2. MONTE CARLO YÖNTEMİ
2.1. Tipik Bir Monte Carlo Programı
2.1.5. Saçılım Sonrası Durum Seçimi
No plano nacional, o contexto de reflexão e debate em torno do contrato Marconi coincidiu, a par das tensões concorrenciais, da recente mudança de regime e das intervenções diplomáticas, com o impacto dramático do naufrágio do Titanic, que não só acelerou a regulamentação da TSF na segurança marítima como de certo modo conferiu uma nova importância ao sistema Marconi, enquadrando também a brevíssima visita do inventor a Lisboa. Os contornos políticos e o impacto público desta viagem foram tão evidentes como as implicações no debate parlamentar que se lhe seguiu. Mas mesmo depois da partida de Guglielmo Marconi de Lisboa, a 24 de Maio de 1912, os representantes da Telefunken prosseguiram a campanha na imprensa na expectativa de recuperar terreno e contagiar o debate sobre o contrato assinado. Na arena política, a discussão assentava na urgência do estabelecimento da rede colonial, tanto mais que o início da construção de redes semelhantes nos territórios franceses e espanhóis não deixava de constituir uma preocupação, e na superação do isolamento crónico dos arquipélagos atlânticos.
Se por um lado os territórios portugueses no Atlântico mantinham uma importância estratégica para a navegação e o desenvolvimento da rede de cabos submarinos, por outro era particularmente gritante a ausência de comunicações sem fios, sobretudo em Cabo Verde, onde apenas S.Vicente e S. Tiago comunicavam via
354 2 300 milhas = 4 360 Km.
AHD-MNE. Rapport de la Commission nomée par le Postmaster General pour faire enquête sur les
systèmes existants de télégraphie sans fil à longue distance, et en particulier sur la possibilité pour ces systèmes de réaliser des communications continues aux distances imposées par le projet de réseau de stations de télégraphie sans fil, à établir dans les territoires de l'Empire Britannique (Traduction), Ixelles-Bruxelles, 1913. Remetido ao ministro dos Negócios Estrangeiros, António Macieira, a 28 de Junho de 1913.
144 cabo, colocando entraves de natureza económica e social às restantes ilhas do arquipélago, como aliás se vinha alertando:
A indústria da pesca que se pretende lançar nas ilhas do noroeste só pode frutificar pondo cada uma daquelas ilhas em comunicação entre si e com o cabo submarino ou com uma estação de grande potencial [sic] em S.Vicente que, em futuro mais ou menos próximo, há-de constituir um centro importante nas relações entre a Europa e a América do Sul e até mesmo com as nossas possessões na costa ocidental de África (golfo da Guiné e Angola).356
A exploração do interior do continente africano também reservava um papel estratégico para as comunicações sem fios, que se acreditava oferecerem solução para alguns dos obstáculos geográficos e orográficos enfrentados na construção das redes de telegrafia terrestre, facilitando por isso a penetração em regiões mais isoladas dos territórios angolano e moçambicano.
Maio de 1912 foi, de facto, decisivo para o primeiro impulso da rede Marconi em Portugal: no final do mês, chegou ao País a notícia sobre a intenção britânica de construir a rede imperial.357 Ao mesmo tempo, a imprensa inglesa dava conta do contrato provisório português e da relação fundamental entre as duas redes, como reforçava o Financial News, extrapolando o plano em discussão ao incluir na proposta as ligações com Moçambique, Angola, Macau, Timor e Goa e sublinhar a preocupação britânica em garantir as comunicações entre as colónias inglesas e portuguesas.358
. Discussão técnica e valor geoestratégico
O projecto de lei apresentado em Março recebeu parecer da comissão de correios e telégrafos – composta essencialmente por elementos do Exército e da Marinha – regressando à apreciação parlamentar em Julho do mesmo ano.359 O estudo foi dedicado
356 “Telegrafia sem fios” in O Jornal do Comércio e das Colónias, n.º 17 475, de 28 de Maio de 1912,
p.3.
357 “Telegrafia sem fios” in O Jornal do Comércio e das Colónias, n.º 17 473, de 25 de Maio de 1912,
p.2.
358 Cf. “Portugal and Wireless - Agreement with Marconi Company for linking up portuguese colonies” in
The Financial News, 28 May 1912. BT Group Archives. BT_POST 30/3094. Portugal and Portuguese
Colonies. Wireless Telegraph Services
359 Comissão constituída por José Afonso Pala (oficial do Exército), João Carlos Nunes da Palma, Pedro
Alfredo de Morais Rosa (militar) e Álvaro Nunes Ribeiro (oficial de Marinha), relator do parecer, com data de 8 de Maio de 1912.
145 aos aspectos técnicos do projecto, designadamente em matéria de alcance e definição de materiais e equipamento. Isto embora o parecer se concentrasse nas dimensões comercial e militar da proposta, sendo (…) absolutamente impossível deixar de estudar
o problema sob estes dois aspectos, porque o estabelecimento da rede radiotelegráfica nos portos do Atlântico tem uma importância tão capital como a posição dos próprios portos.360 Compreendia-se também o papel complementar da radiotelegrafia, sobretudo no plano militar, ou mesmo alternativo ao cabo submarino, dada a sua vulnerabilidade em caso de conflito. Vulnerabilidade que exigia a instalação de postos, tanto no aquipélago de Cabo Verde como dos Açores, que garantissem a capacidade de assegurar estas comunicações. Ao contrário do que vinha sucedendo noutros países, como a Inglaterra, o tesouro português não teria capacidade de assumir a construção de uma rede militar independente da malha comercial – o que implicava, no caso do contrato Marconi, dar resposta a objectivos de naturezas diferentes numa única rede.
Entre as principais críticas apontadas ao projecto de lei, observava-se a limitação de alcance dos postos de maior potência, cuja distância máxima a que poderiam comunicar comprometia as comunicações com pelo menos uma parte dos circuitos de navegação mundial em que os territórios atlânticos portugueses se inseriam. Particularmente, e dada a centralidade de Lisboa nesta rede, impunha-se a ligação directa a Cabo Verde o que seria impossível segundo o contrato provisório. Estes dois pontos eram cruciais como suporte à navegação: com Lisboa, comunicavam navios em trânsito do Norte da Europa para o sul do Equador, Mediterrâneo e norte de África; por Cabo Verde, transitavam embarcações em direcção ao Brasil, Argentina, Guiné, Gabão, Congo e África ocidental portuguesa, alemã e inglesa. A ligação directa justificava-se ainda, é claro, por razões de ordem militar porque (...) sendo Lisboa a base natural e
conveniente das operações do Atlântico, não pode deixar de ligar directamente com Cabo Verde, ponto de apoio importantíssimo, para uma esquadra própria ou aliada que opere no SE e no SW do Atlântico, uma vez que eram (...) muito falíveis as ligações
pelo cabo submarino em caso de guerra. A alternativa ao cabo submarino também se aplicava ao caso das comunicações navais por permitir simultaneamente a (…) qualquer
navio passando ao alcance do seu posto, de Lisboa ou de Cabo Verde fazer dum deles uma comunicação importante, sem recorrer ao cavo submarino, para o outro.
Concluía-se por isso que (...) os 2500 quilómetros com que o projecto dota o posto de
146
Cabo Verde não satisfazem a este desideratum, e muito menos os 1600 quilómetros do posto de Lisboa, visto que a distância a vencer é 2872 quilómetros.361 Impunha-se ainda que o posto de Cabo Verde comunicasse directamente com as estações radiotelegráficas brasileiras de Manaus e Baía de Guanabara (ilha de Villegaignon), devendo estimular o desenvolvimento dos postos já instalados no Brasil – o que, aliás, vinha sendo evidenciado pelos planos apresentados pela Marconi's nos anos anteriores.
Na mesma altura estudava-se também a possibilidade de construção da rede inter-colonial portuguesa, o que exigia o ajustamento entre propostas, sobretudo em função das exigências que se colocassem para este segundo caso. O ponto de “entrada” para a futura rede intercolonial deveria ser estabelecido na Guiné ou em S. Tomé mas a possibilidade de ligação futura entre Cabo Verde e Guiné implicava a construção de um posto de longo alcance que comunicasse com S. Tomé, hipótese pouco desejável num (...) território pouco defensável e extremamente doentio, o que obriga a maiores
despesas de custeio e é anti-económico porque serve quase exclusivamente de entreposto de ligação. Na segunda hipótese, a construção de um posto de elevada potência em S. Tomé também não se justificaria pelos mesmos motivos, devolvendo a Cabo Verde o argumento de maior alcance, desvalorizando embora o papel destas duas colónias no ocidente africano.
Atendendo ao mesmo argumento, também o posto da Madeira deveria perder importância, não devendo constituir um posto intermédio das comunicações Lisboa- Cabo Verde mas apenas um ponto que deveria tocar os três vértices do triângulo Lisboa- Açores-Cabo Verde, esse sim, de elevada importância estratégica e militar, propondo-se a redução do seu alcance para 1900km. Já no que dizia respeito aos Açores, e tendo em conta a abertura próxima do canal do Panamá e respectivas implicações para a navegação do Atlântico Norte, o alcance previsto para o posto radiotelegráfico deveria ser alargado. Mais se notava que, entre os portos do arquipélago, a Horta – cujas condições naturais de defesa ultrapassavam Ponta Delgada – seria, do ponto de vista militar, o “ponto estudado como mais defensável”.
Assim, como opção ideal, o alcance da estação radiotelegráfica de Lisboa deveria atingir os 5000km, comunicando com New Sydney (EUA), Cabo Verde, Port- Said e Aden (Egipto), permitindo estabelecer comunicações com a Índia e a China através da rede inglesa. Mantendo-se a estação dos Açores em S. Miguel, esta ligaria a
147 New Sydney e Key West (Florida, EUA), Cabo Verde, Clifden, Poldhu e Lisboa. Cabo Verde poderia comunicar com Clifden, Lisboa, Açores, Madeira, Luanda, Manaus e Villegaignon, funcionando como “entreposto para a América e África do Sul” – e, como se pode depreender pelos pontos propostos, agilizaria também as comunicações inglesas. Por seu turno, (...) a Madeira ficava ligada a Lisboa, S. Miguel e Cabo Verde,
o que é suficiente.362
Mas, apesar do “altíssimo alcance deste projecto” – cujas receitas esperadas do tráfego naval seriam muito significativas – reconheciam-se as limitações do Tesouro e a necessidade de encontrar uma solução intermédia. A proposta “mínima” assentava assim no estabelecimento de ligações directas de Lisboa com os Açores, Madeira e Cabo Verde (...) o que, para os efeitos militares, é completo e absolutamente
indispensável. O aumento do posto de Cabo Verde para 3000km seria suficiente para comunicar com o Brasil, Guiné e S. Tomé, garantindo a ligação com a futura rede colonial. Os Açores comunicariam com Lisboa e Madeira (...) não comunicando com
Cabo Verde e muito menos com a América do Norte e Meridional, o que é inconveniente. Isto apesar dos cabos amarrados na Horta, assegurando as comunicações transatlânticas, mas que, como se verificou, eram particularmente vulneráveis no plano militar. Na verdade, a estação dos Açores era a que mais exigia alargamento de alcance, para 3600km, mas a proposta foi também deixada de parte face às reconhecidas dificuldades financeiras.
Em suma, os alargamentos mínimos exigidos, sobretudo tendo vista a futura rede colonial, concentravam-se nos postos de Lisboa e Cabo Verde, compensados pela redução de custos com o posto do Funchal. Estas alterações fundamentavam-se, entre outros pontos, por se impor que o estabelecimento de uma rede desta natureza se não subordinasse (...) às ligações por meio dos cabos submarinos porque, doutra forma,
seria o Estado proprietário e explorador duma rede radiotelegráfica a consentir na concorrência de companhias exploradas por particulares, como são as dos cabos submarinos, a que se acrescentava a expectativa de receitas elevadas que este aumento de capacidade importaria para o Estado. O aumento de quilometragens proposto deveria resultar também, justamente, na (...) ligação de Lisboa, por intermédio de Cabo Verde,
à América do Sul e a todas as colónias portuguesas em África. E, tendo presentes os interesses nacionais, o certo é que as distâncias propostas pelo contrato provisório
148 colocavam a rede portuguesa na dependência da malha britânica, ao permitir apenas a execução de um “serviço local” e resultar, consequentemente, num (…) enorme
prejuízo, acrescido da concorrência da linha inglesa, Londres a Aden e Aden a Pretória, recentemente contratada à Marconi's. Se, do ponto de vista militar, a adopção de um sistema radiotelegráfico comum ao britânico era sensata, não podia traduzir-se, no entanto, na subordinação da rede de TSF portuguesa aos interesses ingleses. E ainda, sobre todos os argumentos, este aumento impunha-se: Porque convém que Portugal
fique de posse da rede de telegrafia sem fios do Atlântico (…) quer encaremos o problema comercial ou militarmente.
Outro conjunto de críticas ao projecto de lei prendeu-se com a falta de especificações e preocupações de ordem técnica, desde logo pela ausência de exigências mínimas quanto ao fornecimento de material. O contrato provisório não incluía um verdadeiro caderno de encargos, sendo claramente incompleto no que dizia respeito ao fornecimento da bateria de acumuladores e acessórios, que deveria garantir a energia necessária ao funcionamento das estações, o qual não podia conceber-se senão como permanente, sobretudo em situações de emergência: (...) fixando o contrato a existência
de um só motor e gerador, sem falar na bateria, é óbvio que a rede era destinada a ser de serviço intermitente, o que acarretaria um enorme prejuízo económico.363 Num contexto de desenvolvimento tecnológico acelerado, impunha-se também a definição do tipo de equipamento a instalar, de modo a evitar a construção de uma rede à partida obsoleta.
Era, por conclusão, um contrato favorável a opções técnicas (ou ausência de soluções) que poderiam lesar o Estado, propondo-se por isso, em suma, a renegociação de alcances para Lisboa, Cabo Verde e Madeira e a alteração das especificações técnicas. Mas a comissão foi sugerindo ainda, em diversos momentos, a anulação do projecto de lei para renovação de todo o estudo técnico, notando que (...) o contrato
provisório elaborado como foi, com a falta dos acumuladores e das garantias nas condições de entrega, está fora das normais técnicas, usuais; e que (...) a estação
técnica que assim elaborou o contrato colocou o Governo em circunstâncias de dever aceitar um contrato perigoso e deficiente no que diz respeito a garantias e serviço completo a adquirir (...).
149 Por seu turno, a comissão de finanças aprovou o projecto como (...)
financeiramente vantajoso, porquanto a telegrafia sem fios está sendo inclusivamente explorada nalguns países por companhias particulares, com o fim meramente comercial.364
Do debate político que se seguiu emergiram sobretudo as críticas à não abertura de concurso público (recordando os “contratos obscuros” que teriam sido celebrados no período da Monarquia), a proposta de anulação do projecto de lei para revisão do estudo técnico (avançada por Pires de Campos) e a proposta de aprovação, representada por Álvaro Nunes Ribeiro365, que reservava um estudo mais preciso para a construção da rede colonial. Para além disso, Nunes Ribeiro reforçou a pertinência de instalação do sistema Marconi porque (…) os nossos navios possuem já o citado sistema, o que seria determinante em contexto de guerra – perante a necessidade de ocupação militar dos postos – e não implicaria “esforço de aprendizagem” junto de radiotelegrafistas já familiarizados com o sistema. Reconhecia-se ainda que a relação de aliança com a Inglaterra facilitava eventuais (...) substituições, reparações e até novas instalações com
material inglês.366
A par destas considerações, recordando a intervenção como ministro do Fomento do Governo Provisório e lançando críticas aos ataques difamatórios na imprensa, Brito Camacho saiu em defesa do projecto, aludindo à “espécie de contrato” celebrado ainda durante a Monarquia, através de Paulo Benjamim Cabral, e que o governo republicano optara por não manter (…) podendo dar-se o caso de haver
urgência e conveniência para o Estado português em fazer novo contrato. Respondendo também às críticas públicas contra a forma como se optara pela Marconi's, acrescentou:
364 Comissão composta por Inocêncio Camacho Rodrgues, José Barbosa (“com restrições”), Tomé Barros
Queiroz (“vencido em parte”), Vitorino Guimarães, Álvaro de Castro e Aquiles Gonçalves. Diário da
Câmara dos Deputados, Sessão n.º 158, de 5 de Julho de 1912, p.20.
365 Álvaro Nunes Ribeiro (1878-1933) – Oficial de Marinha, especializou-se como oficial torpedeiro no
Serviço e Escola Prática de Torpedos e Electricidade, onde foi também instrutor, dedicando-se ao estudo e desenvolvimento da electricidade e das radiocomunicações. Em Janeiro de 1918 foi nomeado director do Posto Radiotelegráfico de Monsanto, marcando um período muito significativo de desenvolvimento das comunicações navais. Participou na criação da Repartição dos Serviços Radiotelegráficos da Armada, em 1923, e da Direcção do Serviço de Electricidade e Comunicações, em 1924. Foi também deputado entre 1911 e 1914.
366 Intervenção de Nunes Ribeiro na continuação do debate. Diário da Câmara dos Deputados, Sessão n.
159, de 6 de Julho de 1912, p.8.
Nunes Ribeiro recordou ainda que (...) a Companhia Marconi já tem as grandes estações Poldhu, Cape
Race, Coltano, Massua [Massauá] e no Japão a de Barien [Bahrain], ao passo que a Telefunken somente
150 Encontrando, portanto, inteira liberdade para negociar com
quem quisesse e como quisesse, ouvi casas alemãs, inglesas e o representante da Companhia Marconi.
Consultei as estações técnicas do Ministério da Marinha, respondendo essas estações que, sob o ponto técnico, havia vantagem em adoptar o sistema Marconi.
Além destas vantagens havia ainda a das nossas relações com a Inglaterra. 367
Em suma, a adjudicação preconizada por Camacho e concretizada por Estêvão Vasconcelos obedecera a critérios técnicos e estratégicos, mantendo-se clara a importância do contrato no quadro das relações luso-britânicas.
A discussão foi ainda marcada por uma certa perplexidade de Francisco Herédia, questionando a ausência de parecer para a proposta que apresentara, sublinhando que o estabelecimento de um monopólio em Cabo Verde comprometia a livre concorrência de sistemas nas colónias, acusando o Governo português de reproduzir o monopólio dos cabos submarinos na rede radiotelegráfica, com implicações evidentes para o público, sobretudo em matéria de taxas telegráficas. Apesar destas tensões, a aprovação das emendas propostas pela comissão não encontrou obstáculos significativos no parlamento, sendo remetido para o Senado em sessão de 9 de Julho.
Entre senadores, o projecto recebeu protestos do círculo açoriano, sobretudo pela não inclusão do Faial nesta malha radiotelegráfica, pelas vozes de Goulart de Medeiros e Machado Serpa. Goulart reclamou contra o (...) facto de se ir escolher para a estação
radiotelegráfica um ponto diverso daquele que havia sido indicado pelas comissões de guerra, de marinha, etc., enfim por todas as estações oficiais (…) lamentando que se colocasse (...) de parte um dos pontos que fazem parte do célebre triângulo estratégico, instando também pela abertura de concurso público. A este segundo ponto respondeu o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Vasconcelos, recordando (...) razões de
alta política, de melindrosa política, que absolutamente impediam que se fizesse esta concessão em hasta pública368 o que, de resto, era prática generalizada pela maioria dos países que até aí tinham contratado a construção das suas redes de TSF, tendo em conta os respectivos interesses de defesa territorial.369
367 Diário da Câmara dos Deputados, Sessão n. 158, de 5 de Julho de 1912, p.21. 368 Diário do Senado, Sessão Nocturna n. 139, de 9 de Julho de 1912, pp.3-4.
151 Entre concepções mais ou menos consistentes quanto ao significado da rede radiotelegráfica portuguesa, o MNE representava bem a visão geostratégica. Isto embora não respondesse directamente à preocupação apresentada quanto à posição do Faial na rede de telecomunicações: Além disso, S.Exa. sabe que as estações de
telegrafia sem fios representam, para Portugal, o domínio do Atlântico. Será indiferente deixar o domínio do Atlântico, pela telegrafia sem fios, a qualquer companhia?370 A opção por S. Miguel, segundo o ministro do Fomento, prendera-se sobretudo com a actividade comercial mas também com a necessidade de defesa do porto de Ponta Delgada, o que não deixou de merecer a indignação de Goulart de Medeiros, tanto mais que:
A Horta é a principal estação dos cabos submarinos do mundo. Ali amarram os cabos alemão, inglês americano e ainda ultimamente as companhias francesas ali tentaram estabelecer também uma estação. (...)
Uma estação de cabo submarino tem uma importância extraordinária; o natural é que seja completada com a telegrafia sem fios.371
Ao debate associaram-se ainda o senador Cristóvão Moniz – representante do círculo de S. Miguel e defensor do projecto – e Faustino da Fonseca, senador terceirense que reclamou para o porto de Angra do Heroísmo, onde se fazia o abastecimento de carvão, a instalação do posto Marconi.
Apesar dos protestos, o Senado acabou por aprovar apressadamente o contrato