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Como foi suficientemente discutido nas seções anteriores, a ES é um movimento cujo trabalho concreto está no âmbito do fomento e criação de organizações. Se os adjetivos são eliminados (alternativa, cooperativa, solidária, autogestionária, etc.) fica fácil perceber que a ação do movimento se faz no âmbito das organizações produtivas, com o objetivo de criar alternativas capazes de substituir as empresas convencionais em seu papel de provedoras de trabalho e renda. Uma vez que o enfoque desta pesquisa de tese é precisamente o problema da organização dos EES, é preciso situá-la em suas diversas manifestações para apontar as especificidades do formato organizacional que é objeto da pesquisa: as empresas assumidas por trabalhadores (EAT). O objetivo desta seção é oferecer uma descrição desse tipo de organização, que será analisada em profundidade nos próximos capítulos.

A ES se oferece numa miríade de tipos e formas de organização, e, como veremos adiante, pensar já em formas de organização pode resultar, no caso da ES, numa apreensão equivocada dos fenômenos organizativos emergentes. Portanto, desde já, vale o alerta de que é preciso ser cauteloso para que no afã classificatório não se deforme a realidade do empreendimento em nome de uma suposta forma.

O Atlas da ES (BRASIL, 2007) encontra seis tipos de “formas de organização”, numa classificação com base jurídica: grupo informal, associação, cooperativa, sociedade mercantil por cotas de responsabilidade limitada, sociedade mercantil em nome coletivo, sociedade mercantil de capital e indústria, outra. Há, entretanto, diferentes configurações e formatos que podem ser apreendidos quando se adiciona outras formas de classificação.

O problema de identificar os tipos de organização que compõem o movimento da ES foi enfrentado por Antonio C. M. da Cruz (2006), numa ampla pesquisa de campo que objetivou mapear os diferentes EES, propondo uma taxonomia organizacional do movimento. Participaram da pesquisa várias entidades de fomento da ES, que auxiliaram o mapeamento de várias iniciativas em seis cidades do Rio Grande do Sul. A escolha dos critérios foi acompanhada pela ANTEAG, pela ITCP-PUC/RS, e por entidades do governo do Rio Grande

do Sul. Deste esforço resultou uma proposta de tipologia, em que foram identificados treze tipos diferentes de EES. O Quadro 1.2 relaciona os tipos de EES propostos.

QUADRO 1.2 - Tipologia das iniciativas de economia solidária (esboço propositivo) Tipo Caracterização

(1) Associação de produtores autônomos

entre si.

Reunião constituída ou não legalmente, de produtores autônomos entre si. Os associados são donos de meios próprios de produção; reúnem-se com o fim de comercializar o produto e/ou potencializar outras ações econômicas.

(2) Associação para produção ou trabalho

Reunião constituída ou não legalmente, de produtores ou trabalhadores que compartilham entre si a propriedade dos meios de produção e patrimônio do empreendimento. Em geral, são grupos que estão em vias de se tornar cooperativas, ou preferiram não adotar forma legal.

(3) Associação de crédito

Fundo mútuo destinado ao financiamento de insumos, bens de produção, capital de giro ou consumo particular dos associados. Não tem legislação específica, regulando-se pelo direito civil como associação privada. (4) Associação para

consumo e habitação

Reunião constituída ou não legalmente, que objetiva reduzir custos de aquisição de bens ou serviços de qualquer natureza. Tais como associações de compras coletivas ou condomínios para a construção associada de casas próprias.

(5) Cooperativas de produtores autônomos

entre si

Reunião de produtores autônomos entre si, filiados a uma organização cooperativa, na condição de proprietários privados dos meios de produção, compartilhando o patrimônio e os ganhos da cooperativa. (6) Cooperativas de

produção ou trabalho

Reunião de produtores ou trabalhadores associados que compartilham a propriedade dos meios de produção e do patrimônio da cooperativa. (7) Cooperativa de

prestação de serviços de agentes autônomos

Formadas por profissionais de mesma capacitação (médicos, dentistas, etc.) que prestam serviços de forma autônoma entre si, a cooperativa permite organizar a relação com o mercado através de convênios, consórcios e outras formas de comercialização.

(8) Cooperativas de crédito

Fundos mútuos destinados ao financiamento de insumos, de bens de produção, de capital de giro ou de consumo particular dos associados. São regidas por legislação específica.

(9) Cooperativas de consumo e de habitação

(convencionais)

Reunião de consumidores que objetiva reduzir custos de aquisição de bens ou serviços de qualquer natureza. Na classificação, optamos por incluir aí as cooperativas habitacionais que contratam terceiros para a construção de casas ou edifícios (que são regidas por legislação específica)

(10) Cooperativas de habitação por mutirão ou

ajuda mútua

Um conjunto de associados se reúne para dividir os custos de produção e o trabalho necessário à construção de suas próprias moradias.

(11) ONGs Organizações não-governamentais, sem fins lucrativos e com objetivo específico; eventualmente têm papel econômico na viabilização de iniciativas associativas.

(12) Empresas autogeridas por trabalhadores ou empresas recuperadas

Empresas em regime falimentar, cuja massa falida é arrendada por uma associação ou cooperativas de funcionários junto ao síndico legal, e cujos rendimentos são em parte destinados a saldar o passivo da antiga empresa.

(13) Clubes de trocas Associações de produtores autônomos e independentes que estabelecem entre si relações extra-mercado, estabelecendo regras específicas de troca (compensações e moedas alternativas reguladas pelo próprio grupo).

Fonte: reproduzido com adaptações de Cruz (2006, p.60-1)

Dentre os tipos apresentados designa-se “empresas autogeridas por trabalhadores ou empresas recuperadas”, aquelas que são nosso objeto de pesquisa. A definição dessas organizações se faz, primeiramente, em função da sua origem, são empresas convencionais que entraram em processo de crise pré-falimentar ou mesmo tiveram falência decretada, e que acabam sendo assumidas por ex-empregados. Estes trabalhadores ganham assim a nova condição de sócios do empreendimento. Nem sempre este processo é pacífico, há casos de empresas assumidas por negociação com os ex-proprietários, e mesmo aquelas em que a assunção por parte dos trabalhadores tenha sido incentivada por eles. Há outros casos em que foi necessário lutar na justiça ou ativar a mobilização sindical para assumir a empresa.

As EAT tendem a se formar, de início, na base legal das cooperativas de produção, que passam a atuar no mesmo mercado da antiga empresa. A evolução dessa estrutura é variável e implica uma série de problemas que serão discutidos nos próximos capítulos. De maneira geral, as EAT convivem com equipamento herdado e tem dificuldades em implantar a autogestão. Este problema da transição será discutido em detalhe ao longo da tese.

Importante observar, do ponto de vista da análise organizacional, a trajetória por que passam os empreendimentos, desde a crise da empresa, passando pela decisão de assunção por parte

dos trabalhadores, até a estabilização do funcionamento da ‘nova’ empresa. O desenho desse percurso é elaborado nas pesquisas de Cruz (2006) e Faria (2005), com fundamento em vários casos reais mapeados pelos autores, ocorridos principalmente nos anos 1990. A seqüência abaixo reproduz resumidamente as etapas indicadas:

1. Empresa em dificuldade: a empresa em dificuldades começa a atrasar seus compromissos; a ordem é, em geral, (1) contribuições sociais e trabalhistas; (2) fisco; (3) salários; (4) financiadores e bancos; (5) fornecedores.

2. Trabalhadores tomam iniciativas para garantir seus direitos: dependendo das condições (mercado de trabalho, sindicato e histórico de mobilização) os trabalhadores podem tomar alguma iniciativa (desde uma negociação via comissão, até greve) com o objetivo é garantir os direitos;

3. Manobras para preservar o patrimônio dos acionistas: a empresa pode iniciar “manobras” legais e contábeis para preservar o patrimônio dos acionistas: transferências de capital, descapitalização, etc.;

4. Trabalhadores se dão conta do perigo de perder o emprego: os trabalhadores percebem o perigo iminente de perda do emprego, sem receber indenizações e tendo consciência das dificuldades de encontrar outro emprego no mercado de trabalho;

5. Mobilização para “ocupação” da empresa: mobilizam-se para “ocupar” a empresa e buscam apoio junto a sindicatos e outros movimentos sociais, órgãos públicos, órgãos de imprensa;

6. Início da luta judicial: iniciam uma luta judicial pela posse do capital fixo da empresa, com auxílio externo, há intensa mobilização junto ao poder judiciário e esforço em conseguir mobilizar na comunidade (uso de mídia). Não é incomum os trabalhadores abrirem mão de direitos trabalhistas e verbas rescisórias em troca da propriedade coletiva dos meios de produção;

7. Decisão da forma jurídica da nova empresa: decisão da forma jurídica que permita a posse dos ativos (maquinário e instalações) pelos trabalhadores e obedeça a legislação

(prazos, controles, prestação de contas à justiça e aos credores, etc.). É comum a decisão em favor do arrendamento de equipamentos e instalações;

8. Muitos abandonam o projeto: ao longo desse processo, muitos trabalhadores abandonam a estratégia coletiva em função de motivações diversas: conflitos internos, desinteresse (desalento pela situação), obtenção de outro emprego, interesse específico na indenização, etc.

9. Decisão judicial favorável: obtenção de decisão judicial favorável.

10. Premência de fazer a empresa funcionar: quem permaneceu se encontra na premência de fazer a empresa funcionar: retomar contato com fornecedores e clientes, obter crédito para recomposição dos estoques e manutenção do maquinário, substituir os trabalhadores desistentes com funções imprescindíveis, re-ordenar os sistemas internos (produção, controle, distribuição, etc.); o controle e fiscalização são feitos por quase todos os envolvidos, devido a sentimentos de desconfiança ou cooperação;

11. Longo período de conflitos internos: abre-se um longo período de conflitos internos acerca das questões: quem administra o empreendimento? quem toma quais decisões? qual o nível de autonomia? que funções devem ser preservadas ou extintas? como re- adequar a empresa à sua nova característica de gestão? a que penalidades estão sujeitos aqueles que não cooperam com as decisões coletivas? Etc. O período de conflitos coincide com a empreitada de re-encontrar o espaço de mercado perdido;

12. Busca de auxílio técnico: em geral, este é o momento em que os trabalhadores buscam auxílio técnico de especialistas conhecidos ou indicados, universidades, empresas de pesquisa vinculadas ao Estado, etc.;

13. Estabilização interna da empresa: a empresa se estabiliza internamente por meio de pactos sucessivos e suficientes para permitir uma rotina produtiva, com o controle coletivo das ações administrativas;

Faria (2005) aponta que a quase totalidade das experiências de EAT, ao longo dos anos 1990, realizaram-se em empresas familiares, devido a processos de sucessão mal sucedidos e

dificuldades econômicas frente à abertura de mercado e flutuações da economia brasileira. Além disso, o papel dos sindicatos tende a ser importante como auxiliar na condução dos processos:

[...] na organização dos trabalhadores, na apresentação e discussão das possibilidades para a manutenção da empresa em funcionamento, na negociação com os ex-proprietários e com os organismos públicos e privados para a busca de financiamento. Por vezes, o sindicato torna-se também co-responsável na gestão dessas empresas sob o controle dos trabalhadores.(FARIA, 2005, p.304).

Na grande maioria dos casos, opta-se pela forma cooperativa e adota-se o termo “autogestão” como referência das alterações das relações de propriedade e práticas administrativas, com a adoção das regras internas do cooperativismo, tais que assembléias, formação de conselhos, acesso às informações, etc. Porém, indica Faria (2005, p. 305), “o reinício das atividades geralmente mantém os trabalhadores no interior dos lugares antes determinados pela divisão do trabalho”. Ainda assim, a nova situação afeta positivamente a motivação dos envolvidos, “pelo menos por certo período, e os torna mais inclinados para a realização das tarefas produtivas com maior empenho e zelo”.

Como se percebe, a realização efetiva dos “empreendimentos solidários” ou “autogestionários” suscita muitas questões no âmbito da análise organizacional. O caso das EAT se reveste de especial interesse devido ao desafio de transformar práticas herdadas da empresa de origem em práticas coletivas de trabalho. No âmbito da produção, os processos de trabalho, máquinas e equipamentos incorporam, em si mesmos, tecnologia que pode funcionar como virtual restrição à operação de base coletiva. Quanto à administração, controle e coordenação dos processos de trabalho, divisão de tarefas, especialização, etc., a demanda por reinvenção parece ser intensa, pois é preciso adotar maneiras de fazer as coisas que não conflitem com a nova gestão.

A construção de práticas alternativas no âmbito da organização e gestão é um conhecido problema teórico, para o qual o fenômeno das EAT pode contribuir de maneira substantiva. Há um déficit de propostas concretas para enfrentar questões ligadas à gestão democrática das organizações. A carência de proposições práticas é patente mesmo nos estudos organizacionais denominados “críticos”, cujas preocupações orbitam ao redor de temas tais

que emancipação, autonomia, democracia e autogestão. Esses estudos são bem sucedidos na empreitada crítica, mas lhes falta o intento prático. Nesse sentido, a experiência das EAT pode indicar caminhos:

A teoria crítica da organização... não contribuiu para uma prática organizacional alternativa generalizável. Há justificativas para esta negatividade. Um objetivo essencial do exercício crítico é alertar sobre os pressupostos implícitos dos quadros de referência existentes [...] Entretanto, Marx, numa famosa tese, faz um alerta contra a dialética meramente negativa; este alerta contra a análise sem aplicação transformadora é seu próprio epitáfio2. Este fato evidencia um segundo sentido de “crítico”, como algo decisivo em relação à produção de efeitos, daí que alguma alternativa positiva deva ser proposta. (CLEGG e HIGGINS, 1987, p. 202, grifos meus).

A dificuldade de construir alternativas concretas é conhecida e deriva da contradição que é constitutiva de toda alternativa, entendida no sentido aqui adotado. Isto se manifesta como um antagonismo entre a estrutura organizacional (alternativa) – que, teoricamente, promove a autonomia dos sujeitos – e o ambiente externo à organização – que promove a exploração e alienação desses mesmos sujeitos. O exemplo mais conhecido é justamente a cooperativa de produção, que “sob o sistema capitalista, a par de uma produção socializada, acompanha uma troca capitalista” (TRAGTENBERG, 1986, p. 27). A troca obriga a cooperativa a se alinhar às práticas de mercado, com reflexos imediatos na organização interna – ritmo de trabalho, gestão de custos, contratação e demissão de força de trabalho:

Nesse contexto, a cooperativa de produção padece de uma contradição básica: a necessidade de os operários se auto-dirigirem e desempenharem, em relação a si mesmos, o papel de empresários. Das duas uma: para sobreviver, ou a cooperativa se torna uma empresa ou ela se dissolve, se a pressão operária for maior. (TRAGTENBERG, 1986, p. 27).

O problema é conhecido, porém a teorização no âmbito da ES tende a passar ao largo dessa questão. Se há uma necessária e urgente contribuição para a construção do movimento, ela está certamente na discussão da questão organizacional, tema do próximo capítulo.

2

A referência é a famosa XI Tese sobre Feuerbach: “Os filósofos interpretam o mundo em vários sentidos, a questão é transformá-lo”.

Benzer Belgeler