No Estado do Ceará, a história da formação de juízes de carreira estaduais está ligada ao surgimento da Escola Superior da Magistratura do Estado do Ceará (ESMEC), em 1986. A criação da escola de magistratura resultou de uma iniciativa do Des. Júlio Carlos de Miranda Bezerra, que dirigiu a ESMEC no período de 1987 a 2000 e contou com o apoio direto do então juiz de direito Francisco de Assis Filgueira Mendes, que coordenou a Escola na época de sua implantação, no amplo período que vai de 1988 a 2000.
A Lei Estadual nº 11.203, de 17 de junho de 1986, modificava o Código de Organização Judiciária para criar a ESMEC, assim dispondo:
Art. 426 – Fica criada a Escola Superior da Magistratura do Estado do Ceará, cujo diretor será um Desembargador escolhido pelo Presidente do Tribunal, com a anuência do pleno.
(...)
Art. 427 – A Escola Superior da Magistratura proverá cursos de: I – Preparação ao ingresso na Magistratura;
II – Atualização, aperfeiçoamento e especialização aos Magistrados; III – Jurídicos de extensão;
IV – Aprimoramento dos serviços administrativos, cartorários e dos servidores do Poder Judiciário.
O Regimento da ESMEC, aprovado pelo Tribunal de Justiça e publicado no Diário da Justiça de 2 de março de 1989, regulamenta e explicita ainda mais as finalidades e atividades da Escola, entre elas seu fim precípuo, que é qualificar e aperfeiçoar os integrantes do Poder Judiciário. Assim dispõe o Regimento da ESMEC:
Capítulo 2 – Dos Fins
Art.2° – São fins da Escola:
I – proporcionar meios para especialização, aperfeiçoamento e atualização de Magistrados, nos assuntos que interessam ao exercício do poder e função jurisdicionais;
II – preparar intelectual, doutrinária e tecnicamente os inscritos em concursos seletivos para ingresso na Magistratura;
III – dar aos funcionários e servidores do Poder Judiciário oportunidade de aprimoramento funcional e intelectual, nas áreas e diversos ramos do saber, para melhoria dos seus desempenhos e maior contribuição aos serviços de apoio à atividade jurisdicional;
IV – concorrer para o aprimoramento cultural dos Bacharéis em Direito e para a difusão dos preceitos e garantias formais relativos à tutela do respeito à pessoa humana, ás instituições democráticas, aos ideais de Justiça, Equidade e Paz Social; e
V – incentivar a pesquisa e o debate jurídico de temas relevantes e colaborar para o constante desenvolvimento da Ciência do Direito, especialmente da Hermenêutica Jurídica e processos de aplicação da Justiça, visando o fortalecimento do Poder Judiciário.
Capítulo 3 – Das Atividades
Art.3º – Para a consecução dos seus fins a Escola promoverá: I – cursos preparatórios de candidatos ao ingresso na Magistratura Cearense;
II – cursos de atualização, aperfeiçoamento e especialização de
Magistrados, bem como de extensão de disciplinas jurídicas e afins com a atividade da Justiça;
III – treinamento de pessoal administrativo vinculado ao Poder Judiciário; IV – estudos, debates e pesquisas, visando o maior conhecimento da Justiça e o oferecimento de sugestões ao aperfeiçoamento institucional do Poder Judiciário.
Embora instituída por lei estadual como escola de governo vinculada ao Poder Judiciário e aprovado o seu Regimento, nessa época, a Escola ainda não possuía instalações próprias. A ESMEC funcionava em uma pequena sala nas dependências do próprio Tribunal de Justiça do Estado do Ceará e a ideia de uma escola de formação para magistrados ainda não repercutia bem entre alguns integrantes da magistratura, que julgavam desnecessário investir tempo e recursos nesta empreitada, consoante informação obtida diretamente dos responsáveis por sua implantação. Foi muito árdua a tarefa de seus primeiros dirigentes e coordenadores, sobretudo para mudar a mentalidade equivocada dos magistrados, que até avaliavam como um demérito voltar aos bancos escolares, algo desnecessário para alguém cujos méritos já haviam sido reconhecidos e testados no concurso público a que se submeteram, juízes que já estavam em pleno exercício da jurisdição.
Partia-se da equivocada ideia de autossuficiência e autodidatismo do juiz, imaginando que a mera aprovação no concurso público para a magistratura, por si, era condição necessária e suficiente para o exercício do cargo.
Com o tempo, esta ideologia se revelou inteiramente equivocada, fato reforçado pela própria fala dos depoentes nesta pesquisa, sobretudo quando estes ressaltam a insuficiência da formação recebida na graduação, como faz JGF02 que
Ao adentrar na carreira, os mecanismos de formação nunca são suficientes para de fato preparar o magistrado para os problemas enfrentados diariamente. Na verdade, acho que só muito estudo e muitos anos de prática vão ensinando a função judicante.
A ESMEC encontra-se consolidada como conquista da magistratura cearense, dotada de instalações próprias e confortáveis, inauguradas em 15 de janeiro de 1999, contando com uma infraestrutura adequada para a capacitação de magistrados e servidores do Poder Judiciário. O aprimoramento de sua estrutura e a melhoria dos seus serviços são sentidos a cada gestão que se sucede no comando da instituição.
Conforme descrito em seu Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), documento elaborado também com a finalidade de credenciar a instituição junto ao Conselho de Educação do Ceará para oferta de cursos de pós-graduação lato sensu (especialização), a sede atual da ESMEC conta com uma infraestrutura bem melhor do que aquela existente quando foi criada:
A ESMEC conta, atualmente, com 4 (quatro) sala de aula grandes (...), cada uma delas com capacidade para acomodar até 60 (sessenta) alunos. Há, ainda, 4 (quatro) salas de aula menores, destinadas às atividades de extensão, realização de grupos focais e de trabalho, além de reuniões do Grupo de Pesquisa. Referidas salas têm dimensões menores, comportando cada uma delas até 20 (vinte) pessoas. Existe um auditório com capacidade para 300 (trezentas) pessoas, com conexão para uso de internet e telão permanente para apresentações audiovisuais. Funciona ainda, na ESMEC, uma Secretaria, Assessoria Pedagógica, gabinetes de Diretor e Coordenador e sala de reuniões. (PDI, 2013, p. 41).
Não somente houve mudança na estrutura física da ESMEC, mas também a cultura organizacional e a mentalidade dos dirigentes administrativos e dos próprios juízes transitarem por profundas transformações, deixando a formação continuada de ser apenas uma realidade distante, própria daqueles magistrados que não queriam judicar e preferiam dedicar-se aos estudos, para algo que constitui requisito obrigatório a ser considerado e pontuado nas promoções por merecimento. A qualificação e atualização permanente dos magistrados passou a ser encarada
como um dever profissional dos juízes e um direito da sociedade, com reflexos diretos na qualidade do provimento jurisdicional.
Atualmente, a formação inicial e continuada de magistrados é regulamentada pelas resoluções que emanam da ENFAM, instituída pela Emenda Constitucional nº 45, de 30 de dezembro de 2004 que estabelece:
‘ Art. 105 (...)
Parágrafo Único. Funcionarão junto ao Superior Tribunal de Justiça:
I – a Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados, cabendo-lhe, dentre outras funções, regulamentar os cursos oficiais para ingresso e promoção na carreira;
II – o Conselho da Justiça Federal, cabendo-lhe exercer, na forma da lei, a supervisão administrativa e orçamentária da Justiça Federal de primeiro e segundo graus, como órgão central dos sistema e com poderes correicionais, cujas decisões terão caráter vinculante
A realidade da experiência de formação de magistrados no Estado do Ceará revela que as resoluções da ENFAM legitimam cada vez mais a atividade da escola de magistratura, embora haja ainda muito a se fazer para que o Tribunal de Justiça leve em consideração, de fato, nos critérios de promoção por merecimento, os cursos de aperfeiçoamento realizados pelo magistrado na ESMEC e credenciados pela ENFAM. Houve mudança cultural importante, decorrente das diretrizes estabelecidas pela própria ENFAM e reforçadas pelo CNJ, tanto no sentido de equipar as escolas de magistratura com as condições necessárias para seu funcionamento quanto no sentido de valorizar a formação continuada.
Essas mudanças podem ser constatadas, sobretudo, se cotejar a situação atual com a anterior, observando dados coletados nesta pesquisa. Antes, a pouca ou nenhuma preocupação anterior do Tribunal com a formação de juízes, como se observa na fala dos depoentes que são juízes mais experientes, vitaliciados, era a tônica comum, a exemplo de JV01, que, indagado sobre o curso de formação inicial, declara:
Naquela época não existia (...) Assim, naquela época nos causou muita surpresa porque você era ‘jogado’ na comarca. O tribunal (...) durante muito tempo nunca teve essa preparação de fazer a formação de juízes. E eu senti uma dificuldade muito grande porque eu assumi muito jovem, 24 anos.
Assim, embora as preocupações com a formação de juízes já se refletissem na literatura especializada, sobretudo nas obras de Bittencourt e Teixeira, muitas
vezes, não encontravam muita ressonância nos tribunais brasileiros, a exemplo do que ocorria no Ceará.
É possível afirmar, pois, que a criação da ESMEC representou um importantíssimo marco na educação judicial no Ceará, procurando suprir uma lacuna há muito denunciada na literatura especializada e que apontava para uma distância imensa entre a formação recebida na graduação, a preparação para o concurso e a atividade jurisdicional propriamente dita, sempre a desafiar o magistrado com a exigência de uma formação mais ampla, humanística e pragmática.