em substituição a antiga), onde Deus morará com seu povo. As figuras geográficas e arquitetônicas se destacam para descrever as condições em que o povo de Deus viverá. O livro termina com uma ênfase adicional na iminência da vinda de Cristo e incentiva as pessoas para que venham e recebam a água da vida que lhes dará a vida eterna.

Síntese da Análise Teológica em Apocalipse Referência Autor Texto Bíblico

Apocalipse 21 Carriker A visão apocalíptica da criação pressupõe não apenas o seu julgamento (2 Pedro 3.1-12), mas também e por último a sua renovação (2 Pedro 3.13

Deus estabelecerá um novo céu e nova terra, que serão exemplificados pela justiça, paz e compaixão por meio do Redentor Jesus. O céu de Jesus é o éden com as portas abertas. Com o pecado Deus expulsou o homem do jardim, com a redenção Deus recebe de volta o homem no jardim e a figura da cidade. Na visão final de João, o jardim se tornou uma praça da Nova Jerusalém, onde a árvore da vida está no meio e suas folhas curam os povos (Apocalipse 21:1-5). Jesus é a porta de entrada para o jardim, ou, a praça da nova cidade. Apocalipse 22 Carriker A expectativa da salvação vem da certeza de que Deus pode recriar

todas as coisas: todas as coisas serão recriadas (Apocalipse 21,22). Quadro XI - Síntese da Análise Teológica em Apocalipse

Relacionando os últimos parágrafos, é interessante notar que este tópico é encerrado com a perspectiva de novos céus e nova terra sendo renovados por Deus por uma humanidade restaurada em seus valores morais e princípios éticos. Para alcançar este objetivo o próximo tópico abordará a construção e a aplicação do discurso teológico

Benzer Belgeler