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3. İŞ DOYUMU İLE İLGİLİ KAVRAMSAL ÇERÇEVE

3.4. İş Doyumu ile İlgili Başlıca Teoriler

3.4.2. Süreç Teorileri

A historiografia dedicada ao estudo da escravidão no Brasil demonstrou que a história do cativeiro não poderia ser compreendida exclusivamente sob o viés da grande propriedade exportadora. Com base nesta assertiva, os estudos se multiplicaram, complementando o debate com evidências a respeito do cotidiano do cativeiro praticado nas mais diferentes regiões do Brasil.

Um aspecto fundamental desse movimento historiográfico foi o entendimento de que além da relação primordial estabelecida pelos escravos com os seus senhores, havia um conjunto amplo de possibilidades de associações dos cativos com a população livre, principalmente, nas áreas urbanas e nas regiões

rurais de predomínio das pequenas posses de escravos. Inserido neste debate, o presente estudo dedicou-se à compreensão de um aspecto do tema: o das interpenetrações dos mundos de livres e escravos, adotando como fio condutor o tema da criminalidade — um assunto de Estado.

Uma primeira aproximação com os debates a respeito da segurança pública e individual no Império poderia sugerir que os escravos cometeram crimes exclusivamente contra os seus senhores, feitores e prepararam planos insurrecionais. No entanto, a documentação criminal remanescente das regiões onde predominavam as pequenas posses de escravos revela que esses tipos de crimes figuravam como uma pequena parte do conjunto das ações tidas como delituosas praticadas pelos cativos. O exame aprofundado dos relatórios emitidos pelos ministros da justiça e presidentes da Província de São Paulo, sobretudo dos debates a respeito da segurança individual, resultou na percepção de que os crimes cometidos por escravos, que não se enquadravam nas insurreições ou na famosa lei excepcional de 1835, eram agrupados com a criminalidade atribuída à população em geral. Ministros e presidentes reuniam réus cativos e livres sob a denominação de “classes ínfimas da sociedade”. Ao omitirem as diferenças de condição jurídica dos réus em grande parte dos delitos cometidos no Império, os membros do Executivo admitiam que livres e escravos praticavam crimes similares. A esses delitos, principalmente os chamados crimes contra a pessoa, que se avultaram na segunda metade dos oitocentos, eram atribuídas causas genéricas. O estudo mais detalhado dos motivos que levavam livres e escravos a cometerem crimes em comum demandou a interpretação dos processos criminais produzidos em uma das regiões não exportadoras do Império do Brasil.

O Termo e depois Comarca de Franca foi durante muito tempo associado com um lugar perigoso, povoado por facinorosos. A origem desta má fama estava relacionada com dois aspectos principais: a localização da região — no extremo nordeste da Província de São Paulo, um lugar de fronteira e passagem — e um episódio de sua história noticiado tanto na sede da província quanto na Corte do Rio de Janeiro — as Anselmadas. Contudo, apesar de persistente, a má fama foi apenas um dos elementos constitutivos da história da região no século XIX. As atividades ali desenvolvidas, os hábitos e costumes levados para a região pelos primeiros povoadores mineiros, perpetuados sem grandes alterações durante

décadas, compuseram fundamentalmente o ambiente que cercava os mundos de livres e escravos.

A criação de gado, de porcos e o cultivo de lavouras destinadas à produção de gêneros para o consumo nunca demandou muitos cativos. No entanto, ser livre ou escravo em uma região rural onde predominavam os senhores de pequenas posses não era uma situação irrelevante. Sem meios materiais para a compra de escravarias maiores que demandavam a contração de feitores e administradores, os proprietários cuidavam pessoalmente da administração do trabalho de seus escravos. No entanto, morando durante anos nas mesmas propriedades, os cativos conseguiam ampliar os limites de suas ações, principalmente, a capacidade de circular pelos mais variados locais. Nesses momentos, a proximidade com a população livre se tornava mais intensa.

O estudo da criminalidade praticada por livres e escravos na região, demonstrou que o recurso às soluções violentas para os desacertos do cotidiano permeava tanto as relações extremas dos cativos com seus senhores, quanto os conflitos estabelecidos com a população em geral. No pequeno núcleo urbano, nos subúrbios da vila e na zona rural, durante os dias e as noites, as disputas por jogos, pela possibilidade de freqüentar os mesmos lugares, pelos mesmos amores, por dinheiro, pela posse de animais ou objetos de valor pessoal levavam livres, libertos e escravos a travarem disputas que acabavam em ferimentos e mortes.

Embora o ato de ferir ou matar pudesse representar uma solução para os conflitos enfrentados no cotidiano, essas ações criavam um outro problema — a necessidade de prestar contas à polícia e à justiça. Neste âmbito a balança pesava desfavoravelmente aos cativos. Mesmo compondo uma parte pequena da população local, quando comparados aos réus livres, os escravos eram mais recorrentemente condenados, pois pesava sobre eles o interesse dos proprietários. Os senhores tinham a prerrogativa, como curadores natos de seus escravos, de prescindir do direito de apelar das sentenças condenatórias, sempre que optavam pelo cumprimento imediato da pena de açoites para que seus escravos retornassem rapidamente ao trabalho. Sentados no mesmo banco dos réus, julgados pelo mesmo juiz,

com base no mesmo código de leis, escravos permaneciam escravos e livres permaneciam livres, independentemente da região onde habitavam.

Da mesma forma que ocorria com trabalhadores livres, muitos escravos estavam sujeitos ao cumprimento de missões criminosas a mando de seus senhores. O núcleo privilegiado dessas relações era a família onde todos os participantes estavam submetidos a uma só ordem, fossem eles livres ou escravos. Em geral, mesmo numa região onde predominavam os senhores de poucos recursos, os conflitos mais graves envolviam os proprietários mais abastados, pois, se por um lado o mandante deveria ser obedecido, por outro, cabia a ele garantir o resgate dos mandatários, fosse do conflito em si ou das conseqüências jurídicas dele advindas. A relação de mando não se esgotava no mandante. Por vezes, livres e escravos enviados para uma missão criminosa podiam resolver um problema do patrão ou senhor e, ao mesmo tempo, solucionar uma questão de interesse próprio.

Nem sempre, contudo, o senhor ou patrão eram os idealizadores de mortes e ferimentos destinados ao reparo de uma situação considerada ultrajante. Em alguns casos, livres e cativos se associavam para a eliminação de um desafeto comum. Embora seja necessário observar que, tão logo a notícia se espalhava chegando aos ouvidos das autoridades, livres e escravos parceiros se separavam definitivamente.

Mesmo convivendo muito próximos, livres e escravos não se confundiam no cotidiano de uma região rural onde predominavam os senhores de poucos cativos. A fronteira entre a escravidão e a liberdade era constantemente reafirmada todas as vezes que o limite do tolerável era ultrapassado. No entanto, muitos livres, libertos e escravos ocuparam os mesmos espaços, lutaram pelos mesmos interesses e praticaram crimes em comum.

BIBLIOGRAFIA

Estudos a respeito do Direito, da legislação e da criminalidade envolvendo livres, libertos e escravos no Brasil e outros países das Américas

ADORNO, Sérgio. Aprendizes do poder. O bacharelismo liberal na política brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

AGUIRRE, Carlos A. and BUFFINGTON, Robert (editors.). Reconstructing

Criminality in Latin America. Wilmington: Jaguar Books on Latin America, nº

19, 2000.