Além do episódio Vento norte, a década de 1950 também contabilizaria o surgimento de outras empresas produtoras de filmes sediadas em Porto Alegre. A Farrapos-Film realizaria o inconcluso Remissão (1955), dirigido por Fernando Picoral e fotografado por seu pai, o veterano José Picoral. Fundada por Nílton Nascimento, assistente de câmera de Vento norte38, a Guaíba Filmes se limitaria a lançar um curta-metragem baseado na lenda do Negrinho do
38 Nílton Nascimento dirigiria em 1958 o primeiro longa sonoro realizado em Santa Catarina: O preço da ilusão (Pires, 1987, p.37-53).
pastoreio, apesar de ter contado com o apoio do Clube do Cinema de Porto Alegre e do
primeiro centro de tradições gaúchas, o CTG 35 (Póvoas, 2002, p.44-45). Manoel Tomazoni, que se transferira de Erechim, voltou seu trabalho à realização de filmes de encomenda, retomando a ideia dos antigos “filmes de cavação”. Tomazoni seria ainda o produtor de
Agosto, sexta-feira 13 (1955), desencontrada comédia que não passava de uma filmagem de
esquetes radiofônicos dirigidos pelo italiano Camilo Tedaldi e protagonizados por figuras conhecidas do rádio de Porto Alegre.
Assim como a Interfilmes, de Itacir Rossi, a produtora de Tomazoni fazia concorrência com a Leopoldis-Som, de Italo Majeroni, que por sua vez permanecia em constante operação com as suas coberturas dos organismos de poder e promoções turísticas (Becker, 1986, p.101; Miranda, 1990, p.336; Póvoas, 2002, p.42-45). Por fim, Adel Carvalho, que era vinculado a associação Comercial de Porto Alegre e inicialmente se associara a Salomão Scliar na Horizonte Filmes, criou a Continente Cine-Organização. Empresa que chegou a negociar produções com o cineasta Alberto Cavalcanti após a sua saída da direção da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Em Porto Alegre, Cavalcanti proferiu as já citadas palestras no
Correio do Povo, além de se reunir com homens de letras, financistas e tratar sobre a
incorporação de uma distribuidora de filmes nacionais e estrangeiros. Tudo sem resultados, pois a Continente acabou restringindo sua operação à exibição cinematográfica (Póvoas, 2002, p.47) 39.
Na segunda parte da década de 1950, estagnada a produção rio-grandense, em São Paulo foram realizados dois filmes que trouxeram às telas versões da literatura acerca do gaúcho: O sobrado (1956) e Paixão de gaúcho (1958). Ambos dirigidos pelo roteirista de televisão Walter George Dürst – o primeiro em parceria com o também pioneiro da televisão Cassiano Gabus Mendes –, foram rodados pela subsidiária da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, a Brasil Filmes. E contaram com a consultoria do tradicionalista gaúcho Luiz Carlos Barbosa Lessa.
O primeiro filme centrava-se no episódio da resistência da família Terra Cambará durante o cerco de seu maior símbolo de poder durante a Revolução Federalista, contido na primeira parte da trilogia O tempo e o vento, de Erico Verissimo. Não sendo fiel à narrativa do romance, o filme vale-se de uma boa fluência e de personagens bem delineados dentro do
39 Não é possível dizer que essa produção fosse ignorada. Em 1959, o Cine Cacique, localizado em Porto Alegre na Rua dos Andradas, quase em frente à sede do jornal Correio do Povo, promovia um Festival de Cinema Gaúcho “destinado a apresentar os melhores trabalhos de nossos produtores”. Foram exibidos curtas-metragens da Leopoldis-Som, de Tomazoni,e das produtoras Guaíba, Wilkens, Tiaraju e Brás (CP, 13/6/1959, p.8).
modelo de heroísmo e lealdade: mesmo sacrificando os seus entes, o patriarca gaúcho não cede à pressão do inimigo, impondo-se sobre seus agregados até o limite, quando a exaustão e a eminente rendição são sobrepostas pela notícia da derrota estadual que força a retirada dos maragatos. O mito é salvo pelo andar da história.
Já Paixão de gaúcho repetia as liberdades com a realidade histórica contidas no livro em que baseou-se, O gaúcho, de José de Alencar. Protagonizado pelo mesmo astro que alcançara em 1953 sucesso internacional com O cangaceiro, o gaúcho Alberto Rushel, o filme mais lembra um faroeste do cinema norte-americano: um mascate chega a uma vila rio- grandense para vingar a morte de um amigo. Há a figura do errante extrovertido e a rivalidade na disputa pelo amor de uma mulher, além do antagonismo entre personagens durante a Guerra dos Farrapos.
Depois de ser evocado como moldura paisagística para dramas passionais, como em
Ângela (1951), de Tom Payne e Abílio Pereira de Almeida, em produção da Companhia
Cinematográfica Vera Cruz, Caminhos do sul (1949), de Fernando de Barros e Nobreza
gaúcha (1958), de Rafael Mancini, o pampa gaúcho e seus habitantes retornam às telas
somente em 1965. Novamente em duas produções do centro do país: Os abas-largas, de Sanin Cherques e Luta nos pampas de Alberto Severi. O primeiro “mostrava a polícia rural gaúcha às voltas com ladrões de gado e contrabandistas” e o segundo mais uma vez trazia Alberto Ruschel, desta vez em cores e “sempre identificado como o gaúcho másculo e destemido, [que] enfrenta mil e uma peripécias num filme lento e sem a mínima dinâmica cinematográfica” (Becker, 1986, p.92). É interessante observarmos que a temática do gado e do contrabando, recorrentemente evocadas quando se trata da formação do Rio Grande do Sul, tenha sido apenas num filme despretensioso, realizado por um diretor menos reconhecido, como Samir Cherques.
A partir de meados da década de 1960 a produção de filmes no Rio Grande do Sul tomou certo alento. Aterei-me primeiramente aos filmes que trouxeram às telas a tradicional imagem do gaúcho, mesmo que inserida no contexto da indústria cultural rio-grandense. Depois, retomarei o período sob o prisma daqueles que projetavam um campo de realização cinematográfica no Rio Grande do Sul que ultrapassasse o caráter cíclico e popularesco.