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a) Oficinas de olaria: caracterização292

- Oficina de Gabriel Maria Rosa

A oficina de Gabriel Maria Rosa293, situada na Rua Henrique Martins, n.º 13A, está distribuída

por vários edifícios contíguos, tendo um pequeno pátio anexo que a separa da casa onde reside o oleiro e a família. Foi adquirida em 1978, à família de Francisco Henrique dos Santos (1903), oleiro falecido nessa mesma década.

No primeiro compartimento estão instalados três tornos altos (dois de madeira e um com estrutura metálica equipado com motor elétrico, adquirido no final da década de 1990) e várias pranchas de madeira para colocação da louça em secagem. Segue-se o telheiro que abriga o forno (construído com tijolo burro) e a lenha que lhe serve de fonte combustível no processo de cozedura. Anexo ao telheiro existe o edifício (onde antes esteve instalado outro forno de funcionamento a lenha, entretanto desmantelado) reservado ao armazenamento das argilas e onde se encontra também o equipamento necessário à preparação das pastas: um tanque construído em alvenaria (onde são diluídas as argilas), uma fieira extrusora e um moinho diluidor (foca) que o desgaste causado pelo uso obrigou à desativação. Ao lado desta construção, mas num plano mais recuado, existe uma casa compartimentada onde é feita a armazenagem da louça pronta. Em frente, ergue-se o telheiro que abriga produto acabado de grandes

289 Neste ano, entre as profissões dos indivíduos inscritos no cadastro eleitoral da freguesia de Muge, predominam os:

abegões, agricultores, campinos, capatazes, cinzeleiros, comerciantes, fazendeiros, feitores, ferradores, ferreiros, ferroviários, guardas-florestais, jornaleiros, moleiros, negociantes, pedreiros, pescadores, proprietários, sapateiros.

290 Se acaso se tratar do mesmo eleitor registado nos cadernos eleitorais de 1931, a idade assinalada neste recenseamento

está incorreta, porque no registo de nascimento consta a data de 5 de Fevereiro de 1903.

291 Existe coincidência deste nome de eleitor nos cadernos de registos referentes aos anos de 1928, 1931, 1952 e 1956,

porém, a confrontação de dados alusivos às idades (entre os assentos de 1928 e 1931 com aqueles realizados em 1952 e 1956), parece indicar tratarem-se de indivíduos distintos. Infelizmente, as fontes orais consultadas revelaram desconhecer, pela indicação deste valor etário, a identificação da pessoa e a sua ligação aos membros da família com o mesmo apelido; mantendo-se em aberto a dúvida inicial suscitada quanto à sua efetiva identidade.

292 Cf. Anexo 13.

293 Gabriel Rosa (nasc. 1943) descende de uma família de oleiros. Iniciou-se no ofício aos 16 anos de idade, na oficina do

dimensões (vasos, floreiras, potes, etc.). Do conjunto de três oficinas a laborar em Muge, esta é a que apresenta maior volume de produção.

O oleiro e a mulher, Maria da Luz, dedicam-se exclusivamente à manufatura de louça, numa estratificada distribuição de tarefas. A mulher colabora no transporte das argilas, secagem, desenfornamento e comercialização das louças. Ao oleiro cabe a responsabilidade de fazer a extração das argilas, recolher a lenha, modelar e cozer as louças e ainda colaborar na venda das peças em feiras e mercados de localidades vizinhas. Uma divisão de trabalho que, na perspectiva do casal, agiliza o processo de produção e aumenta a capacidade de resposta às solicitações que o mercado, cada vez mais restrito, ainda faz.

- Oficina de Domingos Gomes da Silva

A oficina de olaria de Domingos Gomes da Silva294 está situada na Rua Infante D. Henrique, n.º

5, em Muge. Foi arrendada ao oleiro, há 32 anos, pelo filho de Joaquim Faria que a havia fundado nos finais do século XIX295.

A produção de louça nesta oficina é reduzida, pouco regular, e está somente a cargo do oleiro296

que há muito deixou de a exercer como atividade principal; os trabalhos agrícolas são seu complemento e, por vezes, seus subsidiários. O edifício que a alberga assume uma configuração arquitectónica em forma de “L”. Na sala de entrada estão instalados três tornos (dois de madeira e um com estrutura metálica equipado com motor elétrico, adquirido no final dos anos 90, a um fabricante de Achada [Mafra]), uma fieira extrusora e um tanque onde são diluídas as argilas; à sua direita situa-se um pequeno anexo, com entrada independente, onde são armazenadas as louças prontas; na parede posterior da sala de modelação existe a porta de acesso à sala de secagem das louças e, ao fundo desta, o forno de estrutura em tijolo. O acesso à fornalha faz-se pela parte exterior do edifício, sob o telheiro construído no seu prolongamento e que serve também de local de armazenagem da lenha que alimenta a cozedura das produções cerâmicas. A área posterior do edifício integra ainda um pátio vedado com mais dois telheiros: num são armazenadas as louças de grandes dimensões (vasos, floreiras, talhas…), no outro as diferentes qualidades de argila (barro forte e barro fraco) utilizadas na modelação da louça.

- Oficina de Armindo Casaca

Armindo Casaca (1942) exerceu a sua profissão em Coimbra e só depois de aposentado regressou a Muge (final da década de 1980), de onde é natural, para dar prosseguimento, embora num ritmo descontinuado, à produção de louça. Instalou-se em oficina própria, situada na Transversal à Rua

294 Domingos Silva (nasc. 1944) iniciou a aprendizagem do ofício de oleiro, aos 13 anos de idade, com o seu cunhado

Dinis Santos e o pai deste, Francisco Henrique dos Santos, na oficina que hoje pertence a Gabriel Maria Rosa. Nesse período, esta unidade de produção empregava mais de uma dezena de trabalhadores.

295 Durante mais de oito décadas, esta oficina foi dirigida por dois elementos da família Faria, inicialmente por Joaquim

Maia Faria e depois por António Joaquim Patrício Faria, seu filho. Nos finais da década de 1970 António Faria cessou a atividade como oleiro. Sem nenhum elemento da família a dar prosseguimento ao ofício, a laboração da oficina ficou assegurada pelo atual locatário, Domingos Gomes da Silva.

Dr. Afonso Costa. O edifício, de configuração rectangular, tem uma estrutura arquitectónica que difere dos dois casos referidos anteriormente; implantado em terreno murado de grandes dimensões, é formado por um único compartimento. O seu interior é, por isso, amplo e sem quaisquer divisórias. Junto a uma parede de topo tem instalado o tanque de preparação do barro; na ala direita estão instalados dois tornos (um de madeira e outro de estrutura metálica com motor elétrico) e uma fieira de extrusão; no lado oposto encontram-se as prateleiras de madeira para a colocação da louça em secagem. No outro extremo da oficina acumulam-se as louças cozidas, sem escoamento assegurado.

No exterior, num dos topos do edifício, está implantado o forno de lenha e, na extremidade oposta, um edifício geminado que corresponde à casa de habitação do oleiro.

b) Ciclo de produção

Extração e recolha de argilas

Em 1932, Santos Júnior referia que o barro empregue na produção de louça em Muge era “de duas qualidades. O barro forte é explorado em plena charneca, a 3km de Muge, em terrenos da casa Cadaval297. O barro frouxo fica-lhes mais à mão, vão buscá-lo a terrenos da Junta, logo às portas de

Muge, num sítio a que chamam o Rocio” (pp.6-7). De então para cá a situação manteve-se, mas só em parte. Hoje, como na década de 1980, as argilas com maior plasticidade provêm dos barreiros da Casa Cadaval, situados a cerca de três quilómetros e meio da periferia de Muge; difere, no entanto, a proveniência do barro fraco, que atualmente é recolhido em Alcanede.

As extrações e recolhas são feitas pelos oleiros, e a aquisição, embora gratuita, requere autorização prévia dos proprietários dos terrenos. As jazidas localizadas a baixa profundidade facilitam a cavação e remoção das matérias-primas que são extraídas com picaretas, enxadas e pás. Ao longo da década de 1970 o sistema de transporte em carroças foi sendo substituído por veículos motorizados – tratores e camionetas – facilitando-se assim o trabalho de recolha de argilas que tende a ser feito num ritmo sazonal (com maior incidência nos períodos de tempo seco).

Armazenamento das argilas

A armazenagem das matérias-primas, sendo feita por lotes (mantendo separadas as argilas de diferentes características), é efetuada em três moldes distintos:

 No espaço exterior da oficina e sem qualquer proteção (oficina de Armindo Casaca);  No espaço exterior da oficina, por debaixo de um telheiro (oficina de Domingos Silva);  Numa dependência do edifício (oficina de Gabriel Rosa).

297 Esta propriedade, com cerca de 5.000 hectares de área, está situada em Muge e pertence aos Duques de Cadaval.

A Casa Cadaval foi fundada em 1648 e o primeiro título de Duque de Cadaval, criado por D. João IV, foi atribuído a D. Nuno Álvares Pereira de Melo de quem descendem todos os duques de Cadaval.

Do que foi dado observar, os oleiros dão preferência a espaços, embora cobertos, bastante arejados, para que as argilas, pela ação dos agentes atmosféricos, possam adquirir valores de plasticidade mais elevados.

Preparação das pastas

A fase de preparação das pastas é iniciada pela seleção e dosagem das diferentes argilas. Uma leitura conjugada das observações feitas, permite-nos comprovar que nestas oficinas existe a prática comum de elaborar duas pastas com composições distintas: uma com maiores percentagens de barro forte (contendo elevada plasticidade), outra em que predomina o barro fraco (com um teor de plasticidade mais baixo). As primeiras, com níveis de porosidade mais reduzidos, aplicam-se essencialmente à modelação de recipientes contentores de líquidos e à louça de maiores dimensões. As pastas menos plásticas, mais porosas e com maiores percentagens de sílica, são utilizadas na produção de peças de pequena dimensão, cujo contexto de utilização as expõe frequentemente a situações de choque térmico.

No início da operação os oleiros procedem à fragmentação dos torrões, com o auxílio de martelos e enxadas, e à mistura dos componentes argilosos. O passo seguinte consiste na colocação das argilas num tanque, a que se acrescenta água onde fica embebida de um dia para o outro, o tempo suficiente para que o preparado incorpore o líquido, adquira uma consistência mais diluída e fique maleável. Finda esta primeira fase, o barro é retirado do tanque e colocado numa fieira de extrusão que ajuda a diminuir e a eliminar os grânulos de argilas e os resíduos de materiais inorgânicos, ligando os vários componentes da pasta, homogeneizando-a e comprimindo-a simultaneamente. Concluída a preparação, a pasta é envolvida em plásticos para retardar a perda de humidade e evitar a diminuição da maleabilidade adquirida.

Antes das oficinas estarem equipadas com fieiras, o amassamento inicial do barro era feito com os pés. As argilas eram colocadas no chão, retalhadas em pedaços com o auxílio de enxadas e maços de madeira ou ferro, humedecidas, pisadas, e só depois amassadas à mão, sobre o “empeladoiro” ou a “arquina”298. No período compreendido entre as décadas de 1950-1970, quando o volume significativo

de produção de louça obrigava à preparação de grandes quantidades de barro, os esmagamentos das argilas eram feitos em moinhos (localmente designados por focas), movidos por tração animal (gado asinino e muar), instalados no interior ou exterior das oficinas, em terreiro reservado a esse fim.

Modelação da louça

Até à década de 1990 a olaria de Muge foi modelada em tornos de madeira, compostos por um eixo vertical cilindriforme ao qual era fixada, na extremidade inferior, uma roda de grande diâmetro, em posição horizontal, e na extremidade superior uma roda de diâmetro mais reduzido sobre a qual era colocado o barro para ser modelado. Para dar forma ao barro, o oleiro impulsionava a roda inferior (roda

298 Cf. glossário.

volante) com o pé, imprimindo-lhe um movimento de rotação, modelando o barro com as duas mãos e o

auxílio de instrumentos, feitos a partir de pedaços de canas, madeira e arame, até o objeto cerâmico adquirir o seu formato final.

Nos finais da década de 1990 começou a ser introduzido o torno mecânico299 – com

configuração idêntica ao torno tradicional, mas constituído por materiais metálicos (ferro) e equipado com torno elétrico – que, no entanto, não suprimiu por completo o torno de madeira tradicional. Este esforço de adaptação fez-se na dupla perspectiva de procurar maior comodidade no desempenho da função de modelar, tentando, ao mesmo tempo, responder a uma certa animação sentida, nessa década300, na procura de louça de olaria e à consequente necessidade de intensificar a sua produção.

Vidragem da louça

Contrariamente ao que sucede na aplicação de motivos decorativos que é, nalguns casos, realizada sobre louça ainda crua, o revestimento das peças com película de vidrado é feito depois da sua chacotagem. Uma vez aplicado o vidrado, os objetos são submetidos a segunda cozedura, para fixação do impermeabilizante.

Os vidrados de base transparente (com referência comercial TR18), elaborados segundo processos industriais301, com ou sem adição de corantes, são diluídos em água e passados previamente

por um peneiro de malha estreita, para retirar resíduos de impurezas ou matéria inorgânica que, não sendo eliminadas, introduziriam defeitos na película vítrea.

Decoração da louça

As decorações que envolvem a aplicação de filetes vermelhos (feitos a partir da utilização de suspensões aquosas de óxido de ferro), caneluras, cordões relevados ou efeitos puncionados, incisos e excisos, são efectuadas sobre as louças em estado cru, com o auxílio de pincéis de pêlo sintético, canas com extremidades pontiagudas, pequenos moldes de arame ou ferro, e carretilhas.

Os efeitos engobados são elaborados a partir da utilização de argila de coloração acinzentada (que, depois de cozida, adquire uma tonalidade branca amarelada) proveniente de barreiros existentes na região de Rio Maior e Caldas da Rainha. A aplicação é feita por derrame do engobe ou pela impressão do preparado, com moldes construídos em barro ou arame, na superfície das louças cozidas.

A disposição aleatória de manchas de cor verde ou castanha com contorno irregular, comuns nos pratos, saladeiras e alguidares de tamanho mais reduzido, é feita utilizando um pincel para aspergir o óxido de cobre ou manganês, em estado aquoso, sobre as peças cerâmicas.

299 No torno mecânico o movimento é produzido pelo motor elétrico e a velocidade é regulada por meio de um pedal

que se encontra fixado à roda inferior.

300 O período cronológico em que se verificou essa revitalização permite estabelecer uma relação entre o aumento da

procura deste tipo de louças com o aumento do poder de compra que se verificou no nosso pais, e não propriamente com o retorno “às origens” e à preferência pela louça de barro vermelho.

Cozedura da louça

A cocção da louça é realizada em fornos com combustão de lenha, e a duração das curvas de cozedura oscila entre as 12-14 horas. As louças de maiores dimensões são colocadas na base da câmara de cozedura, fora do alinhamento dos orifícios da grelha que reveste a câmara de combustão para evitar os efeitos (manchas) do contacto direto das chamas com o barro. Nas camadas superiores são dispostas as louças de tamanho mais reduzido.

Até cerca das décadas de 1980-1990 os intervalos de cozedura de louça compreendiam, em média, três semanas a um mês, nas estações da primavera e verão, e um mês e meio a dois meses, nas estações de outono e inverno. Nas duas últimas décadas a escassez de mercado obrigou à redução da produção e os períodos de cozedura são agora substancialmente mais alargados: cerca de seis-oito semanas, no período mais quente do ano, e doze-catorze semanas, na época mais fria.

Os fornos, embora estejam implantados em espaço contiguo aos edifícios das oficinas, têm uma zona de acesso independente, para prevenir quaisquer riscos de intoxicação que a emanação de fumos e gases durante a cozedura provocam, ou até mesmo a deflagração de chamas ou sobreaquecimento do interior dos edifícios.

Cada oficina possui um forno ativo, embora numa delas302 se registem vestígios de um segundo

forno, de construção mais antiga, entretanto desmantelado (década de 1990).

Materiais combustíveis utilizados na cozedura da louça

A lenha, à semelhança das argilas, é obtida nos pinhais ou eucaliptais mais próximos das oficinas (vide Anexo 10, Fig. 2). Contudo, ela tem vindo a escassear à medida que a desflorestação e a vedação dos terrenos se tornaram mais frequentes nas propriedades rurais. Os oleiros viram-se assim obrigados a procurar fontes de combustível em lugares cada vez mais distantes ou a recorrer a soluções improvisadas, como por exemplo, recolhendo, entre os desperdícios das indústrias locais, paletes ou outros compostos de madeira.

Armazenamento da louça

As oficinas possuem zonas reservadas ao armazenamento de louça pronta, equipadas com estruturas específicas para esse fim (estantes e mesas de madeira). Estes espaços são constituídos por construções totalmente compartimentadas às quais se associam, frequentemente, outras composições que têm apenas cobertura superior assente em vigamento de madeira ou cimento. A escolha da sua localização faz-se dando preferência a espaços mais reservados, afastados das áreas de circulação no edifício.

Comercialização da louça

Como foi notado pelos oleiros, nas duas últimas décadas a produção de louça tem respondido sobretudo às necessidades ou solicitações de consumo local, fazendo-se a sua comercialização diretamente nas oficinas ou nas feiras e mercados que se realizam nas localidades mais próximas. Mas a venda não esteve sempre confinada ao mercado da região. Até cerca das décadas de 1980-90, os recipientes cerâmicos percorreram as feiras da região distrital de Santarém303 e a sua rede de circulação

alargou-se a lugares de maior distância, como o Alentejo e Beira Baixa, vendidas pelas mãos dos próprios oleiros e de agentes revendedores.

Louça produzida

Em Muge existiu a manufactura de uma ampla variedade de formas, com características de produção tão semelhantes que dificilmente se distingue a autoria ou a origem (quanto à unidade de produção) da sua execução. Entre os diferentes modelos cerâmicos produzidos, predominaram, até à década de 1970 os recipientes para preparação e confecção de alimentos (panelas, cafeteiras, tachos, frigideiras, alguidares, assadores de castanhas, fogareiros, assadeiras), serviço de mesa (canecas, saladeiras, jarros, pratos), conservação (garrafões, cântaros, barris, potes) e recipientes para conter alimentos sólidos ou líquidos para animais (bebedouros, comedouros). Atualmente, só uma pequena parte dessa diversidade se mantém em produção (panelas, saladeiras, assadores de castanhas, canecas, jarros, vasos, comedouros, bebedouros…) e, em alguns exemplos, são já uma reinvenção dos modelos anteriormente produzidos, apresentando agora novas lógicas de funcionalidade no seu uso quotidiano (vide Anexo 10, figs. 3).

3.7 ESTUDO DE CASO: CENTRO OLEIRO DE ÁRGEA A aldeia de Árgea pertence à freguesia de Olaia, está distribuída numa área que abrange 2195km2,

e a sua implantação geográfica dista oito quilómetros da sede concelhia, Torres Novas.

Geologicamente os solos de Árgea e dos terrenos circundantes caracterizam-se pela abundância de jazidas de argilas com boas características (nomeadamente nos valores de plasticidade) para a produção de louça. A elevada quantidade de barreiros tem não só assegurado a matéria-prima a diversas gerações de oleiros, como justificado a presença de uma comunidade oleira alargada, assim como a concentração de um número significativo de oficinas nesta localidade.

O revestimento vegetal, embora mais reduzido que há quatro ou cinco décadas atrás, é, ainda hoje, dominado pelos olivais, figueirais304 e pinhais.

303 Por exemplo, as Feiras do 1.º de Maio e de Todos-os-Santos, no Cartaxo; Feira de Rio Maior, em Dezembro; Feira de

Marinhais (terceiro domingo de Setembro); Salvaterra de Magos (no mês de Maio); mercados quinzenais de Santarém e Alcanede; mercado mensal de Coruche, Marinhais e Almeirim.

Para além das produções cerâmicas, a base do desenvolvimento de Árgea durante o século XX esteve nas culturas agrícolas, nomeadamente de árvores de fruto (oliveira, figueira, amendoeira), pinheiro, sobreiro, milho, trigo, legumes e produção de azeite.

Segundo os valores apontados pelo Censo de 1911 a densidade populacional em Árgea, no início do século passado, era mais elevada (contava com 641 habitantes) que nas restantes aldeias compreendidas na sua sede de freguesia. A curva de crescimento manteve-se em sentido ascendente até finais da década de 1930, sofrendo ligeira inflexão a partir de 1940305, e voltando a recuperar a tendência

crescente nos finais da década de 1970306. O Censo de 2001 “apresenta o total de habitantes mais baixo

dos dois últimos séculos (434 indivíduos registados), e, no conjunto das aldeias do concelho, [Árgea]307

figura em oitavo lugar” (Maia [et al] 2005: 41).

Analisada que foi a bibliografia consultada, o exercício não foi suficiente para apurar o período em que foi dado início à produção de olaria em Árgea, sabe-se, contudo, que no intervalo de tempo mediado pelos anos 1788 e 1907 o número de oleiros residentes elevou-se a 65308 e no princípio do

século XX a quantidade de oficinas ativas chegou a atingir as dezoito unidades. Esta referência ao