É necessário refletir sobre a maneira como é conduzida a aprendizagem, desde a formação escolar em geral, isto porque a escola é muitas vezes um lugar de desaprender, um local onde há pouco espaço para o exercício da criatividade, a busca de conhecimentos novos e a imaginação.
O tecnicismo que caracteriza a atividade de ensino como transmissão de conhecimentos sobre as coisas, como se as palavras (do mestre ou de quem quer que seja) ainda coincidissem com a realidade, embota cérebros e deforma consciências.
Como bem já acentuou Heidegger, ao tratar da importância de se reconhecer a distinção entre palavras e coisas, “na verdade, nem sempre a coisa se encontra aí onde está a palavra”. (2002, p. 76)
Ao se referir à aprendizagem, o Filósofo alemão alerta para a inexistência de uma identificação absoluta entre tomar algo para si e, de fato, aprender, destacando que “aprender é um modo do apreender e do apropriar-se. Mas nem todo o tomar é um aprender”. (2002, p. 77).
Isto remanesce mais claro quando se observa, nas unidades de significado das falas dos juízes entrevistados, o reconhecimento de um descompasso daquilo que foi ensinado na faculdade e nos cursinhos preparatórios para concurso em relação àquilo que precisariam aprender, de fato, isto é, tomar para si e utilizar em sua ocupação.
Neste sentido, toda a crítica realizada por autores que se ocupam da crise do ensino jurídico, dentre os quais se destacam Antonio Carlos Wolkmer e Luiz Lênio Streck, soa pertinente, sobretudo, ao se considerar o descompasso do Direito que se ensina em comparação com aquele que as demandas de uma sociedade em transformação está a reclamar.
No conceito de aprendizagem que Heidegger propõe, o uso constitui verdadeiro indício de aprendizagem, embora nem toda atividade decorra do exercício. Assim, retoma antiga lição de Aristóteles, para quem a virtude pode decorrer tanto do ensino como do hábito ou da experiência. Nas palavras de Heidegger,
O aprender é, portanto, um tomar e um apropriar-se, pelo qual o uso se torna objeto de apropriação. Uma tal apropriação acontece através do próprio uso. Chamamos-lhe exercício. Mas o exercitar-se, novamente, é apenas um modo de aprender. Nem todo aprender é um exercitar-se. (2002, p. 77).
Não se aprende verdadeiramente algo caso não se aproprie deste algo em distintos níveis, aprendendo a conhecê-lo em variadas gradações e utilizando-o de maneiras diferentes. Com efeito, Heidegger assevera que “o aprender é, também, sempre, um aprender a conhecer. No aprender, há sempre uma direção do aprender, aprender a utilizar, aprender a conhecer tem diferentes graus”. (2002, p. 78).
Há, porém, na concepção heideggeriana de aprendizagem, a necessidade de reconhecer a existência de limites que precisam ser identificados na aprendizagem baseada em exercícios, que tem como foco a mera utilização da coisa. Tais limites precisam ser reconhecidos para que a aprendizagem suplante uma visão meramente utilitarista e instrumental daquilo que se aprende. O exercício tem sua importância, “mas no exercício, que é uma aprendizagem na utilização, o aprender a conhecer que lhe é próprio permanece no interior de determinados limites”. (2002, p. 78)
Nos cursos de formação, as escolas da magistratura podem até planejar atividades de estudo de caso e simulações de audiências, mas somente o confronto do aprendiz diretamente com as situações reais, práticas, que exijam dele as atitudes necessárias a um bom julgador podem, verdadeiramente, abrir o horizonte de sua compreensão quanto às especificidades do exercício profissional do juiz, como faz o entrevistado JS15 em um ato objetivante:
há coisas que eu sinto falta no nosso curso de formação aqui. Aulas do tipo, técnicas de interrogatório. Quando você vai interrogar um preso, como você obter a verdade? Como você saber se o preso tá olhando pra cima, se o preso tá olhando pra baixo, se ele tem um tic nervoso, coisas dessa natureza. Porque existe, hoje, estudioso desse assunto, não precisa você, empiricamente, ficar tentando descobrir se o homem tá mentindo ou não tá. Por que não ter um curso que me ensina essas técnicas, se tem um monte de gente lá na FBI, CSI que já sabe disso? Por que não ensinar isso pro magistrado?
O aprendizado meramente teórico é criticado também pelo pensador da Floresta Negra, sendo imprescindível compreender também o uso que se fará daquilo que aprende, como se dará sua inserção na cotidianidade, pois “quando se trata, por exemplo, de tornar, em geral, disponível uma coisa cujo uso estudamos, portanto, quando se trata de produzí-la, o que a produz deve já ter aprendido, antecipadamente, qual a utilidade que essa coisa, em geral, tem”. (2002, p. 78)
Heidegger reconhece o aprender a conhecer como fundamento de toda a aprendizagem, mas destaca a importância da experiência originária de aprendizagem, pela qual se conhecem os casos particulares de utilização do saber aprendido:
Este aprender a conhecer é o fundamento para a produção da coisa e, pelo seu lado, a coisa produzida é o fundamento que possibilita o exercício e o uso. O que aprendemos através do exercício é apenas uma parcela limitada do que há para aprender numa coisa. O aprender originário é aquele tomar
em que tomamos conhecimento daquilo que, em geral, uma coisa é em cada caso. (2002, p. 79)
A peculiaridade desta maneira de aprender, na qual o aprendiz é confrontado com a possibilidade de utilização, em cada caso, daquilo que já sabe, é destacada por Martin Heidegger como a maneira paradigmática de aprendizagem, pela qual a mera transmissão do saber, que Paulo Freire denomina “educação bancária”, dá lugar a possibilidade de vivência e experimentação daquilo que, supostamente, já se sabe. Nas palavras do próprio Heidegger,
Esse verdadeiro aprender é, por consequência, um tomar muito peculiar, um tomar no qual aquele que toma, toma, no fundo, aquilo que já tem. A
este aprender corresponde, também, o ensinar. Ensinar é um dar, um
oferecer; no ensinar, não é oferecido o ensinável, mas é dada somente ao aluno a indicação de ele próprio tomar aquilo que já tem. Quando o aluno recebe apenas qualquer coisa de oferecido, não aprende. Aprende, pela primeira vez, quando experimenta aquilo que toma como sendo o que, verdadeiramente, já tem. O verdadeiro aprender está, pela primeira vez, onde o tomar aquilo que já se tem é um dar a si mesmo e é experimentado como tal, Por isso, ensinar não significa senão deixar os outros aprender, quer dizer, um conduzir mútuo até a aprendizagem. Aprender é mais difícil do que ensinar; assim, somente quem pode aprender verdadeiramente – e somente na medida em que tal consegue – pode verdadeiramente ensinar. (2002, p. 79 e 80).
Há, ao final do excerto, uma indicação sobre o que poderia ser a figura paradigmática do educador, do formador. Para Heidegger, somente aquele que aprende verdadeiramente, isto é, que consegue suplantar a mera absorção de palavras, julgando que as repetindo terá captado as próprias coisas, poderia verdadeiramente ensinar. Mais adiante, acentua a importância do reconhecimento da dimensão de aprendizagem na própria profissão docente, de cuja aprendizagem autêntica depende a capacidade de ensinar, uma vez que “o verdadeiro professor diferencia-se do aluno somente porque pode aprender melhor e quer aprender mais autenticamente. Em todo o ensinar é o professor quem mais aprende”. (2002, p. 80)
Ao reconhecer a dimensão de aprendizagem em toda a atividade docente, Heidegger se detém e dá ênfase à aprendizagem baseada naquilo que está mais próximo da realidade de cada aprendiz, a fim de que a atividade se possa valer dos conhecimentos prévios do estudante, atraindo a atenção para isto e despertando nele uma aprendizagem mais efetiva e significativa. Tal, entretanto, não é, reconhecidamente, uma atividade fácil, pois
O aprender mais difícil consiste em acolher o que há para conhecer e que nós sempre já soubemos, de modo efectivo e até ao fundo. Um tal aprender, o único a que aqui nos entregamos, exige que nos detenhamos permanentemente naquilo que aparentemente está próximo. (2002, p. 80)
Por fim, é necessário reconhecer a natureza e os limites de cada saber, a fim de que aprendizagem possa dar-se pelo reconhecimento da existência de limites, além dos quais haveria um mero opinar (doxa), que de longe se constituiria como saber fundamentado. Para Heidegger, “um saber que não estabelece o seu fundamento de acordo com a sua essência e que, ao fazê-lo, não se limita a si mesmo, não é um saber, mas apenas um opinar”. (2002, p. 82).
Sob este aspecto, o curso de formação não poderia se limitar a um mero repasse de informações técnicas sobre como elaborar sentenças e despachos, como presidir uma audiência e fazer uma correição em cartório ou presídio, mas dar aos cursistas magistrados as condições para que possam, realmente, aprender fazendo, sob a supervisão cuidadosa de juízes mais experientes, com os quais possam interagir em salutar processo de troca e aprendizagem significativa.
O projeto inicial do IV Curso de Formação Inicial de Juízes Substitutos, planejado pela ESMEC, pretendia transformar o Fórum Clóvis Beviláqua neste laboratório vivencial para os novos magistrados, antes que estes assumissem suas comarcas no Estado (tirante Fortaleza). No fórum, passariam por diversas varas ao longo da semana, com diversas competências jurisdicionais, minutando decisões e participando de atos processuais, mas sob o acompanhamento direito de juízes vitaliciados, mais experientes e titulares destas varas. Lamentavelmente, em razão da carência de juízes do Estado, exceto Fortaleza, esta atividade não teve como ser realizada como planejado, o que favoreceria imensamente a aprendizagem, ajuntando experiência e conhecimentos práticos aos juízes substitutos.
6.2 Avaliação de aprendizagem em cursos de formação inicial e continuada de juízes