KEMAL ANKARADA
O, direklere insanlar kendini asmış
Depois da apresentação das narrativas da criação no livro de Gênesis e no Velho Testamento e de oferecer uma possibilidade de re(leitura) dos textos sob a perspectiva ecológica, este tópico pretende abordar as narrativas neotestamentárias e seu testemunho no que diz respeito ao cuidado e à proteção ambientais através do discurso teológico ambiental de Moltmann, Reimer, Carriker, Marshall e Genebra. As porções bíblicas foram extraídas da versão Corrigida e Revisada, Fiel de João Ferreira de Almeida.
O que se pretende é, como diria Foucault,
reconstituir um outro discurso, de reencontrar a palavra muda, murmurante, inesgotável, que anima do interior a voz que escutamos, de restabelecer o texto miúdo e invisível que percorre o interstício das linhas escritas e, às vezes, as desarruma. (Foucault, 1972, p. 39)
O pressuposto da criação como obra de Deus, sob a perspectiva judaico-cristã, perpassa o Novo Testamento principalmente nos Evangelhos, no livro de Atos e nas cartas do apóstolo Paulo, sendo que recebem um novo enfoque sob a dominação social e política do Império Romano. A questão da terra, da água, do trabalho escravo e da necessidade de refazer a vida está presente de maneira significativa no Novo Testamento e estabelecem paradigmas e posturas ecologicamente corretos, sob a perspectiva cristã evangélica, no mundo de hoje.
No contexto sociocultural e religioso do Novo Testamento era importante para as pessoas e a comunidade cristã afirmar que Deus, o Deus de Abraão, Sara, Jacó,
Miriam e de Jesus, é o criador do mundo, marcando com isto seu referencial e diferencial de identidade religiosa naquele contexto. Num contexto de exploração econômico-social e de ocupação político-militar esta afirmação de identidade religiosa objetivava garantir a existência e a sobrevivência digna do povo, bem como a preservação do mundo e de todos os seres criados.
No Novo Testamento, Jesus é o referencial, o modelo que possibilita seguir os seus passos, estar n’Ele conforme 2 Coríntios 5.17. As Escrituras dizem que a relação de Jesus com a criação está no fato de que tudo foi criado por ele e para ele (Colossenses 1.16; Efésios 1.9-10; Apocalipse 3.14). E na cruz, Jesus “reconciliou” toda a criação e assim, já anunciou o evangelho a ela (Colossenses 1.23). Se, como seres humanos, os homens foram criados à imagem e semelhança de Deus, como cristãos, os homens são exortados a ser imitadores de Jesus (1 Tessalonicenses 1.6; cf. 1 Coríntios 11.1) e crescer na “estatura da sua plenitude” (Efésios 4.13).
Os escritos paulinos buscam interpretar o sentido da morte e da ressurreição de Jesus para as primeiras comunidades cristãs. Paulo usa várias imagens e analogias, tomadas de seu contexto cultural: libertação do pecado, vitória sobre a morte, vida entregue, redenção da escravidão do pecado, expiação e morte do justo (2 Coríntios 5.15; Romanos 6.10, Gálatas 2.20, Efésios 5.2).
Nenhuma delas, de forma isolada, dá conta de explicar o sentido salvífico da morte de Jesus. Paulo explicita que a ressurreição de Jesus também é salvadora. Jesus, o ressuscitado, é o primogênito, o verdadeiro Adão, o primeiro membro da nova humanidade (Colossenses 1.15-18). Por isso, é possível esperar a vinda gloriosa de Jesus, na qual ele entregará o Reino ao Pai (1 Coríntios 15.24).
Apesar de se verificar um discurso polifônico, uma multiplicidade de vozes independentes nas narrativas neotestamentárias, a relevância está na carta do apóstolo Paulo aos cristãos da Igreja de Roma, e, por isso, os versículos 17 a 26 do capítulo 8 desta carta foi escolhido para uma leitura mais aprofundada por sua recorrência teológica, ecológica, eclesiástica e institucional.
Transcrição de Romanos 8.17-26 na versão Almeida, Corrigida e Revisada, Fiel 17 E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo se
é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glória.
18 Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada.
19 Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.
20 Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, 21 Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a
liberdade da glória dos filhos de Deus.
22 Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.
23 E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.
24 Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará?
25 Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos.
26 E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.
Quadro VII - Transcrição de Romanos 8.17-26 na versão Almeida, Corrigida e Revisada, Fiel
Sobre o capítulo 8 de Romanos, Carriker comenta que aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (v.14). Como filhos, somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo (v.17). O texto bíblico fala de uma herança “gloriosa”, (v.18), mas imediatamente vincula a nossa glória eterna, em contraste com o sofrimento atual, com a sorte da criação toda (v.19-25). A “liberdade” e a “glória” futuras dos cristãos estão vinculadas àquelas da criação porque o cuidado da criação é incumbência humana desde o início e, por isso, é inseparável também do destino dos cristãos.
Síntese da Análise Bíblica em Romanos 8.17-26 Texto Bíblico Comentário
Romanos 8.17-26 A glória a ser revelada (v. 18) aparecerá quando os filhos de Deus forem revelados em sua nova natureza (v. 19), e a criação será libertada de seu presente estado de imperfeição e declínio (v. 20, 21). A revelação dessa glória fará mais do que extinguir o dano e a perda (v. 20) que a ordem criada sofreu em resultado da queda de Adão (Gn 3.17). A regeneração de todas as coisas (Ap 21) na ordem criada corresponde a liberdade na glória (v. 17, 18) a ser desfrutada pelos filhos de Deus. A atual condição da criação não é sua condição final; é antes como uma mãe que geme com as dores do parto. A criação inteira tem um destino planejado por Deus e deseja ardentemente que seja cumprido, tal como sucede aos próprios crentes (v. 23, 26).
Quadro VIII - Síntese da Análise Bíblica em Romanos 8.17-26
Comparando os comentários de Marshall e Genebra, sobre Romanos 8, apresentados no Quadro IX, desenvolvidos com base em princípios hermenêuticos e
exegéticos, e os discursos teológico-ambientais de Carriker, Reimer e Schaeffer, é interessante notar que a igreja, em particular, os “filhos de Deus”, tem uma incumbência de desencadear a libertação da criação. A Bíblia na Linguagem de Hoje diz no versículo 22 de Romanos 8 que “um dia o próprio Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo e tomará parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.
Estes comentários estão alicerçados no princípio foucaultiano (2009) que diz que um comentário, aquilo que representa o desnível entre dois textos, permite construir novos discursos e também dizer o que estava dito nas entrelinhas do primeiro texto.
Síntese da Análise Teológica em Romanos 8 Texto Bíblico Autor Comentário
Romanos 8
Marshall Paulo desenvolve a ideia do contraste entre o sofrimento presente e glória futura. A questão se põe no contexto do mundo perecível e decaído que será restabelecido, em seu devido tempo, por Deus. A renovação do mundo é uma parte integrante da esperança na tradição judaico-cristã. Sua esperança repousa na fidelidade do Deus que os amou tanto que lhes deu o Seu Filho.
Genebra é encontrada uma vasta expansão entusiástica da análise da certeza e da esperança cristãs. Paulo almeja a glória da salvação dos crentes romanos, e não a memória depressiva que tinha acabado de destacar acerca de sua contínua pecaminosidade, para que a glória enchesse a mente dos seus leitores e trouxesse alegria aos seus corações.
Carriker Uma t a teologia prática da ‘redenção’ da criação identifica os cristãos com a teologia de Paulo, onde ele declara que a ‘criação aguarda com grande expectativa a manifestação dos filhos de Deus’ e assim instar a igreja que se envolva não somente com a preservação do meio ambiente, mas que auxilie na transformação da sociedade. Aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus e cabe a estes o cuidado da criação por ser sua incumbência desde o início.
Reimer a criação, que está sofrendo, tem a expectativa de que o poder de Cristo a liberte do sofrimento e das amarras da opressão.
Schaeffer o que Paulo está dizendo é que quando nossos corpos – corpos humanos – forem levantados dentre os mortos, então a natureza também será redimida.
Carriker o trata a criação toda não como uma coisa, mas como pessoa, usando uma metáfora.
Genebra po aponta para uma vasta expansão entusiástica da análise da certeza e da esperança cristãs.
Quadro IX - Síntese da Análise Teológica em Romanos 8
Quando Paulo argumenta sobre a criação, ele relata o que, teologicamente, pensa estar acontecendo com os cristãos de Roma. A natureza criada aguarda, com
grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à futilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto.
Quando se fala então de uma teologia prática da redenção da criação queremos nos identificar com a teologia de Paulo, onde ele declara que a “criação aguarda com grande expectativa a manifestação dos filhos de Deus” (Romanos 8:19) e assim instar a igreja que se envolva não somente com a preservação do meio ambiente, mas que auxilie na transformação da sociedade em que está inserida fermentando-a para estabelecer mudanças permanentes e que tragam louvor e glória ao Senhor também por meio desta manifestação que a criação tanto aguarda.
Segundo Schaeffer (1976), Paulo está dizendo que, quando a humanidade for levantada dentre os mortos, então a natureza também será redimida porque o sangue do cordeiro redentor, Jesus Cristo, remirá o homem e a natureza.
Segundo Moltmann (1979) a criação se inicia com: no princípio criou Deus os céus e a terra, e historicamente, terá seu fim na consumação dos tempos, exatamente no fim, por isso, ela se mantém como um sistema aberto ao futuro. Assim, a teologia tem que falar da criação não só no começo, mas, também, na história e ao final, isto é, olhando o processo total de criar, de Deus. Compreende o criar inicial, o criar histórico e o criar escatológico. A criação original aponta a história da salvação e ambas apontam para cima de si mesmas: ao reino da glória
Para Reimer (2006), o texto de Romanos 8.22 diz que a criação, que está sofrendo, tem a expectativa de que o poder de Cristo a liberte do sofrimento e das amarras da opressão. Isso remete para a noção de nova criação e adquire significado antropológico e dimensão cosmológica.
Este, segundo Foucault, é o “sonho lírico de um discurso que renasce em cada um de seus pontos, absolutamente novo e inocente, e que reaparece sem cessar, em todo o frescor, a partir das coisas, dos sentimentos, ou dos pensamentos.” (Foucault, 2009, pg. 23)
A esperança para a tradição judaico-cristã, predita em Romanos 8.22, aponta para a consumação, a recapitulação, em que todas as criaturas participam, gemendo e
clamando. O autor do livro de Apocalipse anuncia que esta esperança já começou a se realizar: “Eu vi um novo céu e uma nova terra” (Apocalipse 21.1).
Como pode ser visto, a abordagem deste tópico aponta para a destruição/restauração final predita no livro de Apocalipse. No próximo tópico esta destruição, suas causas e conseqüências serão descritas para possibilitar o exercício de criação de um novo discurso teológico e ambiental.