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1.1.3. Sürdürülebilir Turizm

1.1.3.1. Sürdürülebilir Turizmin Ortaya Çıkması ve Gelişimi

Embora a situação política de muitos dos nossos países fosse lamentável, os seus intelectuais ausentavam-se deles agora com firme vontade de regressar. Tínhamos de fazer algo por nós próprios. Sabíamos-lo. Vislumbrávamos as próximas volições de uma praxis latino-americana. Em toda parte assistia a um renascer da consciência nacional. A necessidade de comunicação entre intelectuais de países diferentes era cada vez maior.

Alejo Carpentier

Nos primeiros anos de toda revolução, como aponta Rafael Rojas, ocorre uma espécie de encantamento recíproco entre intelectuais e o universo da política. Na França revolucionária, os poetas Louis David, André Chenier, Phillipe Fabre e Camille Desmoulins celebraram o advento da República. Na Rússia, Gorki, Pasternak, Maiakovsky deslumbraram-se diante do “frenesi revolucionário” e consagraram, por meio de suas obras, a Revolução de Outubro.66 No entanto, as revoluções não causam impacto apenas nos intelectuais dos países onde ocorrem, elas também produzem o que François Furet chama de “feitiço universal”, ao converterem-se em signos de mudança mundial.67 Nessa direção, a Revolução Francesa cativou alemães, como Emmanuel Kant, e ingleses, como Thomas Paine; a Revolução Russa seduziu intelectuais, como H. G. Wells, André Gide, Romain

66 ROJAS, Rafael. Anatomia do entusiasmo: cultura e revolução em Cuba (1959-1971), 2007, p. 73. 67 FURET, François apud ROJAS, Rafael. Anatomia do entusiasmo: cultura e revolução em Cuba (1959-

Rolland, André Malraux, entre outros. A Revolução Cubana ganhou inicialmente simpatia e prestígio entre os escritores cubanos, como Alejo Carpentier, José Lezama Lima, Roberto Fernández Retamar, Guillermo Cabrera Infante; o apoio de muitos intelectuais latino- americanos, como Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, Gabriel García Márquez, Ángel Rama, Marta Traba, Carlos Fuentes e Julio Cortázar; além de escritores europeus como Jean-Paul Sartre, Herbert Marcuse, Hans Magnus Enzensberger.68

O fato de pertencer à esquerda se converteu em elemento crucial de legitimidade da prática intelectual na década de 60, contudo, como aponta Jorge Castañeda, a esquerda intelectual latino-americana foi um produto direto do papel que os intelectuais de todo tipo desempenharam na política do continente durante décadas. Além do mais, nem todos os intelectuais destacados e famosos da América Latina foram de esquerda e nem todos os intelectuais de esquerda foram famosos. Mas é inegável que o rol de intelectuais que apoiou inicialmente a causa cubana, e que se situava à esquerda do espectro político, era renomado ou passou a sê-lo ao apoiar a Revolução. Essa esquerda intelectual, nos anos 60, configurou-se como uma corrente organizada e coerente de ação política e de orientação ideológica. Segundo Castañeda, essa organização e coerência foram possíveis porque os intelectuais possuíam bases de apoio, canais de expressão e eram escolhidos por governos (e o resto do mundo) como interlocutores.69

O político foi um elemento central da cena cultural latino-americana da década de 1960, e, assim, a Revolução Cubana foi vista como um acontecimento extremamente relevante na luta contra o imperialismo, a injustiça e o atraso social. Dessa forma, grande parte dos intelectuais celebrou-a como a realização de uma utopia. Se a Revolução Cubana

68 Ibidem, p. 73.

69CASTAÑEDA, Jorge. Utopia desarmada: intrigas, dilemas e promessas da esquerda latino-americana. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 158.

significava, para eles, o início da “emancipação definitiva”, era compreensível que a fé revolucionária se colocasse decididamente em um primeiro plano.70 Ao mesmo tempo, o governo revolucionário cubano teve uma grande preocupação em buscar a adesão dos intelectuais estrangeiros, para, entre outras coisas, ganhar apoio e legitimar a Revolução, tanto na América Latina quanto na Europa. O apoio dos intelectuais a Cuba foi decisivo como procuraremos demonstrar , bem como, a princípio, a devoção deles à causa. O contrário também foi válido, ou seja, alguns intelectuais, ao defenderem a Revolução, estavam buscando um caminho para que pudessem se sobressair e ganhar espaço na intelligentsia latino-americana. Foram anos de minuciosas elaborações em torno do poder e da responsabilidade da palavra, de leituras particularmente apaixonadas, de polêmicas, cujos ecos ainda não se dissiparam.71 Jorge Edwards caracterizou bem o que foi essa época:

Os anos da década de 60 foram os do idílio entre os intelectuais e a Revolução Cubana. Todos nós, de uma forma ou de outra, com raras exceções, participamos desse idílio. Nicanor Parra viajava a Cuba a toda hora e se convertia no amigo predileto da Casa de las Américas. Mario Vargas Llosa era convidado permanente e membro do conselho de redação da revista. Julio Cortázar descobria a política e, mais do que isso, descobria o hispano-americanismo em e a partir de Cuba. Eu mandava contos e artigos à revista da Casa e lamentava amargamente porque minha condição de diplomata me impedia, pelo menos a princípio, de viajar a Havana, e me obrigava, por outro lado, que desgraça! A ficar em Paris, na decadente, fria e cinzenta Paris.72

Nesse sentido, a Revolução fez emergir, nos anos 60, uma rede intelectual latino-americana de esquerda, reunida basicamente em torno de Cuba. Uma rede intelectual, nesse caso, pode ser definida como um conjunto de relações que se formam

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Cf. RUFFINELLI, Jorge. Después de la ruptura: la ficción. In: PIZARRO, Ana (org.). América Latina: palavra, literatura e cultura. São Paulo: Memorial; Campinas: UNICAMP, 1995, vol 3; SOSNOWSKI, Saul. La “nueva” novela hispanoamericana: ruptura y “nueva” tradición. In: PIZARRO, Ana (org.). América Latina: palavra, literatura e cultura. São Paulo: Memorial; Campinas: UNICAMP, 1995, vol 3.

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SOSNOWSKI, Saul. La “nueva” novela hispanoamericana: ruptura y “nueva” tradición. In: PIZARRO, Ana (org.). América Latina: palavra, literatura e cultura, 1995, vol 3, p. 395.

entre intelectuais com afinidades políticas e comprometidos com os processos sociais.73 Em torno de Cuba, formou-se uma rede facilmente identificável, que englobou intelectuais com opiniões políticas semelhantes e que se expressavam praticamente nos mesmos canais e reuniam-se periodicamente. Os intelectuais relacionavam-se por meio de participações em congressos, em seminários, em simpósios e em editoriais de revistas. Além disso, publicavam praticamente nos mesmos periódicos e trocavam correspondências e livros. O repertório discursivo dessa rede intelectual apelava, principalmente, para o fomento da integração cultural latino-americana, o fortalecimento do compromisso político-social do escritor, a defesa da causa cubana e do socialismo e, por fim, a promoção da luta antiimperialista.74 Além disso, a grande maioria, influenciada pelo pensamento sartriano, tinha a convicção de que o intelectual deveria converter-se em um dos principais agentes de transformação radical da sociedade, especialmente nos países do chamado Terceiro-Mundo. Os escritores Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Roberto Fernández Retamar, Ángel Rama, Ernesto Sábato, Alejo Carpentier e Mario Benedetti foram, inicialmente, os pilares dessa rede.

Os congressos de escritores latino-americanos foram importantes para a formação dessa rede intelectual latino-americana de esquerda a partir de Cuba, mesmo aqueles que não foram realizados na ilha. Durante toda a década de 60, foram realizados

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Para Jorge Castañeda, nos anos 60, muitos intelectuais latino-americanos de esquerda possuíam uma certa obsessão pela justiça social. Sendo assim, “a pobreza e a injustiça no próprio país tinham uma solução e um paradigma comum: a pátria e a revolução de Fidel”. Cf. CASTAÑEDA, Jorge. Utopia desarmada: intrigas, dilemas e promessas da esquerda latino-americana, 1994, p. 163.

74 Cf. FUSCHINI, Gérman Albuquerque. La red de escritores latinoamericanos en los años sesenta. In:

Revista Universum, Universidade de Talca, Chile, n° 15, 2000. Para esse autor, seria um erro afirmar que somente nos anos de 1960 os escritores converteram-se em atores públicos comprometidos com os processos políticos e sociais. Tampouco seria correto afirmar que apenas nessa década se constituíram as redes. Antes disso, houve vários casos, como, por exemplo, a rede arielista e modernista, agrupada em torno de Rodó e Rubén Darío; a rede que se formou nas páginas da revista Repertorio Americano; e a que se constituiu a partir de alianças entre intelectuais espanhóis e latino-americanos em razão da Guerra Civil Espanhola, p. 339.

vários congressos de escritores latino-americanos, como o Primer Encuentro de Escritores Americanos (Chile, 1960), o Congreso de Intelectuales de la Universidad de Concepción (Chile, 1962); o Encuentro de Gênova (1965), o Primer Encuentro de la Comunidad Cultural Latinoamericana (Chile, 1966); o Segundo Congreso Latinoamericano de Escritores (México, 1967) e o Encuentro Latinoamericano de Escritores (Chile, 1969).75

O caráter desses congressos era eminentemente político, nos quais os temas literários ficavam em segundo plano. Na realidade, quando se falava de literatura, era para relacioná-la com temas políticos e sociais, de maneira que os assuntos sobre a Revolução Cubana não ficaram à margem, pelo contrário, foram centrais nos comunicados, nas intervenções e nos debates realizados em quase todos os congressos. Como assinala Carlos Fuentes:

[…] depois da Revolução Cubana, ele [o escritor] já consentia falar em público mais de política do que de literatura; na América Latina ambas eram inseparáveis e agora ele só tinha olhos para Cuba. O entusiasmo pela figura de Fidel Castro, nessa primeira etapa, e a fé na revolução, influenciaram toda uma geração de intelectuais.76

No Congreso de Intelectuales de Concepción, em 1962, Alejo Carpentier foi convencido por Carlos Fuentes e Pablo Neruda a não ler o texto que havia preparado para a conferência, Elementos mágicos en la literatura del Caribe, mas que, em seu lugar, “improvisasse algo sobre as reformas educacionais de Fidel Castro.”77 O chileno José Donoso, ao narrar o que ocorreu nesse congresso, afirmou que uma “infinidade de escritores de todos os países do continente manifestou quase que com unanimidade sua adesão à causa cubana”, e que ele havia “experimentado pela primeira vez uma repentina e poderosa maré de simpatia por uma causa política, que unificava o continente e a todos os

75 Cf. FUSCHINI, Gérman Albuquerque. La red de escritores latinoamericanos en los años sesenta, 2000. 76 FUENTES, Carlos apud DONOSO, José. História personal del “boom”. Barcelona: Seix Barral, 1983, p.

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seus escritores.”78 Outro tema que tangenciou as discussões nesse congresso foi a falta de conhecimento dos escritores sobre a literatura latino-americana contemporânea e a necessidade de estreitar os vínculos entre os escritores do subcontinente. O congresso foi encerrado com a escrita de uma carta, endereçada ao diretor da Fondo de Cultura Económica , Arnaldo Orfila Reynal, na qual os intelectuais defenderam que, para “superar nosso isolamento, nosso desconhecimento mútuo”, era necessário “encontrar voz comum, unitária e outorgar-lhe força, presença e a divulgação que nossa época e o destino de nossos povos exigem”. Além disso, sugeriram na carta que o diretor da editora criasse, “dentro da estrutura editorial da Fondo, uma coleção popular de escritores ibero-americanos como uma arma efetiva, capaz de influir decisivamente no crescimento de nossa produção e de dar-lhe a divulgação mais ampla e fecunda”.79

No Encuentro de Gênova (1965) constituiu-se a Comunidade Latino-americana de Escritores (CLE), dando forma ao desejo dos intelectuais de atuarem conjuntamente. Segundo Claduia Gilman, o uruguaio Ángel Rama descreveu esse encontro como um grande diálogo “pluriideológico” entre marxistas, católicos, conservadores e independentes de esquerda. No documento máximo do encontro – a Declaração de Gênova –, publicado na Casa de las Américas, foi proclamada a existência da América Latina como uma unidade e a Revolução Cubana como o acontecimento central daquele período. No manifesto Nuestra América, produzido também no encontro de Gênova, os intelectuais confirmaram, como “consciência moral”, a posição antiimperialista.80

78 DONOSO, José. Historia personal del boom. Barcelona: Seix Barral, 1983, p. 36-46.

79 Casa de las Américas, Havana, nº 11-12, março-junho, 1962 apud FUSCHINI, Gérman Albuquerque. La

red de escritores latinoamericanos en los años sesenta, nº 15, 2000, p. 343. Entre os vários intelectuais que assinaram a carta, podemos citar: Thiago de Melo, Carlos Fuentes, Augusto Roa Bastos, José Maria Arguedas, Mario Benedetti, Pablo Neruda, José Donoso e Fernando Alegría.

80 GILMAN, Claudia. Entre la pluma e el fusil: debates y dilemas del escritor revolucionário en América

Durante a década de 60, Cuba transformou-se na grande anfitriã do mundo letrado e deu sentimento de unidade a uma “grande família intelectual”. A ilha cumpriu, ademais, a função de referência obrigatória nas intervenções intelectuais e converteu-se em um cenário aglutinante (imaginário e real) de muitos intelectuais.81 O governo revolucionário passou a vislumbrar a criação de um novo espaço cultural latino-americano, por meio de suas instituições político-culturais (como a Casa de las Américas, especializada na promoção de relações culturais com a América Latina), que possuíam um discurso com apelação identitária e utópica em torno da idéia de desenvolvimento e revolução. Esse discurso tinha um forte conteúdo latino-americanista e terceiro-mundista, a partir do qual pretendiam revitalizar o integracionismo de cunho bolivariano.82

A instituição Casa de las Américas foi estruturada em abril de 1959 e, inicialmente, sua direção ficou a cargo de Haydée Santamaría, 83 que havia participado do assalto ao quartel de Moncada em 1953.84 Para Idalia Morejón Arnaiz, a grande visibilidade que essa instituição teve, desde seu começo, foi, em grande medida, proporcionada pelo “peso político de sua diretora e ao seu familiar acesso ao centro do poder guerrilheiro. Sua presença garantiu os modos de intervenção da esfera política na cultura, reforçando a imagem da Instituição como filha legítima da revolução”. A Casa de las Américas congregava ao seu redor uma ampla estrutura: biblioteca, prêmio literário anual, editora,

81 Ibidem, p. 113.

82 SUBERCASEAUX, Bernardo. Elite ilustrada, intelectuales y espacio cultural. In: GARRETÓN, Manuel A.

América Latina: un espacio cultural en el mundo globalizado. Debates y perspectivas. Bogotá: Convenio Andrés Bello, 1999, p. 176.

83 Haydée Santamaría dirigiu a instituição entre 1959 e 1980. Em 1980, cometeu suicídio. Uma interpretação

política de sua morte encontra-se em: FRANQUI, Carlos. Vie, aventures et desastres d’un certain Fidel Castro. Paris: Belfond, 1989; CABRERA INFANTE, Guillermo. Mea Cuba. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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O quartel de Moncada localizava-se em Santiago de Cuba e foi considerado, na época, a segunda maior fortaleza do exército cubano em número de homens e em arsenal bélico. Foi alvo de assalto em 26 de julho de 1953 por um grupo de revolucionários liderados por Fidel Castro. O assalto resultou em fracasso, alguns guerrilheiros foram torturados e mortos e outros detidos. Nesse episódio, o irmão de Haydée Santamaría foi torturado até a morte.

revista, vários departamentos dedicados à pesquisa literária. Além disso, promovia a música, o teatro e as artes plásticas.85

Aglutinar em torno da revista Casa de las Américas a intelectualidade latino- americana obedecia a uma política do Estado cubano. Os mecanismos por meio dos quais a Casa de las Américas articulou a rede intelectual foram diversos. Os escritores estrangeiros recebiam inúmeros convites para irem até Havana para participar de conferências, diálogos e mesas-redondas com escritores cubanos. A lista de escritores que foram à Ilha, a convite da instituição, é imensa, entre os quais podemos citar: Carlos Fuentes, Miguel Ángel Asturias, Ezequiel Martínez Estrada, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Ángel Rama. Os anfitriões da intelectualidade latino-americana eram escritores renomados em Cuba, como Alejo Carpentier, José Lezama Lima, Roberto Fernández Retamar, Guillermo Cabrera Infante (antes do exílio em 1965), entre outros.86 A figura de Fernández Retamar, com quem Cortázar desenvolveu uma sólida amizade, contribuiu muito para forjar essa sociabilidade. Ele recebeu em Havana vários intelectuais e dali escrevia, de forma íntima e pessoal, cartas-poemas, que dedicava a vários intelectuais, entre eles: Cortázar, Roque Dalton e Juan Gelman. Como diretor da revista Casa de las Américas, procurou agregar em torno da revista nomes como Ángel Rama, Vargas Llosa, Cortázar e Carlos Fuentes.87

Um outro mecanismo, por meio do qual a Casa de las Américas articulou a rede intelectual, foram os encontros de escritores. Do início da Revolução Cubana até o

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Além da revista com o mesmo nome, a Casa de las Américas publica também revistas como Conjunto, Boletín de Música, Anales del Caribe e Critérios. Cf. MOREJÓN ARNAIZ, Idalia. Política e polêmica na América Latina: Casa de las Américas e Mundo Nuevo. 326 f. Tese. Programa em Integração da América Latina, USP, São Paulo, 2004; LIE, Nadia. Transición y transacción: la revista cubana Casa de las Américas (1960-1976). Bélgica/Leuven: Ediciones Hispamérica/Leuven University Press, 1996.

86 FUSCHINI, Gérman Albuquerque. La red de escritores latinoamericanos en los años sesenta, 2000, p. 348. 87 GILMAN, Claudia. Entre la pluma e el fusil: debates y dilemas del escritor revolucionário en América

final da década de 1980, foram realizados inúmeros congressos, simpósios e assembléias, com a participação de quase toda a esquerda intelectual latino-americana.88 Vargas Llosa, Cortázar e García Márquez fizeram suas peregrinações a Havana para participar de tais eventos e trabalhar por Cuba em algum meio. Outros escritores passaram a viver na ilha, como foi o caso do uruguaio Mario Benedetti, do haitiano René Depestre, do salvadorenho Roque Dalton, do peruano Javier Heraud e do chileno Enrique Lihn. No início dos anos 60, Havana foi a sede de uma intensa sociabilidade intelectual, produzindo amizades, textos e adesões à Revolução.89 Dessa forma, a Revolução Cubana, como mostra Jorge G. Castañeda, chegou a simbolizar a unidade, a força e o apogeu da esquerda intelectual latino-americana. Cada intelectual “teve sua própria Cuba particular, adaptada a suas preferências e prioridades”.90 Os escritores estrangeiros eram o vínculo fundamental com os outros países da América Latina, como bem mostrou Fausto Masó

A Casa [de las Américas] como se diz tradicionalmente, busca sempre manter uma correspondência ativa com os principais escritores e artistas americanos. Enfim, esta Instituição é um intercâmbio cultural, e este trabalho, quando bem feito, tem necessariamente que se desenvolver de modo que repercuta na vida de distintos países. Um grande escritor, um grande artista tem sempre um peso extraordinário na opinião pública de seu país. O caso de Sartre é um bom exemplo, assim como os resultados que se tem obtido a favor de Cuba no México, Brasil, Argentina, Venezuela, pelo fato de que escritores e artistas enviados a Cuba pela

Casa, quando retornam a seus países, manifestam com sinceridade o que haviam visto e conhecido, a verdade da Revolução Cubana.91

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Dentre todos os congressos, vale ressaltar os encontros terceiro-mundistas, como a Conferência Tricontinental, realizada em janeiro de 1966, em Havana, e o Congresso Cultural de La Habana, em 1968, que contou com a presença de intelectuais de 70 países.

89 GILMAN, Claudia. Entre la pluma e el fusil: debates y dilemas del escritor revolucionário en América

Latina, 2003, p. 113. 90

CASTAÑEDA, Jorge G. Utopia desarmada: intrigas, dilemas e promessas da esquerda latino-americana, 1994, p. 158-159.

91MASÓ, FAUSTO apud MOREJÓN ARNAIZ, Idalia. Política e polêmica na América Latina: Casa de las

Américas e Mundo Nuevo. 326 f. Tese. Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina, USP, São Paulo, 2004. p. 43.

Outro forte componente para a formação de uma rede intelectual latino-americana de esquerda foram as revistas culturais. De acordo com Claudia Gilman, elas foram o suporte e o sintoma dessa comunidade, que não foi somente imaginada. De 1962 em diante, existiram vários intentos para organizar e institucionalizar uma comunidade político- intelectual latino-americana.92 Nesse sentido, a revista cubana Casa de las Américas foi exemplar. Em julho de 1960, foi publicado o primeiro número da revista, organizado por Antón Arrufat.93 No segundo número, a revista se autodefiniu como “uma instituição cultural organizada para servir a todos os povos do continente em sua luta pela liberdade”, deixando entrever sua forte motivação política. A partir de 1965, passou a ser dirigida por Roberto Fernández Retamar, que permaneceu no cargo até 1989 e reassumiu a direção da revista em 1991.94 Entre seus colaboradores, destacaram-se José Lezama Lima, Juan Gelman, Carlos Drummond de Andrade, Ernesto Cardenal, Ítalo Calvino e José María Arguedas.95 A quantidade de escritores que colaboraram com a revista ao longo dos anos

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GILMAN, Claudia. Las revistas y los límites de lo decible: cartografía de una época, 2003; SOSNOWSKI, Saúl (org.). La cultura de un siglo: América Latina en sus revistas. Buenos Aires: Alianza, 1999, p. 464.

93 A tiragem da revista, de periodicidade bimensal, foi considerável e aumentou gradativamente, passando de

2.000 exemplares em 1960, para 4.000 em 1962, e 9.000 em 1965. A partir da década de 70, superou essas cifras, chegando a 15.000 exemplares nos anos 80. O valor da revista variava de acordo com a tiragem, foi “cotada pelo simbólico preço” de 25 centavos em 1960 e 40 centavos a partir de 1962. A assinatura anual

Benzer Belgeler