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A análise do mundo do trabalho na relação com as juventudes deve ser considerada a inserção deste segmento social na educação formal, apesar de o processo de formação não ser o único aspecto determinante para o ingresso de jovens no mercado de trabalho, pois a precarização do trabalho atinge todos os sujeitos em seus diversos níveis de formação. Importante considerar, conforme Andrade e Neto (2009), um processo de educação prolongada que amplie as oportunidades de inserção no mercado de trabalho, além de constituir um importante instrumento de reflexão e de luta por direitos.

Segundo a pesquisa Agenda Jovem – 2013, 16% dos jovens possuem até o ensino fundamental incompleto; 11% o ensino fundamental completo; 21% o ensino médio incompleto; 38% o ensino médio completo e 13% possuem ensino superior em curso ou completo. Dentre os jovens entrevistados, a pesquisa revela que 37% dos jovens brasileiros estão atualmente estudando, 33% interromperam os estudos e 29% afirmam ter concluído seu processo de formação (SNJ, 2013), o que se mostra como um preocupante indicador, já que os dados mostram uma grande quantidade de jovens fora dos processos de formação: 62%. A maior parte dos jovens brasileiros possui ensino médio completo, sendo ainda pequena a inserção dos jovens no ensino superior.

Ao comparar tais dados de escolaridade com os dados demográficos sobre juventudes, verifica-se que a maior parte da juventude brasileira possui de 18 a 24 anos (47% segundo o CENSO de 2010), mostrando uma defasagem escolar, uma vez que nesta faixa etária os jovens já poderiam ter ingressado no ensino superior.

Diante deste cenário, considera-se que as trajetórias educacionais das juventudes ocorrem de forma irregular, marcadas pelo abandono precoce, as idas e vindas, as saídas e os retornos, sendo importantes sinais de que diferentes grupos de jovens vivem e percorrem o sistema de ensino (ANDRADE; NETO, 2009).

As trajetórias das juventudes no processo escolar também revelam as desigualdades presentes na sociedade brasileira, percebidas de múltiplas formas, conforme dados do Relatório Trabalho Decente e Juventude no Brasil da OIT, de 2009. O Relatório aponta que o número de jovens negros analfabetos, na faixa etária de 15 a 29 anos, é quase duas vezes maior que o de jovens brancos, sendo a taxa de frequência líquida (estudantes frequentando o nível de ensino adequado à sua idade) dos jovens negros expressivamente menor que a dos brancos, tanto no ensino médio como no superior. O relatório revela, ainda, que enquanto 7,2% dos jovens brancos tinham de zero a quatro anos de estudo e 29,5% de cinco a oito anos,

no caso dos jovens negros essas cifras se elevavam respectivamente para 16,2% e 39,7%. No que se refere a um maior tempo de escolarização, 49,4% e 13,3% dos jovens brancos tinham, respectivamente, de nove a 11 e 12 anos ou mais de estudo; esses percentuais se reduziam para 39,6% e 3,7% para os jovens negros (OIT, 2009).

Tais dados revelam as dificuldades de acesso e permanência em processos de escolarização das juventudes negras, tendo relação com as dificuldades de inserção no mundo do trabalho, o que pode impactar diretamente o acesso a renda desses sujeitos. Ao analisar esta realidade, é importante considerar que a juventude negra vem sofrendo mais com a pobreza no país.

Dentre os jovens com rendimento familiar mensal per capita de estratos baixos, com rendimento familiar de até 290 reais, os jovens negros somam 61%; os brancos 34 %; e demais etnias 4% (SNJ, 2013), o que tem impacto significativo tanto nas trajetórias escolares desses jovens, bem como na inserção no mercado de trabalho, contribuindo para a ampliação do ciclo geracional da pobreza.

Nesse sentido, importante considerar os diversos determinantes que impactam na ruptura da trajetória escolar das juventudes, estando relacionada às dificuldades de permanência no âmbito escolar, e, também, a própria condição de vulnerabilidade social pela qual a juventude, especialmente a juventude negra, é afetada.

Leon (2009) refere que a incorporação de jovens ao mercado de trabalho parece acarretar, na maioria dos casos, na interrupção dos estudos, acabando por comprometer o desenvolvimento de suas capacidades para toda a vida, e contribuindo de forma decisiva para a transmissão intergeracional da pobreza, perpetuando e ampliando, com isso, o ciclo de miséria em que grande parte de suas famílias encontra-se imersa (LEON, 2009). Tem-se, assim, um aspecto bastante preocupante com relação ao contexto educacional juvenil brasileiro, uma vez que o direito à educação vem se constituindo de maneira bastante frágil, especialmente para as juventudes mais vulnerabilizadas.

O Brasil possui atualmente um dos maiores contingentes juvenis de todos os tempos, porém esta juventude compõe um segmento social que vem enfrentando uma série de dificuldades, sendo a sua permanência ou não nos processos educacionais que tendem a impactar em sua inserção no mercado de trabalho.

Nesse contexto, é crescente o número de jovens, muitas vezes, pejorativamente intitulados como “nem nem”: uma parcela da população juvenil que nem trabalha, nem estuda, e que muitas vezes são invisibilizados nas pesquisas de desemprego por não estarem procurando ou por já terem desistido de procurar emprego.

Os índices de jovens que não trabalham e não estudam são extremamente altos, especialmente em países em desenvolvimento, segundo dados da OIT que estima que na América Latina e Caribe: 19,8% dos jovens da região não estudam e não trabalham, destes, 51,7% disseram ocupar-se de tarefas domésticas; 23,1% sem emprego; e 25,2% que não têm atividades por outros motivos. No Brasil, o índice de jovens que não trabalham e nem estudam corresponde a 18,4% das pessoas até 29 anos, sendo que esta taxa entre os homens é de 12,1% e das mulheres, a taxa alcança 21,1%; este percentual aumenta para 28,2% entre as mulheres negras (OIT, 2013).

Observa-se, novamente, o impacto da questão racial presente nos dados, somada às questões de gênero, que historicamente atravessam a construção da sociedade brasileira. As desigualdades com relação ao trabalho e sistema educacional refletem, de algum modo, os papéis tradicionais de gênero presentes nas dimensões históricas e culturais no âmbito da sociedade brasileira. Esta construção histórica, observada nos dados apresentados, está relacionada ao papel do homem, que, muitas vezes, por mais jovem que seja, necessita trabalhar para garantir a subsistência da família, daí o fato de procurar mais cedo o mundo do trabalho ou permanecer na inatividade; já jovens mulheres, por sua vez, apresentam melhores taxas de frequência escolar líquida, embora ainda tendam a assumir o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos; com isso, a proporção de jovens mulheres que não estudam nem trabalham é crescente de acordo com a faixa etária (AQUINO, 2009).

Muito embora estas questões impactem na diferença dos índices entre homens e mulheres, no que diz respeito a sua ocupação, há de se considerar a alta taxa de jovens homens que não trabalham e estão fora do sistema educacional. Tal questão deve ser analisada na perspectiva de compreender de um lado o contexto do mundo do trabalho para as juventudes, marcado por baixos salários, condições precarizadas, difícil acesso, e, por outro, as fragilidades do sistema educacional, que muitas vezes se manifesta pela precarização da política pública de educação, influenciando na permanência da juventude nos processos de escolarização.

O afastamento do mundo do trabalho e dos processos de escolarização tende a marcar as trajetórias das juventudes de diversas maneiras, uma vez que, conforme afirma Cardoso (2012), quanto maior o tempo de afastamento do sujeito do mercado de trabalho, maiores as suas dificuldades de acesso a tal mercado. Em uma sociedade capitalista, marcada pela lógica da venda da força de trabalho e da sua exploração, a falta de acesso ao mercado de trabalho tende a ampliar os processos de pobreza, visto que, no escopo da sociedade capitalista, é pela venda da força de trabalho que a grande maioria da população tem acesso à renda.