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7 Sürücüler

O que está oculto no Governo Lula? Ou, qual o mistério52 que existe no Governo Lula na relação com o MST, que tem trazido acomodação ao Movimento? O mistério está na existência de uma relação antagônica entre governante e governados e, portanto, tem a mesma natureza da relação histórica entre trabalhadores e capitalistas. Em síntese, é a existência da luta de classes que está oculta nessa relação política e educativa, pois o Governo Lula era visto pelos trabalhadores como o seu verdadeiro representante, mas a sua política governamental priorizou o grande capital agrário.

Desde o início, o Governo Lula ocultou que não pretendia atender os sonhos dos trabalhadores do campo de uma política de reforma agrária, de realizar o projeto de transformação da estrutura agrária do Brasil, e ainda, que as commodities agrícolas53 eram prioritárias.

[...] o MST sabia que o Lula não ia fazer a revolução socialista no Brasil, que não cabia a ele fazer isso, cabia ao povo, entendendo que o Estado é burguês, mas a nossa expectativa era que ele iniciasse um processo pelo menos de um governo progressista, popular, um governo voltado para os anseios populares (InMST2).

O MST não fez uma leitura correta do Governo Lula, pois o considerava como um aliado, que iria realizar a reforma agrária. O Movimento levou algum tempo para perceber isto e, mesmo assim, não conseguiu enfrentar nem estabelecer uma relação horizontalizada com o Governo Lula, durante os oito anos. O governo alimentou a esperança de realização da reforma agrária e, ao mesmo tempo, eliminava qualquer possibilidade de enfrentamento direto dos trabalhadores. Dessa forma, conseguiu esfriar a militância e tirar a pressão popular sobre si.

O caráter misterioso que o esse governo adquiriu é decorrente, em parte, da confiança quase cega, que os muitos trabalhadores depositaram na chegada de Lula, à Presidência do Brasil. Com Lula na presidência, os trabalhadores se sentiram empoderados diante de seu representante maior, agora na chefia do Estado.

52

"Coisa ou elemento oculto, obscuro [...] segredo, enigma", (FERREIRA, 1986, p. 1142).

53 Commodities

para Cardozo (2010) pode ser definida: [...] "mercadoria padronizada para compra e venda, [...] São produtos, em estado bruto, de importância comercial para exportação, geralmente, agropecuários ou de extração mineral ou vegetal, como café, algodão, minério de ferro etc., produzido em grande quantidade e de preço controlado por bolsas internacionais. Trata-se de matéria-prima produzida em grande quantidade".

Para melhor aprofundamento da natureza mítica do Governo Lula, apresentamos o componente de análise mitificação de Lula, como um dos resultados da pesquisa de campo. Consideramos que tal mitificação é um dos mecanismos de desmobilização do MST pelo governo, que está explicitada, ainda, no segundo capítulo. Essa discussão representa um conceito base para a compreensão do nosso objeto de estudo, por isso, decidimos antecipá-la. O processo de desmobilização está composto de dois aspectos: criação do mito Lula e a dificuldade do MST para enfrentar o mito Lula.

O mito Lula foi construído ao longo das quatro disputas eleitorais para Presidência da República, das quais Lula participou, porém, somente foi consolidado com a sua chegada ao governo em 2003. A mitificação do político Lula dificultou o fazer política na relação com o Lula e, consequentemente, com o governo.

[Lula] É uma construção mítica, por isso mesmo resistente, difícil de ser desmontada. Ele não tinha nenhuma ligação com o Nordeste [...] é mais difícil porque com o mito você não faz política. Para fazer política é preciso desconstruir o mito. [...] Ninguém ataca diretamente o mito [...] é uma aura, é histórica, foi construída, alguns percursos são reais, mas a força mítica é muito forte. [...] é difícil combater o mito [...] de modo que a coisa do Lula vai permanecer (ExMST2).

Lula é uma criação mítica construída no âmbito da esquerda, nos últimos 20 anos, e foi eleito como Presidente da República com forte apoio popular. Tal construção mítica se fez, então, a partir do personalismo54, do populismo55, da popularidade e, também, em consequência da forte crença popular sobre a pessoa de Lula, que influenciou a política brasileira: "O lulismo é uma regressão política, a vanguarda do atraso e o atraso da vanguarda" (OLIVEIRA, 2010b, p. 376). O mito funcionou também como uma arma do governo para desmobilizar as lutas sociais no Brasil.

Aí entra a popularidade, todo esse carisma e a forma de receber, a forma de acolher inicialmente. [...] Ele conseguiu, de uma forma ou de outra, esfriar um pouco as massas e realmente essa popularidade interferiu muito na nossa luta porque a massa foi muito nessa mesmo (InMST6).

Mas essa popularidade diz respeito também às políticas de inclusão que o Governo Lula ampliou em relação ao governo anterior, FHC, e isso teve impacto na população, em estado de pobreza, que é muito acentuada, no Brasil.

54

Fenômeno caracterizado pela concentração da unidade da força eleitoral e do prestígio de um partido, na pessoa de um chefe carismático. (FERREIRA, 1986, p. 1317)

55

Ação política que toma como referência e fonte de legitimidade o cidadão comum, cujos interesses pretende representar. (FERREIRA, 1999)

Os outros [governos] viviam negando essa migalha e você pega um plano real estabilizado, uma multidão de miseráveis, então, uma política de compensação fomenta uma popularidade, sem dúvida [...] Além dessa política assistencialista [...] tem uma questão de carisma também, enquanto ser humano, e uma das coisas que, também, tornou essa popularidade foi a relação muito próxima aos nordestinos, que não, só, no Nordeste (InMST6).

Diante do mito Lula, o MST não desenvolveu uma política de enfrentamento ao governo, ao longo de seus dois mandatos, o que provocou o processo de acomodação. O Movimento aceitou o discurso de Lula que, sempre, adiava a possibilidade de conquistas estruturais, em especial, a reforma agrária, que não foi implementada no seu governo. Isso foi amortecendo a luta e impedindo diversas conquistas, conforme depoimentos, a seguir: " 'Não! Calma! esse governo é bom, vamos aguardar que esse governo vai vir, daqui a dois anos ele vai ajeitar.' Eu acho que foi isso que nós caímos, nesse conto de fadas" (InMST4). O MST deparou-se com o mito Lula e não conseguiu romper esta cerca; foi impotente diante do mito. "O governo Lula não foi só um governo, criou de fato um novo referencial; o lulismo" (InMST8).

Na visão de muitos trabalhadores, o Lula é um trabalhador que chegou ao topo máximo, que qualquer trabalhador poderia chegar: Presidente da República. Isso tem um peso muito grande nas relações entre os trabalhadores e o homem; o político e o governante Lula. No Brasil, havia e, ainda, há uma forte identidade entre Lula e os trabalhadores, mas esse tipo de relação também trouxe desmobilização das massas.

[...] eu me lembro de situações em que nós chegávamos no assentamento: 'vamos ocupar o INCRA', e os trabalhadores diziam: 'vamos ocupar o INCRA56 que é comandado pelo Lula?' Isso, de certa forma diminuiu a quantidade de trabalhadores nas mobilizações. E as pessoas iam, mas mesmo os que iam, não iam muito com aquele sentido de enfrentamento [...] existia esse aspecto subjetivo da massa, que é exatamente essa identificação com Lula e tal, até porque a gente fez campanha para ele ganhar. Fomos fazer campanha para o homem. (InMST5).

O caráter mítico de Lula conseguiu encobrir as verdadeiras propriedades de sua política de governo para os trabalhadores, sobretudo, o caráter compensatório. Desse modo, os trabalhadores não fizeram o necessário enfrentamento e não conseguiram exigir políticas estruturais, por exemplo, a reforma agrária, que era uma bandeira, historicamente, defendida pelo Partido dos Trabalhadores.

56

Então, o governo do PT, não é um governo popular, é um governo populista, que tem uma estratégia de marketing muito boa e ganhou a aprovação popular, mas ele não é um governo que na sua prática atenda de fato aos interesses da classe trabalhadora [...] e tem uma estratégia de marketing que virou uma figura, uma personalidade do meio popular e, de certa forma, ficou imunizado (InMST2).

O Lula torna-se um fetiche para os trabalhadores, pois com seu poder mítico, seu encanto popular e sua grande popularidade afetou os trabalhadores, por meio das políticas do governo, que ocultaram a relação de dominação do governante sobre os governados. Tal fetichismo em relação a Lula ocorre porque os trabalhadores se colocam em uma posição de subalternidade (dependência) em relação a ele. Além disso, os trabalhadores assumem posições de subalternidade, pois consideram o Lula como uma espécie de salvador para seus históricos problemas.

O mito Lula contribuiu para encobrir as verdadeiras relações estabelecidas entre o governo e o MST e, também, ocultou as relações existentes entre o governo e o grande capital agrário, o que será discutido no item 2.4.2 (segundo capitulo). Dessa maneira, a mitificação interferiu no processo de acomodação da luta do MST.

Diante dessa situação de aparência, supomos que havia algum tipo de exploração e/ou opressão sobre os trabalhadores pelo Governo Lula, no contexto do capitalismo. Então, como isso se caracteriza? Isso é o desafio para as discussões que serão realizadas ao longo desse texto.

O mistério da política do Governo Lula reside, no seguinte fato: ao mesmo tempo em que transmite a ideia de governo popular, tem um corte de classe muito bem definido, pois optou em investir, fortemente, em infraestrutura voltada para as commodities agrícolas, em detrimento da implementação de uma política estruturante de reforma agrária. Salientamos que o governo implantou uma política estruturante para as commodities agrícolas e, em paralelo, uma política de inclusão para a agricultura familiar. Houve, portanto, uma inversão do projeto defendido historicamente pelo Partido dos Trabalhadores, conforme já citamos. Podemos observar que o Estado e o Governo Lula foram controlados pelo capital no campo, que tem poder de influência sobre suas esferas institucionais.

O Governo Lula foi eleito com forte apoio popular e, também, com o apoio de segmentos do grande capital financeiro e agrário, porém sempre defendeu publicamente, nas esferas nacional e internacional, uma imagem popular para seu governo. Por isso,

ocultou que a Força do Capital dominava suas políticas. O fetichismo da política desse governo, também, escondeu o processo de institucionalização do MST, que foi avançando, na medida em que determinadas de políticas são acordadas com o governo, por exemplo, o processo de burocratização da militância, conforme abordaremos ao longo do presente texto.

O MST como movimento social tem consciência das formas de desmobilização sobre si, porém muitos trabalhadores de sua base, acampados e assentados da reforma agrária, não conseguiam, ao longo desse governo, se apropriar das contradições existentes nesse tipo de relação. A não apropriação de tais contradições é decorrente de inúmeros fatores, dentre os quais se destacam: a confiança total no mito Lula, considerado como fiel representante dos trabalhadores; a não realização de um debate mais contundente e orgânico na base do Movimento, nesse período. O governo, que detinha políticas e possuía carisma e popularidade elevados, conseguiu que o MST aceitasse suas políticas e, assim, eliminou qualquer possibilidade de enfrentamento.

Voltaremos a enfocar esse fetiche, no tópico deste trabalho, que está voltado para o componente Governo Lula Dominado pelo Capital. Nesse tópico, pretendemos explicitar porque o governo não implementou um projeto popular, que possibilitasse transformações estruturais destinadas aos trabalhadores, pois optou pelo grande capital agrário no campo, que gerou divisas para o país e teve impacto positivo sobre o superávit primário. A Força do Capital conseguiu que o Governo Lula adotasse uma natureza diferente daquela em que o PT defendia, no início de sua história de partido de esquerda. O governo acatou um projeto neoliberal, o que interferiu na desmobilização do MST, por conseguinte, em decorrência da Força do Capital.

2.2.2. Transformação do processo de institucionalização e burocratização em

Benzer Belgeler