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O intuito desta seção é oferecer um mapa sucinto do campo da ES no Brasil. Trata-se agora de uma aproximação descritiva, que nada tem a ver com o caráter analítico da seção anterior. A

idéia é apresentar resumidamente o processo de institucionalização por que passa a ES. Ela representa um campo teórico-prático em estruturação no Brasil, com certo número de agentes que se especializam e ganham centralidade na expansão do movimento, é disto que se trata.

Numa primeira aproximação, pode-se relacionar a ES a um conjunto de iniciativas que não pertencem nem à esfera privada de produção capitalista e nem à esfera pública de ação estatal. O nome “terceiro setor” é o equivalente genérico para todas essas iniciativas: associações, fundações, ONG, cooperativas, mutualidades, etc. (PIMENTA, SARAIVA e CORRÊA, 2006). A ES compõe este conjunto, mas tem especificidades que a aproxima do fenômeno europeu da Economia Social – termo que designa um movimento, intenso a partir da década de 1980, caracterizado pela criação de organizações produtivas tais como cooperativas, mutualidades e associações inspiradas nos princípios cooperativistas de Rochdale – adesão livre, democracia interna, distribuição dos excedentes, etc. (GUTIERREZ, 1998; SINGER, 2002a; WAUTIER, 2003).

No Brasil, o termo economia social tende a ficar reservado à academia para designar, principalmente, as experiências da Europa e Canadá (GUTIERREZ, 1998, 2004; LAVILLE e FRANÇA FILHO, 2004; WAUTIER, 2003; ANDION e SERVA, 2006). Ainda assim, há certa polissemia. Marcos Arruda (2003, p. 232) propõe o uso do termo “socioeconomia solidária” sob o argumento de que “... equivale à economia solidária, tendo como única diferença a ênfase no sentido social que deve ter a verdadeira economia”. Lisboa (2005, p. 113) é também adepto do termo “socioeconomia solidária” para designar o mesmo fenômeno. Laville e França Filho (2004) emprestam de Karl Polanyi a designação “economia plural” para nomear todo o conjunto de práticas e organizações da ES.

Andion e Serva (2006) entendem que começa a se definir “um campo científico da economia social”, no Brasil. Composto de quatro grupos mais ou menos homogêneos caracterizados por distintos objetos de pesquisa: estudos de cooperativismo, estudos do terceiro setor, estudo interdisciplinares sobre organizações da sociedade civil e a corrente neo-marxista da economia solidária. Nesta última encontra-se a ES, uma área de pesquisa dedicada a organizações com características autogestionárias:

Enquanto modo de produção específico, a economia solidária aparece para essa corrente como um conceito definidor no embate entre heteronomia e

autonomia na esfera do trabalho. Neste sentido, a economia solidária seria composta principalmente por organizações nas quais é praticada a autogestão. Nessa elaboração conceitual, a autogestão representa então uma categoria central, delimitando os principais tipos de empreendimentos econômicos que materializariam a economia solidária, dentre os quais as empresas privadas assumidas por seus trabalhadores, após processos de falência, e algumas cooperativas populares. (ANDION e SERVA, 2006, p. 10).

A sedimentação do campo científico tem correlato num processo de institucionalização da ES, que ganha crescente incentivo de políticas públicas (CUNHA, 2002; GUTIERREZ, 2004; BILTELMAN, 2008). Diversas organizações fomentam a expansão da ES com recursos monetários, técnicos, educacionais e de gestão, mas é, sobretudo, nas instâncias de governo que se encontra contribuição substancial para esta expansão da ES.

No final dos anos 1990, os governos pertencentes ao Partido dos Trabalhadores [PT] encetaram iniciativas de financiamento público para os empreendimentos da ES como forma de combate ao desemprego. No Rio Grande do Sul, o governo de Olívio Dutra foi pioneiro, seguido da Prefeitura Municipal de Santo André, Osasco e São Paulo. Em todos os casos tratava-se de políticas relativamente amplas que incluíam desde o financiamento público para empreendimentos da ES, capacitação técnica, de gestão e formação em cooperativismo, até a “... criação e alteração de leis, criação de secretarias responsáveis por seu desenvolvimento, e equipamentos públicos de apoio” (BITELMAN, 2008, p. 58). O caráter inovador dessas políticas foi sair do lugar-comum da empregabilidade, e buscar formas alternativas de gerar trabalho e renda; dirigidas aos desempregados, as políticas buscam elevar sua escolaridade e capacitação, considerando que não haverá empregos para todos. Daí o objetivo ser a busca de uma solução por meio de organizações coletivas autogestionárias para reunir pessoas, que, sozinhas, não conseguiriam recolocação no mercado como empregados (BITELMAN, 2008).

QUADRO 1.1 – Definições do Atlas da Economia Solidária (BRASIL, 2005): Conceito e características gerais de Economia Solidária (ES):

Compreende o conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo, poupança e crédito – organizadas e realizadas solidariamente por trabalhadores e trabalhadoras sob a forma coletiva e autogestionária.

Nessas atividades e formas de organização destacam-se quatro características:

Cooperação: existência de interesses e objetivos comuns, união dos esforços e capacidades, pro- priedade coletiva parcial ou total de bens, partilha dos resultados e responsabilidade solidária diante das dificuldades.

Autogestão: exercício de práticas participativas de autogestão nos processos de trabalho, nas definições estratégicas e cotidianas dos empreendimentos, na direção e coordenação das ações nos seus diversos graus e interesses.

Atividade Econômica: agregação de esforços, recursos e conhecimentos para viabilizar as iniciativas coletivas de produção, prestação de serviços, beneficiamento, crédito, comercialização e consumo. Solidariedade: preocupação permanente com a justa distribuição dos resultados e a melhoria das condições de vida de participantes. Comprometimento com o meio ambiente saudável e com a comunidade, com movimentos emancipatórios e com o bem estar de trabalhadoras e consumidoras.

Os Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) compreendem as organizações:

Coletivas: organizações supra-familiares, singulares e complexas, como: associações, cooperativas, empresas autogestionárias, grupos de produção, clubes de trocas, redes e centrais, etc.;

Cujos participantes ou sócios(as) são trabalhadores(as): dos meios urbano e rural que exercem coletivamente a gestão das atividades, assim como a alocação dos resultados;

Permanentes: incluindo os empreendimentos que estão em funcionamento e aqueles que estão em processo de implantação, com o grupo de participantes constituído e as atividades econômicas definidas;

Com diversos graus de formalização, prevalecendo a existência real sobre o registro legal;

Que realizam atividades econômicas: de produção de bens, de prestação de serviços, de fundos de crédito (cooperativas de crédito e os fundos rotativos populares), de comercialização (compra, venda e troca de insumos, produtos e serviços) e de consumo solidário.

As Entidades de Apoio Assessoria e Fomento (EAAF) compreendem:

Organizações que desenvolvem ações nas várias modalidades de apoio direto junto aos empreendimentos econômicos solidários, tais como: capacitação, assessoria, incubação, assistência técnica e organizativa e acompanhamento.

Para articular as variadas iniciativas locais, em 2003, o governo federal do PT criou a Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), no âmbito do Ministério do Trabalho e Emprego (TEM). A SENAES tem papel central na definição do campo da ES, irrigando o sistema com verbas públicas ao selecionar projetos para financiamento. O sistema de gestão pública da ES construído pela SENAES buscou espelhar o conjunto de agentes representativos na expansão do movimento, organiza-se a partir do Conselho Nacional de

Economia Solidária cuja composição inclui representantes do poder público, das entidades e associações de apoio e organizadoras, e de representantes indicados pelos próprios empreendimentos(Anexo A).

Com o objetivo de mapear as iniciativas e impulsionar a institucionalização da ES, a SENAES publicou em 2005 e atualizou em 2007, o Atlas da Economia Solidária no Brasil (BRASIL, 2005; 2007). Nele encontra-se um conjunto de definições que fazem o recorte da ES como fenômeno social. Além disso, organiza-se o Sistema de Informações da Economia Solidária (SIES) com o objetivo de manter atualizados os registros de iniciativas e empreendimentos relacionados à ES. No Quadro 1.1 estão as definições do Atlas (BRASIL, 2005), naquilo que têm de essencial para demarcar as fronteiras conceituais do movimento da ES.

O campo da ES é definido pela SENAES a partir de uma articulação do Estado, dos Empreendimentos de Economia Solidária (EES) e das Entidades de Apoio, Assessoria e Fomento (EAAF). A ES é apresentada como um conjunto de organizações atuantes, portanto, em três níveis: (1) organizações de fomento às iniciativas populares, cujo papel fundamental estaria na implementação de políticas públicas (Estado); (2) organizações da sociedade civil que atuam na capacitação técnica para apoiar a expansão dos empreendimentos com características solidárias, cooperativas e autogestionárias (EAAF); (3) os próprios empreendimentos (EES). Tem-se uma estrutura institucional com o objetivo de promover iniciativas que combinem as características definidas para os EES: cooperação, autogestão, atividade econômica e solidariedade.

No Esquema 1.1 reproduz-se uma ilustração em que as organizações aparecem ligadas numa rede, apresentado na primeira edição do Atlas (BRASIL, 2005) e reelaborado por Gaiger (2008). A ilustração apresenta organizações nos três níveis mencionados. Vale destacar o papel de apoio e fomento de duas entidades totalmente dedicadas à conversão de empresas capitalistas em dificuldade ou em processo de falência, assumidas por trabalhadores: a Associação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Autogestão e Participação Acionária (Anteag) e a União e Solidariedade das Cooperativas do Estado de São Paulo (Unisol).

A Anteag é a primeira entidade a se dedicar integralmente à conversão autogestionária de empresas capitalistas, as experiências brasileiras de recuperação de empresas por trabalhadores têm na entidade uma referência, conforme apontou Singer (2002b). Desde os

anos 90, esta associação desenvolve trabalho de assessoria técnica e de gestão a empreendimentos autogestionários. Sua criação se deve à experiência de um grupo de trabalho que pertencia à Secretaria de Formação do Sindicato dos Químicos de São Paulo, a idéia de fazer uma associação nasceu na recuperação da empresa de calçados Makerly em 1991, quando o ramo calçadista sofria com a abertura de mercado. A experiência não foi exitosa, mas deu ensejo a outras, na esteira das dificuldades por que passava a indústria nacional (Anteag, s/d). Assim, foi fundada a Anteag em 1994, durante a realização do I Encontro Nacional de Empresas de Autogestão, e desde então, a entidade trabalha no apoio a iniciativas de autogestão por parte de trabalhadores, seja pela disseminação de práticas seja por atividades educativas. Dedica-se ao aprendizado da autogestão e sua divulgação, tendo produzido uma serie de publicações nos últimos anos (ANTEAG, s/d; 1998; 2004; 2005).

Em 1999, surgiu a Unisol, uma associação ligada ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC com o mesmo objetivo da Anteag. Desde 1996, o sindicato já se mobilizava no apoio a iniciativas da ES, em especial, passou a aceitar a sindicalização de trabalhadores cooperados, o que não era regra até então. Em 1998, foi assinado um convênio com entidades italianas, que proporcionou a troca de experiências, além de visitas de delegações brasileiras à Itália e italianas ao Brasil. Em 1996, a crise da empresa Conforja resultou na implicação direta do sindicato, e de um número crescente de demandas semelhantes resultou a criação da Unisol. A entidade possui uma incubadora de cooperativas populares apoiada pela Prefeitura de Santo André e ligada à Fundação Santo André (SINGER, 2002b).

Dentre os aspectos relevantes que o mapa do campo da ES (Esquema 1.1) não permite visualizar estão os movimentos populares atuantes em décadas anteriores, que têm influência importante para o desenvolvimento da ES. As principais referências são: o movimento sindical, em especial a Central Única dos Trabalhadores (CUT), os movimentos de base ligados à Igreja Católica, como as Comunidades Eclesiais de Base (CEB), e, ainda, as ações políticas organizadas pelo Movimento Contra a Carestia, movimento estudantil, além da emergência de um ativismo de esquerda na forma de novos partidos políticos (GUTIERREZ, 2004).

ESQUEMA 1.1 – O campo da Economia Solidária no Brasil

Benzer Belgeler