A decisão de Roquentin de escrever um diário foi a forma encontrada para registrar a oscilação de suas concepções sobre as coisas cotidianas, onde ele se ocupa em observar as mais simples e corriqueiras coisas ou objetos que passam tão desapercebidos por serem tão dados, tão naturais a seu significado habitual.
No simples cotidiano ele via os objetos comuns com seus significados, cada objeto com seu propósito. Mas agora Roquentin sente uma mudança ao perceber as coisas. As coisas agora lhe aparecem como que imersas em um grande campo de possibilidades em suas aparições, como se suas aparições tendessem a um movimento de diferentes perspectivas a serem notadas, sendo vistas de várias formas. A cada momento ele tem a sensação de emanar dos objetos essa aparição inesperada desse fluxo de possibilidade, tornando até fútil dizer algo a respeito sobre eles:
Por exemplo, eis aqui uma caixa de papelão que contém meu frasco de tinta. Seria
preciso tentar dizer como a via antes e como atualmente eu a 55 Pois bem, é um
paralelepípedo retangular, destaca-se sobre – é tolo, não há o que dizer a respeito.56
Nota-se que esse interesse de Roquentin em escrever esse diário já é visto como sinal de uma inquietação ou aflição anterior, uma suspeita que o incomodava e que, pelo diário, notamos que ele estaria registrando. Ele registra suas percepções dos objetos, das coisas, e, por o diário ser algo tão íntimo, Roquentin tem toda a liberdade de ir ao extremo de seu pensamento e, sem censura alguma, expressar todo o seu sentimento.
Primeiramente, nessa inquietação destilada sobre as coisas em sua volta, sobre todas essas mudanças, ele tenta confortar-se considerando a possibilidade de todas essas mudanças dizerem respeito aos objetos57, não a ele.
O curioso é que absolutamente não me sinto inclinado a me considerar louco e vejo até, com toda evidência, que não estou louco: todas essas mudanças dizem respeito aos
objetos. Pelo menos é disso que gostaria de ter certeza.58
Lembramos que quando Roquentin tem a sensação de que as coisas já não eram como ele as tinha em conceitos últimos inseridos no mundo humano fazendo parte estruturante de toda ordem, ele, primeiramente, confrontando-se com os objetos, percebe que ele próprio não pode controlá-los, que eles têm vida e autonomias próprias.
Tomando por referências as duas “meditações”, a de Sartre e a de Descartes, Moutinho falará que o desenrolar do romance difere de Descartes59. Sabemos que, de início, pela máxima de Descartes, ele se utilizará dessa verdade inconstentável (a consciência) dando início a sua explicação e provando o mundo existente, das
55Espaço deixado em braço propositalmente pelo o autor no romance A náusea.
56Ibidem, p.13.
57Nota-se que aqui já há a suspeita de não haver um aprisionamento da consciência sobre o objeto, há uma dúvida se são eles mesmo que estão mudando. Isso parece ingênuo da parte da personagem, mas é de grande utilidade para o início de uma compreensão sobre os objetos não serem nem elementos preso a um conceito, nem elementos presos, ou dependentes, da consciência.
58Sartre, Jean-Paul. A náusea, p.14.
59Gerd Bornheim em Sartre. Metafísica e existencialismo compara os dois filósofos (Sartre e Descartes), onde ele afirma que traçando pelo mesmo caminho das Meditações de Descartes, o herói de A náusea incorpora o método da dúvida para a constatação do cogito.
coisas. Mas ao contrário de Descartes “o corpo aqui é uma verdade insuprimível”60.
Roquentin desde o início não se vê indiferente ao seu corpo, mas sim como sendo seu próprio corpo, como ele descreverá em seu diário:
Meu canivete está sobre a mesa. Abro-o. Porque não? De toda maneira seria uma mudança. Coloco minha mão esquerda sobre o bloco e me desfiro uma boa canivetada
na palma. (...) Sangra. E afinal? O que foi que mudou?61
No começo de todas as experiências que Roquentin tinha com as coisas, começou por intermédios de suas sensações perante elas, o corpo esteve sempre no processo dessa série de fatos, sendo até no início uma relação tátil e, posteriormente, tendo um contato visível também para sentir a sensação de náusea. No romance, a náusea que Roquentin sente não é tratada como algo enganoso para suas conclusões, digo, seus sentidos não entram em dúvida, ele não tem de suspeitar de suas sensações e dar-lhes sentidos duvidosos ou errados. Foi pelos sentidos que Roquentin “apreendeu” os objetos, contrariamente a Descartes. Aqui, os sentidos não possuem um caráter negativo, pois foi através de seus sentidos que ele começou a se relacionar com os objetos e, nessa relação, descobrindo posteriormente o sentido de sua existência.
Roquentin considera suas sensações em seu percurso, não as descarta e são sempre bem enfatizadas em seu diário, tanto que ele não medirá palavras para expressar suas sensações. Os objetos se metamorfoseiam enquanto Roquentin desabafa suas sensações no diário, tanto que notamos algumas aparências bizarras em seus registros.
Ainda sobre a relação entre Descartes e A náusea, Moutinho acrescenta que a não consideração dos sentidos é, em Descartes, algo decidido voluntariamente no seu processo de investigação, enquanto que, para Roquentin, suas experiências realizam-se de forma que ele não tem escolha, é algo involuntário, ele é colhido pela sensação (náusea) e não há recusa ao que seus sentidos testemunham. E nessa comparação com Descartes, no que diz respeito ao voluntário e involuntário, Sartre, no início do romance, dá um tom anticartesiano quando Roquentin refere-se às primeiras experiências. Roquentin anota no diário:
60Moutinho, Luiz Damon. Sartre – Psicologia e fenomenologia, p.56.
Já não posso duvidar de que alguma coisa me aconteceu. Isso veio como uma doença, não como uma certeza comum, não como uma evidência. Instalou-se pouco a pouco,
sorrateiramente62
Roquentin aos poucos é tomado pela sensação de ser ele, parte de seu corpo, também coisa no mundo, como os objetos em sua volta, seu corpo também está inserido como uma coisa material, na existência. Aqui Roquentin se vê como matéria que se contrapõe a ele mesmo, digo melhor, a sua consciência. Ele sente a metamorfose penetrar em seu corpo e sente ser a própria coisa mutável como aquilo à sua volta.
Isso é um passo, na constatação da personagem Roquentin, que as coisas em sua volta são de materialidade existente, onde há mutações e desprendimento da ordem. A náusea de Roquentin provém de sua indeterminação. Nada do que Roquentin é pode ser alheio a existência. Quando Roquentin tenta projetar sua mão objetivamente descrevendo-a como algo fora de si, percebê-lo-á que isso só reforça a constatação de que aquela mão é “minha mão”, e a cada gesto que realiza só faz anular a idéia de projeção objetiva que ele desejaria conferir. A sensação da mão existente é como o próprio Roquentin, de se sentir existente.
No desvelamento da existência Roquentin torna-se ele mesmo. Já não há como, nesse ponto, viver em outro, de existir ou se ver por meio de outro. Tudo em seu corpo faz parte de Roquentin. Roquentin não pode se livrar de si mesmo e não há ninguém para fazer isso por ele.
Minha mão se vira, estende-se de barriga para baixo, me oferece agora suas costas.
Costas prateadas, um pouco brilhantes – dir-se-ia um peixe, se não houvesse os pêlos
ruivos no início das falanges. Sinto minha mão. Esses dois animais que se agitam na
ponta de meus braços sou eu.63
A existência para Roquentin vai se desvelando como contingência conjunta ao seu corpo:
62Ibidem, p.17
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, dormi. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos as lados, pelos
olhos, pelo nariz, pela boca.64