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Observando os efeitos engobados aplicados a este conjunto de louças, podemos concluir que na elaboração do preparado os oleiros recorreram, invariavelmente, ao uso de argila branca83. A cor está

limitada ao branco cuja tonalidade pode variar, entre o branco-amarelado e o branco-rosado, consoante a maior ou menor percentagem de óxido de ferro presente na composição da pasta empregue na produção do objecto onde ele (engobe) foi aplicado. Produz, por isso, um efeito contrastante à superfície das

81 Referimo-nos à aplicação dos filetes vermelhos. 82 Cf. Glossário.

83 Tanto pode tratar-se de caulino como de uma outra matéria-prima vulgarmente utilizada para este fim, a argila rica em

matéria orgânica. Este tipo de argila, quando se encontra em estado cru, apresenta uma cor cinzenta escura, adquirindo depois de cozido uma tonalidade branca amarelada (vide Anexo 7). Essa transformação da cor deve-se a um fenómeno que ocorre durante a cocção que consiste na eliminação da matéria orgânica que entra na sua constituição.

louças. Nessa medida, a intenção da sua aplicação difere daquela que é praticada, por exemplo, na produção de olaria em Nisa ou Estremoz, em que o recurso ao engobe se faz com o intuito de conferir às louças um aspecto uniforme e uma textura macia, mas sem a intenção de adicionar ao recipiente cerâmico uma cor diferente.

No conjunto de objetos estudados existem 147 peças às quais foi aplicado engobe84. Em oitenta

e oito exemplares a suspensão foi utilizada para introduzir composições decorativas (manchas, formas geometrizantes, letras desenhadas), numa disposição que propende para áreas como os bordos, as asas e parte superior dos bojos. Nos restantes cinquenta e nove modelos o engobe serviu apenas para revestir, sem grande uniformidade, uma das superfícies da peça (a face interior ou exterior, no caso dos objetos campaniformes; a face superior, quando aplicado a recipientes de corpo muito esvasado).

Em alguns modelos, a aplicação de engobe antecedeu o revestimento de vidrado para que este obtivesse maior realce na coloração final. Noutras, o oleiro limitou-se a adornar algumas áreas com o preparado argiloso sem recorrer à aplicação adicional de qualquer impermeabilizante.

Na aplicação do engobe sobre a louça são utilizadas três técnicas:

 Banho – O preparado é vertido sobre a louça chacotada ou ainda crua (seca) mas com consistência dura. Neste último caso, o procedimento aplica-se somente às louças de reduzida dimensão por oferecerem menor risco de quebra.

 Pincel – Os temas decorativos são pintados com o auxílio de um pincel.

 Carimbo – Utilizam-se moldes (feitos de cana, arame contorcido, madeira ou pedaços de barro com formatos específicos) previamente embebidos no engobe e depois pressionados sobre o corpo cerâmico.

1.7 AS LOUÇAS VIDRADAS E AS TÉCNICAS DE VIDRAGEM Neste núcleo da Coleção predominam as louças foscas, não vidradas (44%) ou parcialmente vidradas (34%). Somente 22% das peças têm a superfície totalmente impermeabilizada.

Na diversidade de vidros aplicados prevalece o de base incolor (90%), seguido do verde, depois o castanho e, por último, o branco leitoso85, sendo a utilização deste último (vidro de base branca opaca)

muito reduzida, ocorre apenas em dois objetos (vide Anexo 1 – Fig. 359 e 360).

Por regra, as louças destinadas à preparação, confecção e conservação de alimentos são impermeabilizadas, com vidrado incolor, na face que fica em contacto direto com a comida, sendo esse revestimento aplicado diretamente sobre o barro ou sobre película de engobe86. A face exterior, quando

84 Vide Anexo 2, Quadro V.

85 Vidros de fabrico industrial, fornecidos pela Metal Portuguesa, S.A.

86 No conjunto integrado na Coleção os casos excecionais estão representados em dois Jarros (BI.101 e BI.116),

impermeabilizados com vidro verde e castanho respectivamente; num Alguidar (BI.182), cujo interior está revestido com vidro castanho; numa Saladeira (BI.019) que tem na sua face interior a aplicação alternada de vidro branco opaco e vidro castanho translúcido.

é impermeabilizada, pode apresentar-se com vidrado idêntico, ou numa variante pigmentada de verde ou castanho. Ocasionalmente, o vidro colorido é utilizado para adornar o bordo de jarros, canecas, tigelas e potes.

A impermeabilização da louça confere-lhe maior resistência, reduz-lhe porosidade87, torna-a mais

higiénica. Mas esse ato nem sempre fica a dever-se à intenção exclusiva de aumentar os níveis de funcionalidade das peças cerâmicas. Quando o princípio da decoração passa pela aplicação de vidrados, alguns oleiros encontram aí pretexto para alargar o uso dos vidros incolores aos coloridos, introduzindo a cor castanha, verde ou branca leitosa, conjugando, em alguns casos, diferentes vidrados sobre uma mesma peça. Por questões de economia de custo no uso de matéria-prima e na atribuição do preço final às louças, os oleiros optam frequentemente por fazer um revestimento parcial da superfície das peças: vidram a face interior – no sentido de serem observados princípios higienizantes – e cobrem parte da face exterior – limitando a camada vidrada a 1/3 ou 1/2 da área superior dos recipientes – respondendo também às preocupações estéticas a que fizemos alusão. É uma prática comum que não está confinada às olarias desta região, antes se alarga a outras oficinas do nosso país e recua a períodos remotos da história da olaria em Portugal.

Na louça impermeabilizada é comum a existência de lacunas na camada vítrea, procedentes da fase de cozedura. Os defeitos mais frequentes sucedem nas zonas de contacto direto com os apoios, que sustentaram as louças durante o processo de cocção88, utilizados no sentido de impedir a colagem entre

recipientes. Entre estes encontramos também objetos foscos que contêm lacunas de barro na sua face exterior, desta feita resultantes do contacto direto com recipientes vidrados.

As escorrências de vidrado são frequentes e especialmente evidentes nos recipientes cujo revestimento vítreo cobre apenas a zona de topo da sua face exterior. Nestes casos os pingos, manchas e escorrências prolongam-se pela superfície não vidrada.

Em termos de composição, os vidrados utilizados são elaborados a partir da mistura de sílica moída com zarcão que lhe introduz o componente de óxido de chumbo89. Sendo extraordinariamente

ricos em chumbo, estes vidrados têm um ponto de fusão baixo e níveis de brilho elevados. A sua preparação faz-se, como dissemos, pela mistura de sílica (SiO2) e de zarcão (Pb2O3) com água, e a

passagem dessa suspensão por um peneiro de malha estreita para que lhe serem retiradas quaisquer impurezas. Como método de controlo da densidade é imerso um caco de barro cozido na suspensão aquosa, do qual o oleiro remove uma pequena quantidade da película vítrea que lhe foi fixada para lhe observar a espessura. O valor não deverá ser inferior a um milímetro.

87 As louças de barro vermelho apresentam geralmente graus elevados de porosidade na sua superfície, para reduzir essa

característica e torná-las impermeáveis é-lhes aplicado um revestimento de vidrado.

88 Referimo-nos às trempes de aço, ferro ou barro, ou mesmo pequenos cacos de louça inutilizada.

89 O vidrado, enquanto cru, tem coloração alaranjada atribuída pelo zarcão. Após a cozedura adquire aspecto translúcido

O vidrado é aplicado na louça sob a forma de suspensão aquosa, pelo sistema de derrame (vasado) ou imersão (mergulho) das peças no preparado líquido. No método de derrame o vidro é vertido sobre a peça de louça. O mergulho consiste em imergir a peça no recipiente que contém a suspensão de vidrado, rodando-a, para que o impermeabilizante fique distribuído uniformemente, e retirando-a rapidamente desse banho90. Uma vez absorvida a água da suspensão, pelos poros do corpo cerâmico, a

película de vidrado adquire a consistência de um pó. Depois de cozido, as partículas do vidro tornam-se rígidas formando uma película vítrea, impermeável, sobre o objeto cerâmico.

1.7.1 O USO DE CORANTES