O passado tem um caráter estruturante, onde se concentram as verdades, os costumes, as regras e os conceitos que esculpem os homens e suas crenças. É ele que se torna referência, respostas, atrai como um campo magnético onde há ausência de estranhamento com as coisas a sua volta. O passado torna-se sempre ação presentificada, mas o passado não pode ter um caráter de atribuições de conceitos últimos que sempre se incorporam no presente. Critica-se o presente pelo antigo, e um mais antigo pelos acontecimentos mais antigos ainda, como o agir de um historiador, como o exercício que Roquentin tem como profissão. E é esse passado, é Rollebon – este Marquês que é a figura histórica central de Bouville - que justificaria, que representaria a justificativa para que a existência de Roquentin ali se desse.
Requentin sente uma sensação de insegurança, pois pela metamorfose das coisas, ocorria em seu pensamento a constatação que tudo agora poderia ocorrer e seria mais confortável conter esse processo e voltar a forçar as atribuições às coisas no seu aspecto cotidiano. Roquentin, ao analisar os fatos, a ordem da cidade, o leva a pensar que tudo poderia acontecer, que conceitos atribuídos a todas as coisas só servem como estrutura e ferramentas para a construção de um dique que contenha as possibilidades do futuro. Moutinho diz: “A perda do passado equivale assim a uma primeira descoberta da liberdade, que fica clara na tentativa de forjar uma aventura no presente”.97
As coisas à frente de Roquentin metamorfoseiam-se, perdem seu sentido anterior. Nesse processo, além de experimentar a contingência das coisas,
96Bornheim, Gerd. Sartre – Metafísica e existencialismo, p. 16.
evidenciar-se-á o passado98 como perda. Note-se que não poderíamos pensar que isso só acontece na vida de Roquentin a partir de agora, mas compreende-se que isso sempre aconteceu, sempre as coisas foram contingentes, existentes. E é sobre isso que Roquentin mais tarde irá se debruçar quando sente uma necessidade de aventura na sua vida, de viver uma aventura.
Roquentin julga poder ser um aventureiro de forma deliberada, mas quando se fala de uma aventura, nos direcionamos ao passado, a uma história já completa, que teve começo, meio e fim, e como forma comparativa à vida presente, Roquentin vê que é impossível viver uma aventura deliberadamente, então “a noção de aventura
lhe parece como fraude”:99
Mas hoje, mal pronunciei essa palavra, sou tomado de uma grande indignação contra mim mesmo: parece-me que estou mentido, que em minha vida inteira não tive a menor
aventura, ou antes, que já nem sei o que significa essa palavra.100
Roquentin percebe a diferença da vida para a aventura e narra para si mesmo uma história sua:
Na terceira noite, ao entrar num dancing chamado La Grotte Bleu, minha atenção foi despertada por uma mulher grandalhona, meio bêbada. E é essa mulher que estou
aguardando nesse momento, ao ouvi “Blue sky”, e que vai voltar a se sentar à minha
direita e me enlaçar o pescoço com seus braços. Senti então com violência que vivia uma aventura. Mas Erna retornou, se sentou ao meu lado, me enlaçou o pescoço com os seus braços e detestei-a sem saber por quê. Agora compreendo: é porque era
preciso recomeçar a viver e a impressão de aventura acabava de se dissipar.101
Para compreendermos melhor, ao narramos uma história em que vivemos, qualquer coisa que se quiser, devemos ter algo organizado, digo, há um nexo nos fatos que sucedem um ao outro, uma razão de ser das coisas e das ocasiões que se tornam algo necessário para o sentido da narração completa. Mas a vida é o presente cotidiano, e, levando em consideração que tudo é contingência, tudo pode acontecer, porque tudo não tem razão de ser daquela forma (necessária), perdendo 98Vemos que uma coisa leva a outra, mas não é tão simples assim que o herói do romance faz essa descoberta (pois se constata que uma coisa já não é mais a mesma, perdendo todo o seu sentido que tinha antes, poderíamos afirmar que o que era já não é mais, pois a contingência faz justamente surgir a perda do ser no tempo, perder a sua necessidade, faz o ser se comportar como não-ser).
99Moutinho, Luiz Damon. Sartre – Psicologia e fenomenologia, p.50.
100Sartre, Jean-Paul. A Náusea, pp. 61-62.
toda sua necessidade, o presente sempre está no campo das possibilidades. Do fato narrado, Roquentin percebe que poderia muito bem não ter acontecido daquela forma, ou simplesmente não ter acontecido, pois naquele instante, naquele presente em que acontecia aquele fato, estava a contingência no mundo, porque ela é a verdade, e sempre ela esteve no mundo. Na narração o rigor que existe é fruto de uma inversão, o próprio Roquentin diz: “Os acontecimentos ocorrem num sentido e
nós os narramos em sentido inverso.”102 Temos que notar que na narração a
história já está pronta, acabada, a teleologia traça toda a ordem rigorosa em que sucedem um fato para o outro. Como Moutinho escreve: “o fim está presente desde
o começo, ‘invisível’ é mesmo ele quem torna o começo.” 103
Depois da descoberta da contingência como sendo toda existência, há um apelo para que se possa surgir necessidade na vida de Roquentin. Vemos que ele, depois de constatar que a noção de viver uma aventura é impossível, uma fraude, constata que a aventura só pode realmente ser construída se for como narração, ação de retrospectiva dos fatos, do vivido.
A aventura quando narrada é algo totalmente delimitada no âmbito de acontecimentos necessários, mas temos que ter em mente que no ato em que se realiza o fato, o sujeito tem toda a liberdade de escolha naquele instante, naquele presente. Pensar na aventura é um pouco se enganar achando realmente que haja um fio condutor que leve sempre as coisas a serem determinadas daquela forma. Há a fatalidade na aventura que Roquentin vê que no cotidiano presente não há. Tudo na aventura é necessário, vemos que sua característica principal é o encadeamento dos acontecimentos, os acontecimentos na aventura são o encadeamento de
necessidade, de fatalidade. Roquentin diz: “decididamente não se origina dos
acontecimentos. É antes a maneira pela qual os instantes se encadeiam.” 104
De toda conseqüência que Roquentin tira da noção de aventura, é bom frisar que isso se configurará o início da angústia perante a visão de sua vida em geral. Por a aventura ser relacionada ao passado, e acontecido no plano da contingência, a perda do passado nutre ainda mais esse presente ameaçador, que dele não há salvação. Levamo-nos a pensar que esse problema estaria resumido só na questão
102Ibidem, p. 67.
103Moutinho, Luiz Damon Sartre – Psicologia e Fenomenologia, p. 51. 104Sartre, Jean-Paul A náusea, p. 90.
da causalidade, da não existência no nexo entre coisas ou acontecimento, mas não é o conceito de causalidade que se tratará para Roquentin,105 nessa perda do passado se constatará a ausência de tempo, pois não considerando conceitos passados, mas sim as coisas em sua existência e tudo então podendo acontecer no presente cotidiano, afetando nisso a ordem das coisas, do mundo humano.